
%22O inferno são os outros%22, célebre frase de Jean-Paul Sartre, reflete uma aflição bem porto-alegrense e gaúcha. Nós não nos conformamos mais com os outros.
Quando eu recebo cartas de pessoas e comunidades que pedem para que os novos presídios estaduais não sejam construídos nas proximidades de suas residências, o que está infernizando estas pessoas são os %22outros%22, no caso os presidiários. A vida dessas pessoas seria bem melhor se não existissem os %22outros%22.
Quando eu recebo cartas solicitando que os velhos sejam apartados dos mais jovens nas linhas de ônibus, não lhes sendo permitido viajar nos horários de pico, reservando-lhes somente o direito de entrar pela porta da frente e não pagar a passagem em horários de menor movimento, são os %22outros%22, no caso os idosos, que estão atrapalhando e infernizando a vida das pessoas chamadas %22ativas%22, fazendo demorar ainda mais as viagens.
Quando os moradores da Rua Eudoro Berlink reclamam que estão sendo torturados noite e dia com um %22festival de buzinadas e cantadas de pneus, coroadas por palavras de baixo calão%22, tendo-lhes sido sonegado o direito ao descanso depois que foi implantado um binário que deu mão única à Rua 24 de Outubro, são os %22outros%22 que acabaram estragando com a delícia do silêncio reinante naquela rua, antes da modificação do trânsito.
Não pensem que só acuso, quando me refiro a essa rejeição repentina que opomos aos nossos semelhantes. Eu também ando com a mania de acusar os outros pela minha incomodidade.
Quando eu reclamo do engarrafamento do trânsito, além é claro dos dados objetivos contidos nessa indisposição, há muito de irritação com o fato de que aumentou geometricamente o número de automóveis no trânsito porto-alegrense. E lá no meu íntimo eu gostaria que as avenidas e ruas de Porto Alegre estivessem vazias à minha disposição, assim como elas ficam pela madrugada. Mas existem os %22outros%22 para transitar, todos querem seu lugar ao sol no trânsito, eu vou ter de me conformar em dividir os espaços com as multidões de motoristas.
Nós vivemos numa cidade grande e exigimos às vezes nela uma tranqüilidade própria de cidade pequena. A criminalidade aumenta dramaticamente e os presídios precisam ser espalhados pelo Estado e Grande Porto Alegre. Fatalmente, haveria que ter presídio perto da casa de alguém.
Uma rua descansada, em face das transformações cada vez mais exigidas diante do aumento de veículos e dos problemas de circulação, pode de repente ser escolhida como preferencial para o desvio de fluxo. Quem mora nela protesta. Mas o que fazer? Não é o tributo que nós temos de pagar pelo nosso crescimento e por termos de certa forma escolhido a cidade em que iríamos viver?
Os %22outros%22 existem e nós temos que conviver com eles. Nós somos os %22outros%22 para os outros. Esta noção tem que ficar bem clara. Para os assaltantes, nós somos aqueles de quem eles podem roubar alguma coisa, os %22outros%22. Molesta-lhes e soa-lhes como acinte, de certa forma, os nossos %22privilégios%22. Para nós, os presidiários são pessoas indesejáveis, a quem muitos de nós queremos matar, torturar ou ver apodrecer em presídios desumanos, de preferência bem longe da nossa casa, do nosso bairro e, se possível, da nossa cidade.
Temos que parar de detestar os outros. Quem escolhe viver numa cidade, trate de compreender os outros. Quem é obrigado a viver numa cidade, trate de tolerar os outros.
Porque essa absurda repelência que nós temos pelos outros acabará por atingir a nós próprios. Ou imaginamos que nós também não somos inconvenientes aos %22outros%22?
O conceito de viver entre os %22outros%22 é inseparável de uma cidade. Fora isso, seria viver numa ilha. O que por sinal é muito mais insuportavelmente chato.
*Texto publicado em 19/04/1997 em Zero Hora
Postado por Sant`Ana




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