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Posts do dia 19 junho 2008

O amor e a paixão

19 de junho de 2008 3

Ilustração: Fraga

O amor não sobrevive sem a paixão. E a paixão, sem o amor, está condenada a se saciar ou se exaurir pelo cansaço.

Dois pressupostos do amor: a afetividade (amizade) e a cordialidade (bom humor).

Dois pressupostos da paixão: a libido em plantão permanente (tesão) e o embevecimento físico (fetiche).

Quando concorrem na mente e no coração de uma só pessoa o amor e a paixão por uma outra pessoa, se forem bem-sucedidos (correspondidos), estamos diante da felicidade mais completa.

A paixão sozinha, sem o amor, é a felicidade ameaçada de extinção. O amor, sozinho, sem a paixão, é a felicidade ameaçada pela infelicidade anunciada, aviso prévio no bolso.

O amor só se enfastia pela prolongada ausência da paixão. Já a paixão só se enfastia pelo exercício prolongado da própria paixão.

Não existe paixão extensa ou duradoura, a não ser por clube de futebol. Nem existe amor efêmero, de curta passagem.

O amor deixa cicatrizes, a paixão deixa tatuagens. Quem recorda de um amor pretérito, sente remorso. Quem recorda de uma antiga paixão, sente orgulho: essa é a diferença básica entre os dois sentimentos.

O amor implica preferencialmente ternura. A paixão implica preferencialmente carnalidade.

As relações de amor são temperadas pela espiritualidade e regidas pela paz. As relações de paixão são sempre tempestuosas e marcadas pela concupiscência.

No amor, os amantes querem sempre estar juntos, não importa fazendo o quê. Na paixão, os parceiros só querem estar juntos para exercitar sensualidade.

Por essa profundidade do amor, é bastante mais séria a afirmação “eu te amo” do que a de que “estou apaixonado por ti”. Quem diz “estou apaixonado” não é levado tanto a sério: pela efemeridade da paixão.

Quem diz “estou amando” é encarado respeitosamente. Exatamente porque a paixão é um evento, enquanto o amor é um acontecimento.

Por essa diferença é que é possível a qualquer pessoa apaixonar-se diversas vezes. Enquanto que é quase certo que quem ama ama só uma vez em toda a vida.

“Pode alguém amar duas pessoas ao mesmo tempo?” é uma pergunta que se ouve muito entre o povo.

Se não se pode amar duas pessoas durante toda a vida, em tempos diferentes, como poderia ao mesmo tempo?

Pelo mesmo raciocínio, se é possível apaixonar-se por várias pessoas em espaços de tempo diferentes, é claro que se pode estar apaixonado por duas pessoas ao mesmo tempo.

E, também pelo mesmo raciocínio e pelo inteiro raciocínio desta coluna, pode-se estar amando uma pessoa e estar-se apaixonado por outra, ao mesmo tempo.

Por isso é que lá no início da coluna foi sentenciado que a felicidade mais completa é a de quem ama e nutre paixão pela mesma pessoa, num só tempo. Isto é que é o céu!

*Texto publicado em 22/05/2001 em Zero Hora

Postado por Sant`Ana

Caos também na Fase?

19 de junho de 2008 3

Abaixo, o triste relato de um servidor da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase), que pede sigilo de sua identidade:

O que me leva a este contato é referente ao seu comentário sobre os presídios gaúchos. Sou servidor público da Fase, antiga Febem, que embora não tenha sido objeto de sua análise, gostaria de chamar a atenção para o que vem ocorrendo naquela instituição ao longo dos últimos anos.

Estamos enfrentando uma situação de crise, nunca antes presenciada por lá, a não ser na época dos grandes motins que eclodiam e ocupavam diversos espaços na mídia gaúcha e nacional. Talvez por lidarmos com uma parte da sociedade cuja ela própria prefira não ver — só vira motivo de preocupação e ganha destaque na mídia quando ocorrem os grandes motins.

Mas a verdade é que a Fundação hoje possui um déficit de vagas imenso. Uma casa para 40 jovens chega a ser ocupada por mais de 140 adolescentes, em um espaço que impossibilita a recuperação e a reinserção social. Outro exemplo é uma casa para 76 jovens, que hoje abriga quase 160. O pior nem é a população em excesso. Faltam cobertores, canecas, colheres, roupas quentes para o inverno, manutenção nas casas, que estão repletas de infiltrações, grades podres, entre outras coisas.

Nesta semana, em uma das noites mais frias do ano, um adolescente dormia com apenas um cobertor, em um pedaço de colchão velho, por falta de material básico e garantia de condições mínimas de dignidade. Dormitórios que servem para um jovem, hoje acumulam três. A situação se complica a cada dia, a ansiedade e o grau de irritação entre os adolescentes é visível e crescente, com o que se vislumbra, em um futuro próximo, a volta de acontecimentos lamentáveis de outrora.

Estamos diante de iminente colapso na estrutura de reeducação e reinserção social dos jovens em conflito com a lei. A situação atual já gera violência física entre os adolescentes — membros de gangues rivais que dividem o mesmo centro — e agressões a funcionários, que já resultaram em um monitor morto em 1999.

Prefiro não me identificar por medo de represálias por parte dos gestores, CCs que hoje dirigem nossa instituição.

Postado por Sant`Ana

Os culpados pelo caos no Presídio

19 de junho de 2008 7

A CPI do Sistema Carcerário quer indiciar o secretário da Segurança Pública, o comandante-geral da Brigada Militar e o diretor do Presídio Central por omissão e atentado aos Direitos Humanos.

Isto em face de que, para a vergonha do Rio Grande do Sul, o pior presídio brasileiro, o de condições mais precárias e desumanas, é o Presídio Central de Porto Alegre, que abriga 4,4 mil presos — embora tenha capacidade para apenas 1 mil. Os presos estão empilhados uns sobre os outros, com ratos e insetos dominando o ambiente das galerias.

Mas qual é a justificativa para indiciar o comandante-geral, o diretor do presídio e o secretário da Segurança Pública? Montaram uma CPI do Sistemas Carcerário para indiciar os carcereiros! É uma barbaridade, os carcereiros não têm culpa alguma.

Os presos são levados às montanhas para o Presídio Central, diariamente. Não têm culpa disto o secretário, o comandante e o diretor — ninguém há de querer ser diretor de um presídio sucateado, com 4,4 mil presos abandonados em meio à sujeira e à doença.

Como é que a Vigilância Sanitária não interdita um presídio desses? Vigilância Sanitária só vale para o que ocorre nas ruas? Não pode! O Presídio Central faz parte da sociedade. É um lixo que a sociedade precisa suportar. E aqui no Rio Grande do Sul começa na sociedade a colaboração para este caos penitenciário. Porque as comunidades e os prefeitos da Grande Porto Alegre não querem presídios em seus territórios.

Ora, uma cidade necessita ter necrotério, hospital, e também necessita de presídio. As chagas da sociedade pertencem à sociedade! Aqui ninguém quer presídio, mas todos querem as prisões: “Bota na cadeia os corruptos, bota na cadeia os criminosos.”

Indiciar o pobre coitado do diretor do presídio, que foi obrigado a administrar este caos, é um absurdo sem tamanho.

Veja meu comentário no Jornal do Almoço de hoje:

Postado por Sant`Ana

O fim das carroças em Porto Alegre

19 de junho de 2008 15

Arivaldo Chaves

Hoje, na minha coluna em Zero Hora, falei sobre um projeto da Câmara de Vereadores para proibir o tráfego de carroças em Porto Alegre.

Entrevistei o secretário de Mobilidade Urbana da Capital, Luiz Afonso Senna, sobre o assunto esta manhã, no Gaúcha Hoje.

Eu não tinha a pretensão de entrar na questão de se as carroças devem ou não ser extintas. É uma discussão muito grande. O Código Nacional de Trânsito prevê o trânsito de veículos de tração animal. O que eu queria saber do secretário era como caberia a um município extinguir a sua circulação? Se o código prevê os veículos automotores, não pode um município, por exemplo, acabar com as motos. Elas estão previstas no código!

Senna me deu a seguinte resposta:

— Ao município cabe disciplinar o tráfego. Assim como existem áreas em que caminhão não anda, existem áreas em que outros veículos, como os de tração animal, podem não andar. Então, ao município cabe, sim, a competência de disciplinar a circulação.

Ouça toda a entrevista com Luiz Afonso Senna

Postado por Sant`Ana

A opinião pública

19 de junho de 2008 22

Depois que inventaram as pesquisas, eu me posto inteiramente respeitoso ao que determina a opinião pública.

Não sei bem o que venha a ser a opinião pública, mas as pesquisas me condicionam a concluir que opinião pública é o entender da maioria do povo. Se a opinião pública se inclina majoritariamente por um enfoque, é ali que está a verdade, segundo me dão a entender alguns analistas que se tornam escravos e cegos da vontade popular.

***

A opinião pública é a favor da gravação do Feijó, é contra os carroceiros, é contra o Celso Roth, é contra os presídios (nenhuma comunidade da Grande Porto Alegre permite construção de presídio em sua cidade), a opinião pública é contra os criminosos, a opinião pública quer que os presos apodreçam nos presídios, a opinião pública é a favor da pena de morte, a opinião pública quer todos os políticos corruptos na cadeia, enfim, essa entidade etérea, abstrata, volátil, chamada opinião pública fornece todos os dias nos jornais qual é a sua vontade e seu ideal de como as coisas têm de ser feitas no Brasil.

***

Por que as instituições não atendem à opinião pública, se estamos numa democracia?

Foi publicada esses dias uma pesquisa em que a maioria dos pesquisados apoiou Paulo Feijó quando gravou e divulgou o Busatto e a mesma maioria quer que Feijó se afaste do governo.

Mas como? Se Feijó prestou um grande serviço ao denunciar a corrupção dos partidos em tirar dos cofres públicos o sustento para suas campanhas eleitorais, como podem querer que ele deixe o governo?

A pesquisa me deixou tonto.

O certo seria que as pesquisas também demonstrassem que o Feijó tinha de continuar no governo, onde continuaria sendo útil ou até imprescindível, prosseguindo com suas denúncias contra o governo.

Teve gente que entendeu que a gravação de Feijó foi legal e ética porque a opinião pública aprovou-a.

***

Assim como os pedidos de impeachment da governadora Yeda: querem arrancar a ela e ao Feijó do governo, baseados exatamente na denúncia de Feijó.

Dá para entender?

Não dá para entender, tanto os pesquisados quanto os pedidos de impeachment revelam uma iconoclastia apavorante: eles idolatram Feijó, querem a desgraça de Yeda, mas tentam também derrubar o próprio Feijó.

***

Cá para nós, dá para entender a opinião pública? Ela quer ver sangue.

***

Agora saiu da Câmara de Vereadores um projeto que vai proibir o tráfego de carroças em Porto Alegre, em nome principalmente dos maus-tratos que muitos carroceiros causam a seus cavalos. Muito justo.

Mas muito justo também que os catadores de lixo, não podendo mais usar carroças puxadas a cavalos, eles próprios puxassem os seus carros.

Ou seja, não haveria mais maus-tratos aos cavalos, porque seriam proibidos os cavalos. Para não morrer de fome, prosseguiriam os carrinheiros, eles próprios puxando os seus carrinhos (sem cavalos).

Mas parece que no projeto não serão permitidos nem os carrinheiros. Ora, então não era por causa dos maus-tratos aos animais.

Era para acabar mesmo com os carroceiros e com os carrinheiros, para destiná-los à fome e à miséria.

***

E recebo finalmente dois e-mails bem escritos, ontem, sobre a entrega por uma patrulha do Exército de três jovens para serem massacrados, com mãos e perna decepadas antes de morrerem, e depois serem abatidos a tiros por traficantes do Morro da Mineira.

Os dois e-mails, muito bem escritos, afirmam que o tenente decidiu certo ao encaminhar os três jovens para a destruição, se eles desacataram a patrulha, então é porque não eram boa coisa.

Dá para entender a opinião pública?

Senão que foi a mesma opinião pública que, quando foi chamada a escolher entre Jesus e Barrabás, decidiu mandar o Nazareno para a cruz. E também foi a opinião pública que decidiu que uma donzela santa e brava, chamada Joana dArc, fosse exterminada na fogueira.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana