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Posts de fevereiro 2008

Que tristeza!

29 de fevereiro de 2008 9

Pão e feijão: com o preço mais salgado/Banco de Dados ZH
Estou muito triste porque subiu o preço do feijão violentamente. E está subindo o preço do pão violentamente.

E eu pergunto: os salários estão subindo? Na mesma proporção não.

São dois fundamentais gêneros alimentícios para o sustento da raça humana. O feijão e o pão. Para nós brasileiros eles vão ficar mais caros hoje. O pão vai subir 15%. O feijão foi em torno de 30%.

Que tristeza!!

Postado por Sant`Ana

Eu voltei

29 de fevereiro de 2008 5

Durante este mês de férias, me comovi com a pulsante preocupação dos leitores comigo, e também me revoltei com aqueles celulares providos de câmera fotográfica.

Volto agora, com renovada vontade de divertir, preocupar e, especialmente, conviver com meus leitores. Prometo: nós não vamos morrer de tédio!

Postado por Sant`Ana

Unanimidades inteligentes - parte 5

29 de fevereiro de 2008 2

Massagem: a melhor de todas as unanimidades/Emerson Souza, Banco de Dados - 25/01/2006
Outra brilhante unanimidade é a massagem, correlata ao cafuné e à coçada nas costas. O beijo na boca é relaxante, a coçada nas costas é relaxante, idem o cafuné, mas o mais relaxante dos toques de mãos alheias ou qualquer pele de outrem é a a massagem. Quando me fazem cócegas, eu rio. Quando me fazem cafuné, eu enterneço. Mas, quando me fazem massagem, eu durmo, isto é, eu ameaço morrer de relaxamento.

A massagem é a mais mágica das artes manuais, ela nos transporta para o Nirvana, para o céu, para o vestibular da eternidade. Parece que a massagem livra nosso corpo de todas as impurezas, além de fortalecer o espírito.

Sim, porque quando o corpo é massageado ele sente que pode levitar, que pode correr, que pode fazer amor, uma sensação de onipotência toma conta dos ossos, dos nervos e dos músculos, capaz de fazer um homem sentir-se um super-homem, a criança sentir-se um adulto, a mulher sentir-se capaz de dar à luz decagêmeos.

A massagem transmite-nos uma forte sensação de liberdade.

Postado por Sant`Ana

Unanimidades inteligentes - parte 4

29 de fevereiro de 2008 2

Grande invenção: mãozinhas de plástico para coç\r as costas/Divulgação
Outra unanimidade estupenda é a coçada nas costas. Nunca vi ninguém que não goste, que não adore que lhe cocem as costas.

Chegaram até a criar essas mãozinhas de plástico que são vendidas nas lojas de R$ 1,99 para coçar as costas.

Quem, após ter queimado as costas no sol da praia ou da piscina, não se debulhar em prazer quando alguém lhe coça as costas não é terráqueo, não é humano – e, se for, será um imbecil.

Postado por Sant`Ana

Unanimidades inteligentes - parte 3

29 de fevereiro de 2008 1

O orgasmo sem beijo é como um doce dietético/Reprodução
Outra unanimidade nada burra é o beijo. O beijo da mãe, o beijo do pai, o beijo principalmente com a mulher ou o homem amado, pode existir algum prazer maior que o beijo? Adianto que nem o orgasmo. O orgasmo é filho do beijo e não o contrário.

Por sinal, o orgasmo sem beijo é como um doce dietético, tem um sabor que se sabe que é falso, que não vem do açúcar, o orgasmo sem beijo tem sabor de aspartame.

Não há beijo sem valor considerável. Nem o %22beijo de Judas%22. Aliás, o beijo de Judas só se vem a saber que foi de Judas muito tempo depois de ser dado. Quer dizer, quando foi dado, como não se conhecia que era de Judas, tratou-se de uma delícia confortante. Só quando, mais tarde, quando se perpetra a traição, é que o beijo de Judas é renegado e maldito.

Ou seja, o beijo, todo beijo, é uma dessas unanimidades indiscutíveis.

Postado por Sant`Ana

Unanimidades inteligentes - parte 2

29 de fevereiro de 2008 3

O cafuné é uma unanimidade universal/Divulgação
Outra unanimidade inteligente é o cafuné. Só um monstro pode não gostar de cafuné. Cafuné de mãe, cafuné de irmã, cafuné da pessoa amada, então, é irrecusável.

Não existe para o homem urbano e civilizado um prazer mais inexcedível do que, de pijama, numa matinê de sábado, ser alvo do cafuné de sua amante.

Vocês já notaram o êxtase de que é tomada uma cadelinha poodle quando lhe fazemos um cafuné? O cafuné é, portanto, um prazer animal, uma euforia hedônica, um deleite incomparável brindado pela inteligência e sensibilidade humanas.

O cafuné é uma das unanimidades universais.

Postado por Sant`Ana

Unanimidades inteligentes - parte 1

29 de fevereiro de 2008 5

Quem resiste a estas delícias?/Paulo Franken, Banco de Dados - 17/07/2006
Existem exceções para a afirmação do inesquecível Nelson Rodrigues de que %22toda unanimidade é burra%22.

Eu conheço várias dessas exceções. Por exemplo, o pastel. Não conheço ninguém que não goste de pastel. Então, a unanimidade pelo pastel não pode ser considerada burra.

Um pastel recém-saído da frigideira, quentinho, ainda molhado do azeite, é algo que só quem é anormal pode rejeitar.

Pastel de queijo, pastel de carne, pastel de catupiri, pastel até de abacaxi, todos são deliciosos.

Postado por Sant`Ana

Não sei se vou ou fico

28 de fevereiro de 2008 4

Mesmo quando a gente está em férias e viaja, sente nos primeiros dias de distância uma saudade do nosso lar, do papo com os amigos na cidade em que se mora, bate até uma falta enorme do ambiente de trabalho e também do próprio trabalho.

É um absurdo, uma besteira, mas a gente sente.

Eu sei que é o cúmulo da idiotia querer voltar para casa logo após ter deixado a casa em férias, mas é coisa que acontece muito freqüentemente.

Sobre esses dois corações que nos restam quando nos ausentamos do nosso ambiente original ou do nosso pago, no início de sua carreira, há 30 anos, Martinho da Vila compôs um samba exemplar nos primeiros versos:

Não sei se vou
Não sei se fico
Se fico aqui
Ou se eu fico lá
Se estou lá tenho que vir
Se estou aqui eu tenho de voltar.

Tem vários tipos de pessoas e vários tipos de síndromes entre os que se ausentam de casa.

Há os que carregam o mais vasto arsenal de material afetivo quando viajam: desde os chinelos até a cuia de chimarrão e a chaleira.

Há os que levam as fotos das paredes, há os que levam os cachorros, os que carregam a empregada, os que tiram fotos de suas camas, até de seu banheiro, só para se sentir em casa no lugar para onde vão.

E há os que transportam quase por inteiro a sua biblioteca, não vão ler nada, mas querem continuar perto de seus livros.

Há um tipo exótico de gente, passando agora para o terreno das afeições interpessoais, que leva na viagem a mulher, os filhos, mas também leva o melhor amigo. Não querem ficar sem nada que lhes pertença no lugar que escolheram para tirar as férias.

E há também o tipo mais especial mas também mais racional para essas hipóteses de afastamento dos seus valores habituais: é o sujeito que sabe que não pode ficar longe de suas coisas e das pessoas de que gosta e simplesmente se recusa a viajar, se é para ficar sentindo falta de tudo que o cerca, estragando assim a viagem, então se poupa desse incômodo ou tortura não se afastando de seu ambiente original.

De minha parte, faço exatamente o contrário dessas pessoas. Quando viajo, não levo nem escova nem pasta de dentes, compro tudo à chegada no lugar para onde me dirijo.

Tenho até exagerado nessa prática, muitas vezes não levo nem carteira de identidade, o que me tem causado imensas complicações.

Quero mudar completamente de ares. Sei que não conseguirei se carregar uma bagagem gigantesca de coisas identificadas com minha habitualidade.

Tive um amigo que viajava só com a roupa do corpo, não carregava bagagem para despachar, nem de mão. Entrava só com o corpo na viagem, assim mesmo um corpo modificado: raspava a cabeça e o bigode, cortava esmeradamente as unhas, até os óculos ele deixava em casa e logo à sua chegada no lugar de destino ia a um oculista e comprava outras lentes.

Sentia-se invejavelmente um homem novo em cada viagem. E se virava comprando de tudo no lugar da chegada, roupas, sapatos, alpargatas, remédios. E se esforçava com talento para achar lá uma outra mulher que não a sua, a qual deixava estrategicamente em sua cidade e em sua casa.

Um homem admirável aquele meu amigo no seu aferrado anti-sedentarismo.

Cá para nós, é uma idiotice viver em Porto Alegre e carregar todas as suas coisas para férias em Recife. Se todas as suas coisas e pessoas lhe acompanharem até Recife, vai ser a mesma coisa que estar novamente em Porto Alegre. Para que gastar na viagem?

Eu já decidi que não vou levar mais nada do que possuo quando viajar para longe, dentro do Brasil.

Não vou levar nada. Da minha cidade, posso levar só, contra meu esforço mental, raras recordações.

Já chegam os discursos ininteligíveis do Lula na televisão, que teimam em me acompanhar todos os dias, em todos os lugares brasileiros que visito.

Postado por Sant`Ana

Minha saúde

27 de fevereiro de 2008 12

Eu tenho uma característica, como cronista, da qual não consigo me afastar: só sei escrever sobre algo que esteja me angustiando ou me entusiasmando.

Por isso é que muitas vezes exponho aos leitores vísceras da minha privacidade.

Sobre a minha saúde por exemplo.

Vai daí que todas as manhãs eu me enfronho na tremenda tarefa de tomar os primeiros cuidados do dia com minha saúde.

E tiro da minha pasta para segundos e últimos socorros os comprimidos que vou ingerir: um comprimido para proteger os rins do diabetes, um outro comprimido para controlar o colesterol, mais dois comprimidos vitamínicos que o neurologista Franciscone me receitou, até aqui com excelentes resultados, para me tirar a astenia das pernas e as tonturas da cabeça.

Até aqui são quatro comprimidos. Mas tem mais: tem outro comprimido vitamínico de nome japonês, Ginkolab ou coisa parecida, com o fim de erguer o esqueleto da modorra do desânimo.

São cinco comprimidos para as doenças pontuais, fora os comprimidos sazonais, que sempre aparecem em pessoa de terceira idade. Então, vez que outra mais um comprimido de antibiótico para as doenças respiratórias, como gripe e tosse por exemplo. E também um regulador de humor, um comprimido que tira a irritabilidade, este último já tendo mostrado a que veio, estou suportando melhor nos últimos dias, por exemplo, o estresse do trânsito, deixei de correr atrás dos motoristas que me fecham ou insultam e saem voando a seguir, tentando fugir das minhas represálias.

Temos então que cinco comprimidos eu ingiro certo pela manhã, às vezes sete, outras vezes oito.

Já me disse um médico ilustre que não faz mal jogar na corrente sangüínea, de chofre, oito comprimidos, as substâncias não se anulam nem se confundem nocivamente no metabolismo.

Fora isso, mais tarefas para manter a saúde: todos os dias, pela manhã, tarde e noite, nas proximidades das três refeições, furo a ponta de meu dedo para tirar sangue e colocar num avaliador, um microcomputador, que dirá em quanto está minha glicemia. Conforme a taxa de açúcar no sangue que mostra o resultado, vou calcular a quantidade de insulina que vou injetar na minha barriga.

Só aí são seis furos que faço no meu corpo, por dia, espetado com agulhas sibilinas, bem fininhas, com a finalidade de doerem menos.

Esta é a mão-de-obra diária que tenho com minha saúde. Mas tenho outros comparecimentos semanais ou quinzenais nos consultórios médicos, que se tornaram compulsórios para mim.

Por exemplo, cumpro a pena perpétua de aspirar os meus ouvidos de 15 em 15 dias, há anos, o que fiz muito tempo com o Dr. Moussale e, para deixar de chateá-lo, faço agora com o devotamento do Dr. Di Nardo. Não dói nada aspirar os ouvidos, mas como há 20 anos me doeu violentamente, então tenho medo. A mesma coisa com a dentista Marisa, não dói nada, em compensação o medo que tenho quando estou sentado na cadeira da odontóloga me faz sofrer mais do que se doesse.

Já sei o que vão dizer os ingênuos apressados: pior seria se eu tivesse câncer, se já tivesse infartado, só que os exames e biópsias que faço periodicamente para evitar essas doenças mortíferas não têm no gibi.

Sou mais conhecido dos médicos que propagandista de laboratório, o que pareço, de vez que sempre empunho uma pasta, a pasta dos apetrechos de saúde. Os médicos e enfermeiras dos hospitais e das clínicas me tratam por %22tu%22 e parece que são familiares meus, tal a intimidade e o ingresso periódico que realizam na minha privacidade corporal todos os dias.

Há médicos, enfermeiras e assistentes que, quando chego aos consultórios, já estão com as requisições de exames radiológicos ou laboratoriais prontos para me entregar, quando não já impressos com um selo ou carimbo que não sei onde conseguiram: %22Paulo SantAna%22.

E lá vou eu, driblando as doenças, gambeteando as moléstias, gastando os tubos com remédios caríssimos, que custam mais que as quatro taxas de condomínio que pago para a família atual e para a pretérita.

E lá vou eu, com mais de 16 cirurgias a que me submeti em minha exitosa e só por vezes desastrada carreira de paciente.

Graças a Deus, sou assistido pelos melhores e mais famosos médicos de minha cidade. E eles me tratam como se eu fosse filho deles.

Não fossem eles, e eu seria hoje só uma lápide.

Postado por Sant`Ana

A música

26 de fevereiro de 2008 7

Os milhões de versos que ouvi passaram pelo meu cérebro, e aqueles de que mais gostei acabaram arquivados para sempre em minha memória.

Porque eu escutava, há 60 anos, o grande cantor popular Vicente Celestino, é que sei a letra de O Ébrio inteira, da qual transcrevo uma parte, porque é sensacional:

%22Tornei-me um ébrio, na bebida busco esquecer
Aquela ingrata que eu amava e me abandonou
Apedrejado pelas ruas vivo a sofrer
Não tenho lar e nem parentes, tudo terminou
Só nas tabernas é que encontro meu abrigo
Cada colega de infortúnio é um grande amigo
Que embora tenham como eu seus sofrimentos
Me aconselham e aliviam meus tormentos
Já fui feliz e recebido com nobreza até
Nadava em ouro e tinha alcovas de cetim
E nos parentes confiava, sim
E hoje ao ver-me na miséria tudo vejo então
O falso lar que eu amava e a chorar deixei
Cada parente, cada amigo era um ladrão.
Me abandonaram e roubaram o que amei.%22

Postado por Sant`Ana

O ébrio

26 de fevereiro de 2008 3

Eu fico abismado com a tecnologia que estão empregando nos aparelhos de som dos carros novos.

A última agora é que o motorista soca no tocador de CD do carro seis discos. Seis discos. E sai a andar pela cidade ou a viajar.

Vai ouvindo seis discos, cerca de 90 músicas. Basta digitar no teclado para escolher um dos seis discos que quer ouvir. Depois digita outro teclado e escolhe a música. É fantástico.

E quando cansa daquelas 90 músicas, troca por outras 90.

É uma mordomia formidável.

Eu vivo dizendo que tenho decoradas no compartimento de memória do meu cérebro cerca de 2,8 mil letras e melodias de música. As pessoas ficam espantadas quando me ouvem cantar no rádio e na televisão músicas de 50 anos atrás.

Quando eu era criança, não tinham inventado ainda o rádio portátil e nem eu possuía rádio de cabeceira. Este último, quem tinha era meu pai, que não me deixava ouvir o rádio dele.

Então, como é que eu decorei 2,8 mil músicas? Não sei. Eu me lembro que um amigo, lá no Morro da Polícia, o soldado da Brigada Militar de nome Melo, me emprestava sua galena, uma geringonça de fios e fones, ligada não sei em que antena, em que eu escutava rádio, portanto músicas.

Foi portanto um milagre de comunicação e/ou vocação eu ter arquivado tantas músicas e poemas na minha memória.

Mas o que eu queria dizer é que hoje, com gravadores, tocadores de CDs e outras mordomias tecnológicas, fica mais fácil para as pessoas ouvir e decorar letras de músicas do que no meu tempo de criança e jovem.

Se eu fosse criança hoje, quando alcançasse meus 40 anos, eu seria um museu ambulante de imagem e de som.

Eu nem precisava ter carro novo, bastava-me ter um tocador de CDs, destes modernos, adaptado ao meu patinete de menino. Porque para mim o aparelho de som de um carro vale mais em dinheiro do que o próprio carro. O que interessa é o som, mesmo que instalado num calhambeque caindo aos pedaços.

Isso me faz pensar na importância dos ouvidos, como de quaisquer dos outros quatro sentidos, na formação de uma pessoa.

Postado por Sant`Ana

Discutindo Deus

25 de fevereiro de 2008 32

Quando sentei nas mesas de bares ou de beiras de piscinas, durante as férias, instalei nesses lugares, naturalmente, uma mesa de consulta ao avatar, eu ali à disposição dos passantes e dos parantes, indefeso.

E eles me perguntando sobre tudo, os mais diferentes assuntos. E eu vou despachando com todos, sacio as suas curiosidades, uns além de falar comigo têm necessidade de me tocar. Acabam num retoço esses encontros de conhecimento entre o cronista e seus leitores. É uma bela forma de a gente conhecer e privar com os alvos do que se escreve, os verdadeiros objetivos do trabalho da gente, os leitores.

Dou um exemplo de uma dessas consultas que dei esses dias. O senhor se aproximou de mim e da roda que me cercava. E foi atirando logo sua pergunta: %22Tu acreditas em Deus mesmo?%22.

Não sei como eu estava com a resposta na ponta da língua: %22Eu acredito cegamente em Deus. Ele é que, pelas últimas amostras do que tem acontecido comigo, não acredita muito em mim%22.

Estourou como uma bomba na roda a minha resposta, sob o ribombar de gargalhadas.

Este tema de Deus é fascinante, além de me perguntarem muito sobre ele, eu gasto inúmeras horas da semana a matutar sozinho sobre a existência de Deus.

O mais elucidativo dado que já colhi sobre a existência de Deus foi o pensamento incrível, me parece que de Dostoiévski: %22Se Deus não existe, tudo é permitido%22.

Como que a insinuar brilhantemente que se a idéia de Deus consiste em justiça, até mesmo em bondade, em sabedoria, em compreensão, se ele não existir, todos esses valores caem por terra.

Ou seja, não existindo Deus, é permitido o estupro, o roubo, a agressão, o homicídio, enfim todas as calamidades da conduta humana.

Todos podem deitar e rolar com suas maldades, que não os atinge nenhuma punição, não estão nem aí.

Mas, existindo Deus, ele se constitui num freio para a maldade e para a destruição. As religiões nada mais são do que isso, uma forma inteligente de domesticar o homem e encaminhá-lo para a bondade, para o amor ao próximo, para a solidariedade e para a caridade, a ajuda aos outros, uma forma de tornar a vida mais suave no seu círculo gregário.

Dostoiévski deu uma grande, colossal, colaboração para a interminável discussão sobre a existência de Deus.

Não termina por aí o debate. Surge uma dúvida estupenda: se Deus é todo-poderoso, senhor do Universo, por que permite que sobre sua obra desabem diariamente tantas dores, aflições, catástrofes dos atos humanos, tendo como autores exatamente as criaturas que ele criou?

Por que Deus, enfim, permite que o homem seja mau e se torne o lobo do homem?

Os religiosos e os acérrimos defensores da existência de Deus levantam um argumento esplendoroso: Deus criou o homem e lhe deu o livre-arbítrio, o homem é que escolhe entre ser bom ou mau.

Ou seja, tudo de ruim que aconteceu na Terra é por causa do livre-arbítrio que Deus concedeu ao homem. E o que de bom acontece também o é.

Só que este argumento tem uma falha: e os terremotos, os ciclones, os maremotos, as secas, as inundações, estes acidentes que provocam bilhões de mortes durante todas as civilizações, destruições bárbaras, estes fenômenos naturais não são fruto da mão humana, seriam então fruto da mão de Deus?

Atualmente se culpa o homem também pela poluição e por esses acidentes geológicos. Mas no terremoto de Lisboa, em 1755, o homem não poluía a Terra naquela época, como é então que morreram 40 mil pessoas, a capital lusa foi destruída em sangue e pestes!!!

Como é que ficamos então sobre a discussão sobre Deus.

Como é que ficamos?

Quem tem mais explicações que me tire desse doloroso dilema.

Postado por Sant`Ana

Paixãozinha

24 de fevereiro de 2008 9

A senhora gorda se apresentou para mim na porta do Hotel Beach Village, em Florianópolis.

Disse-me que não entende a discriminação contra as gordas, que ela sofre na carne. Falou que embora seja uma pessoa rica, com dezenas de imóveis escriturados em seu nome, não consegue encontrar nenhum homem para casar, vive com seus cachorros e gatos em Canela, sente a falta de um homem para compartilhar o resto de sua vida.

Eu disse a ela que não será difícil arranjar esse marido, ainda mais com o grande patrimônio que possui. Ela me respondeu que evidentemente não quer um homem que se case com ela só por seu dinheiro, mas que a queira bem.

Eu a incentivei com a frase genial do grande Nelson Rodrigues: %22O dinheiro compra tudo, até amor sincero%22.

Ela continuou defendendo a tese de que tem mais atrativos além de sua fortuna: %22Olha direito para mim; eu não sou uma paixãozinha?%22.

Disse que era, sim, uma gracinha e que levava uma vantagem sobre milhares de outras gordas: pelo menos poderia casar-se já como gorda e não fazer como tantas que se casam magras, esbeltas e atraentes e ficam gordas depois do casamento, traindo assim seus maridos, que investiram num caniço e receberam como dividendos uma bolha inchada.

Fiquei com pena daquela mulher, ela confirma o ditado de que dinheiro não traz felicidade. Achei que mais infeliz que ela só uma gorda pobre.

Porque a gorda pobre há de ser discriminada duas vezes, porque é gorda e porque é pobre.

Ai dos discriminados, ai das vítimas da natureza.

O problema reside exatamente nisso: a natureza faz as mulheres e homens feios e bonitos, gordos e magros, baixos e altos, burros e inteligentes.

E depois desta obra imperfeita da natureza, as pessoas desfavorecidas passam a ser discriminadas e as favorecidas se tornam privilegiadas.

Além disso, depois dessa obra injusta da natureza, vem o próprio homem e a sociedade e dão acabamento a esse parto horrendo: transformam os homens em ricos e pobres, poderosos e súditos, senhores e escravos.

Como, então, chegar à justiça social e à equanimidade pessoal? Como? Se os dotes das pessoas são desiguais, como torná-las idênticas e com as mesmas chances?

Em suma, a natureza, o destino, a Providência, seja qual for o nome do desígnio que preside a vida, é padrasto com os excluídos, sejam os gordos, sejam os baixinhos, sejam os burros, sejam os pobres, sejam os sem talento.

E se tudo já começa errado com a natureza, fica muito difícil para a mão humana consertá-lo.

Pobre da rica senhora gorda de Canela. Todos desconhecem que ela é uma %22paixãozinha%22.

Postado por Sant`Ana

Asteróide

24 de fevereiro de 2008 17

Recebo um telefonema do popular, famoso e consagrado colunista do Diário Catarinense Cacau Menezes.

Nem se anunciou e já saiu dizendo:

— Oh, estrela, como é que vais, estrela?.

E eu respondi:

— Vou bem. E tu, asteróide?.

Postado por Sant`Ana

Anticorporativismo

23 de fevereiro de 2008 6

No programa do Faustão, naqueles espaços em que homenageiam um artista de qualquer sexo, quando eles botam no ar gravações de parentes ou colegas do homenageado, claro que todas as referências lançadas ao ar são elogiosas, tenho ouvido freqüentemente algo espantoso.

É que diretores de televisão e outros artistas, para acentuar ainda mais as qualidades da personalidade homenageada, dizem que ela é querida de todos do ambiente artístico, que tem excelente caráter, %22o que não é comum no nosso meio%22.

Ficamos sabendo assim, por outras palavras, em quase todos os domingos, que na televisão e no teatro, mormente no meio das novelas, a maioria dos artistas e diretores não tem bom caráter ou que pelo menos não são %22pessoas queridas%22.

Isso me parece um exagero. 

Canso de ouvir que um dos mais graves pecados da conversação e das análises de comportamento em geral é a generalização. Por esse princípio, temos de acreditar, o que me parece sensato, quem nem todo funcionário público é ocioso, nem todos os policiais e políticos são corruptos, até mesmo nem todos os pitbulls e rottweilers atacam e dilaceram e matam as pessoas. Só para ficar neste último exemplo, num terreno em que, se há uma pessoa que muito comete o pecado da generalização, é este colunista que está lhes escrevendo.

Com que então não é comum no meio artístico as pessoas serem boas? Isso me tem feito restar perplexo diante da televisão. Menos pelo impacto do exame de mérito da declaração do que pela falta de corporativismo de quem a tem pronunciado. Ou seja, os artistas e os diretores ficam falando mal dos artistas e dos diretores, embora pela forma de metáfora. Isso pode decretar no espírito dos telespectadores um mau juízo dos próprios artistas e diretores.

Faz me lembrar do tempo, há 70 anos, em que na sociedade brasileira se acreditava que ser artista, músico, ator, cantor, era infamante. Os pais proibiam seus filhos de tocar violão, de fazer testes no rádio como comunicadores ou artistas, a polícia combatia os seresteiros nas ruas como se eles fossem ladrões.

Essas manifestações que tenho ouvido podem vir a ter o condão de voltarmos àquela época de caça às bruxas contra qualquer vocacionado à arte popular. Por exemplo, quando Noel Rosa, com apenas 23 anos de idade, abandonou a Faculdade de Medicina que cursava para ser compositor e boêmio, morreu para a dita sociedade da época – melhor dito para a elite do início do século passado.

E Noel Rosa, ao não querer mais ser médico, acabou como o maior gênio da música popular brasileira, o que pode fazer crer que o Brasil apenas perdeu um médico medíocre. 

O pior é que hoje não é mais assim: a profissão de ator, cantor, músico, qualquer artista popular, é muito respeitada – e adorada – pelo público, portanto pela sociedade.

A de jogador de futebol também, ainda mais depois de Pelé. Concluo dizendo que não acho que o ambiente artístico seja um serpentário. Há, como em todo ambiente, algumas víboras, mas a maioria dos seus integrantes são pessoas retas e de bom caráter.

E não falo isso por ser integrante desse ambiente. Embora essa condição me dê melhor credencial para falar sobre ele. Então, como é que os artistas e diretores de telenovelas e teatro vivem dizendo nos últimos tempos na televisão que o meio deles é agressivo e desumano? Além de contrapropaganda da profissão, essas declarações repetidas na televisão sugerem uma certa megalomania: e os outros milhões de profissões todos? Não têm o mesmo defeito? Como é que desconsideram assim as outras profissões?

Quase sempre essas distorções analíticas não levam em conta que os defeitos de personalidade não são intrínsecos a determinada classe, mas a toda a humanidade.

Postado por Sant`Ana