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Posts do dia 30 novembro 2008

Gauchismo urbano

30 de novembro de 2008 15

POR MOISÉS MENDES

Quando anunciou que viria a Porto Alegre este mês, Eduardo Galeano disse que não queria ver lugares da cidade. O uruguaio queria ver pessoas. A americana Susan Sontag dizia mais ou menos a mesma coisa, que viajar é arriscar-se ao encontro, de preferência casual e intenso, com gente nunca vista, e só depois com paisagens e coisas inventadas pelo homem. Para Susan, um viajante que limitasse sua circulação aos espaços dos amigos vulgarizava sua passagem pelo lugar.

Sei que Galeano andou por aí com pessoas que lhe são gratas. Pode ter ficado, ao andar de um lado para outro, com as aparências desta cidade sinuosa, de ruas assimétricas. Cada um vê uma cidade como quer, pelo miolo, pelas bordas, pelas áreas mais iluminadas, pelo olhar de quem conhece luzes e sombras. Se nem os moradores de Porto Alegre a enxergam por dentro, não se pode querer que um visitante chegue a tanto em alguns dias.

Galeano não deve ter visto a Porto Alegre brutalizada, que tentar imitar os maus modos de São Paulo e quase ofende o que os paulistanos têm de mais primitivo. Se alguém criasse um ranking de comportamentos, como esses com indicadores de renda, saúde, qualidade de vida, Porto Alegre seria denunciada como uma das capitais mais mal-educadas do Brasil. Não, não vai se falar das deformações da periferia pobre e carente de Estado.

Todos os defeitos que o “centro” atribuía ao entorno das favelas, até por não conhecê-las de perto, multiplicam-se na convivência coletiva dos espaços de classe média. As ruas de Porto Alegre foram seqüestradas pelos carros, e nos carros a cidade estressada também revela seu caráter. Andar livremente hoje significa dirigir, e de qualquer jeito, fazendo manobras para que pedestres e ciclistas invisíveis não atrapalhem a circulação motorizada.

Um gaúcho que morou em São Paulo repete que os motoristas paulistanos respeitam-se como podem naquele trânsito enfartado. São solidários e pacientes no caos. Em Porto Alegre, mesmo em áreas sem engarrafamentos, a circulação é tortuosa, emburrada, agressiva. Só aqui – não se conhece outro exemplo no Brasil – uma campanha contra os controladores de velocidade é capaz de ser levada a sério e eleger políticos. Fomos derrotados pelo grande marketing dos maus modos de Porto Alegre, representado por um pretenso gauchismo urbano, grosseiro, rude, sem parentesco com a fidalguia dos bombachudos do Interior.

O episódio contado na página 40 de ZH, de um incidente de trânsito envolvendo uma mulher e um rapaz, num bairro nobre da cidade, é da rotina da Capital. Só ganhou relevância porque o e-mail despachado por um dos protagonistas virou fenômeno na internet. O morador de Porto Alegre insulta-se todos os dias. Temos torcidas racistas. Ônibus da empresa do município cruzam o sinal fechado. Fura-se até fila de pesagem de batatas em supermercado.

O episódio do e-mail mostra que este é um bom momento para que se retome a polêmica aberta há um ano, quando cientistas anunciaram a intenção de examinar as cabeças de jovens transgressores detidos na Fase para investigar seus defeitos. O diagnóstico, se dizia, poderia contribuir para a exaltação da ciência e para a definição de políticas públicas. O Estado que não oferece esgotos à periferia (e os dutos são uma invenção de tempos bíblicos) teria à mão uma orientação para, quem sabe, desenvolver aditivos e corrigir deformações de nascença. Ou, como não lembro direito dos argumentos usados, não seria nada disso?

Se o debate for reaberto, que se amplie seu alcance. O estudo da delinqüência de classe média também merece uma bolsa do MEC. A ciência menos preguiçosa teria a chance de abrir a cabeça dos agressivos do “centro”. Precisamos saber que mistura aciona a fúria de quem exclui negros de estádios, filma estupros depois mostrados na internet, espanca mendigos e se diverte nas ruas caçando pedestres. Quem oferece a primeira cabeça? Como hoje acordei agressivo, se for o caso – e em nome da boa ciência –, a minha já está à disposição.

 

*Texto publicado na página 63 de Zero Hora dominical

 

Postado por Sant`Ana