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Posts do dia 7 novembro 2008

Relato comovente

07 de novembro de 2008 10

Negra, a leitora Maria José afirma compreender o esforço de Michael Jackson (foto) para modificar a aparência/Divulgação

Reproduzo aqui o e-mail da leitora Maria José Silva Penny:

“Caro jornalista Paulo Sant`Ana,

Quero agradecer pelas tuas crônicas sobre o racismo, veiculadas nesta semana, no jornal Zero Hora. Envio-te um breve desabafo que procura analisar o assunto, sob a ótica de alguém que sofre `na pele`, o mal do preconceito racial:

Não vou dizer que ser negra foi a razão para meus insucessos. Mas posso afirmar que contribuiu. Desde bebê, passei por situações que não teria passado se fosse branca. Resolvi tornar públicas minhas inquietações no exato momento em que um negro venceu o campeonato de Fórmula-1 e outro foi eleito presidente dos Estados Unidos. Artistas, atletas de outras modalidades que não o futebol e modelos venceram o preconceito, conseguindo sucesso na carreira. Porém, ainda há muito por fazer, ainda há muito chão para percorrer.

Hoje em dia é fácil encontrar uma revista ou um programa com negros. Mas, quando eu era criança, isso era raro. Cresci me achando feia, porque meu corpo não se enquadrava no padrão estético; este padrão era de pessoas brancas. Nos meios de comunicação não apareciam negros, era como se nós não existíssemos. Quando menina, minha mãe mantinha meu indomável cabelo curtinho. Quando cresci, passei anos usando produtos para mantê-lo artificialmente liso.

Uma tia prendia meu nariz com prendedor de roupa, para afiná-lo.

Usei cores de maquiagem que não combinavam com o tom de minha pele, simplesmente porque não havia opções. Além disso, tentava disfarçar minhas ancas largas e minhas nádegas protuberantes, próprias de mulheres negras, com blusas e calças largas. Enfim, eu tentava me embranquecer para ser aceita na sociedade.

Por isso, compreendo o Michael Jackson e não o julgo. Talvez, se eu tivesse o poder aquisitivo dele, teria tentado modificar minha aparência; não para ficar mais bonita, mas para ser feliz. Como não tenho a conta bancária dele, com o passar dos anos acabei me conformando. A experiência me mostrou que ser negro não é só uma questão de pele, mas de atitude: não adiantaria eu mudar por fora se, por dentro, continuaria negra.

Sim, porque ser negro não é só uma questão de melanina, mas de consciência. A gente passa por tanta coisa, que a cabeça fica diferente. Posso afirmar isso por experiência própria, pois não sinto nem vejo o mundo como uma pessoa branca. Simplesmente, não acontece.

Grata pela atenção.
Maria José Silva Penny

Postado por Sant`Ana

O jogo emblemático de domingo

07 de novembro de 2008 31

Treino do Grêmio na quarta-feira (5/11)/Jefferson Botega

O jogo do Grêmio contra o Palmeiras no domingo será emblemático. O Grêmio só poderá chegar ao título do Brasileirão caso vença essa partida no Parque Antártica.

É contra o Palmeiras e é no Parque Antártica. Ou seja, será um jogo muito difícil de ser vencido pelo Grêmio.

As últimas partidas do time tricolor não têm dado nenhuma esperança ao seu torcedor. Mas, o Grêmio está vivendo, ou pelo menos se sustentando, no sonho e na esperança de seus torcedores. Pode ser que, em uma hora dessas, ele ganhe uma partida decisiva. Eu não tenho essa esperança, mas o torcedor tem que ter.

É muito difícil durante o jogo ter esperança. A gente passa uma semana inteira quase de náusea. Pois é quase náusea o nosso sentimento, a nossa sensação de gremista. A gente pensa sempre que vai ser derrotado.

Mas, tem torcedor que não é assim. Tem torcedor que acha que dá para ganhar do Palmeiras.

Pois então que dê para ganhar do Palmeiras!

Ouça o meu comentário no Gaúcha Hoje

Postado por Sant`Ana

Um só, em Viamão!

07 de novembro de 2008 14

Evidentemente que iriam aparecer cirurgiões plásticos negros e síndicos negros, depois que escrevi ontem que eles não existem ou são raros.

Apareceram dois, um síndico negro; um outro cirurgião plástico negro. E me mandaram notícias sobre a existência deles:

“Professor Paulo Sant’Ana. Ao adentrar no edifício onde resido, fui alertado pelo porteiro (senhor Jorge) de que lera em sua coluna na Zero Hora que você dará um presente para quem apontar o condomínio que tiver um negro como síndico. Acontece que no meu edifício o síndico é negro, bancário e torcedor. O edifício localiza-se na Avenida Princesa Isabel, 57, Bairro Azenha, prédio onde o seu contador Moresco tinha escritório. Fone do porteiro 3219-9570. Abraços, (ass.) Ribeiro”.

***

E o próprio cirurgião plástico: “Paulo Sant’Ana. Fiquei surpreso ao ler sua coluna da Zero Hora do dia 6 de novembro de 2008 sobre racismo.

Venho informá-lo de que médicos negros existem, sim! São poucos, mas felizmente não são inexistentes como afirmaste.

E sua frase: ‘Cirurgião plástico negro, nunca haverá no Brasil’. Sou negro, médico cirurgião plástico há 20 anos em Porto Alegre. Meu consultório fica no Centro Clínico da PUC, no mesmo prédio, inclusive, onde o senhor consulta. Tenho uma clínica de cirurgia plástica nesta cidade, sou vereador em Viamão com dois mandatos, presidente da Comissão de Saúde e vice-presidente da Câmara Municipal de Viamão.

Minha filha, doutora Karina Cristaldo, também negra, é médica e está fazendo residência em cirurgia plástica no Hospital da PUC.

Sou leitor assíduo da sua coluna e fui procurado por pacientes, colegas, amigos, parentes e funcionários, então lhe escrevo para esclarecer e peço que, na condição de formador de opinião, repasse esta informação aos seus leitores. Atenciosamente, (ass.) doutor Lindo Cristaldo, CRM 11801, cirurgião plástico e gremista de coração”.

***

Passo agora a responder ao cirurgião plástico Lindo Cristaldo, negro e gremista. Doutor, eu não escrevi que não existiam médicos negros. Eu escrevi que eram raros. Tenho até um amigo de infância, o Francisco Teles, que é médico e negro, grande figura, o Chiquinho. Mas veja o seguinte.

Por sinal, seu nome, Lindo Cristaldo, cirurgião plástico, vai pra coleção do Moacyr Scliar de nomes que condicionam profissões.

Ocorre, no entanto, doutor Lindo Cristaldo, que a sua digna e operosa existência não desmente minha coluna de ontem. Eu escrevi que não havia cirurgiões plásticos negros. E não há cirurgiões plástico negros. Há um só cirurgião plástico negro. Um só. Isso consagra a minha coluna de ontem. Porque eu queria que houvesse mil cirurgiões plásticos negros, assim como os há, aos milhares, brancos.

Mas existe um. Pelo menos um, o senhor. Não é pouco, doutor Lindo Cristaldo? Não, não é pouco. O senhor é o bastante. Mas só que pra minha tese e afirmação é pouco.

Síndico negro também apareceu um. Eu escrevi que quase não havia. E havia um. É muito pouco.

Foi isso que quis dizer, que eram poucos.

O senhor sabe que não apareceram os psicanalistas negros. Eu escrevi que não havia. Mas devem existir. Bem como eu escrevi, poucos, um aqui, outro ali.

O senhor achou que porque existe um cirurgião plástico negro a minha tese estava desmoralizada? Não, doutor, a minha tese ficou consagrada.

Eu queria ver cirurgiões plásticos negros às pamparras, jornalistas negros às mancheias, síndicos negros de montão.

E existe apenas meia dúzia de gatos pingados.

O senhor, doutor Lindo Cristaldo, elevado exemplo, é o meu exemplo.

Que coisa boa que o senhor existe, doutor Lindo. E que má coisa que não existam outros, centenas de outros como o senhor.

Apareceu um! Que milagre! Em Viamão!

***

Mas que coisa aconteceu na manhã de ontem em Farroupilha. Dois assaltos a banco. Uma quadrilha armada até os dentes e mascarada transformou o centro de Farroupilha em praça de guerra, com uma fuzilaria espantosa, fuga, reféns, a polícia enfrentada à bala pelos assaltantes!

Onde é que estamos? Onde é que estamos?

* Texto publicado hoje na página 75 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana