**Por Rosane Tremea
Você não o enxerga, mas ele tem uma das vistas mais privilegiadas de Porto Alegre. Se já passou pela ponte do Guaíba, talvez até tenha reparado numa pequena cabine envidraçada junto a uma das torres do vão móvel, mas é pouco provável que tenha percebido sua presença.
É assim, de forma quase anônima, que Avelino Corrêa reina. É ele quem há 33 anos opera o vão móvel da ponte, uma operação complexa que Avelino executa de olhos quase fechados. Os 58 metros de vão, 400 toneladas de concreto, são erguidos a uma velocidade de quatro metros por minuto. Têm de ser acionados sempre que surge no horizonte um barco com mais de 10 metros de altura. Cada operação para erguê-lo, a uma altura máxima de 24 metros, demora em média 23 minutos.
Para Avelino, 75 anos, 46 de trabalho na ponte, entre a casa de máquinas e a operação, é pouquinho. Para os motoristas que vêm ou vão à zona sul do Estado, uma eternidade. Às vezes tranca, como ontem, irritando os motoristas. Avelino fica calmo.
Não que Avelino não se importe ou não tenha noção do que significam 23 minutos quando o que passa é uma ambulância, por exemplo. Ou do entrave à vida de quem mora ou trabalha de um lado ou outro. Ou de quem tem horário para tomar ônibus, avião, para uma entrevista de emprego... Vinte e três minutos podem representar muito.
Mas é que Avelino conhece tão bem aquele mecanismo, operado até três vezes por dia, que tudo parece muito simples. Ele não quer atrapalhar a vida de ninguém, Deus me livre. Avelino não é do tipo saudosista, que acha que tudo deve ficar como está há 50 anos – o tempo de vida da ponte, completado no último domingo. Ele também entende que aniversário é tempo de renovação, e de acreditar no projeto de uma nova ponte.
Pois que venha a ponte nova, defende Avelino. Que a antiga continue operando, como ele diz, “para quem não tem pressa”. Não pensasse assim, ele poderia estar agora em casa, de pantufas, ao lado da eterna companheira, Terezinha, um casamento tão longo como o seu com o vão móvel. Não pensasse assim, ele poderia se dedicar aos bailes da terceira idade, por onde circula de lenço de seda no pescoço e anel de rubi na mão esquerda. Não pensasse assim, desde a aposentadoria, em 3 de novembro de 1997, poderia acordar tarde, se dedicar aos netos, herdeiros dos quatro filhos.
Mas não. Avelino acorda cedo todos os dias, em Canoas, toma o trensurb, caminha 20 minutos desde a Estação Farrapos até seu castelo envidraçado no vão móvel, dá expediente das 8h às 17h, de segunda a sexta, e faz plantão nos finais de semana.
Que venha então a ponte nova, porque Avelino é um homem em dia com seu tempo. Com qualquer tempo. O telefone celular é de última geração e, de dentro de sua mochila, guardada no armário da cabine, sai uma moderníssima câmera digital. Para que a máquina fotográfica? Nada em especial. Ele gosta.
A câmera está sempre junto. Não essa, uma outra, das antigas, fotografou um quase acidente. Ele fez a sequência do barco chegando, chegando, chegando. Não bateu, mas podia ter sido grave. Se tivesse acontecido, as fotos de Avelino estariam no inquérito. Mas não é por isso que ele fotografa. Os acidentes, todos os desses 46 anos, estão nos registros da memória quase fotográfica.
Também estão em suas lembranças imagens que qualquer um preferiria esquecer, como o afogamento do colega Euclides, em 1970. Com ele, nunca aconteceu nada. Avelino nunca se machucou, em 46 anos.
— Não me aventuro — diz, achando isso o suficiente para evitar acidentes.
Ele acha que é por aventura, às vezes distração, que os acidentes acontecem. Um do qual lembra foi com uma moto, sempre afoitas na hora de o trânsito fechar ou abrir. Um dia, um policial numa moto, com uma moça na garupa, tentou passar quando 50 centímetros da ponte já estavam erguidos. Se esborrachou no concreto do vão móvel. Teve de ficar ali, esborrachado, até que a operação se completasse.
Visto assim, com a distância do tempo, só na memória, fica engraçado. Na hora, não é. Pior, e muito triste, são outras cenas, por sorte agora raras. Um dia Avelino viu um carro bonito, grande, parar sobre a ponte. Não pode parar, mas o carro parou. Desceu uma mulher, bonita, bem vestida. Deu a volta no carro. Tudo rápido. A mulher só deu um passo sobre a mureta e se atirou. Avelino viu. Não pôde fazer nada. Dentro do carro, fechado, no banco de trás, uma cadeirinha de bebê. Triste.
— Quando alguém passa e fica olhando fixo para a água, pode chamar os bombeiros — diz a voz da experiência de Avelino.
Não que a ponte nova evite esse tipo de coisa, mas que venha a ponte nova. Ainda que o rei do castelo envidraçado tenha seu sucessor, Antonio, o filho de 37 anos que também trabalha com ele e mais três pessoas ali, Avelino não oferece resistências à ponte nova. Mesmo que já pudesse estar em casa de pantufas há muito tempo, Avelino não resiste às novidades e não se entrega ao que é adverso. Há dois anos, no dia 3 de janeiro, teve de fazer às pressas uma cirurgia para a retirada de um câncer no intestino. Consulta na quinta-feira, cirurgia no sábado, tudo às pressas. Não foi nada. Trinta dias de férias e lá estava ele de volta ao seu castelo envidraçado.
— A vida continua — resume. Simples assim.
Por isso, que venha a ponte nova.
*Texto publicado hoje em Zero Hora.
** Rosane Tremea, jornalista de Zero Hora, é a interina da coluna de hoje de Paulo Sant`Ana, que está de férias
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