Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

A nossa inundação

30 de janeiro de 2009 19

Ainda bem que são raros os leitores que reclamam do colunista de que ele se debruça sobre assuntos sinistros, entre eles a grave crise econômica que saiu pelo mundo a devorar empregos e ameaça chegar até nós.

Se há um espaço de atividade que não pode deixar de se ocupar com as tragédias é o jornalismo. Até mesmo porque as tragédias são acontecimentos singulares, elas irrompem no cotidiano e alarmam todos.

Se o jornalismo não for se ocupar de tragédias, irá se ocupar de quê? As notícias boas, os fatos agradáveis, estes são ingredientes de rotina, muitos deles passam até despercebidos.

Enquanto que o desastre é uma forte ruptura da normalidade. Todas as atenções se desviam para ele, tornando-se irrecusável ao jornalismo abordá-lo.

***

Vejam esta inundação que caiu anteontem e ontem sobre Pelotas, Capão do Leão, Arroio do Padre, Turuçu e São Lourenço.

Uma senhora narrava à Rádio Gaúcha, ontem, que às 20h de anteontem a água batia à soleira de sua porta, em Turuçu, a Terra da Pimenta. Já tinha envolvido a calçada e ameaçava penetrar na casa a enchente.

Pois, 10 minutos depois, a água já estava atingindo o pescoço daquela senhora, que teve de fugir às pressas, deixando o refrigerador, o televisor, o fogão, os colchões, as cobertas, os móveis todos a boiarem pelas peças. Notem a velocidade espantosa da água.

Uma tragédia que atingiu milhares de pessoas nos cinco municípios.

***

Em Capão do Leão, a fúria das águas atingiu a linha férrea, derrubou um trem de seus trilhos. Ao que constava ontem, o maquinista havia morrido afogado.

Na ponte sobre o Arroio Fragata, entre Pelotas e Capão do Leão, segundo narrativa de uma testemunha, três a quatro veículos, entre eles uma motocicleta, vinham pela estrada e foram acossados furiosamente pelas águas.

Os motoristas calcularam que se atingissem o vão da ponte se salvariam do outro lado.

Só que do outro lado as águas também fustigavam a estrada e a margem da ponte, ficaram encurralados.

Decidiram dramaticamente os motoristas permanecer homiziados em cima da ponte, esperando por melhor sorte.

Só que, se as águas estavam derrubando as duas margens da ponte, inevitavelmente elas acabariam também por derrubar a ponte, se ela estivesse ligada à terra pela estrada.

E tragicamente foi o que aconteceu: a ponte caiu sobre o arroio, levando juntos os passageiros dos veículos.

Até a hora que eu escrevia, ontem, tinham sido recolhidos dois cadáveres por afogamento, um casal que se refugiara dentro de um carro sobre a ponte.

A Defesa Civil estava à procura de outros cinco cadáveres, que estariam também sobre a ponte na hora da queda, inclusive o motociclista, segundo relato de uma testemunha.

***

Interrompeu-se completamente a ligação da Zona Sul pela BR-116, Capão do Leão ficou ilhada, somam-se aos milhares os desalojados, os desabrigados. Muitos perderam tudo com a inundação.

Como poderia furtar-me, não fosse pelo jornalismo seria pela compaixão, de voltar minha atenção para o drama grave de tantos conterrâneos?

Espera-se que a mesma solidariedade que os gaúchos tiveram recentemente com os catarinenses flagelados se verifique novamente com envio de alimentos, roupas, colchões, cobertas e outros itens para as localidades atingidas.

É muito triste e respeitável a dor dos gaúchos atingidos por esta inundação.

Estendamos as mãos a eles nesta hora.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Comentários (19)

  • Flávio diz: 30 de janeiro de 2009

    Tragédia vende jornal, né, gênio!

  • roberto silva diz: 30 de janeiro de 2009

    Numa coluna anterior, o senhor chamou a atenção para a quantidade de crimes barbaros que estão ocorrendo no estado, referindo-se a crimes de proximidade, entre vizinhos e conhecidos.
    Entre as causas para o aumento desses crimes, está um certo desprezo da policia por este tipo de problemas, pelo menos isso ocorre em Santa Cruz do Sul.

  • lauro julio koch diz: 30 de janeiro de 2009

    CAro Santana!Tenho feito alguns comentários frequentes sobre inundações e suas consequencias.Atrevo-me a escrever,que,famílias que são atingidas por essas tragédias,foram no mínimo imprudentes,ao construir seu lar,onde a água pode eventualmente chegar e lhes tirar,arrancar todos os seus pertences.Mas como eles saberão onde a água chega?;tem haver planejamento dos órgãos publicos,evitar que pessoas humildes,sem conhecimento,construam suas casinhas em áreas de risco.Tudo agora custará mais caro.

  • André Carvalho diz: 30 de janeiro de 2009

    Ainda bem que tu não é professor, pois se fosse, estaria preso.

    Já tentou relacionar as tantas tragédias que tu noticía, ao teu péssimo estado de saúde?
    Dando tantas notícias de forma terrivel, só poderia estar com essa cara de “game-over” mesmo.

  • Paulo Renato diz: 30 de janeiro de 2009

    Neste momento de tragédia Santana, devemos ver os responsaveis por ela…
    Me parece que as estradas são pedagiadas…e deveriam prever situações extremas…
    Mas como aqui so existe pedágio para cobrar e não para melhorias das estradas temos eventos dessa natureza…

  • Patrícia Jacinto diz: 30 de janeiro de 2009

    É importante que os veículos de comunicação dêem destaque para essa tragédia que abalou nossa cidade querida Pelotas, eu estou longe mas graças ao empenho de profissionais compremetidos com o jornalismo é que estou podendo acompanhar a situação dos meus conterraneos. Parabéns pela excelente cobertura, voces trabalham com o jornalismo verdadeiro e não com sensasionalismo que usa de tragédias alheias para ganhar destaque. Parabéns ao grupo RBS e força para o povo da zona sul. Deus os abencoe.

  • Romeu Kerber diz: 30 de janeiro de 2009

    Caro Santana. Veja como as pessoas são despreparadas. No caso das pessoas que ficaram em cima da ponte na esperança de se salvarem, tivessem elas recebido na escola noções de sobrevivência, isto também é educação, elas teriam pego os pneus estepes do porta-malas e os transformado em bóias salva-vidas. Agarrados aos pneus teriam mais condições de enfrentarem a enxurrada. Padeceram por falta de conhecimento.

  • Ary diz: 30 de janeiro de 2009

    E eu que sempre achei que o jornalismo só se ocupasse de tragédias?

  • Licurgo diz: 30 de janeiro de 2009

    Jornalismo é para jornalistas!

  • carina bast diz: 30 de janeiro de 2009

    SANTANA! SEU COMENTÁRIO MOSTRA CLARAMENTE A MINHA DOR. SOU FILHA DE UMA DAS VITIMAS DO CAPÃO DO LEÃO. A DUAS SEMANAS MEUS PAIS VENDERAM O UNICO BEM QUE POSSUIAM, UMA CASA NO LARANJAL E FORAM EM BUSCA DE UM SONHO… PEGARAM O DINHEIRO DA VENDA DA CASA E COMPRARAM ANIMAIS E ARRENDARAM UMA PEQUENA CHACÁRA NO CAPÃO DO LEÃO. NA QUARTA A TARDE MINHA MÃE ME LIGOU E ME FALOU QUE ESTAVA REALIZADA COM A NOVA CASA, NOVA VIDA. NA QUINTA TOCOU MEU TELEFONE, ERA ELA, ( FILHA SOCORRO! PERDEMOS TUDO!) DOR…!!

  • Neusa Conte diz: 30 de janeiro de 2009

    Paulo, Sabe q às vezes fico pensando , qdo estmos “desapercebidos” das nossas “realidades” e , como crianças, sorrimos e nos divertimos, é pq não estamos “cientes” das catástrofes acontecendo “naquele momento” em algum canto do mundo. Chego a me sentir culpada por estar me sentindo “bem” enquanto tantos estão sofrendo, passando fome e todo tipo de miséria. Claro que tenho minhas próprias catástrofes, mas qdo se corta na carne e aí q se prova a verdadeira FÉ de um homem. Jó foi a prova disso!!!

  • antonio borges diz: 30 de janeiro de 2009

    SANTANA VC É MESMO O MELHOR CRONISTA DO PAÍS.
    PARABÉNS PELO SEU TRABALHO!
    UM FORTE ABRAÇO!

  • Claudimar Ficanha diz: 30 de janeiro de 2009

    Concordo em fazer as informações chegarem até a população, mas acredito haver um exagero no conteúdo jornalístico, como o senhor mesmo falou em seu texto, as coisas boas ficam no anonimato. Eu não sou jornalista, mas gostaria de receber as boas informações às ruins. Vejam exemplos de reportagens que serviam apenas para dar audiência: Caso Isabela, Caso do seguestro das adolescentes, enchente em SC e, agora no sul do Estado.

  • Marcos de Luca Rothen diz: 30 de janeiro de 2009

    Adicionalmente aqui no Brasil associamos noticias boas a jornalistas que estão a serviço do governo. É o hábito de ver o Jornal Nacional a serviço do poder. Com isso quando aparece uma noticia boa logo fico achando que tem algum interesse por trás disso!

  • tsunami no futebol diz: 30 de janeiro de 2009

    santana a proxima a quebrar nos proximos dias é engarrafadora de agúa torneirál beira lago.quero ver como vão pagar os salários dos “galacticos” queriam porque queriam fazer caixa tem que trazer a maquina de fazer dólares dos EUA pra pagar a folha dos colorados depois que fechar a janela do futebol europeu não venderam ninguem rsrsrs.

  • Eduardo diz: 31 de janeiro de 2009

    Realmente foram devastadores os efeitos da chuva, porém o estouro de pelo menos três barragens arrozeiras foi decisivo para a catástrofe. Verdadeiras bombas armadas e aguardando para o momento para detonarem. Após a tragédia o criticado helicóptero do governo estava lá prestando assistência e levando o pessoal da Defesa Civil para tomarem as devidas providências.

  • Alexandre diz: 30 de janeiro de 2009

    Se gostas tanto de tragédia, porque não escreve sobre o massacre dos judeus contra os palestinos???

  • lauro julio koch diz: 30 de janeiro de 2009

    Prezado Santana!Talvez eu seja um dos poucos que não se assombram com as noticias catastróficas divulgadas pelos jornalistas e os meios de comunicação.Prefiro abordar os fatos de um outro ângulo.Me criei pràticamente sobre um barranco de um riozinho pequeno,mas que,depois de uma chuvarada era bravio.Meu pai construiu nossa casa em lugar seguro,onde difìcilmente a enchente nos pegaria.Isso foi há mais de 1/2 século.Sei que essas famílias humildes não tem a mesma escolha.Mas as autoridades tem.

  • Idiana Tomazelli diz: 30 de janeiro de 2009

    Realmente, as palavras são uma grande arma e devem ser usadas não só para informar, mas para mobilizar. Espero que, novamente, cada gaúcho faça sua parte.

Envie seu Comentário