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Posts de novembro 2008

Gauchismo urbano

30 de novembro de 2008 15

POR MOISÉS MENDES

Quando anunciou que viria a Porto Alegre este mês, Eduardo Galeano disse que não queria ver lugares da cidade. O uruguaio queria ver pessoas. A americana Susan Sontag dizia mais ou menos a mesma coisa, que viajar é arriscar-se ao encontro, de preferência casual e intenso, com gente nunca vista, e só depois com paisagens e coisas inventadas pelo homem. Para Susan, um viajante que limitasse sua circulação aos espaços dos amigos vulgarizava sua passagem pelo lugar.

Sei que Galeano andou por aí com pessoas que lhe são gratas. Pode ter ficado, ao andar de um lado para outro, com as aparências desta cidade sinuosa, de ruas assimétricas. Cada um vê uma cidade como quer, pelo miolo, pelas bordas, pelas áreas mais iluminadas, pelo olhar de quem conhece luzes e sombras. Se nem os moradores de Porto Alegre a enxergam por dentro, não se pode querer que um visitante chegue a tanto em alguns dias.

Galeano não deve ter visto a Porto Alegre brutalizada, que tentar imitar os maus modos de São Paulo e quase ofende o que os paulistanos têm de mais primitivo. Se alguém criasse um ranking de comportamentos, como esses com indicadores de renda, saúde, qualidade de vida, Porto Alegre seria denunciada como uma das capitais mais mal-educadas do Brasil. Não, não vai se falar das deformações da periferia pobre e carente de Estado.

Todos os defeitos que o “centro” atribuía ao entorno das favelas, até por não conhecê-las de perto, multiplicam-se na convivência coletiva dos espaços de classe média. As ruas de Porto Alegre foram seqüestradas pelos carros, e nos carros a cidade estressada também revela seu caráter. Andar livremente hoje significa dirigir, e de qualquer jeito, fazendo manobras para que pedestres e ciclistas invisíveis não atrapalhem a circulação motorizada.

Um gaúcho que morou em São Paulo repete que os motoristas paulistanos respeitam-se como podem naquele trânsito enfartado. São solidários e pacientes no caos. Em Porto Alegre, mesmo em áreas sem engarrafamentos, a circulação é tortuosa, emburrada, agressiva. Só aqui – não se conhece outro exemplo no Brasil – uma campanha contra os controladores de velocidade é capaz de ser levada a sério e eleger políticos. Fomos derrotados pelo grande marketing dos maus modos de Porto Alegre, representado por um pretenso gauchismo urbano, grosseiro, rude, sem parentesco com a fidalguia dos bombachudos do Interior.

O episódio contado na página 40 de ZH, de um incidente de trânsito envolvendo uma mulher e um rapaz, num bairro nobre da cidade, é da rotina da Capital. Só ganhou relevância porque o e-mail despachado por um dos protagonistas virou fenômeno na internet. O morador de Porto Alegre insulta-se todos os dias. Temos torcidas racistas. Ônibus da empresa do município cruzam o sinal fechado. Fura-se até fila de pesagem de batatas em supermercado.

O episódio do e-mail mostra que este é um bom momento para que se retome a polêmica aberta há um ano, quando cientistas anunciaram a intenção de examinar as cabeças de jovens transgressores detidos na Fase para investigar seus defeitos. O diagnóstico, se dizia, poderia contribuir para a exaltação da ciência e para a definição de políticas públicas. O Estado que não oferece esgotos à periferia (e os dutos são uma invenção de tempos bíblicos) teria à mão uma orientação para, quem sabe, desenvolver aditivos e corrigir deformações de nascença. Ou, como não lembro direito dos argumentos usados, não seria nada disso?

Se o debate for reaberto, que se amplie seu alcance. O estudo da delinqüência de classe média também merece uma bolsa do MEC. A ciência menos preguiçosa teria a chance de abrir a cabeça dos agressivos do “centro”. Precisamos saber que mistura aciona a fúria de quem exclui negros de estádios, filma estupros depois mostrados na internet, espanca mendigos e se diverte nas ruas caçando pedestres. Quem oferece a primeira cabeça? Como hoje acordei agressivo, se for o caso – e em nome da boa ciência –, a minha já está à disposição.

 

*Texto publicado na página 63 de Zero Hora dominical

 

Postado por Sant`Ana

A república dos sem-carro

29 de novembro de 2008 18

Eu sou um sem-carro assumido. Quando todo mundo assinou um papel e comprou (ou trocou) o seu em 70 vezes, eu passei o meu adiante. Vendi, não sem uma série de bobas lamentações iniciais. Gostava do carro. Era fiel companheiro de longas viagens. Ele avançava pela BR-101 com mais vontade quando os Rolling Stones, do Black and Blues para baixo, assumiam a trilha sonora interna. Gostava do mar, ficou só uma vez enterrado na areia fofa, mais por culpa do condutor do que por defeito mecânico, falta de força ou carência de vontade.

Perto dele fui assaltado, um longo 38 na cabeça. A dupla de bandidos queria apenas a máquina, que voltou semanas depois depenada, sem as rodas originais, riscado e mudo.

Depois, em seqüência, alguém bateu na lateral, outro amassou a porta do motorista e fugiu, um terceiro escangalhou o espelho e escapou também. Na época, não sabia qual era o mais azarado. Como não podia me vender, passei a máquina adiante.

                                                        ***

Dois anos e alguns meses adiante, na crista de uma primavera de 33°C, procuro uma longa lista de arrependimentos, vasculho e não acho nada significativo. Ok, talvez encontre um: a saudade das curtas e revigorantes viagens de alguns finais de semana. Ponto.

Mas, por outro lado, vejo a garagem vazia e com espaço, não pago prestação, IPVA, multa, oficina, gasolina e óleo, nem sou achacado por flanelinhas vitaminados e de toucas ninja. Não gasto com estacionamento, não me estresso com filas para chegar a “este” estacionamento, posso continuar visitando os bons bares da Capital em busca do chope perfeito, os testes de bafômetro não me preocupam e assisto ao movimento (cada vez menor) de barreiras policiais como um bálsamo nas nossas ruas de faroeste.

                                                      ***

Ao abandonar o carro de vez, sem me dar conta na hora, passei a integrar a gigantesca confraria dos brasileiros que batem pernas nas cidades grandes, andam de lotação, adotam o ônibus, preferem o táxi. Fui rebaixado como cidadão, mesmo sem considerar o automóvel um inimigo, muito pelo contrário.

Passei a ver a cidade com novos óculos, conhecer melhor algumas ruas, observar históricas “calçadas” sem calçamento, praças sujas sem dono, esquinas sem policiamento. Fui reapresentado à intimidade entupida das artérias da Capital depois de anos, entre idas e vindas, longe do escudo protetor de um automóvel fabricado no terceiro milênio. 

                                                       ***

A vida fora do automóvel no centro urbano é um inferno. Agora ele mesmo luta por um espaço que não tem mais, que sumiu, que engarrafou. Quem caminha em busca do trabalho, do lazer ou da simples e barata satisfação do exercício em volta de um pobre parque, têm no motorista um inimigo definido, um vilão, um perigo a ser evitado. Não quero generalizar, mas eles são tantos, que eu penso que uma grande maioria atua do lado errado da força.

O motorista não respeita nada, carro maior, sinal vermelho, faixa de segurança, a sua avó atravessando a fileira de paralelepípedos, bicicleta, cãozinho de madame. Sua pressa, ímpeto, desprezo pelo pedestre, supera qualquer gesto civilizado. Um pé na faixa de segurança é um convite seguro ao atropelamento. Não importa a cor do carro, a marca, o preço, a cilindrada.

Coloco ao lado dos insensíveis motoristas do dia-a-dia os motoqueiros. Não confunda com motociclistas. Os motoboys são avessos ao bom senso, são camicases e sua média de vida não alcança 30 anos. Não pode, todo dia morre um, sempre apressado. Nunca vi ninguém buscar a morte com tanta avidez todos os dias.

Quando vejo um duas-rodas subindo na calçada, derrapando sobre um passante, voando na contramão, lembro que ele é apenas o empregado dos serviços rápidos de alguém. Mas nunca vi, eu não, a retaguarda dos motoboys fazendo algo positivo em nome da classe.

                                                       ***

Quando eu observo a indústria automobilística quebrada, falida no seu modelo de negócio, pedindo dinheiro de joelhos aos governos, dos EUA para baixo, noto que os que gastam a sola do sapato nos aglomerados urbanos também merecem o olhar complacente dos inconfiáveis políticos. Não que eles desejem outro caudaloso rio de dinheiro, como as montadoras. Exigem apenas motoristas mais educados, com cursos obrigatórios aos faltosos, lei severa aos reincidentes, novas sinaleiras, mais faixas de segurança e, quem sabe, se não for pedir demais, um punhado de azuizinhos, um pouquinho mais simpáticos, dispostos a estender a mão aos abandonados pedestres da maior cidade dos gaúchos.

                                            Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora

 

 

Postado por Luiz Zini Pires (interino)

Rivalidade histórica

28 de novembro de 2008 7

O Jornal do Almoço de hoje foi gravado em Itaqui, para comemorar os 150 anos do município.

O célebre embate futebolístico entre argentinos e brasileiros foi reproduzido na Praça Marechal Deodoro, no centro da cidade. Mas a disputa era para descobrir o que é melhor: o churrasco brasileiro ou a parrila argentina?

Confira no vídeo:

Postado por Sant`Ana

Humildade e constrangimento

28 de novembro de 2008 8

Hoje, no meu espaço no jornal Zero Hora, foi publicado um texto do meu colega Cláudio Brito. Confira:

A governadora Yeda mostrou humildade, mas não deixou de ser constrangedor vê-la dando explicações ao ministro dos Transportes. Confirmou-se o que o deputado Henrique Fontana dissera há uma semana ou mais. O governo estadual antecipara-se ao incluir a anuência do ministério ao Duplica RS em seus documentos. O ministro foi o último a saber. Dizendo-se chateado, anunciou a remessa de tudo a seus assessores técnicos, que lhe encaminharão pareceres. Então chegará à conclusão do que fará com o pedido gaúcho de prorrogação das concessões de rodovias. É certo e indiscutível que nada avançará sem o sinal de permissão de Brasília. Também já se sabe que os prefeitos das cidades diretamente interessadas não querem o projeto como está concebido, apontando várias alterações que estariam sob exame agora.

Então, cabe a pergunta: para que tanta pressa?

Não tem sentido exigir-se da Assembléia Legislativa a votação do projetão dos pedágios em regime de urgência. Falta muito ainda para ele estar pronto e acabado.

E se pensarmos em tantas dúvidas em torno da constitucionalidade e legalidade da proposta de se espichar contratos por três períodos de governo sem licitação e sem previsão que tivesse sido afirmada na criação dos pedágios, será fácil adivinhar onde tudo vai terminar. Na Justiça, é claro.

Mais um lance de judicialização da vida em nosso país. Ou alguém duvida que isso tudo acabe nos tribunais?

Melhor que sejam revistos todos os pontos controversos agora. Mais prejuízos teremos se deixarem para depois. Ponderado será permitir que a sociedade compreenda e discuta a matéria. Necessário conceder aos deputados estaduais todas as chances de estudo e decisão.

É preciso ter humildade e recuar, evitando-se constrangimento irreparável.

***

Mais urgentes são outros problemas do Rio Grande.

Perguntem aos professores e aos policiais. Eles dirão sobre seus vencimentos e prerrogativas.

Se há constrangimento em voltar de uma greve com as mãos vazias, importante ser humilde nessa hora.

O que não deve apagar a chama da justa reivindicação dessas e de outras categorias do serviço público.

E todos esses dramas são mais urgentes que os pedágios.

Já sabemos que haverá poucos agentes de segurança para as operações de verão, ainda que se esteja por nomear militares e civis por esses dias.

Há alguma contradição entre a vitória de um orçamento sem déficit e o sucateamento de tantas estruturas.

Dos presídios é desnecessário falar, todos sabem as pocilgas onde se amontoam aqueles que erraram e agora pagam, muitos deles, bem mais do que deviam, tema recorrente nos escritos do titular deste espaço. O Sant’Ana reitera com razão: nossas cadeias impõem vingança em vez de justiça. Quem sabe um regime de urgência para isso também.

E não esqueçamos o constrangimento de se ter um posto policial do interior sendo despejado por atraso no pagamento de aluguéis.

O Estado ficou um ano inteiro sem pagar.

Com humildade, pediu socorro. Sem constranger-se, a sociedade acudiu. Foi o Consepro que pôs a conta em dia, mantendo abrigados os brigadianos.

***

Organizo essas linhas com humildade e sem constrangimento.

Penso estar contribuindo modestamente com nossa governadora. Vejo-a soberana em ocasiões em que outros se recolheriam, o que é elogiável. Muitas vezes, sem humildade e constrangendo aos demais, como fez ao exigir silêncio das professoras com o dedo indicador sobre a boca. Isso é soberba e não soberania. Então, nessas horas, criticável em algumas de suas atitudes. Como acontece com todos os mortais, é certo. Pode-se exigir mais dela? Sim. É o ônus que buscou com muita competência ao ser eleita.

O Duplica RS tem que entrar em decantação, precisa ficar livre de tudo que for duvidoso.

A relação com os servidores tem que ser mais justa.

Ninguém precisa constranger-se em admitir, mesmo que seja aconselhável um pouco mais de humildade para se rever posições que se tornam nossos emblemas. Mais humildade, governadora, sem constrangimento.

* Texto publicado hoje na página 71 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Bem merecido

27 de novembro de 2008 42

Jefferson Botega

Foi uma bonita vitória do Internacional contra o Estudiantes ontem em La Plata, por 1 a 0.

Eu me enganei.

Quando o campeonado nacional estava nos seus pródromos, logo no início, olhei a capacidade dos times que disputavam o Brasilerão e previ que o Inter ganharia o Campeonato Brasileiro.

Não, o Internacional vai ser campeão da Taça Sul-Americana.

Errei de certame.

Postado por Sant`Ana

Trapalhada monumental

27 de novembro de 2008 19

Uma trapalhada monumental está acontecendo na Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul. Professores, que não estavam em greve, estão tendo os seus vencimentos descontados. E, os professores que estavam em greve não estão sendo descontados. Mas que injustiça!

Essa confusão está acontecendo em muitos casos. E tudo isso em virtude da pressa em punir. Por que não se pune mais adiante, no mês que vem? Não! Se tem pressa em fazer a folha, em ver quem não trabalhou, quem ficou de braços cruzados. E, por isso, cometeram essa trapalhada monumental, que comete uma injustiça volumosa contra os professores.

Que barbaridade!

Postado por Sant`Ana

Toneladas na pista

27 de novembro de 2008 5

Foto publicada hoje na página 10 de Zero Hora/Mauro Vieira

É de se espantar a fotografia que a Zero Hora estampa hoje na página 10. Uma rocha de 2 mil toneladas caiu sobre a pista da BR-101. O estorvo interrompeu a estrada na altura de Palhoça, perto de Florianópolis. A BR está interditada devido a essa rocha de dois milhões de quilos!

Uma rocha de dois milhões de quilos foi movida pela inundação em Santa Catarina. Se a água é capaz disso, o que mais ela não será capaz? Eu quero acreditar que a água não pode ter tanta força assim. O que deve ter acontecido é que ela minou as camadas de terra que sustavam a rocha, que se moveu.

Agora, para tirar a rocha dali, são necessárias toneladas — to exagerando e brincando — de dinamite. Vão dinamitar a rocha para tirá-la dali e desimpedir a estrada dentro de dois ou três dias. Mas que rocha! Eu não pensava que existissem rochas com tanto peso assim.

Ouça o meu comentário no Gaúcha Hoje

Postado por Sant`Ana

A casa é um bem da vida

27 de novembro de 2008 9

Há um número que considero horripilante nesta calamidade que se abateu sobre Santa Catarina: ontem havia 79 mil desabrigados e, destes, 27 mil tinham perdido inteiramente suas casas.

Não sei se pode haver coisa pior que uma pessoa perder a sua casa.

Perder a casa é um desmoronamento da existência. Perder a casa é o deslizamento da vida.

***

Milhares de pessoas estão desabrigadas mas não perderam suas casas. Estão apenas esperando que as águas baixem para voltar a suas casas.

Mas outras 27 mil pessoas perderam suas casas, das quais não sobraram nenhum tijolo, os alicerces, as paredes, o teto, os móveis. Tudo desabou do barranco e virou lama.

Eu fiquei calculando a dor, o desconsolo, o desespero de uma pessoa que perde a sua casa.

Sem exagero, perder a sua casa é como perder a vida. Pior que perder a vida: é perdê-la, mas sobreviver para enfrentar a tragédia da reconstrução.

***

Quando me casei, aluguei uma casa humilde em São Jerônimo, mas não tinha os móveis. Eu só possuía um colchão e um urinol.

É muito penosa a sorte das pessoas que estão começando a sua vida.

Então vim até Porto Alegre e comprei, na antiga e ex-Imcosul, um armário, dois sofás e uma cama.

Estes meus raros móveis, os únicos que podia comprar com meu salário de inspetor de Polícia (os policiais sempre, eternamente, ganharam mal), foram descendo numa barca pelo Rio Jacuí para me serem entregues no porto de São Jerônimo.

Era tudo que eu tinha, minha vida se resumia a móveis comprados em prestações.

Se eu perdesse esses meus móveis, perdia tudo que eu tinha.

***

Esses 27 mil catarinenses perderam todos os seus móveis, mas perderam mais que isto, perderam suas casas, suas roupas, seus quintais, suas galinhas, seus cachorros, eles perderam literalmente tudo. Ao perderem suas fotografias e outras lembranças, perderam também sua memória.

Fixe bem uma coisa: uma pessoa que assiste a sua casa deslizar de um barranco (e havia não só casas humildes, algumas eram casas muito boas e caras), olha para o lugar em que morava e vê que aquela casa que se esfarelou no deslizamento perdeu também o seu terreno.

Quem perde a casa no deslizamento perde também o terreno, não tem mais onde edificar outra casa sequer.

É uma tragédia pessoal de proporções incalculáveis.

***

Por isso é que fiquei tomado de compaixão por 27 mil pessoas que perderam suas casas, perderam suas referências, sua origem, suas vidas.

Porque uma calamidade dessa ordem determina que a pessoa que tenha perdido sua família entre os mortos permaneça agora com sua casa, mas sem saber o que fará com ela, sem a família.

E determina também outra tragédia: é que a pessoa tenha permanecido, após a inundação, com sua família, mas sem saber o que fará com ela, pois perdeu a sua casa.

É muito mais fácil viver do que reconstruir uma vida.

O sonho da casa própria, quando realizado, é a construção da vida.

O pesadelo da perda da casa é a destruição da vida.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Secar ou não secar

26 de novembro de 2008 92

Nós gremistas não aceitamos ingressar em um plano antiético, como fizeram os colorados ao torcerem para que o próprio Inter perdesse para o Cruzeiro e para o São Paulo.

Esta noite, quando o Internacional enfrentará o Estudiantes, em La Plata, estarei neutro em frente ao televisor. Não lhes darei o gostinho da secação.

Assista ao meu comentário sobre o assunto:

Postado por Sant`Ana

Oremos pelos catarinenses

26 de novembro de 2008 4

Vejam como a natureza é caprichosa. Enquanto aqui no Rio Grande do Sul foram destruídas lavouras de arroz, soja, milho e sorgo pela ausência de chuvas, em Santa Catarina ocorre a maior precipitação pluviométrica da história daquele Estado.

Essas enchentes em Santa Catarina flagelaram 1,5 milhão de pessoas. Sabem o que é isso? É o equivalente à população total de Porto Alegre!

Já há 53 mil pessoas desabrigadas, dezenas de desaparecidos, quase uma centena de mortos. E não há escolas, não há estradas, não há luz, não há gás, é uma tragédia inimaginável para quem não acompanha de perto! Oremos por eles, por favor, oremos por nossos vizinhos catarinenses.

Assista ao meu comentário sobre o assunto:

Postado por Sant`Ana

Nunca antes na história brasileira

26 de novembro de 2008 6

Resgate de pessoas isoladas no Morro do Baú, entre Ilhota e Luiz Alves, no Vale do Itajaí/Guto Kuerten

Agora se pode dizer que, no caso das enchentes em Santa Catarina, estamos diante de um dos maiores desastres naturais da história brasileira. Os números são horripilantes: 1,5 milhão de pessoas — número igual ao da população de Porto Alegre — foi atingido pelas enchentes; 54 mil pessoas estão fora de suas casas, estão desabrigadas; mais da metade desse número, ou seja, mais de 25 mil pessoas perderam, definitivamente, as suas casas. É uma tragédia incomensurável.

Houve especulação sobre o preço da água nos lugares atingidos em Santa Catarina. Um galão de água, que custa, normalmente, R$ 4, era vendido a R$ 20. Além de saques e roubos que houve em Itajaí. Saques em supermercados, em casas, em mercados. Isto é, houve uma reviravolta social em toda a dimensão da tragédia. Algo inimaginável. Durante anos serão reparados os danos. E muito dinheiro vai custar para recuperar esses estragos.

Imagina? Cidades inteiras cobertas pela água e pela lama. É uma tragédia nunca vista antes. Eu me perguntava antes o que nós, gaúchos, podíamos fazer para ajudar. Pois, agora, surgiu uma luz. No Banco do Brasil e no Banco do Estado de Santa Catarina foram abertas contas esperando donativos dos gaúchos para socorrer os irmãos catarinenses.

É, realmente, uma tragédia, talvez, incomparável. São 54 mil pessoas fora de suas casas, sendo que 25 mil perderam, para sempre, suas casas. Existem pessoas maltrapilhas pelos matos e pelas estradas em busca de auxílio. Cerca de 600 turistas foram resgatados, praticamente, de um Parque Aquático. É um acontecimento nunca visto na história brasileira. Algo que comove todo o Brasil.

Felizmente, o presidente Lula e as autoridades estão dizendo que vão visitar os locais da tragédia. E, com certeza, o governo federal vai ajudar com muito dinheiro, com bastante recursos as vítimas dessa tragédia inigualável.

Ouça o meu comentário no Gaúcha Hoje

Postado por Sant`Ana

Todo burro é feliz

26 de novembro de 2008 16

Não há ser mais infeliz do que o lúcido. A lucidez é uma cruz.

Não há seres mais felizes que os medíocres, os inocentes, os burros.

Quando passarem por uma estrada, olhem para os bois pastando: não há seres mais tranqüilos, mais serenos, mais felizes do que eles.

Por que os bois são felizes na paisagem bucólica? Simplesmente porque desconhecem o seu futuro.

Não sabem os bois que vão morrer dali a meses a marretadas num matadouro. Isso os torna felizes e realizados.

Já os que sabem que vão morrer a marretadas, os que têm consciência de que estão disputando um campeonato de 38 jogos sem terem centroavante, os que têm consciência de que os aposentados não vão ser reajustados pela inflação em seus proventos, enquanto o salário mínimo é reajustado todos os anos em índices acima da inflação, os que têm consciência de que algumas categorias do funcionalismo público são reajustadas todos os anos em índices acima da inflação, enquanto outras não são reajustadas anos sobre anos, estes sabem que multidões vão morrer a marretadas ali adiante. Estes são os lúcidos, estes são profundamente infelizes, estes vão viver sempre atacados pelo infortúnio.

Não há pior maldição do que ser lúcido. E não há maior felicidade e maior realização do que ser burro.

***

Eu ontem me irritei e chamei um homem de burro. A sua resposta me desconcertou. Ele me disse que quer continuar sendo burro, que é muito confortável a sua condição de medíocre.

Eu sei por que a resposta do burro me desconcertou: porque ele revelou ser um burro lúcido. Quer continuar a ser burro, se ele deixar de ser burro vai deixar de ser feliz.

Primeira vez que eu topei com um burro lúcido.

Já eu, que me considero imodestamente um lúcido, gostaria de deixar de ser lúcido. Eu gostaria de me tornar burro. Afinal, no fim da vida, eu teria o direito de ser feliz.

***

Durante 37 anos, no Rio Grande do Sul, havia só uma pessoa preocupada com o caos carcerário. Sozinho, pregou no deserto a sua estranha e incompreensível tese de que quanto piores e mais precárias forem as condições físicas dos presídios, piores serão as condições de segurança pública fora dos presídios.

Ouviam esse disparatado e o consideravam um louco. Dedicaram-lhe 37 anos de indiferença.

Pois vejo agora que, ontem, 50 heróicos gaúchos foram até a Praça da Matriz e realizaram uma manifestação, lançando o Movimento Pela Consciência Prisional.

Já aderiram incrivelmente ao movimento juízes, promotores, policiais, cidadãos de todos os níveis, que querem chamar a atenção dos governantes para o fato de que enquanto os presídios permanecerem como um lúgubre amontoamento de seres animalescos, cercados de medo, violência, doenças irremovíveis e as mais desoladoras condições de higiene e dignidade pessoal, mais sérias e mais graves e aterrorizadoras serão as condições de segurança dos cidadão nas ruas, onde campeia o roubo por todas as formas de assalto e os assassinatos se empilham durante todas as semanas.

Havia um só gaúcho que pregava esta verdade acaciana, mas irritantemente incompreensível durante 37 anos.

Agora, há centenas de gaúchos que compreenderam esta verdade. E se lançaram ontem no Movimento Pela Consciência Prisional para dar um basta às pocilgas. Eles vão se atirar à tarefa sublime de convencer os três poderes a tornar dignos presídios e acabar com a idéia estúpida, burra, suicida, de que a sociedade tem de fazer sofrer os presos quanto mais o possa a fim de vingar-se deles.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Tragédia incomparável

25 de novembro de 2008 11

Vista aérea das cheias no Vale do Itajaí/Patrick Rodrigues

Eu tinha dois anos quando aconteceu a enchente de 1941 em Porto Alegre. As águas subiram, até mais de quatro metros, e inundaram todo o centro da cidade. Foi uma tragédia que, eu pensei, fosse incomparável. Os historiadores podem depois me socorrer, mas nunca ouvi falar de porto-alegrenses mortos nessa enchente de 1941, que abalou a Capital.

Mas essa enchente, essa terrível inundação, se estende por todo o estado de Santa Catarina. São 65 mortos. Todas as cinco BRs que cortam o Estado foram interditadas. Todas as grandes estradas estaduais também foram interditadas. As fotos que o jornal Zero Hora publicou hoje são assustadoras.

É impressionante o que está acontecendo em Santa Catarina. Como um Estado, que tem um território paradisíaco e que atrai turistas do mundo inteiro, pode estar vivendo uma penúria dessas? Santa Catarina foi muito afetada em vários aspectos: abastecimento de água, abastecimento de gás, abastecimento de comida. Tudo está avariado. É uma tragédia incomparável.

Agora, os nossos olhos gaúchos se voltam com muita piedade, muita atenção para o Estado vizinho, que está sofrendo terrivelmente com essa enchente. São quase 60 dias de chuvas contínuas. A maioria das pessoas morreram devido ao deslize de terras que se abatem sobre as pessoas, que morrem enterradas. É uma coisa coisa terrível!

O que mais podemos fazer se não lamentar? Embora os governos adjacentes à Santa Catarina estejam dando auxílio aos irmãos catarinenses, vamos aguardar que a chuva passe e que o Estado volte a ser, logo em seguida — ainda mais agora com a temporada de verão começando — aquele paraíso encantador.

Ouça o meu comentário no Gaúcha Hoje

Postado por Sant`Ana

Deu a lógica

25 de novembro de 2008 87

Em quase todo o decorrer deste campeonato nacional, me acusaram de pessimista. Eu próprio me acusava de pessimista.

Nunca confiei na liderança do Grêmio, sempre a coloquei em dúvida, em face dos parcos recursos técnicos do time.

Vê-se agora que eu não era pessimista. Eu sou realista e racionalista. Torço como ninguém torce tanto pelo Grêmio, mas o meu coração nada tem a ver com meu cérebro.

Torço mas não acredito, quero o milagre mas não vibro, porque raciocino que o milagre não vem.

***

Um time que leva 4 a 2 do Vitória na antepenúltima rodada, na reta final da decisão do título, acho que agora todos consideram: não merece ser campeão, se fosse campeão, como quase aconteceu, seria uma conquista lunática e imerecida.

Por sinal, a liderança que o São Paulo ostentava até sábado passado era ilegítima: tinha sido fruto de um gol legítimo do Botafogo mal anulado pelo juiz, a conselho de um bandeirinha, no jogo contra o São Paulo.

Aquele roubo escancarado estava martelando e fazendo doer no meu espírito. Por causa daquele vergonhoso erro de arbitragem, o Grêmio ficara dois pontos atrás do São Paulo e, se persistisse essa desvantagem até o fim do campeonato, o campeão seria indevido, injusto e indecoroso.

Agora, com a derrota vexatória do Grêmio para o Vitória, o título de campeão do São Paulo passa a ser justo, adequado, meritório — e eu fico em paz com relação ao resultado.

***

Os otimistas esperançados, os que acreditaram até o fim que o Grêmio iria ser campeão, estão agora entendendo que o Grêmio já está classificado para a Libertadores do ano que vem.

Disse o Sílvio Benfica, ontem, que o Grêmio precisa ganhar uma partida e empatar a outra para garantir lugar no G4.

Mas eu pergunto: com que roupa? Qual a garantia que o Grêmio dá de que tem time suficiente para, contra o Ipatinga e o Atlético Mineiro, fazer quatro pontos? Qual?

Então, a situação gremista para ingressar na Libertadores é muito delicada. É certo que o Flamengo tem três pontos a menos que o Grêmio. Mas, se o Flamengo ganhar do Goiás na próxima rodada, se iguala em pontos com o Grêmio, se iguala em vitórias, mas tem saldo de gols superior ao do Grêmio. Ou seja, se o Grêmio não ganhar do Ipatinga, venham por mim, hipótese muito provável, pode esfarelar-se completamente a possibilidade gremista de jogar a Libertadores no ano que vem. E o caso do Cruzeiro: tem dois pontos atrás do Grêmio, mas joga na próxima rodada com o Internacional, no Beira-Rio, ou seja, só um louco, um varrido, um alienado não sabe que o Internacional vai perder para o Cruzeiro. E aí como é que fica o Grêmio para restar no G4?

***

A respeito dessa derrota certa que o Internacional terá sobre o Cruzeiro no próximo domingo, cabe abordar um assunto que está sendo também desconhecido por todos.

O Internacional jogou com reservas contra o São Paulo, desinteressando-se completamente do resultado do jogo e perdendo com serenidade, em face de que desfavorecia o Grêmio para a conquista do título. Isto todo mundo sabe.

E todo mundo sabe que o Internacional vai também perder para o Cruzeiro no próximo domingo, desfavorecendo o Grêmio na pretensão de disputar a Libertadores no ano que vem.

Perfeito, ninguém discute o direito dos dirigentes colorados de decidir que vão perder para o São Paulo e para o Cruzeiro, com a finalidade de desfavorecer o Grêmio.

Ou seja, por esse deslize ético, os dirigentes colorados ficam impunes.

Já com o treinador Tite não acontece o mesmo. Ao participar da decisão de jogar com reservas e sem aptidão e vontade para ganhar contra o São Paulo e o Cruzeiro, para ralar o Grêmio, Tite fica impedido para sempre de treinar o Grêmio.

Quem participa obedientemente, ciosamente, desse desinteresse em ganhar de adversários decisivos do Grêmio, tanto para o título quanto, agora, para a Libertadores, não pode mais treinar o Grêmio.

Sinto, mas foi um risco calculado que o Tite correu.

Não vai amanhã ou depois o Tite treinar o Grêmio depois de ter integrado um consórcio que detalhadamente não ganhou de dois adversários do Grêmio em momento decisivo, por desinteresse ostensivo e objetivo deliberado de desfavorecer o Grêmio.

Se o Tite vir a treinar o Grêmio, juro que deixo de ser gremista.

Porque o Internacional, sob o comando de Tite, tinha o dever moral de esforçar-se para ganhar do São Paulo e do Cruzeiro.

Eu sei que foi decisão dos dirigentes do Internacional jogar assim sem vontade contra o São Paulo e o Cruzeiro. Não foi decisão do Tite.

Mas o Tite executou o plano.

Então, para o Tite não tem nunca mais vaga no Grêmio.

***

Já tinha gente querendo ocupar minha coluna com direito de resposta caso o Grêmio fosse campeão, contra o meu pessimismo.

Não é pessimismo. Isso é consciência de que torço para um time muito ruim, que segundo a lógica só por um aborto da natureza pode ser campeão.

E quase foi campeão o Grêmio, é incrível mas quase foi campeão, o que teria sido uma oferta generosa ao meu coração.

Mas um atentado violento contra o meu cérebro.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Adeus, título!

24 de novembro de 2008 67

Um time para ser campeão não pode, na antepenúltima rodada do Brasileirão, sofrer a derrota que o Grêmio sofreu ontem. Isso só atesta o despreparo do time gremista para este campeonato.

Pelo menos eu estou consolado, pois a liderança que o São Paulo sustentava até ontem era ilegítima, fruto de um roubo, de um gol anulado. Mas, agora, o São Paulo tem cinco pontos a mais que o Grêmio.

E a entrada na Libertadores será difícil. Qualquer criança, qualquer louco, qualquer alienado sabe que o Internacional vai perder o jogo contra o Cruzeiro. Mas o Tite me paga! Ele não pode mais treinar o Grêmio.

Confira o meu comentário no JA:

 

Postado por Sant`Ana