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Posts do dia 7 fevereiro 2009

O direito à eutanásia

07 de fevereiro de 2009 16

Uma mulher italiana de 38 anos está em coma vegetativo desde os 21 anos de idade.

Depois de sofrerem muito, esses anos todos, com o estado de saúde de sua filha, seus pais conseguiram autorização judicial para suspender a alimentação que ela ingere por meio de instrumentos há 17 anos.

Declaração do pai de Eluana Englaro, a mulher que sobrevive como um parasita: “Quando Eluana deixar de existir, voltará a uma dimensão humana, até agora está vivendo numa dimensão inumana. Minha filha foi violada, continuamente invadida em seu corpo, objeto de uma violência que ela teria definido como inconcebível e inaceitável, sem precedentes”. 
 
                                             ***

Ocorre, no entanto, que, em face de pressão da Igreja Católica e de movimentos sociais de cunho religioso, o governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi baixou um decreto proibindo a suspensão da alimentação artificial e hidratação de Eluana, que já está em curso.

Como a suspensão gradual dos alimentos, Eluana demorará 21 dias para causar a sua morte, o governo quer apressar a tramitação do decreto, que no entanto obteve do presidente da Itália a recusa em assiná-lo, declarando-o inconstitucional.

O primeiro-ministro Berlusconi vai recorrer ao parlamento da Itália para impedir a tempo a eutanásia. 

                                               ***

Sempre que externei opinião sobre este tema em minha coluna, fui favorável à eutanásia, a chamada morte piedosa.

Pelo simples motivo de que na vida vegetativa pode estar oculto um profundo sofrimento da paciente.

O direito à vida, no meu entender, tem um grau inferior de valor ao direito de não sofrer.

E a presunção de que a paciente, se tivesse consciência e pudesse escolher, optaria por que lhe tirassem a vida, torna imperioso ao Estado que conceda a eutanásia.

Ainda mais que os pais da mulher em estado vegetativo demonstram profundo sofrimento, inigualável tormento, em assistirem durante os 17 anos de coma da filha a esse espetáculo sinistro de uma vida já sem nenhum sentido e sem qualquer capacidade de recuperação, dando lugar à dúvida cruel de que a paciente pode estar sendo alvo de lancinante sofrimento. 

                                          ***

O direito à vida, que a Igreja Católica e os movimentos sociais defenderam para pressionar o governo implica outrossim uma vida digna. E pressupõe uma vida recuperável.

A suposição, afirmada peremptoriamente pelo pai da paciente, de que ela esteja sendo vítima de profundos sofrimentos, dá conta de que se trata de uma vida indigna, sob o ponto de vista físico e moral infamante.

Além de produzir claramente em seus parentes sofrimentos indizíveis, uma verdadeira tortura existencial.

Não há mais retrocesso provável no processo de coma e vida vegetativa.

Devem ter sido estes argumentos que expendo que comoveram a Justiça italiana a permitir a eutanásia.

No entanto, a Igreja Católica italiana, a mesma que proíbe o uso da camisinha para tornar a vida dos seus usuários mais feliz e responsável, se atira agora irracionalmente contra a eliminação dos sofrimentos concretos dos pais de Eluana Englaro e dos sofrimentos presumíveis da mulher em coma.

Mas até quando querem que prossiga a vida sem sentido, estéril, comatosa dessa mulher, até quando? Até depois da morte por inanição moral de seus pais, daqui a 30, 40 anos?

Em casos como este e tantos outros, a eutanásia é um dever ecoante de humanidade.

                          ** Texto publicado hoje na página 47 da Zero Hora dominical

Postado por Paulo Sant´Ana