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Posts do dia 5 novembro 2008

Ela

05 de novembro de 2008 3

Ela. Sabe secretamente o que eu sei também em segredo: nós fomos feitos um para o outro e construiríamos juntos o único sentido para a vida.

Ela passa e confessa no olhar a nossa conspiração de felicidade. Ela sabe como eu sei que esses instantes vazios da vida estariam sempre repletos de ventura, mesmo os que se constituíssem apenas em silêncio, se tivéssemos coragem.

Ela. Passa e deixa que eu adivinhe seu perfume, o mesmo dos caminhos floridos que percorreríamos sempre que desconfiássemos que íamos ficar tristes.

Ela passa e diz no olhar que seu pensamento é fixo em mim durante todas as horas do dia, até o instante do adormecer, porque tem certeza que durante toda a minha vigília o meu pensamento não se afasta nunca dela e sonha com a possibilidade remota e quase impossível do nosso encontro.

Ela. Tem consciência do imenso desperdício da nossa distância inexplicável e cultiva como eu o passatempo de enumerar todos os obstáculos intransponíveis que nos separam, sabendo-os até úteis para que esse amor se perenize pela impossibilidade. Uma forma de amar, talvez a mais bela forma de amar, é o amor impossível.

Ela. Sempre se mostrou sensível às minhas dores e nunca deixou que transparecessem as dores dela, sabemos que todas desapareceriam se simplesmente decidíssemos virar a mesa e apostar em nós dois, até mesmo porque nada mais importa que não seja nós.

Ela. Passam os dias e resistem em passar as noites e ela permanece inquebrantável, com um pensamento e um destino só, atados ao meu pelo mistério do pressentimento.

Ela sabe como eu que a única forma de tornar digna e gloriosa a vida é sonhar com esta hipótese animada de esperança.

Ela. Sabe como eu que o mundo só teve até agora uma utilidade: a de que nós dois percebêssemos que todos os valores que cercam a vida só se tornariam reais e prósperos se fossem afirmados pela permanência da nossa proximidade.

Ali vai ela, impossível mas verdadeira. Aqui fico eu, irresolvido mas cônscio da radical solução.

Ela.

*Texto publicado em Zero Hora em 17/08/1999

Postado por Paulo Sant`Ana

O Grêmio está em baixa definição

05 de novembro de 2008 9

Cantei e provoquei gremistas e colorados hoje, no Largo Glênio Peres, de onde foi transmitido o Jornal do Almoço, pela primeira vez em alta definição. Confiram:

Postado por Sant`Ana

Olhos nos olhos

05 de novembro de 2008 18

Reprodução

Li há alguns dias que o Supremo Tribunal Federal anulou a sentença de sete anos de prisão contra um réu, pelo crime de roubo, pronunciada por um juiz singular.

A anulação do processo e da sentença deu-se por ter sido o réu julgado depois que se submeteu perante o juiz a um interrogatório por videoconferência. 

Muito bem fez o Supremo em anular esse processo, declarando inconstitucional a lei vigente no Estado de São Paulo que instituiu a videoconferência em interrogatórios de processos penais nos casos de réus perigosos.

Um juiz condenar uma pessoa ouvindo-a em uma videoconferência é o mesmo que alguém ter um título protestado sem ter sido notificado do protesto. 

A respeito disso, li anteontem um parágrafo constante do livro de um famoso editor, Gay Talese, sobre a história do jornal New York Times: “Não fazemos matéria jornalística direito porque a reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mail, telefones e gravações. Quando eu era repórter, nunca usava o telefone. Queria ver o rosto das pessoas”. 

Ora, se jornalismo não se faz sem os repórteres olharem para os rostos dos entrevistados e das fontes de informação, como se fará justiça sem os juízes olharem para os rostos dos réus, das vítimas, dos autores e dos demandados em ações? 

Os réus têm o direito sagrado de olhar nos olhos do juiz que vai condená-los ou absolvê-los.

E os juízes têm o dever de olhar nos olhos dos réus a quem vão condenar ou absolver.

Caso contrário, ficam muito impessoais, muito distantes, muito remotos os processos e as respectivas sentenças.

O mínimo que se exige num processo, principalmente o que culmina com condenação, ainda mais penal, ainda que possa ser também cível, é que o juiz tenha conhecido o réu, tenha presenciado sua qualificação, tenha-o interrogado pessoalmente.

Ou seja, tenha sentido e perscrutado por controle sensorial a pessoa do réu, seu tom de voz, seus gestos, suas reações.

E por controle sensorial advindo também da confrontação ambiental entre juiz e réu, só assim se pronuncie a sentença, que não será produzida por este contacto, mas será inválida, estéril e indevida se não se cumprir esta formalidade. 

É muito injusto que um juiz condene alguém sem tê-lo conhecido.

O ministro do Supremo Ricardo Lewandowski muito bem pronunciou seu voto ao anular o processo por videoconferência quando disse que “o interrogatório é talvez a primeira e última vez que um acusado tem de se defrontar com o juiz”.

E disse melhor em seu voto o decano do Supremo, ministro Celso Mello: “O interrogatório é um ato de defesa”.

É o cúmulo do burocratismo condenar um réu ouvido por videoconferência.

*Texto publicado hoje em Zero Hora.

Postado por Sant`Ana