
Em primeiro lugar, nunca chame uma mulher de eterna. Ocorreu-me ontem de, ao ver uma amiga minha, apresentadora de televisão, no ar, telefonar imediatamente para ela e dizer: %22Como tu estás bem no vídeo, tu és eterna!%22
Que mancada que eu iria dar! Ao chamar uma mulher de eterna, estou concretamente designando-a como uma velha. Insinuar que uma mulher está velha é um dos dois maiores e mais capitais defeitos do homem.
O outro pecado capital do homem é chamar a mulher de gorda. Nunca faça isso, evite sempre a tentação de denunciar gordura numa mulher, mesmo que sua finalidade seja nobre: a de adverti-la de que ela perigosamente está roçando o limite máximo e tolerável de elegância de seu corpo.
Por dois anos ficou de mal comigo, deixou de falar comigo, afetava ódio por mim quando nos cruzávamos, uma colega da televisão que eu tive a infelicidade de cognominar de %22como estás gorda%22. Ela só voltou a falar comigo 24 meses depois da ofensa, assim mesmo porque finalmente tinha emagrecido. Aquela mulher odiava a mim em vez de odiar a sua gordura. Eu era para ela o culpado da sua gordura.
Com mulheres velhas e gordas, convém que sempre abordemos outros assuntos.
Eu tenho uma técnica infalível para agradar às mulheres. Digo assim: %22Como estás magra, não seria o caso de consultar um médico?%22 É de ver a alegria de que fica tomada a mulher que ouve isto. Sabe lá o que é ouvir de um homem que sua elegância é tão alarmante que passa por um problema de saúde?
E quando não vejo uma mulher há muitos anos, evidentemente que ela ressurge diante dos meus olhos bem mais velha, mais desmerecida. Então eu jogo-lhe um dardo de monumental eficiência: %22Poxa, mas há quanto tempo eu não te via! É incrível, tu estás a mesma!%22 Só falta ela se jogar de joelhos a meus pés diante do cavalheiresco elogio. Porque quando me viu e vê outras pessoas depois de alguns anos, ela treme de medo de que vão notar a implacável diferença.
Outro truque infalível que uso para adubar a vaidade feminina: %22Que coisa linda! Finalmente acertaste o teu penteado! Quem foi que fez?%22 Elas ficam possuídas de uma felicidade indizível.
Isso tudo é gentileza, é lhaneza masculina. Só que, de vez em quando, como não posso deixar escapar uma piada, um repente de inspiração, mesmo que ele sacrifique ou destrua o alvo da minha ironia, eu desmunheco e agrido. Foi o caso no ano passado de uma mulher que portava um vestido elegantíssimo, deixando à mostra metade de seus seios por um decote avançadíssimo. Eu não pude entender como uma mulher tão fina expunha assim ao público seios tão flácidos e derrubados.
E me arrependo até hoje da maldade que soltei: %22Espertinha, aderiste ao silicone%22. Para minha estupefação, a mulher explodiu de orgulho e contentamento. É inacreditável, mas aquela mulher nutre amor mórbido por seus seios decadentes.
*Texto publicado em 09/05/2001 em Zero Hora
Postado por Sant`Ana




Comentários