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Posts do dia 15 abril 2008

Os outros

15 de abril de 2008 7

Ilustração: Rodrigo Rosa
%22O inferno são os outros%22, célebre frase de Jean-Paul Sartre, reflete uma aflição bem porto-alegrense e gaúcha. Nós não nos conformamos mais com os outros.

Quando eu recebo cartas de pessoas e comunidades que pedem para que os novos presídios estaduais não sejam construídos nas proximidades de suas residências, o que está infernizando estas pessoas são os %22outros%22, no caso os presidiários. A vida dessas pessoas seria bem melhor se não existissem os %22outros%22.

Quando eu recebo cartas solicitando que os velhos sejam apartados dos mais jovens nas linhas de ônibus, não lhes sendo permitido viajar nos horários de pico, reservando-lhes somente o direito de entrar pela porta da frente e não pagar a passagem em horários de menor movimento, são os %22outros%22, no caso os idosos, que estão atrapalhando e infernizando a vida das pessoas chamadas %22ativas%22, fazendo demorar ainda mais as viagens.

Quando os moradores da Rua Eudoro Berlink reclamam que estão sendo torturados noite e dia com um %22festival de buzinadas e cantadas de pneus, coroadas por palavras de baixo calão%22, tendo-lhes sido sonegado o direito ao descanso depois que foi implantado um binário que deu mão única à Rua 24 de Outubro, são os %22outros%22 que acabaram estragando com a delícia do silêncio reinante naquela rua, antes da modificação do trânsito.

Não pensem que só acuso, quando me refiro a essa rejeição repentina que opomos aos nossos semelhantes. Eu também ando com a mania de acusar os outros pela minha incomodidade.

Quando eu reclamo do engarrafamento do trânsito, além é claro dos dados objetivos contidos nessa indisposição, há muito de irritação com o fato de que aumentou geometricamente o número de automóveis no trânsito porto-alegrense. E lá no meu íntimo eu gostaria que as avenidas e ruas de Porto Alegre estivessem vazias à minha disposição, assim como elas ficam pela madrugada. Mas existem os %22outros%22 para transitar, todos querem seu lugar ao sol no trânsito, eu vou ter de me conformar em dividir os espaços com as multidões de motoristas.

Nós vivemos numa cidade grande e exigimos às vezes nela uma tranqüilidade própria de cidade pequena. A criminalidade aumenta dramaticamente e os presídios precisam ser espalhados pelo Estado e Grande Porto Alegre. Fatalmente, haveria que ter presídio perto da casa de alguém.

Uma rua descansada, em face das transformações cada vez mais exigidas diante do aumento de veículos e dos problemas de circulação, pode de repente ser escolhida como preferencial para o desvio de fluxo. Quem mora nela protesta. Mas o que fazer? Não é o tributo que nós temos de pagar pelo nosso crescimento e por termos de certa forma escolhido a cidade em que iríamos viver?

Os %22outros%22 existem e nós temos que conviver com eles. Nós somos os %22outros%22 para os outros. Esta noção tem que ficar bem clara. Para os assaltantes, nós somos aqueles de quem eles podem roubar alguma coisa, os %22outros%22. Molesta-lhes e soa-lhes como acinte, de certa forma, os nossos %22privilégios%22. Para nós, os presidiários são pessoas indesejáveis, a quem muitos de nós queremos matar, torturar ou ver apodrecer em presídios desumanos, de preferência bem longe da nossa casa, do nosso bairro e, se possível, da nossa cidade.

Temos que parar de detestar os outros. Quem escolhe viver numa cidade, trate de compreender os outros. Quem é obrigado a viver numa cidade, trate de tolerar os outros.

Porque essa absurda repelência que nós temos pelos outros acabará por atingir a nós próprios. Ou imaginamos que nós também não somos inconvenientes aos %22outros%22?

O conceito de viver entre os %22outros%22 é inseparável de uma cidade. Fora isso, seria viver numa ilha. O que por sinal é muito mais insuportavelmente chato.


*Texto publicado em 19/04/1997 em Zero Hora

Postado por Sant`Ana

Transporte do mosquito

15 de abril de 2008 14

Se todos os cidadãos forem incentivados a levar o mosquito da dengue (ou provável mosquito da dengue) até a Secretaria da Saúde, a metade será picada/Róbinson Estrádulas, Banco de Dados - 10/02/2006
O leitor Ricardo DallAqua (ricardo@disklicit.com.br) manda dizer que no seu bairro, Petrópolis, estão aparecendo vários tipos de mosquitos assemelhados com o mosquito da dengue, que ele conheceu pela internet.

Diante da ameaça de um surto de dengue em Porto Alegre, o leitor telefonou para a Secretaria da Saúde (51 3289-2899) e (51 2105-2899), informando sobre o fato.

Resposta chutadora, maldita resposta chutadora, é assim que eles atendem a todos os contribuintes que telefonam para eles: mandaram ligar para a Vigilância Sanitária, que também chutou e remeteu para o telefone 156.

No telefone 156, o leitor, já cansado de ser um ioiô nas mãos desses prestidigitadores de ligações, que um dia ainda serão varridos do serviço público por alguém interessado em ajustar a máquina que humilha os cidadãos, finalmente falaram com ele.

Fizeram muitas perguntas, ele explicou que lá em Petrópolis, perto da casa dele, andam aparecendo muitos mosquitos com o tipo do que transmite a dengue, que ele conhece porque viu na internet.

Ainda no telefone 156, disseram para o leitor que não poderiam ir lá em Petrópolis apanhar o mosquito e levá-lo para a Secretaria da Saúde.

E pediram para o leitor levar o mosquito até a Secretaria da Saúde.

Isto é de uma estupidez sórdida. Se todos os cidadãos forem incentivados a levar o mosquito da dengue (ou provável mosquito da dengue) até a Secretaria da Saúde, a metade será picada, as pessoas comuns não têm treinamento para capturar mosquitos sem serem picadas.

Que barbaridade! O cidadão é obrigado a levar o mosquito até a Secretaria da Saúde. A seguir, o cidadão será obrigado a levar o doente de sua família, com dengue, até o hospital. E, no passo seguinte, o cidadão terá de ir ao hospital buscar o cadáver de seu familiar, morto pela dengue.

E o poder público, ocioso e amorcegador, não faz nada? Como é que é?

Não faz nada no iminente surto da dengue e não fez nada no surto epidêmico das sistemistas do Detran? E só foi assistir passivamente à higienização de alguns hospitais depois que o surto das bactérias foi divulgado pela imprensa?

Mas o que é que faz o poder público. Como é que é?

O próximo passo do poder público vai ser pedir para o público que leve até o prédio da secretaria as bactérias.

- Está cheio de bactérias o meu prédio, telefone 156.

- O senhor terá de trazer essas bactérias até o prédio aqui da secretaria.

- Mas eu não enxergo as bactérias.

- O quê? Mas ainda não comprou um microscópio com toda essa onda que o Paulo SantAna vem fazendo para instruir a população?

- Sai muito caro.

- É mais barato que um funeral.

E assim vai a saúde entre nós. Há hospital que acha que não tem obrigação de tornar público por que bactéria morreu o paciente. Isso causa náusea e faz desanimarem o ser humano e as pessoas públicas.

Há serviço de saúde pública exigindo que os cidadãos levem até a Secretaria da Saúde, transportem por seus meios, mosquito suspeito de transmitir a dengue.

Tem de levar até lá o mosquito que estiver rondando a sua casa. Não imagino como levar o mosquito nem como capturá-lo.

Mas tem de levar.

E o presidente Lula disse aqui, numa solenidade no Grupo Hospitalar Conceição, que a saúde no Brasil beira a perfeição.

Credo em cruz!

Postado por Sant`Ana