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Posts do dia 8 novembro 2008

O presságio da crise

08 de novembro de 2008 20

Há no ar, entre as pessoas mais responsáveis, um mau presságio para 2009.Será que a passagem do ano será marcada por nuvens sombrias a respeito da economia brasileira e mundial? Estava tudo indo tão bem, agora mesmo se divulga que 2,4 milhões de gaúchos atingiram o número de trabalhadores com carteira assinada!

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Apesar de um arrocho salarial nunca visto, em que centenas de milhares de servidores estaduais não têm reajuste em seus vencimentos – alguns, como na área da segurança pública, há 13 anos sem verem seus ganhos corrigidos –, o governo do Estado conseguiu a façanha de botar em dia as suas contas com os fornecedores.

E até parece que a governadora Yeda Crusius destinou R$ 200 milhões para pagar os abandonados precatórios!

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Li que alguém importante perguntou como é que a governadora tinha obtido o milagre de tentar começar a pagar os precatórios. Não é milagre: basta miserabilizar o funcionalismo público. Não quero afirmar que a miserabilização dos funcionários estaduais é obra deste governo, todos sabemos que sucessivos governos estaduais jogaram o funcionalismo nesta situação de penúria e marginalização.

Mas não surpreende que haja até recursos para pagar precatórios, os governos perceberam que o segredo para manter um certo equilíbrio nas suas contas é esfolar o funcionalismo. O funcionalismo não tem mais voz e não tem mais reação.

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Mas estávamos indo bem, todo mundo trabalhando, talvez não tendo ganhos animadores, mas dando para os gastos. E de repente estourou esta crise financeira internacional que ameaça agora o Brasil.

Dizem que os efeitos espúrios dessa crise se derrubarão sobre a nossa economia nos próximos meses. Mas como é injusta esta globalização! Nada fizemos como país e como cidadãos para pagar qualquer preço alto por esta crise.

E, no entanto, estamos todos ameaçados por ela.

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Agora é que se vê que a par da competência do governo Lula, ele foi ajudado nos seis últimos anos pela serenidade dos mercados internacionais. E, agora, inicialmente com otimismo por parte do governo no sentido de que a crise não atingiria o Brasil, vê-se, no entanto, que estamos na crista da onda dos problemas.

E vemos o nosso fim de ano, o nosso Natal e Ano-Novo assinalados pelos ruins presságios de que podemos ingressar num período de recessão e desemprego. Se os Estados Unidos vão no rumo do fim de ano engolfados em grave e inédita crise econômica, imaginem nós, no Brasil!

Que coisa chata este presságio.

E só resta rezar para que ele não se materialize.

 

* Texto publicado na página 47 de Zero Hora dominical

Postado por Paulo Sant´Ana

Experiência própria

08 de novembro de 2008 11

Uma negra me escreveu aproveitando-se da oportunidade da abordagem do assunto racismo em minhas colunas:

“Caro jornalista Paulo Sant’Ana. Quero agradecer pelas tuas crônicas sobre o racismo, veiculadas nesta semana no jornal Zero Hora. Envio-te um breve desabafo que procura analisar o assunto sob a ótica de alguém que sofre ‘na pele’ o mal do preconceito racial:

Não vou dizer que ser negra foi a razão para meus insucessos. Mas posso afirmar que contribuiu. Desde bebê, passei por situações que não teria passado se fosse branca. Resolvi tornar públicas minhas inquietações no exato momento em que um negro venceu o Campeonato de Fórmula-1 e outro foi eleito presidente dos Estados Unidos. Artistas, atletas de outras modalidades que não o futebol e modelos venceram o preconceito, conseguindo sucesso na carreira. Porém, ainda há muito por fazer, ainda há muito chão para percorrer.

Hoje em dia é fácil encontrar uma revista ou um programa com negros. Mas quando eu era criança isso era raro. Cresci me achando feia, porque meu corpo não se enquadrava no padrão estético; este padrão era de pessoas brancas. Nos meios de comunicação, não apareciam negros; era como se nós não existíssemos.

Em menina, minha mãe mantinha meu indomável cabelo curtinho. Quando cresci, passei anos usando produtos para mantê-lo artificialmente liso. Uma tia prendia meu nariz com prendedor de roupa, para o afinar. Usei cores de maquiagem que não combinavam com o tom de minha pele, simplesmente porque não havia opções. Além disso, tentava disfarçar minhas ancas largas e minhas nádegas protuberantes, próprias de mulheres negras, com blusas e calças largas. Enfim, eu tentava me embranquecer para ser aceita na sociedade. Por isso eu entendo o Michael Jackson e não o julgo. Talvez, se eu tivesse seu poder aquisitivo, teria tentado modificar minha aparência; não para ficar mais bonita, mas para ser feliz. Como não tenho sua conta bancária, com o passar dos anos acabei me conformando.

A experiência me mostrou que ser negro não é só uma questão de cor da pele, mas de atitude; não adiantaria eu mudar por fora, se por dentro eu continuaria negra. Sim, porque ser negro não é só uma questão de melanina, mas de consciência. A gente passa por tanta coisa, que a cabeça fica diferente; eu posso afirmar isso por experiência própria, pois não sinto e vejo o mundo como uma pessoa branca. Simplesmente, não acontece. Grata pela atenção. (ass.) Maria José Silva Penny (http://penny-pennyblog.blogspot.com/)”.

                                                         ***

Mais esta: chamaram-me a atenção para o fato de que nas invasões do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) não figuram negros, nem nas fazendas invadidas, nem nos acampamentos.

Será que os negros não procuram o MST ou se sentem rejeitados em seu seio?

Ou simplesmente não é da tradição negra a agricultura?

Mas e os quilombolas? 

                                                          ***

Mas não me sai da cabeça o cirurgião plástico e negro Lindo Cristaldo. Este homem talvez tenha muita história para contar. Sua experiência para chegar à condição de médico e cirurgião plástico deve ter sido empolgante.

E está se formando também em cirurgia plástica a sua filha.

São uns heróis estes negros que se destacam. Mas o interessante é que a maioria deles afeta não haver preconceito racial no Brasil. E logo oferecem como exemplo as suas pessoas.

Compreensível.

                                                       * Texto publicado na Zero Hora de sábado

Postado por Paulo Sant´Ana