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Posts do dia 10 setembro 2008

Pequena heroína

10 de setembro de 2008 13

Jenifer, 11 anos, vendeu os longos cabelos (detalhe) para pagar exames do irmão mais novo/Tadeu Vilani

Reproduzo abaixo o e-mail do leitor Rodrigo Viero Robe (rodrigorobe@hotmail.com):

"Olá, Sant`Ana.

Você deve ter lido o texto da página 37 da Zero Hora de hoje (10/09), que conta a história da pequena Jenifer dos Santos, 11 anos, que precisou vender seus cabelos negros que iam até a cintura por míseros R$ 200, para pagar os exames e o deslocamento do seu irmão mais novo, Gregory, de apenas três anos, que sofre de uma doença nos rins.

O relato é tocante desde o início, mas ao fim se torna emocionante, uma vez que, no final do texto, a pequena Jenifer diz que em quatro anos seu cabelo estará novamente comprido. Pode parecer conformismo, à primeira vista, mas a sua atitude é nobre e sutilmente dá um puxão de orelhas no Estado, além de mostrar que ela tem esperança no futuro, esperança no que vai vir e convicção de que seus cabelos crescerão.

A menina é uma heroína, essa sim merece esse título, essa honra. Uma menina que, no auge de sua pré-adolescência, para salvar a vida de seu irmão mais novo, corta, ou melhor, raspa seu cabelo, só pode ser chamada de heroína.

Onde está o Estado? Onde está o dinheiro pago por impostos que seriam remetidos à saúde? Onde? Onde?

É uma pena que isto aconteça. O que me resta de consolo é que, por mais que com 11 anos uma pré-adolescente pense em batons e "chapinhas", hoje vi que uma heroína chamada Jenifer pensa em compaixão, amor ao próximo e solidariedade. Três palavras otimistas e animadoras, mas que só poderiam vir de uma mente pura, de uma heroína, de uma criança.

Quantas outras Jenifers precisarão sacrificar seus cabelos por um Estado mais solidário?"

Postado por Sant`Ana

Jardim Botânico é um santuário porque é cercado

10 de setembro de 2008 14

Aproveito as comemorações dos 50 anos do Jardim Botânico para reivindicar o cercamento dos demais parques de Porto Alegre!

Assista ao meu comentário no Jornal do Almoço:

Postado por Sant`Ana

Controladores de fidelidade

10 de setembro de 2008 3

Eis abaixo uma coluna* que causou muita polêmica. Vale a pena conferi-la:

"Pardalizaram o casamento! Deverá vigorar no novo Código Civil Brasileiro um dispositivo que obriga o cônjuge que cometer traição ou desamor com seu esposo ou esposa a indenizar o ofendido. Em suma, haverá um pardal cuidando da conduta amorosa dos esposos. Ou melhor, serão instalados em todos os casamentos controladores de fidelidade: quem der comida para fora será multado, terá de pagar gorda indenização à mulher ou ao marido em quem forem colocadas aspas.

A ânsia de punição ao bolso dos cidadãos que tomou conta dos governos alastra-se agora para o Código Civil: o sujeito terá que pagar pedágio para trair a mulher e vice-versa.

Pardalizaram e pedagiaram a estrada do casamento! Em qualquer macega — ou entre duas árvores secas como aconteceu na estrada que vai do Osório a Tramandaí, fato flagrado em diligência pelo Ministério Público que instaurou inquérito civil para investigar a pardalização do Rio Grande —, em qualquer moita das relações conjugais pode estar instalado um controlador de infidelidade. Flerte ou qualquer retoço extraconjugal talvez possa ser tolerado.

Mas quem passar de 60 quilômetro na traição será multado pelo cônjuge ofendido. Quem cometer três traições perde a carteira. E só com um ano da mais absoluta abstinência em matéria de trair o cônjuge é que prescreverá a punição e poderá novamente voltar a dirigir... a sua mulher ou marido.

Resta saber somente se, como acontece atualmente com as pessoas que recorrem das multas dos pardais, não terão também os cônjuges apalhados na traição o direito a ampla defesa, sem sequer conhecerem a data e o local em que serão julgados, como também o nome dos julgadores dos recursos.

A febre fiscalista atingiu o casamento! Traiu, pagou. Cônjuge galinha pode já se considerar cidadão falido!

Já me referi em outras crônicas ao futuro da humanidade: ninguém poderá dar um passo fora de casa, a pé ou de automóvel, sem estar vigiado por equipamentos sofisticadíssimos que seguirão seus passos, dispostos a flagrá-lo por qualquer irregularidade de conduta. Pois agora o novo Código Civil imporá tributação à traição amorosa. Era só o que faltava! Isso exatamente no momento em que o crime de adultério estava completamente desmoralizado.

Pois não é que acharam um meio de, contra o fluxo dos costumes, penalizar financeiramente quem comete adultério! Eu desisto, desta vez me destruíram como contribuinte e acabaram de me tirar os últimos tostões que ainda sobravam no meu orçamento! Será que, para cúmulo da humilhação, esta multa que pagarão os traidores será acompanhada, na notificação, a exemplo do que ocorre com os pardais, da fotografia da traição?

É o fim!"

* Coluna publicada em março de 2000 em Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

“Os cadáveres respiram”

10 de setembro de 2008 12

O assassinato de domingo passado em Gravataí deixou-me impressionado: uma senhora de 89 anos, quase 90, foi encontrada morta com as mãos amarradas para trás, amordaçada com suas próprias meias.

O que chamou minha atenção é que essa senhora morava sozinha.

Mas como? Nos dois extremos etários, ninguém pode morar sozinho. Os bebês e os octogenários não podem viver por si próprios, os bebês não raciocinam e os octogenários perderam já os seus reflexos.

Pensava comigo que nenhum bebê e nenhum octogenário vivessem sozinhos. 

Mas essa senhora assassinada no bairro Vera Cruz de Gravataí no domingo morava sozinha em sua casa. Uma das duas filhas declarou que a idosa era muito independente e não queria ninguém morando com ela.

Desculpem as filhas dessa senhora, mas deveriam ter insistido energicamente com ela para não deixá-la sozinha. 

Deveria até haver uma lei que proibisse idosos de morarem sozinhos. Muito mais pelo aspecto da saúde, altamente temerário nos octogenários.

Mas hoje em dia também os velhos não podem morar sozinhos pelo aspecto da segurança. Um velho morando sozinho é presa apetitosa para os assaltantes, que sabem com certeza que naquela residência não haverá qualquer reação ao seu ato criminoso, dada a fragilidade física e de reflexos do morador idoso. 

A prova de que a senhora quase nonagenária de Gravataí não estava mais no uso de suas próprias razões é que ela não queria companhia. Se morar gregariamente hoje, em casa, não apartamento, na Grande Porto Alegre, já se constitui em grande risco, imaginem uma mulher de 89 anos sozinha! Por isso é que este último foi o segundo assalto que sofreu.

Uma idosa morando sozinha é como um taxista à noite. Quando os ladrões enfrentam um dia sem movimento, dizem: “Vamos lá naquela idosa!”. Ou então: “Vamos ganhar um taxista!”.

Nessa escolha, muitas vezes, centenas de vezes se decide a sorte das vítimas. 

Assim foi com o outro extremo etário, o bebê de Canela, nascido havia poucas horas e entregue pelo hospital a uma funerária ainda com vida. A dona da funerária falou para a enfermeira: “Mas o cadáver está suspirando”. A enfermeira respondeu: “Os cadáveres respiram”.

Diante disso, a dona da funerária foi lá obedientemente embalsamar o cadáver suspirante do bebê para o velório.

Passadas quase três horas, aquele pobre ser que não tinha nem um dia de idade, mas ainda expelia ar pelos pulmões, foi buscar no recôndito de sua vida de neonato, num último recurso e apelo, a única arma dos bebês: o choro.

Incrível, chorou no caixão, de tampa fechada e aparafusada, o bebê. Chorou no seu próprio velório.

E foi levado de volta ao hospital, depois de retirado do caixão. Foi recusado pela segunda vez no hospital por declaração de que era cadáver.

Finalmente enterrado o bebê que resistia a ser declarado morto. Que luta! Que resistência! Que pertinácia desse bebê. 

Ora, se mesmo assistidos os bebês morrem, então não podem viver sozinhos, nem eles nem as quase nonagenárias.

Devia haver uma lei proibindo deixá-los viver sozinhos.

*Texto publicado hoje em Zero Hora.

Postado por Sant`Ana