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Posts do dia 29 abril 2008

O fundo da alma feminina

29 de abril de 2008 7


Em primeiro lugar, nunca chame uma mulher de eterna. Ocorreu-me ontem de, ao ver uma amiga minha, apresentadora de televisão, no ar, telefonar imediatamente para ela e dizer: %22Como tu estás bem no vídeo, tu és eterna!%22

Que mancada que eu iria dar! Ao chamar uma mulher de eterna, estou concretamente designando-a como uma velha. Insinuar que uma mulher está velha é um dos dois maiores e mais capitais defeitos do homem.

O outro pecado capital do homem é chamar a mulher de gorda. Nunca faça isso, evite sempre a tentação de denunciar gordura numa mulher, mesmo que sua finalidade seja nobre: a de adverti-la de que ela perigosamente está roçando o limite máximo e tolerável de elegância de seu corpo.

Por dois anos ficou de mal comigo, deixou de falar comigo, afetava ódio por mim quando nos cruzávamos, uma colega da televisão que eu tive a infelicidade de cognominar de %22como estás gorda%22. Ela só voltou a falar comigo 24 meses depois da ofensa, assim mesmo porque finalmente tinha emagrecido. Aquela mulher odiava a mim em vez de odiar a sua gordura. Eu era para ela o culpado da sua gordura.

Com mulheres velhas e gordas, convém que sempre abordemos outros assuntos.

Eu tenho uma técnica infalível para agradar às mulheres. Digo assim: %22Como estás magra, não seria o caso de consultar um médico?%22 É de ver a alegria de que fica tomada a mulher que ouve isto. Sabe lá o que é ouvir de um homem que sua elegância é tão alarmante que passa por um problema de saúde?

E quando não vejo uma mulher há muitos anos, evidentemente que ela ressurge diante dos meus olhos bem mais velha, mais desmerecida. Então eu jogo-lhe um dardo de monumental eficiência: %22Poxa, mas há quanto tempo eu não te via! É incrível, tu estás a mesma!%22 Só falta ela se jogar de joelhos a meus pés diante do cavalheiresco elogio. Porque quando me viu e vê outras pessoas depois de alguns anos, ela treme de medo de que vão notar a implacável diferença.

Outro truque infalível que uso para adubar a vaidade feminina: %22Que coisa linda! Finalmente acertaste o teu penteado! Quem foi que fez?%22 Elas ficam possuídas de uma felicidade indizível.

Isso tudo é gentileza, é lhaneza masculina. Só que, de vez em quando, como não posso deixar escapar uma piada, um repente de inspiração, mesmo que ele sacrifique ou destrua o alvo da minha ironia, eu desmunheco e agrido. Foi o caso no ano passado de uma mulher que portava um vestido elegantíssimo, deixando à mostra metade de seus seios por um decote avançadíssimo. Eu não pude entender como uma mulher tão fina expunha assim ao público seios tão flácidos e derrubados.

E me arrependo até hoje da maldade que soltei: %22Espertinha, aderiste ao silicone%22. Para minha estupefação, a mulher explodiu de orgulho e contentamento. É inacreditável, mas aquela mulher nutre amor mórbido por seus seios decadentes.


*Texto publicado em 09/05/2001 em Zero Hora

Postado por Sant`Ana

É possível compreender a maldade humana?

29 de abril de 2008 6

O mundo está chocado com o austríaco que prendeu a filha em uma masmorra por 24 anos. Assista ao meu comentário no Jornal do Almoço de hoje sobre o caso:

Postado por Sant`Ana

Desiludido com a raça humana

29 de abril de 2008 10

Arte ZH
Há 63 anos, o mundo conheceu uma das maiores tragédias da humanidade: o austríaco, Adolf Hitler, horrorizou a todos com a morte de seis milhões de judeus e dezenas de milhões de mortes nos campos de batalha da segunda guerra mundial.

Hitler, horrorizou o mundo. Agora, outro austríaco horroriza o mundo. Este homem, Josef Fritzl, lá de uma cidade no interior da Áustria, prendeu por 24 anos a sua filha. Abusou dela sexualmente e teve com ela sete filhos. A menina, que tinha 18 anos quando foi presa e hoje está com 42 anos, viveu num compartimento, sem sol, apertada, com três filhos, que hoje já estão adultos. Inacreditavelmente filhos do seu avô. Ele é avô e pai das crianças.

É um crime monstruoso. Tanto pela privação da liberdade de sua filha, netos e filhos, quanto pelo incesto que ele obrigou a sua filha cometer. É algo que nós humanos temos a impressão que não pode acontecer com um membro da nossa raça. Não pode acontecer tamanha insanidade. É demais. Choca. Crueldade que durou 24 anos. E que duraria ainda mais se ele não fosse descoberto.

É incomparável e inexplicável a crueldade humana. A maldade humana é incontornável. É uma doença mental. Nunca tinha se visto uma maldade durar tanto tempo. Escabroso. Algo que não se acredita. Um holocausto. Uma animalidade. Cada dia que passa, mais nos desiludido com a nossa própria espécie. Ela é capaz de tudo.

Ouça o meu comentário sobre o assunto no Gaúcha Hoje

Postado por Sant`Ana

Árduo conjunto probatório

29 de abril de 2008 9

Com o auxílio do GPS, a polícia paulistana constatou a hora certa em que o carro de Alexandre Nardoni estacionou na garagem do edifício London. E, pelo depoimento dos vizinhos do apartamento de Alexandre, o corpo da menina Isabella caiu no chão do jardim 11 minutos depois.

Não havia tempo para surgir um terceiro personagem, intrometer-se entre o que Alexandre e a madrasta da menina estavam fazendo e matar Isabella.

A polícia descarta categoricamente a existência de um terceiro personagem e atribui ao casal ter-se dirigido da garagem até o apartamento com o corpo da menina.

Havia manchas do sangue de Isabella no carro. Havia manchas de sangue no corredor. Havia manchas de sangue na rede de proteção da janela. Havia manchas de sangue no chão do apartamento e no chinelo de Alexandre.

As manchas de sangue no carro são fatais para o casal. Porque não interessava a nenhum provável terceiro personagem qualquer mancha de sangue no carro. Qualquer mancha de sangue no carro importava em presença de Alexandre e/ou sua mulher no carro quando a mancha foi derramada.

O carro está ligado umbilicalmente ao casal, que admite ter chegado ao edifício nele, apenas alega que a menina, que estava no carro com os irmãos, chegou intacta ao edifício, tendo sido morta depois por um mitológico desconhecido.

Como então haver manchas de sangue no carro?

As manchas de sangue no carro são uma das mais pesadas provas contra o casal.

A pegada do chinelo que Alexandre usava estava visível no lençol que cobria o colchão da cama do quarto das crianças, de onde foi atirado o corpo de Isabella.

Depreende a polícia, assim, que Alexandre ergueu o corpo de Isabella de cima da cama, posição mais confortável.

Se não fosse para erguer o corpo de Isabella com menos esforço, que outro motivo teria Alexandre para subir com o pé em cima da cama?

Na camisa de mangas curtas que Alexandre usava quando ocorreu o crime, havia as marcas em quadrados contíguos da rede de proteção da janela do apartamento de onde Isabella foi atirada.

Eram marcas do pó, da sujeira, da fuligem que restavam nos fios da rede e que se transferiram para a camiseta de Alexandre com a pressão que seu corpo fez contra a rede para segurar o peso do corpo de Isabella.

Marcas com o desenho da rede.

Nítidas marcas da rede na camisa, provas indubitáveis da autoria de Alexandre no assassinato.

Um assassinato cometido às pressas, mal deu para limpar com um pano as marcas de sangue por toda a parte, que ainda permaneceram indeléveis em muitas partes.

Muita pressa, muito nervosismo. E pressa também em combinar a versão profundamente ficcional de que alguém tinha entrado no apartamento.

Um crime que começou com maus-tratos a uma criança, um acesso de fúria incontrolável, a tragédia da morte ou da quase morte, o desespero, uma criança martirizada e um consórcio criminoso entre duas pessoas sem saída, que resolveram tentar a sorte em serem julgadas pelo júri, quando poderão ter mais sorte do que a imensidão da sua crueldade.

*Texto publicado hoje em Zero Hora.

Postado por Sant`Ana