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Posts de dezembro 2008

O castelo envidraçado de Avelino

31 de dezembro de 2008 5

**Por Rosane Tremea

Você não o enxerga, mas ele tem uma das vistas mais privilegiadas de Porto Alegre. Se já passou pela ponte do Guaíba, talvez até tenha reparado numa pequena cabine envidraçada junto a uma das torres do vão móvel, mas é pouco provável que tenha percebido sua presença.

É assim, de forma quase anônima, que Avelino Corrêa reina. É ele quem há 33 anos opera o vão móvel da ponte, uma operação complexa que Avelino executa de olhos quase fechados. Os 58 metros de vão, 400 toneladas de concreto, são erguidos a uma velocidade de quatro metros por minuto. Têm de ser acionados sempre que surge no horizonte um barco com mais de 10 metros de altura. Cada operação para erguê-lo, a uma altura máxima de 24 metros, demora em média 23 minutos.

Para Avelino, 75 anos, 46 de trabalho na ponte, entre a casa de máquinas e a operação, é pouquinho. Para os motoristas que vêm ou vão à zona sul do Estado, uma eternidade. Às vezes tranca, como ontem, irritando os motoristas. Avelino fica calmo.

Não que Avelino não se importe ou não tenha noção do que significam 23 minutos quando o que passa é uma ambulância, por exemplo. Ou do entrave à vida de quem mora ou trabalha de um lado ou outro. Ou de quem tem horário para tomar ônibus, avião, para uma entrevista de emprego… Vinte e três minutos podem representar muito.

Mas é que Avelino conhece tão bem aquele mecanismo, operado até três vezes por dia, que tudo parece muito simples. Ele não quer atrapalhar a vida de ninguém, Deus me livre. Avelino não é do tipo saudosista, que acha que tudo deve ficar como está há 50 anos – o tempo de vida da ponte, completado no último domingo. Ele também entende que aniversário é tempo de renovação, e de acreditar no projeto de uma nova ponte.

Pois que venha a ponte nova, defende Avelino. Que a antiga continue operando, como ele diz, “para quem não tem pressa”. Não pensasse assim, ele poderia estar agora em casa, de pantufas, ao lado da eterna companheira, Terezinha, um casamento tão longo como o seu com o vão móvel. Não pensasse assim, ele poderia se dedicar aos bailes da terceira idade, por onde circula de lenço de seda no pescoço e anel de rubi na mão esquerda. Não pensasse assim, desde a aposentadoria, em 3 de novembro de 1997, poderia acordar tarde, se dedicar aos netos, herdeiros dos quatro filhos.

Mas não. Avelino acorda cedo todos os dias, em Canoas, toma o trensurb, caminha 20 minutos desde a Estação Farrapos até seu castelo envidraçado no vão móvel, dá expediente das 8h às 17h, de segunda a sexta, e faz plantão nos finais de semana.

Que venha então a ponte nova, porque Avelino é um homem em dia com seu tempo. Com qualquer tempo. O telefone celular é de última geração e, de dentro de sua mochila, guardada no armário da cabine, sai uma moderníssima câmera digital. Para que a máquina fotográfica? Nada em especial. Ele gosta.

A câmera está sempre junto. Não essa, uma outra, das antigas, fotografou um quase acidente. Ele fez a sequência do barco chegando, chegando, chegando. Não bateu, mas podia ter sido grave. Se tivesse acontecido, as fotos de Avelino estariam no inquérito. Mas não é por isso que ele fotografa. Os acidentes, todos os desses 46 anos, estão nos registros da memória quase fotográfica.

Também estão em suas lembranças imagens que qualquer um preferiria esquecer, como o afogamento do colega Euclides, em 1970. Com ele, nunca aconteceu nada. Avelino nunca se machucou, em 46 anos. 

— Não me aventuro — diz, achando isso o suficiente para evitar acidentes.

Ele acha que é por aventura, às vezes distração, que os acidentes acontecem. Um do qual lembra foi com uma moto, sempre afoitas na hora de o trânsito fechar ou abrir. Um dia, um policial numa moto, com uma moça na garupa, tentou passar quando 50 centímetros da ponte já estavam erguidos. Se esborrachou no concreto do vão móvel. Teve de ficar ali, esborrachado, até que a operação se completasse.
Visto assim, com a distância do tempo, só na memória, fica engraçado. Na hora, não é. Pior, e muito triste, são outras cenas, por sorte agora raras. Um dia Avelino viu um carro bonito, grande, parar sobre a ponte. Não pode parar, mas o carro parou. Desceu uma mulher, bonita, bem vestida. Deu a volta no carro. Tudo rápido. A mulher só deu um passo sobre a mureta e se atirou. Avelino viu. Não pôde fazer nada. Dentro do carro, fechado, no banco de trás, uma cadeirinha de bebê. Triste.

— Quando alguém passa e fica olhando fixo para a água, pode chamar os bombeiros — diz a voz da experiência de Avelino.

Não que a ponte nova evite esse tipo de coisa, mas que venha a ponte nova. Ainda que o rei do castelo envidraçado tenha seu sucessor, Antonio, o filho de 37 anos que também trabalha com ele e mais três pessoas ali, Avelino não oferece resistências à ponte nova. Mesmo que já pudesse estar em casa de pantufas há muito tempo, Avelino não resiste às novidades e não se entrega ao que é adverso. Há dois anos, no dia 3 de janeiro, teve de fazer às pressas uma cirurgia para a retirada de um câncer no intestino. Consulta na quinta-feira, cirurgia no sábado, tudo às pressas. Não foi nada. Trinta dias de férias e lá estava ele de volta ao seu castelo envidraçado.

— A vida continua — resume. Simples assim.

Por isso, que venha a ponte nova.

*Texto publicado hoje em Zero Hora.

** Rosane Tremea, jornalista de Zero Hora, é a interina da coluna de hoje de Paulo Sant`Ana, que está de férias

Postado por Rosane Tremea

Os Coen e o robalo

30 de dezembro de 2008 15

**Por Moisés Mendes

“Havia um desconforto silencioso no cinema na noite em que fui ver Queime Depois de Ler. O filme dos irmãos Coen começa com o John Malkovich caminhando num corredor da CIA. Malkovich apareceu atarracado. A cena continuava numa sala em que todos ficam gordos, e o filme seguia adiante assim, com imagens esgarçadas. Tinha minha mulher ao lado para compartilhar meu espanto. Os Coen enlouqueceram, eu disse. Virgínia me consolou: mas faz tempo.

Percebemos que também as legendas eram gorduchas. Os Coen estariam interferindo até nas legendas, esses malucos? Esparramou-se na sala a paralisia do estranhamento. Era um defeito na projeção, claro. Ou não? Quem tomaria a iniciativa de bater os pés no chão, como se fazia nas matinês do Cine Continente, no Alegrete? E se fosse uma sacada do Coen? Quem pagaria o mico?

Umas cem pessoas quietas, como se confrontassem suas ignorâncias com a genialidade, como acontece quando ficamos diante de fios de tricô dependurados num teto dessas bienais. Os Coen estavam esgarçando o cinema, e um sentido deveria haver naquilo. Se o mundo ficou plano, o cinema teria ficado esgarçado? Por que teriam escolhido logo uma sala de Porto Alegre para passar a idéia de que a arte deveria ser achatada?

E eis então, uns 10 minutos depois, que a projeção volta ao normal e ouve-se um uhhh no cinema. Que viessem os Coen. E vieram com tudo. Arapongagem profissional e amadora, logro, blefe, a idiotia da CIA. A personagem de Frances McDormand repete que alguém precisa tomar uma atitude, como se pedisse para que pusessem ordem no próprio roteiro. Uma secretária eletrônica programada para ouvir falas de clientes de um plano de saúde não consegue decifrar nem o yes de Frances. Um legítimo Coen sobre a estupidez.

Quando saímos do cinema, vimos o Verissimo e a Lúcia na fila. Pensei em alertá-los para a possibilidade de repetição da tela esgarçada das primeiras cenas. E se cometesse uma gafe? Se o Luis Fernando me diz que aquilo é um truque dos Coen, o grande truque do cinema em 2008? Me afastei, sempre olhando para os Verissimo, me interrogando se não tinha o dever de avisá-los. Os Coen nos põem em cada dilema.

Fomos jantar num restaurante do shopping onde fica o cinema. Depois de um Coen, é preciso distensionar. Os pratos eram individuais. Pedimos dois, um peixe e um ravióli. Decidimos que naquele dia iríamos pagar bem porque merecíamos comer bem. Num prato, apresentou-se um retângulo de robalo pouco maior do que um Chokito. No outro, 15 trouxinhas de ravióli. Nos tensionamos de novo. O peixe solitário estava envergonhado, sem nenhuma proteção, nu, sem um trevinho de salsa ao menos. As massas, longe uma da outra, pareciam dizer: cada uma no seu quadrado. Cortamos com dó o peixe ao meio, repartimos o ravióli (eu fiquei com oito trouxinhas). O vazio daqueles pratos era tão ameaçador como o vazio de uma bienal, com a desvantagem de que não tínhamos nem o direito à controvérsia pública.

Ou seria uma brincadeira do restaurante com os Coen? Fomos parar num ambiente temático? Pedi de volta o cardápio para ver se havia um prato à moda Fargo ou algo como encontre-o-ravióli-e-descubra-quem-não-morre-no-filme-dos-Coen. Nada. Bebi duas cervejas long neck. Corremos o risco de pedir dois cafezinhos. Pagamos R$ 92,40. E sem a salsinha no robalo ou um queijinho ralado no ravióli. Senti pena de nós e do peixe.

Pensamos em alertar o maître: não deixe um robalo tão sozinho nesse período sensível de fim de ano, ou enturme mais os raviólis. Aviso ou não aviso? E se o homem me persegue como o Brad Pitt no filme dos Coen? Desisti.

Na saída, vimos Verissimo e Lúcia caminhando no estacionamento. Vinham felizes com o cinema esgarçado dos Coen. Se fossem em direção ao restaurante, iria alertá-los para o robalo. Passaram reto. Fomos embora confusos como os agentes da CIA do filme, pagos para não entender quem matou, quem morreu e por quê. Até a CIA faz mais sentido do que a solidão de um robalo. Se a vida não vale nada nos filmes dos Coen, por que um naco de robalo e uma dúzia de raviólis custam tanto? E tem gente que paga. E ninguém toma uma atitude.”

*Texto publicado hoje em Zero Hora.

** Moisés Mendes, jornalista de Zero Hora, é o interino da coluna de hoje de Paulo Sant`Ana, que está de férias

Postado por Moisés Mendes

Dor e conquista em 2008

29 de dezembro de 2008 14

Pouya Dianat, AP, Banco de Dados

Nesta época do ano, é comovente e construtiva a leitura do e-mail abaixo. Eduardo Larrion conta como foi seu 2008:

“Ao final deste ano de 2008, me vejo obrigado a repassar minha história. Não que ela tenha muita importância, mas se pudesse servir de estímulo a alguém, seria para que jamais desistam.

Sou natural do sul do Estado, cresci na cidade do Chuí e, em 2002, concluí meu 2º grau. Sem perspectivas na minha cidade, logo procurei novos objetivos. Em 2003 cheguei a Porto Alegre apenas com uma mala, sem conhecer ninguém. Tenho uma tia que me ajudou — apesar de muito humilde, por vezes foi meu socorro.

Como não tinha formação alguma, o único emprego que consegui foi de porteiro, no Senai da Avenida Assis Brasil. Lá fiz meu primeiro curso de Informática Básica, e logo consegui trabalho num banco como monitorador, na área da vigilância, para melhorar meus rendimentos e poder fazer meu curso técnico. Nesta época quase não visitava minha família devido às dificuldades. Foi estranho: fiz meu curso técnico sem nem mesmo ter computador. Eu tinha de ir fardado às aulas, e sempre chegava atrasado por conta do meu serviço.

Em 2006 consegui ingressar na área da informática, como atendente de callcenter numa multinacional. Naquele momento a faculdade ainda era inacessível, por isso fiz uma especialização pós-técnica em redes (de computadores). Logo estava atendendo as redes da empresa. Ainda no final de 2007, fiz curso de liderança e, em dezembro daquele ano, ganhei uma oportunidade na equipe SAP (linguagem de desenvolvimento de sistemas e programas) da empresa.

Atravessando um momento muito difícil na minha vida sentimental, no início de 2008 me separei da pessoa que amava e, para poder cursar a faculdade na Unisinos, fui morar num pensionato em São Leopoldo. Aos seis meses como programador SAP, conquistei a certificação SAP e me tornei um consultor certificado. Consegui deixar a pensão e voltar a ter meu próprio canto. Fui para Goiás, participando de um projeto — o que me deu maturidade profissional — e, em dezembro de 2008, comprei meu primeiro carro. Zerinho!

Comecei 2008 sem casa, só com a roupa do corpo e, no final do ano, me sinto mergulhado em bênçãos. Minha historia não tem nada de especial, mas se pode passar algo de construtivo, é: nunca desista. Agradeço a Jesus por ter me sustentado durante todo esse tempo.”

Postado por Equipe zerohora.com

Prazeres perdidos

29 de dezembro de 2008 6

Por Marcelo Rech

Por favor, olhe de novo ali em cima. Ocupa este espaço aqui o primeiro dos interinos de Paulo Sant`Ana durante as suas mais que merecidas férias. E ao fim de um ano, estréio o inquilinato com uma contabilidade de prazeres passados que, a exemplo de 2008 e do acento em estréio, não voltarão mais. Por razões óbvias, encabeça minha relação publicada nesta coluna emprestada por Pablo um prazer cada vez mais solitário e, com toda a razão, me desculpe Sant`Ana, rejeitado pela sociedade.

Fumar — Faz um mal desgraçado, não se tenha dúvida. Mas amaldiçoar o cigarro não o apaga e nem a memória da fumaça invadindo o pulmão, ou da nicotina entorpecendo os nervos para aplacar a vontade. Quem fumou por muitos anos (no meu caso, parei há nove anos, quatro meses, 12 dias, sete horas e 14 minutos) sabe quão prazeroso era ver a brasa ardendo a cada tragada. Claro, não vamos recordar aqui da tosse, da pele amarelada, dos dedos manchados, da perda de paladar, da falta de ar, da ameaça de enfisema, câncer… Foi bom, quero dizer, foi ruim. Acabou, finito. Fumar hoje é coisa de pária, de quem se dispõe a ser escorraçado de ambientes com ar puro para se enfurnar em saletas fedorentas e saciar sua sanha. Coisa feia. Xô.

Fumar em avião — Sei, você não era fumante e tinha vontade de atirar pela saída de emergência, a 33 mil pés, aquele sujeito que se embevecia com a brasa ao seu lado. Mas se você fumou em avião sabe no que se convertia aquele fundão assim que se apagava a luzinha com a figura do cigarro proibido. Era uma sólida nuvem de fumaça a unir uma tribo que tinha vontade de uivar quando o fumacê era acompanhado por um uísque e jornal de graça. Never more, em nome da civilidade e da saúde.

Ovo frito — Esse o Luis Fernando Verissimo já içou há muito tempo ao topo dos prazeres perdidos, mas seguirá pela eternidade como um clássico. Aquela gema escorrendo pela gelatina branca da clara e se esparramando pelo prato à espera de macular a alvura do pão é uma cena de arrancar lágrimas de saudade. Restou, é claro, a clara. Isso se você não se importar com a fritura ou com algo que ainda vão acusar nas manchinhas queimadas da insossa clara frita.

Reunião familiar para ver TV — Não tinha MP3, videogame, DVD, banda larga e nem 134 canais ou telas nos quartos e na cozinha. Era quase como assistir a uma fogueira. Programação de dois ou três canais na única TV no lugar de honra da sala. Zero opção, mas era um momento de união da família, que ria e chorava das mesmas coisas. Agora, um amigo meu que quer conversar com os filhos adolescentes e a mulher está planejando uma lan house para sua sala. Pensa em colocar ali umas baias, uns computadores, monitores de TV LCD e ligar tudo em rede. Conexão familiar do futuro.

Passear à noite — Antes do toque de recolher, seres humanos que habitaram estas terras no passado caminhavam pelas ruas depois que o sol se punha. No verão, davam voltas na quadra após o jantar e respiravam o ar fresco da noite. Encontravam vizinhos e conversavam nos portões por horas a fio. As balas perdidas eram entregues às crianças, para alegrar os pequenos. Ok, eu sei, não chore. Foi bom, mas esse é um prazer que não podemos dar por perdido para sempre. Só estamos momentaneamente exilados. Um dia voltaremos a pisar nosso solo.

Vigiar o mercado — Mesmo que você não tivesse um tostão furado aplicado, reconfortava ver as ações subindo e o dólar caindo. Esse era o Brasil que seguia para a frente e para o alto, com desemprego em queda e investimentos externos em massa. Íamos flutuar numa nuvem de fartura, mas devíamos ter desconfiado quando a manteiga belga passou a freqüentar a prateleira dos supermercados. Você tinha seu FGTS aplicado em ações da Vale ou da Petrobras e não vendeu lá atrás? Ninguém vendeu. Não há por que se lamentar pela manteiga importada. A luxúria e a lascívia financeiras foram a Sodoma e Gomorra do planeta. A chuva de fogo que cai agora sobre todos há de redimir os mercados.

Revelar filme — A gente clica cem fotos por dia de férias e não paga nada a mais. Mas perdemos o prazer de escolher cuidadosamente a cena, selecionar com esmero o enquadramento para não torrar filme e de pagar o mico de pedir “digam cheese”. Depois, era passar na lojinha de fotografia, esperar ansiosamente alguns dias e não agüentar até chegar em casa para abrir o envelope e descobrir que, bem, algumas fotos tinham ficado desfocadas e escuras mas outras haviam se salvado para o álbum. Sumiu o negativo. Sumiram também muitas lojinhas. Só ficou a expressão “queimar o filme”.

Cavar buraco na praia — Caminhe pela beira da praia e você ainda topará com alguns esquadrões de pais e filhos cavoucando na areia, na torcida por encontrar água e dar início aos reservatórios onde nadarão tatuíras por amestrar. Os cavadores são os heróis da resistência do movimento dos esburacadores, a última barreira contra a sujeira na areia e a ofensiva dos camelôs das ondas, dos vendedores de óculos, saídas de praia, queijo derretido, castanhas, paella (paella por enquanto não?). Atenção, cavoucadores das águas salgadas. Não abandonem de vez esse prazer paterno-infantil com receio de serem pisoteados pelos vendedores da beira de praia. Esse é nosso território. Não o cederemos sem combate.

Comprar algo diferente no Exterior — Sim, crianças, já houve um tempo em que quando um parente melhor de vida viajava ao Exterior trazia-nos presentes das mil e uma noites, brinquedos e novidades nunca antes sonhados no Brasil. Ir para fora era a chance de comprar coisas diferentes, de se surpreender com roupas, suvenires e outros objetos impensáveis. Acabou. Tudo agora é Made in China mesmo. Não há nada para pôr na bagagem em San Francisco que já não esteja à venda nas ruas de São Paulo a Capão da Canoa, provavelmente por preço mais baixo. Melhor assim. Agora quando se viaja, a diversão está em se trazer recordações, experiências e imagens únicas.

 E para você, quais são os prazeres perdidos do passado?

*Texto publicado hoje em Zero Hora.

Postado por Marcelo Rech

Doe seus órgãos

27 de dezembro de 2008 12

Pensando bem, nós somos uns heróis. Estamos deixando para trás 2008 e permanecemos intactos, na trincheira, na luta pela vida.

Sobrevivemos aos assaltos, à aids, às drogas espalhadas por toda a nossa volta, aos presídios à míngua de recursos para os presos, o que impede que se mande para dentro das cadeias gente que insiste em assaltar cada vez mais, à alta violenta do dólar, à queda violenta de mais de 70% no preço internacional do petróleo sem nenhuma queda no preço que se paga pelos combustíveis nas bombas, o que é inexplicável, ainda mais sabendo-se que os países vizinhos ao Brasil mantêm preços bem mais baixos do que os nossos para a gasolina.

***

Sobrevivemos aos pedágios, somos um povo heróico. Pagamos cerca de R$ 1 mil por uma carteira de motorista, preço inédito em todo o mundo, nem sei como os motoristas profissionais que querem se iniciar em seus ofícios conseguem resistir a este preço, uma extorsão inominável até para os motoristas amadores.

Pagamos a gasolina mais cara do mundo e a carteira de motorista mais cara do mundo, os juros nossos são os mais altos do mundo, ou os segundos mais altos do mundo, e o povo brasileiro continua bravamente comprando a crédito a sua habitação, o seu carro, a televisão. Nem sei como essa gente estóica resiste a tantos preços altos, no caso dos juros altíssimos por longos meses e anos, que é esse o tempo que o povo pobre leva para comprar a sua televisão, a sua máquina de lavar roupa, o seu fogão, em intermináveis e perversas prestações.

***

Mas nos salvamos, vamos entrar 2009 sobreviventes, principalmente os mais pobres, de preços desumanos nas passagens de ônibus. Passagens que o povão paga todos os dias, às vezes quatro passagens por dia, para se deslocar de casa para o serviço ou de casa para procurar emprego. Sem falar nas passagens de ônibus intermunicipais e interestaduais, que custam aqui no Brasil de três a quatro vezes mais que no Uruguai, isso que o salário mínimo no Uruguai é muito maior que o do Brasil.

Somos sobreviventes, o que me espanta, de filas intermináveis no SUS para as consultas e para as cirurgias.

Muitos morreram nessas filas, mas nós sobrevivemos.

Somos sobreviventes, incrivelmente, de pessoas que estão morrendo nas filas de transplante, basicamente porque os vivos, quando ainda vivos, se omitem lamentavelmente ao não doar os seus órgãos.

Muita gente está morrendo – e me chegam as notícias todos os dias – porque não são doados fígados, a fila do transplante de fígado e de outros órgãos é dramática e se torna cruciante para os maridos, para os pais e para os filhos dos candidatos a transplante, que a medicina esteja apta a transplantar todos os órgãos necessários, mas não há órgãos, porque nós não nos inscrevemos para sermos doadores.

Esta é uma das maiores perversidades a que nós sobrevivemos. Porque os acidentes de trânsito estão todos os dias matando gente nas estradas e nas ruas, e os órgãos desses mortos não são transplantados por insensibilidade nossa. Eu diria crime nosso. O nosso mais deplorável desperdício.

Como é que não nos organizamos ainda, incrivelmente, para abastecer de órgãos os hospitais de transplante, morrendo os da fila à míngua, sem esperança, sabendo que vão morrer porque inacreditavelmente não conseguimos ainda derrubar a muralha da omissão em doar órgãos.

Pelo amor de Deus, meus leitores, doem seus órgãos. Milhares de pessoas morrem por não haver órgãos para serem transplantados.

É uma morte seca, acompanhada de uma agonia física e psicológica irresistível.

Pelo amor de Deus, gaúchos, doem seus órgãos. Não imaginam o calvário que passam os que estão na fila do transplante e seus parentes! Que calvário! E que fim que causa remorso perpétuo!

***

E assim vamos sobrevivendo a tantos infortúnios, que sei agora por que o brasileiro não se assusta com essa crise econômico-financeira que se anuncia: quem passa por tudo isso que passamos e permanece vivo – e lutando –, pronto para viver 2009, não tem medo de crise nenhuma.

Qualquer crise que vier será só uma, em seguida vai passar.

E os obstáculos que se antepõem às nossas vidas são múltiplos. E nós ultrapassamos até agora todos eles.

Somos destemidos e lendários sobreviventes.

*Texto publicado na página 39 de Zero Hora dominical

 

Postado por Sant`ana

Dever cumprido

27 de dezembro de 2008 6

Queridos, não é possível fazer mais nada. Agora sei por que estes dias de Festas são tão arrastados, longos, melancólicos.

É que se convencionou que dezembro era o fim do ano. E nada funciona no fim do ano, desde as repartições públicas, desde as escolas, nas ruas restam poucos pedestres e carros.

É que todos acham que esta etapa terminou. Não é que não sejamos capazes de dar mais: é que tudo que ainda somos capazes de dar, dá-lo-emos, mas no ano que vem.

***

Pára a Justiça, a não ser nos casos urgentes, pára a polícia, a não ser nos casos urgentes, pára o governo, param os cidadãos, pára tudo neste fim de ano, todos já deram o seu quinhão, há no ar uma sensação de dever cumprido.

É aquilo que se pode chamar de lassidão. Lasso está quem não tem mais nada a fazer.

***

Como não há nada mais a fazer, o certo e aconselhável é entrar em férias. E tentar recuperar as forças para voltar a fazer tudo depois das férias.

Por isso é que se chama o ano que vem de Ano-Novo. Este ano já está velho, a ele só cabe carregar esperanças.

Vai daí que entregues à terra e ao cimento durante o ano inteiro, as multidões querem agora arremessar-se para as águas do mar, dos rios, dos lagos, uma ânsia de verde e de natureza nos domina.

Felizes os que podem ainda mudar de ambiente neste fim de ano.

E retemperar suas energias para um ano inteiro que vem pela frente, a julgar pelos noticiários.

***

Agora é de espreguiçar-se. Os privilegiados hão de achar uma sombra larga de árvore, usando chinelos ou alpargatas, sem camisa, só de calção ou de bermudas, uma caipirinha, uma cervejinha bem gelada, saboreando talvez um leitão assado que foi criado na Granja Fontana, lá da cidade de Charrua, ou então o cordeiro mais saboroso do Estado, criado pelas Organizações Pitangueiras de Itaqui, uma gentileza de que jamais me esquecerei depois de ter sido brindado quando lá estive.

Que cordeiro o de Itaqui, sinto dizer que bateu de goleada o já célebre cordeiro da fazenda de Afonso Motta, no Cerro do Dinheiro, Serra do Caverá, Alegrete.

Afonso tem a humildade de admitir que a carne de Itaqui é melhor. A carne do Alegrete é divina. Mas a carne de Itaqui foi criada pelo Colégio dos Apóstolos.

Eu falo assim porque sou, como consumidor, o maior connaisseur de carnes no Rio Grande do Sul.

E vamos transpor essa lassidão do Ano-Novo e encarar a crise anunciada da seguinte maneira: se a crise vai ser dura, ela saberá que nós vamos ser melhores.

***

Sempre há pessoas anunciando que perderam cães. Agora, aqui comigo, é o contrário: a leitora Renata Behrends achou um cão labrador nas imediações da Avenida Carlos Gomes com Avenida Bagé.

Ela entregou-o para cuidados a uma clínica veterinária, mas precisa com urgência encontrar o seu dono. O labrador está em uma gaiola e necessita de liberdade e de dono.

Ele é de cor champanha, é adestrado e atende a vários comandos. Muito dócil.

Se não encontrar o dono, Renata quer doá-lo a alguém. O que não pode é ele ser entregue ao centro de zoonoses.

Os telefones de Renata são 9602-9651 e 9319-3100.

Sabe-se lá se o dono do cão não está desesperado à procura, sentindo falta dele.

* Texto publicado hoje na página 39 de Zero Hora

Postado por Paulo Sant`Ana

Dirigir é uma solenidade

25 de dezembro de 2008 6

Estou impressionado a dias com as mortes no trânsito brasileiro que, provavelmente, vão prosseguir até o ano-novo. O que falta é responsabilidade. As pessoas devem se conscientizar que dirigir é uma solenidade!

Confira a minha participação no Jornal do Almoço de hoje:

Postado por Sant`Ana

Queda na imagem da Petrobras

24 de dezembro de 2008 62

O ano termina com uma péssima imagem da Petrobras junto ao povo brasileiro.

Desde que foi fundada a Petrobras, em meados do século passado, o sentimento que o povo brasileiro lhe dedicou foi o de orgulho.

E o auge deste regozijo cívico dos brasileiros com a sua estatal de petróleo se verificou quando o presidente Lula anunciou, poucos anos atrás, que finalmente o Brasil se tornara auto-suficiente em petróleo.

O índice de produção tão sonhado pelo Brasil tinha sido atingido. E, evidentemente, os brasileiros ambicionavam se beneficiar da independência energética do país, pagando menos pelos combustíveis e vendo catapultado o seu desenvolvimento por não ter mais que gastar divisas com a importação de petróleo.

***

Mas o que se viu foi de desanimar os brasileiros e de fazê-los encarar a Petrobras com desconfiança e até desprezo pela sua sorte.

Quem é que vai se entusiasmar entre o povo com o início da exploração pela Petrobras da camada de pré-sal se, autoritariamente, a Petrobras e o governo não diminuem um centavo no preço dos combustíveis, sabendo-se que nos últimos cinco meses o preço internacional do barril de petróleo baixou em assombrosos 73%?

***

É de doer na alma que os brasileiros não sejam beneficiados nem pela auto-suficiência, nem pela queda espantosa do preço do petróleo.

Olhamos com inveja a Venezuela e a Argentina repassarem para seus povos preços concretamente acessíveis, enquanto a Petrobras fixa para os combustíveis que vende no Brasil índices perversos que se situam entre os mais altos do mundo.

Basta dizer que os EUA repassaram integralmente para seus consumidores a queda de 73% no preço do petróleo.

E, no Brasil, nada. Continuamos a pagar pelo nosso diesel e pela nossa gasolina valores extorsivos, que tanto exploram até o escorchamento o consumidor nacional quanto colaboram decisivamente para o marasmo da nossa economia, que proporcionaria um salto de desenvolvimento extraordinário ao país se o governo aproveitasse esse momento de crise prenunciada para reduzir os preços dos combustíveis.

***

A política, no entanto, é de tornar rica a Petrobras, mesmo que seja à custa da pobreza do povo brasileiro.

Dane-se o pré-sal se sua exploração somente servir para o enriquecimento da Petrobras e do seu funcionalismo extraordinariamente bem pago e bem servido em sua previdência privada, enquanto o povo brasileiro e a nação não se beneficiam dos lucros extraordinários da estatal que era tão querida por todos nós, mas que, por essa política de não-compartilhamento de seus lucros com o povo e com a economia nacional, cada vez mais se distancia sentimentalmente da população.

É muito triste manter o preço dos combustíveis nos postos de gasolina quando o preço de mercado, exatamente o centro do argumento da Petrobras quando elevou até as nuvens os preços dos combustíveis, cai inexoravelmente a um nível assustador.

A sensação que temos com a Petrobras é de que estamos sendo explorados por ela.

Alguém vai ter que tomar providências para mudar radicalmente a imagem triste que a Petrobras está adquirindo junto ao povo que a ergueu.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Não há trânsito mais homicida que o brasileiro

23 de dezembro de 2008 24

Morrem 35 mil pessoas no trânsito por ano no Brasil. É uma carnificina! Não é possível morrer tanta gente assim.

A Lei Seca não está fazendo efeito! As pessoas continuam bebendo e dirigindo. Conseqüentemente, continuam matando no trânsito. Essa compulsão de chegar na frente vai ter que acabar. É essa consciência que vai ter que dominar essa passagem de ano.

Confira o meu comentário de hoje no Jornal do Almoço:

Postado por Sant`Ana

O melhor remédio para vencer a crise é gastar

23 de dezembro de 2008 10

Eu cheguei a achar que seria uma irresponsabilidade o presidente falar para que as pessoas continuassem gastando, fazendo compras, nessa época de crise, pois o melhor, nesse período, seria que as pessoas poupassem para prover mais tarde, nas ocasiões difíceis.

Mas não é que o FMI aconselha o planeta inteiro a gastar? O mundo está precisando que as pessoas consumam.

Veja mais sobre o assunto no meu comentário de hoje no JA:

Postado por Sant`Ana

Os sobreviventes

23 de dezembro de 2008 3

Estava eu esperando, como sempre faço há muitos anos, a hora da minha entrada no Jornal do Almoço, quando anunciaram um músico e cantor nativista: João Chagas Leite.

Fiquei vendo e ouvindo ele dedilhar o violão e cantar a sua música. Mais atentamente notei uma anormalidade na sua mão direita: ele simplesmente não tinha mão.

Perguntei o que lhe tinha acontecido e ele me disse que nascera assim, só as unhas da mão direita e um toquinho do dedão.

Mas como é que podia tocar violão aquele homem sem mão? Como é que ele conseguira segurar o braço do violão com a sua mão direita e dedilhar as seis cordas com aquele toquinho de dedão esquerdo?

***

Ele me disse também que já gravou 13 CDs. Mas que força extraordinária levou este homem descontado fisicamente a dar a volta por cima e se tornar um artista reconhecido no meio nativista?

Parece que estou vendo, ele foi levando a vida em frente, nunca deve ter se queixado do destino, a vida lhe deu um limão e ele fez uma limonada.

São uns heróis estes sobreviventes. Lembro-me de um pensamento magistral de um grande autor: “Não importa o que fizeram de nós, importa o que nós fizemos do que fizeram de nós”.

Aquele cantor e violonista de sucesso é bem um exemplo de que muitas vezes a vida nos tira algo, mas não nos tira a essência. E o que importa é essa essência, com ela recobraremos tudo que possa nos ter sido tirado.

***

Dali a pouco, enquanto não chegava a hora de eu falar no programa, a Rosane Marchetti entrevistou um jovem bombeiro que tinha sido resgatado com vida de um salvamento de que participara no Vale do Itajaí, durante as chuvas que provocaram aquela tragédia.

Ele há poucos dias conheceu a morte de perto, soterrado enquanto salvava pessoas dos deslizamentos.

Viveu instantes em que imaginou talvez que não fossem resgatá-lo. Mas resistiu e acabou salvo.

Estava agora sendo entrevistado e me surpreendeu o que disse: “Agora não faço mais planos, não penso no futuro, agora só quero viver”.

***

Interessante. Aquele bombeiro retirado do fundo da lama, antes de cair no fundo daquele abismo e ver sua vida ameaçada, não tinha consciência do significado de sua vida.

Ele só foi perceber que vivia, ele foi só dar valor à sua vida quando quase a perdeu.

E agora só quer colher o momento que passa, tudo é lucro para ele.

Além disso, passa pela sua cabeça o quanto é frágil a existência humana, quanto é possível a qualquer instante que por qualquer circunstância sobrevenha a nossa morte.

Por isso então é preciso viver. Celebrar o que resta da vida.

É preciso viver com pressa de viver.

***

Existem os viventes e existem os sobreviventes. Os sobreviventes, como o cantor sem mão e o bombeiro resgatado, têm outra idéia da vida.

Os sobreviventes são os que passaram pelo grande susto, superaram-no com esforço destemido ou com sorte — e são superiores aos outros porque têm idéia nítida do que é a morte.

Por conhecerem a morte ou o grande desfavor, valorizam mais a vida que as pessoas que só tiveram até agora olhos para a vida e muitas vezes não sabem o que fazer dela.

Quem esteve à beira da morte ou já foi impactado pela desgraça, estes imprimem a seus dias um significado de maior conteúdo.

Os sobreviventes são diferenciados, têm consciência de que nada de pior pode vir a lhes ocorrer, eles já foram testados.

E estão aprovados para vencer na vida e para enxergar nelas delícias das quais não nos apercebemos.

Uma das experiências mais raras e mais ricas da vida é renascer.

Muito pouca gente percebe que não há outra forma de justificar-se na vida senão pela grande façanha pessoal do renascimento.

Uma coisa é aquilo para o que nascemos. Outra bem diferente — e só isso interessa — é o rumo diferente que designamos para nosso destino.

* Texto publicado hoje na página 71 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Nem sinal da crise

22 de dezembro de 2008 16

Final de semana foi de lojas cheias na Capital/Mauro Vieira

A crise não afeta a procura de presentes por parte dos consumidores em Porto Alegre. O presidente do Sindicato de Dirigentes Lojistas da Capital estima um crescimento de 7% no faturamento das lojas, com relação ao ano passado, nesse período que antecede o natal.

Impressionante como a crise passa longe da Capital. Filas no shoppings, o comércio fazendo promoções de vendas, de carros, gente comprando e nada de crise. Acho que nem desemprego tem. É espantoso, pois é uma crise mundial, abrangente, sufocando as economias de todos os países e o RS está alheio. Que coisa fantástica. Que maravilha!!

Postado por Sant`Ana

Nós, vivemos. Essas pessoas sobrevivem!

22 de dezembro de 2008 3

No Jornal do Almoço de hoje, comentei a história de dois heróis gaúchos que foram feridos quando tentavam socorrer flagelados em Santa Catarina. Confira:

Postado por Sant`Ana

Gre-Nal na Libertadores

22 de dezembro de 2008 70

Mais uma vez as cúpulas do futebol brasileiro e sul-americano desfavorecem descaradamente a nós, gaúchos, antes, durante e depois das competições.

Quando atingem o Grêmio, eu berro.

Mas agora é o Internacional que é ferrado pela Conmebol, que acabou de lhe negar o direito de disputar a Libertadores do ano que vem.

Mas como? Já não tinha sido comunicado aos jogadores colorados, no vestiário, antes do jogo semifinal com o Boca Juniors, na Bombonera, que o Internacional ingressaria na Libertadores de 2009 se fosse campeão da Sul-Americana?

E os jogadores e dirigentes do Internacional se atiraram à busca do título diante da promessa, garantida pelo Wianey Carlet, de que disputariam a Libertadores.

E agora vem esta virada de mesa, que atinge em cheio os interesses do Internacional?

***

Sou gremista, mas não concordo. E protesto. Afinal, o Internacional jogou com seus titulares a Copa Sul-Americana. Botou reservas no Brasileirão, de olho na Libertadores.

E a torcida colorada chegou a dar, nas comemorações do título da Sul-Americana, uma importância aos festejos que eles não teriam se se soubesse que o vencedor da Copa não iria para a Libertadores.

E agora, com a taça na mão, que faz o Inter com ela, se os cartolas da Conmebol não o confirmam na Libertadores?

Eu me frustro, porque há muito tempo sonho com uma Libertadores de que participem Grêmio e Internacional, onde poderia haver o Gre-Nal do Milênio. Quebrei-me mais uma vez.

Mas, enfim, vamos para um 2009 interessante para a dupla Gre-Nal, o Internacional vai disputar o bi da Recopa, o bi da Sul-Americana, o Bi de Tudo.

E o Grêmio vai disputar o tri da Libertadores.

Essa é a diferença.

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Sou gremista, mas entendo que o Internacional merecia disputar a Libertadores do ano que vem.

Foi vitimado por uma quebra de palavra e de compromisso por parte da Conmebol.

Não foi desta vez que o Internacional conseguiu disputar mais uma Libertadores.

Mas ainda um dia haverá um Gre-Nal na Libertadores.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Virada de mesa

22 de dezembro de 2008 2

Recebo atenciosamente do professor Paulo Flávio Ledur, mestre da “última flor do Lácio, inculta e bela”, um interessante flagrante vocabular da nossa língua: até dia 31 de dezembro, quarta-feira que vem, portanto, vigorará uma palavra incrível: qüinqüelíngüe.

Deve ser a única palavra da língua portuguesa que tem três temas.

Pois dia 1º de janeiro perderá os três temas.

Qüinqüelíngüe quer dizer o que fala ou escreve cinco línguas.

Eu fico atento a esta reforma ortográfica não só porque sempre gostei da expressão idiomática como também porque não trabalho numa fábrica de anzóis ou numa oficina mecânica.

Eu trabalho em jornalismo há muito tempo, ofício que requer o manejo das palavras.

Por isso é que procuro me esmerar no máximo que posso em concordância, acentos, conjugações etc.

E fico então floreando o galo com o professor Ledur, que sabe tudo de gramática.

Aí enfia o bedelho no meu entrevero com o professor um guaipeca que há 40 anos utiliza em seus comentários “interviu” em vez de interveio, falecendo-lhe completamente a autoridade para se meter em briga de cachorro grande.

Era melhor que não tivesse intervindo, ouviu?

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana