Contei ontem ao meu psicanalista uma história real vivida por mim na semana: um amigo meu ouviu um relato de uma pessoa e se emocionou com ele.
Contaram a meu amigo que uma empregada doméstica que vive em uma casinha de alvenaria em Viamão, com três filhos e uma neta, estava para ser despejada. Pagava de aluguel pela casa R$ 150.
Como ela fez puxado na casa, também de alvenaria, a dona da casa decidiu que o aluguel iria passar para R$ 250.
Não tendo como pagar o novo aluguel, iria dentro de poucos meses ser despejada, a menos que conseguisse a importância de R$ 25 mil, que a dona da casa exigia pela venda da residência.
Ora, quem não tem como pagar R$ 250 de aluguel como haveria de conseguir R$ 25 mil para comprar a casa?
Continuaram contando pro meu amigo do desespero que tomou conta da empregada doméstica, de seus três filhos e de sua neta, assim como dos parentes que moravam distantes, com a possibilidade do despejo, literalmente teriam de morar na rua.
Meu amigo ficou cismando, tomou-se de compaixão pela família desamparada e decidiu na hora: “Vou comprar esta casa e dar para esta família”.
O contentamento da família chegou às raias da euforia. Atribuíram a um milagre a decisão do meu amigo. É que eles tinham todos rezado para que Deus por alguma forma lhes resolvesse o dramático problema.
Chegaram ao extremo de declarar que iam todos à casa de meu amigo para beijar-lhe os pés em agradecimento.
Então, eu discutia ontem com o meu psicanalista sobre uma questão célebre. Quem mais se torna feliz na caridade: quem recebe a ajuda, a esmola, ou quem dá a ajuda, quem pratica a caridade?
Não tive dúvida em afirmar que a caridade consiste em maior alegria de quem dá do que de quem recebe.
E mais eu concluí, depois de examinar este caso da doação da casa em Viamão: tanto maiores serão a alegria e a realização de quem pratica a caridade, uma das grandes virtudes exaltadas na Bíblia, quanto maior for o contentamento de quem recebe a ajuda.
A respeito disso, o grande Joaquim Nabuco dizia: “À luta pela vida, que é a lei da natureza, a religião opõe a caridade, que é a luta pela vida alheia”.
Era de ver-se a alegria esfuziante de que foi tomado meu amigo, um homem que não é rico e pertence a uma classe média não alta, com o contentamento extraordinário de que ficou tomada a família que vai ganhar a sua casa.
Esse dinheiro vai fazer falta ao meu amigo. Mas nada lhe faria mais falta irreparável do que não ter acudido aquelas pessoas desesperadamente necessitadas.
A caridade simplesmente reside no prazer de dar e de servir aos outros.
*Texto publicado hoje em Zero Hora.
Postado por Sant`Ana
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