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Posts do dia 22 novembro 2008

Os camoatins

22 de novembro de 2008 6

Eu não sei bem se o que sinto por minha infância é um trauma ou um deslumbramento.

Só sei que minha infância foi a época das minhas grandes descobertas.

Descobria tudo sozinho, sem a ajuda de ninguém. Desde a masturbação, a mais eletrizante de todas as descobertas, pela qual maravilhei-me com minha capacidade de arrancar prazer de meu próprio corpo, sem sequer imaginar que para a interação sexual era necessária uma parceira.

 

***

Só mais tarde, na adolescência, é que descobri a mulher no sexo, assim mesmo precariamente, nem eu nem minha primeira parceira tínhamos qualquer experiência em que nos basearmos e nosso desajeitado congresso carnal podia ser classificado como um rotundo desastre, até mesmo porque não tinha sido precedido de um namoro, de um romance, de beijos, nada de amor, não passamos de dois autômatos sem qualquer controle e, principalmente, sem qualquer objetivo definido.

Era mais gratificante e honesto voltar à masturbação.

***

Mas as descobertas na infância se sucediam, toda vez que o sol clareava as manhãs.

Lembro agora que meu primeiro meio de transporte foi o cipó, tipo vegetal que era abundante nas fraldas do Morro da Polícia. Passava horas e horas agarrado nos cipós, indo de uma árvore a outra árvore ou a um barranco.

O meu segundo meio de transporte foi uma prancha de madeira lixada que chamávamos de “regata”, em cima da qual nos atirávamos em uma pista muito inclinada de grama, deslizando até lá embaixo do lançante, uma delícia inesquecível.

***

Nunca tinha conhecido o automóvel nem a bicicleta, natural assim que me seduzisse a possibilidade de ser arremessado por algum objeto, através da velocidade, de um lugar para o outro.

Já tinham me falado do carrinho de lomba. Mas meu poder aquisitivo era zero e nunca tive vocação para o artesanato e para a mecânica, daí que desisti da ambição, até mesmo porque se tivesse um carrinho de lomba me faria falta o dinheiro para a passagem de bonde para transportá-lo até a Avenida Dom Pedro II, onde se realizavam as corridas ou o entretenimento.

O cipó e a “regata” já enchiam bastante de excitação as minhas tardes outonais e primaveris.

***

Outra grande descoberta foram as cachopas (não sei por que assim eram chamadas) de camoatins, uma espécie de marimbondo miúdo e negro que fabrica mel.

E com uma taquara comprida eu escarafunchava a cachopa, que caía em terra, sob alarma dos camoatins.

Com uma tocha acesa, afugentava as centenas de insetos de sua cachopa, sempre com medo dos ferrões.

E me adonava do mel, lambuzando-me.

A todos os grande prazeres da infância éramos atraídos por sua gratuidade.

Até à carona clandestina no bonde.

 

*Texto publicado na página 47 de Zero Hora dominical

Postado por Sant`Ana, Porto Alegre

Remédios dos aposentados

22 de novembro de 2008 17

Não adianta saberem os aposentados que o salário mínimo não é referência nem indexador dos proventos da aposentadoria.

Todos os aposentados calculam seus proventos com base no salário mínimo. E se despedaçam nesses cálculos, como veremos abaixo.

Acontece que o governo concede lautos reajustes ao salário mínimo, todos os anos, reajustando as aposentadorias em cerca da metade daquele índice.

Ou seja, o governo reajusta em alto índice o salário mínimo porque não é ele que paga, são as empresas privadas. Não quer reajustar pelo mesmo índice os aposentados porque o dinheiro sai dos seus cofres.

No entanto, o dinheiro do pagamento dos funcionários públicos federais sai dos cofres do governo e os reajustes aos servidores são também bem mais altos que o dos aposentados.

O que há mesmo, então, é uma política de arrocho salarial aos aposentados, um apartheid salarial perverso que considera os aposentados seres inúteis que já nada mais protagonizam na cena social.

O desespero deles é grande. E a descida do abismo nos reajustes obriga-os a protestos desesperados.

Causa também desse abandono é que os aposentados não se organizam para a mobilização em busca de justiça salarial.

                                                          ***

“Prezado Sant’Ana. Sou assinante de Zero Hora há mais de 20 anos e, conseqüentemente, seu assíduo leitor, bem como ouvinte do Jornal do Almoço, diariamente.

Hoje, em seu horário na RBS TV, você abordou um tema que é por demais angustiante a nós, aposentados do INSS.

Vou diretamente ao assunto, se me permite. Sou aposentado do INSS há mais de 22 anos. Quando na ativa, trabalhei em multinacional durante 19 anos e, como era bem remunerado, descontava mensalmente 20% do meu salário, que era o limite máximo para desconto da Previdência Social.

Ao aposentar-me, em 1986, o INSS calculou minha aposentadoria em 9,12 salários mínimo da época, cujo cálculo era um percentual (no meu caso 81%) da média salarial dos últimos 36 meses, sendo 24 meses corrigidos pelo índice próprio deles e o último ano não era corrigido.

Pelos cálculos, minha aposentadoria ficou em 9,12 salários mínimos da época, hoje deveria ser R$ 3.784,80. Entretanto recebo R$ 1.945,39, ou seja, 51% do que teria direito.

Hoje estou com 66 anos de idade, sobrevivo da aposentadoria e, o pior, com esta idade são necessários gastos com medicamentos contínuos (os quais não são nada baratos).

Então, meu caro Paulo Sant’Ana, imploro a você que use de sua coluna e espaço na TV, além de seu prestígio e poder de audiência, para que tenhamos uma revisão, por parte do governo federal, em nossas aposentadorias, pois, da maneira que vêm sendo defasadas, em poucos anos estaremos todos ganhando apenas um salário mínimo, o que não é condizente com os anos que contribuímos, pelo esforço que fizemos de manter um padrão econômico de classe média e, sem desmerecer outros aposentados, ganhar o mesmo que aqueles que nunca contribuíram para a Previdência Social. Atenciosamente, (ass.) Antonio Câmara Duarte (camara-duarte@hotmail.com)”.

                                                          ***

“Sr. Paulo Sant’Ana. Assisti hoje a sua opinião no Jornal do Almoço e concordo plenamente. Vou lhe passar o que ocorreu comigo.

Durante muitos anos, contribuí para o INSS sobre 20 salários. Depois do Collor, o teto máximo foi reduzido para 10 salários. Continuei contribuindo com o máximo. Quando me aposentei, recebi 7,4 salários (cálculos absurdos que não entendi). Pois bem, hoje recebo 3,3 salários. Neste ano, recebi de reajuste em torno de R$ 60. Meu plano de saúde aumentou R$ 125. Os remédios que, com a idade, necessitamos tomar diariamente subiram mais de 10%, sem falar em água, luz, telefone, aluguel.

A continuar assim, em cinco anos receberei um salário, enquanto nossos queridos deputados e funcionários do governo receberão aumentos de 15% a 20% ao ano. Gostaria que dessem os nomes dos senadores e deputados que votarão contra a proposta do senador Paim para ver se algum aposentado irá votar neles. Um abraço, (ass.) Sergio Cassel (sergio@asctur.com.br

                        
                               * Texto publicado hoje na página 55 da Zero Hora

Postado por Paulo Sant´Ana