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Posts do dia 13 setembro 2008

Os outros

13 de setembro de 2008 11

Quando eu era criança, nunca tive desejo de ter um carro. Porque morava num lugar em que não passavam carros. Lá distante, onde era a Avenida Aparício Borges, onde só minha vista alcançava, eu via que passavam os carros, mas não fazia a menor idéia de quem eram seus donos.

Eu só fui ter desejo de ter um carro quando identifiquei os donos dos carros e vi que eles eram diferentes de mim por eu não ter carro. Foi a minha primeira comparação, o abismo que me levou a achar que os outros eram mais felizes do que eu.

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O que quero dizer é o seguinte: se olharmos só para o que somos, temos mais chances de sermos felizes.

O diabo é que não é isso que acontece: vivemos nos espelhando nos outros, a nossa aflição consiste em tentarmos ter o que os outros têm, quando não termos mais do que os outros, sermos melhores ou iguais aos outros.

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Em Cuba, por exemplo, onde todos são pobres, todos ganham pouco, ninguém se julga infeliz.

Os cubanos infelizes são aqueles que sabem que a poucos quilômetros da ilha existe Miami, os EUA, onde as condições de vida dos norte-americanos são infinitamente melhores que as dos cubanos. Isso passa a ser insuportável, pois se instala neles a idéia de que suas vidas são muito piores que as dos seus vizinhos norte-americanos.

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Em outras palavras, só pode ser feliz quem não acha os outros mais felizes.

Toda a encrenca humana reside em nos compararmos com nossos vizinhos, isto é, com os outros.

Sempre que acharmos que alguém é mais feliz do que nós, acabaremos sendo infelizes.

É muito difícil para os humanos encarar com naturalidade a felicidade dos outros, até mesmo porque aos nossos olhos invejosos os outros são mais felizes do que realmente o são.

O próprio Sartre disse que “o inferno são os outros”.

O que quer dizer que nós teríamos muito mais chances de sermos felizes e realizados se olhássemos só para nós.

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Por isso é que os livros sagrados dizem que ser rico não é possuir todas as riquezas, no nosso caso muito dinheiro, muitas propriedades, viajar para onde nos apetecer.

Ser rico, dizem os livros sagrados, é contentar-se com o que se tem.

Se há um segredo de felicidade é este: achar que é bastante o que se possui, sem olhar para o que possuem os outros.

Sei que estou dando uma receita quase impossível de seguir, mas também sei que é a única receita capaz de levar uma pessoa a ser feliz.

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Pelo amor de Deus, isso não quer dizer que o homem não deva ambicionar, até mesmo porque a razão central do progresso dos homens e das nações é a ambição.

Mas a ambição deve ser uma meta, uma trilha a seguir, e não o despeito por ver que os outros têm mais do que nós.

Ou seja, a felicidade está apenas no que somos e no que desejamos ser, mas sem nos importarmos com o parâmetro alheio.

Assim, justo é que queiramos crescer porque vemos que há espaço para crescermos – e não porque entendemos que os outros estão mais crescidos.

Fôssemos ser infelizes porque possuímos menos do que os outros, teríamos que paralisar, cruzar os braços e nunca mais avançar quando constatássemos que outros possuem muito menos do que nós.

*Texto publicado na página XX de Zero Hora dominical

Postado por Paulo Santana

O cego Justimiano

13 de setembro de 2008 8

O cego Justimiano, marido da dona Malvina, avô do Japir, foi um personagem importante da minha infância.

Criança, eu não entendia nada sobre as diferenças sociais ou pessoais.
Melhor dizendo, até hoje não entendo por que umas pessoas são cegas e outras enxergam, umas são ricas, outras miseráveis.

O que mudou foi que quando eu era criança não me apiedava dos cegos e dos pobres.

Era assim e eu aceitava que fosse assim. Hoje me rebelo contra o destino e meu coração agoniza quando me debruço sobre a sorte dos desfavorecidos.

***

O cego Justimiano era um até as cinco horas da tarde, outro depois das cinco.
É que às cinco horas da tarde dona Malvina liberava a cachaça para o cego Justimiano e ele se deitava a uma falação imparável.

Antes das cinco, o cego Justimiano era um ser inerme, inerte, mudo, ninguém ligava para ele e para sua solidão.

Só agora fico imaginando a aflição daquele homem que era obrigado a ficar calado durante toda a manhã e metade da tarde, à espera da redentora aguardente que serviria como um bálsamo para sua cegueira, um anestésico para sua tristeza, um alívio para sua vida sem atrativos, desesperada vida de um homem diferente de todos os outros, aprisionado nos grilhões implacáveis da escuridão perpétua.

***

Nenhuma vida é feita só de alegrias. Mas muitas vidas são feitas só de infortúnio e de sofrimentos.

A vida do cego Justimiano era infortunada como a vida dos reclusos, dos inválidos, dos miseráveis necessitados.

Esse é um dos mistérios mais intrigantes da condição humana: por que uns são mais infelizes do que os outros, por que algumas pessoas vivem pregadas nas cruzes do seu martírio durante todo o decorrer de suas existências?

Esses suplícios têm o seu significado sonegado à compreensão humana. É inútil perquirir sobre eles, ao homem não é permitido perscrutar sobre a razão do sofrimento, uma parede sólida se interpõe entre a inteligência e a curiosidade filosófica.

É impossível decifrar a desigualdade que diferencia brutalmente as pessoas, umas superiores às outras, umas mais belas, mais lúcidas, mais fortes, mais ricas que as outras.

***

O cego Justimiano foi um marco dessa minha estupefação com o discriminatório desígnio da vida, que divide os homens, desde o seu nascimento, entre álacres e tristes, conforme os papéis existenciais que lhes foram destinados.

E me surpreendeu que eu tivesse sido indiferente à sorte sinistra do cego Justimiano quando eu era criança.

E que essa compaixão terna que sinto por ele tenha irrompido somente ontem à tarde, quando me lembrei de repente do cego Justimiano embebedando-se debaixo da bergamoteira depois das cinco da tarde, único horário que lhe permitiam para esquecer da sua desgraça.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora

Postado por Sant`Ana