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Posts de fevereiro 2009

O exame da centopeia

19 de fevereiro de 2009 16

Recebo da Unimed um e-mail sobre a questão de exames autorizados apenas para uma de cada duas partes do corpo: “Prezado Paulo Sant’Ana. Sobre o tema de sua coluna publicada na Zero Hora de hoje, vimos por meio desta comunicar que estamos buscando a exatidão das informações divulgadas para lhe informar o que ocorreu de fato. Em breve lhe enviaremos uma posição oficial e detalhada. Cordialmente, (ass.) dr. Márcio Pizzato, presidente do Conselho de Administração da Unimed Porto Alegre”.

E agora o terceiro caso, idêntico aos outros dois: “ Prezado Sant’Ana. Acabei de ler a sua coluna de hoje e posso informá-lo que o mesmo aconteceu comigo. Fui numa médica e ela me requisitou exame dos dois pés para diagnóstico de fasceíte plantar. Quando fui realizar o exame de ressonância magnética, no Hospital Moinhos de Vento, fui informada que a Unimed POA somente autorizou exame em um dos pés e que eu teria de escolher qual deveria ser examinado. Isso é realmente um absurdo. Achei que só tinha acontecido comigo. Pagamos caro por plano de saúde para termos que passar por esse tipo de situação. (ass.) Fernanda Moraes (nandars@terra. com.br).

Outro e-mail a respeito: “Bom dia! Aguardo com muito interesse a resposta da Unimed referente a pernas e mandíbulas. Um abraço. (ass.) Jane Silva (siljane@gmail.com).

O colega Moisés Mendes pergunta descontraidamente como será resolvido pelo convênio de saúde o caso de um paciente que sofre de transtorno bipolar. Será que vão autorizar que se trate somente de um polo do transtorno? Será tratada a euforia ou a depressão?

O colega Mário Marcos de Souza disse-me que o filme-documentário Sicko aborda o caso de uma seguradora norte-americana que se recusou a autorizar a cirurgia de dois dedos de um paciente, autorizando a intervenção somente em um dedo.

E por aí se vai o pitoresco desse tratamento pela metade dos pacientes. No caso de qualquer exame radiológico cerebral, será autorizado somente o exame para um dos dois hemisférios do cérebro? O esquerdo ou o direito?

Será que o convênio não quer nem ouvir falar da expressão popular: “Estou com dois corações”?

O que eu ainda não entendi – e pediria que a Unimed me fizesse o favor de explicar quando mandar a sua resposta – é por que os pacientes não fazem o exame só do pé esquerdo, como exige o convênio, e 15 dias depois vão lá e solicitam também o exame do pé direito?

Será que fica registrado que já fez o exame de um pé e que, portanto, não poderá fazer nunca mais o exame do outro pé?

E se a requisição do médico for de uma radiografia do pulmão, será possível realizar somente a radiografia de um dos dois pulmões?

Intestino grosso e intestino delgado, o exame será feito só num dos dois?

E na ressonância magnética cardíaca, somente aparecerão os aurículos, ficando de fora os ventrículos?

Para fugir do absurdo, o convênio terá de instituir que, quando se tratar de dois membros ou de dois órgãos, mesmo que haja um provável teto de cobertura, os exames serão concedidos e realizados na dupla de membros ou de órgãos.

Afinal, se trata de pessoa humana, se ainda fosse um quadrúpede, poderia se aceitar que não fossem feitos exames nas quatro patas.

E se uma centopeia fosse fazer exame em todas as suas pernas, decretaria a falência do convênio?

*Texto publicado hoje em Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

A promessa do presidente Lula será cumprida

18 de fevereiro de 2009 26

Daniel Marenco

A notícia que Zero Hora estampa hoje na página 28 ela é boa e á má: a duplicação da BR-101, que liga Santa Catarina ao Rio Grande do Sul, não foi concluída em 2008, como havia sido prometida. Muitas promessas de duplicação foram feitas já, inclusive e principalmente no governo Fernando Henrique, que tinha o ministro Pandilha nos Transportes, e agora outra promessa foi rompida. A estrada tinha que ter sido duplicada no ano passado, mas agora só será em 2012.

Das quatro construções com maior atraso do trecho de SC, duas sequer contam com o projeto de licitação. No túnel duplo do Morro dos Cavalos, em Palhoça, e parte do elevado de Maracajá, no sul catarinense. Portanto, túneis e viadutos estão complicando a duplicação da BR-101. Mas pelo menos ela será duplicada e as obras estão em andamento.

Afinal, este era o grande sonho da população gaúcha e catarinense que vai se tornar em realidade em 2012. Vão demorar, mas as obras estão indo adiante e nós teremos essa duplicação.

Como nós precisamos que essa estrada seja duplicada. Ela era perigosissima. O trecho gaúcho entre Osório e Torres será concluído no ano que vem. De qualquer forma, há atraso, mas a promessa do presidente Lula será cumprida. Isso trará progresso e nós temos que aplaudir a iniciativa do governo federal. Com atraso, mas será concluída!

Ouça o meu comentário sobre o assunto no Gaúcha Hoje

Postado por Sant`Ana

Uma bochecha só!

18 de fevereiro de 2009 11

A questão da saúde pública é importante. E no centro dela estão também os atendimentos por convênio.

Vejam que no Rio de Janeiro, por exemplo, já existem filas longas para atendimento e para exames radiológicos constantes de convênios.

Ou seja, filas no SUS, e para agravar, fila nos convênios.

Felizmente, aqui no Rio Grande do Sul não se verificam essa demoras no atendimento pelos convênios, que prestam grandes serviços à saúde pública. 

Ocorre no entanto que no último sábado eu publiquei coluna em que a leitora Cristina Emília Schüneman (cristinaemilias@yahoo.com.br) reclamou que o convênio a que é associada não autorizou um exame radiológico para ambas as pernas, afligidas por varizes.

O convênio só autorizou a ecografia para uma das pernas! Mas como, se as varizes estão nas duas pernas?

Estranhei a decisão do convênio por considerá-la absurda, afinal as pessoas são seres inteiros, se são alvos de doenças nos ouvidos, nos olhos, nos rins, os dois órgãos têm de ser tratados, medicados.

E não só um, a situação beira o ridículo. 

Agora, um casal de procuradores, ele federal, ela da República, envia a esta coluna idêntica reclamação:

“Prezado Sant’Ana. Não posso deixar de registrar a inacreditável coincidência entre o que descreveste na tua coluna de sábado com o que aconteceu com a minha esposa ontem, o que bem demonstra o quanto somos reféns de planos de saúde e suas ‘idiossincrasias’. Ela vem sofrendo com fortes dores na articulação da mandíbula em ambos os lados e por isso o médico solicitou que se fizesse uma ressonância magnética das referidas articulações (esquerda e direita). Pois bem: qual não foi nossa surpresa ao recebermos a informação de que o plano apenas pagaria pela ressonância de um dos lados; de ambos, não foi autorizado!! Somos servidores públicos federais (eu, procurador federal, ela procuradora da República), descontamos há vários anos diretamente em folha valores elevados para o referido plano e, quando precisamos, somos surpreendidos dessa forma: tratamento, só pela metade. Será que a partir de agora vamos ter que tirar cara ou coroa para escolhermos qual lado do corpo vamos tratar?

Bom, não sei se é o mesmo plano que referiste, mas quem nos agraciou com esta pérola foi a Unimed. Caso comente o caso em sua coluna, prefiro que não publique os nossos nomes e cargos “. 

É o segundo caso de tratamento de saúde pela metade, antes a Unimed só autorizava exame para uma perna do paciente, que solicitava nas duas, agora ressonância magnética somente numa articulação da mandíbula, enquanto o paciente tem problemas nas articulações esquerda e direita.

Como já é o segundo caso, desta vez publico o nome do convênio para que a Unimed possa vir a esclarecer a estranhável medida.

No primeiro caso, omiti o nome do convênio por se tratar de um episódio singular, sem contestação da outra parte.

Mas como agora há o segundo exemplo e o convênio é o mesmo do segundo caso, me declaro apto a receber as necessárias explicações da Unimed para fornecê-las aos reclamantes e às outras pessoas todas que podem estar sendo alvos de tão exótica providência.

Mesmo prevendo que estes casos insólitos podem estar enquadrados na contratualização dos planos, que em muitos casos têm teto de cobertura para tratamento, no entanto terá de se arranjar uma nova forma de solução do problema.

Se são duas pernas, dois braços, dois ouvidos, dois rins, autorizar os exames para somente um dos órgãos soa a uma brincadeira de mau gosto.

*Texto publicado hoje em Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Roth tem que jogar com dois avantes

17 de fevereiro de 2009 15

Diego Vara

Está chegando de mansinho a Porto Alegre o atacante argentino Maxi López para se integrar ao Grêmio e estar entre os inscritos para a Libertadores. Chega a ser comovente o esforço da direção gremista para reforçar o seu time diante do campeonato sulamericano, que começará na próxima Quarta-feira de Cinzas. O Grêmio estreará no Olímpico contra o Universidad do Chile e poderá ter esse argentino em campo.

Herrera, Maxi López, Jonas, Alex Mineiro. Se o Grêmio tivesse esses atacantes em 2008 teria sido campeão brasileiro sem dúvida alguma, pois todos diagnosticavam a falta de atacantes. Grêmio tinha Marcel e o uruguaio Morales, que absolutamente não corresponderam às expectativas dos torcedores. Dizem algumas pessoas que estamos diante de um ótimo jogador, o Maxi lópez. Espero que seja e que o treinador gremista, enfim, confirme que o Grêmio jogará com dois avantes, no mínimo, na copa Libertadores da América.

O Grêmio que vinha jogando com seis na meia cancha e não vinha fazendo gols. No Gre-Nal não fez gol com seis na meia cancha, contra o juventude não fez gols com seis na meia cancha e só veio a fazer gol no Gre-Nal e contra o Juventude, e também contra o Avenida, quando colocou dois atacantes, no mínimo.

Meus companheiros do Sala de Redação constataram que não existe no mundo nenhum time que jogue apenas com um avante. Tomara que o treinador gremista faça um bom time e que o Grêmio tenha a possibilidade de transmitir a sua torcida grandes alegrias na Libertadores!

Ouça o meu comentário sobre o assunto no Gaúcha Hoje

Postado por Sant`Ana

A solidão do poder

17 de fevereiro de 2009 238

* Texto publicado na página 47 de Zero Hora

Recebi uma carta-desabafo da governadora Yeda Crusius e vou, confiando na tolerância da remetente, cometer a inconfidência de publicá-la: não achei justo que os leitores fossem privados dessas reflexões da nossa governante:

“Querido Paulo Sant’Ana. Bom dia!

E que lindo dia, o primeiro sem horário de verão deste ano.

Amo o horário de verão, o dia mais longo, a noite mais curta, o calor.

Amo tanta coisa...

Acordei com a garganta meio ‘pegada’, o corpo me indicando que ainda não consegui ‘pegar leve’.

Esta será uma mensagem para eu não adiar mais o que queria: te contar coisas escrevendo à mão, como é do meu tempo, o tempo do respeito, do selo na carta, do envelope chegando pelas mãos do carteiro, tão aguardado envelope, tão especial mensagem, tão pessoal ‘tua letra’, às vezes com um pingo de perfume lá em cima, na data, ou mesmo uma folha de alguma árvore ou flor da estação... Pessoal, como é esta mensagem, entenda.

Não tenho conseguido esse tempo. Então não vou mais adiar.

Como você tem acompanhado, não me permitem esse tempo.

Quando me perguntam ‘como você aguenta’ respondo de dentro do coração. Pois quando tomei em 2005 a decisão de buscar governar o Rio Grande foi porque havia:

uma ideia

um projeto

um grupo de pessoas afinadas

um Estado

um povo

uma política

uma boa política no tempo das tão más políticas.

A ideia continua viva, muito viva. O grupo de pessoas desafinou, desmanchou, quem sabe pelo tamanho do empreendimento e a dedicação absolutamente total e integral que exigia o projeto. Como você tanto acompanha, o projeto tem cara sim, é bonito, coletivo, construtivo, respeitoso, doador. O Estado é o nosso, esse Rio Grande que não se definiu logo ao nascer, se platino, se brasileiro, diferente. O povo é esse povo que amo, meio caudilha que sou, e a quem pude somar filhos e netos, infelizmente esses que terão que ver os cartazes dantescos de sua vó pregados em cada tapume onde fiquem pessoas paradas esperando ônibus. Como tiveram que ver meus filhos nos tempos da faculdade porque a mãe decidiu ir para a tribuna fazer política como ‘uma ingênua tucana’ que queria fazer a política da igualdade (a da bandeira, a do gênero) em Porto Alegre. Nos cartazes pregados nas paredes internas da UFRGS estava a foto e ‘traidora do povo’. Eles, meus filhos, se foram em agosto de 1996, viver em outras terras sem essa cultura que crescia por aqui, e que tanto prejudicou o Rio Grande.

Eu fiquei. Por uma ideia. Por uma intensa necessidade de comunicação, pela vida como ela é para cada um, por fazer política, que é bom fazer quando se tem ética, responsabilidade, sem medo da mudança, de estar à frente do batalhão, porque confio em cada dia, e vivo sem ficar na janela vendo a banda passar esperando a sorte, esperando a morte... como diz a música.

No giro pelo Brasil duas coisas me deixaram feliz: primeiro com o orgulho dos outros brasileiros porque o Rio Grande saiu das manchetes nacionais negativas, e a governadora, que eles conhecem antes de ser governadora, estar sorrindo, mostrando que o Estado já paga suas contas em dia, que deu a virada na situação que contradizia com o Rio Grande histórico e presente que eles conhecem. Segundo, porque a honestidade da Yeda que eles conhecem foi provada, olhado documento por documento, rastreado cheque por cheque, a casa é limpa!

Depois, uma dificuldade que se repete pois todos me perguntaram: por que tudo isso? Por que te batem tanto, ao ponto do massacre? Dificuldade para eu responder porque não é de meu feitio falar dos outros, mesmo que mereçam. Humanidade (a da bandeira) é coletiva mas também individual. Lembro-me da tua pergunta naquele Jornal do Almoço que, com tua sensibilidade, perguntavas o que era central: por que a senhora não fala deste ou daquele secretário? E eu te respondi: “São pessoas caídas, Paulo, pessoas caídas”. E quanta coisa já se fez, quanta vida já se viveu!

Só que até este momento, mesmo com o alucinante caráter deste nosso governo, vivi o que dois filmes retratam. A arte consegue dizer em duas horas o que uma vida inteira custou para criar. Sei que não temos tempo de ver filmes, tudo hoje na vida é VT, não filme, rápido, desmanchando no ar. Então te falo deles na esperança de que você os tenha visto quando passaram nos cinemas.

O primeiro é A Letra Escarlate. A mulher de que trata o filme teve que desfilar com a marca ‘A’ de adúltera pela aldeia onde vivia, porque se casou de novo, pois havia ficado ‘viúva’ até o marido aparecer de novo da floresta, depois de praticar maldades inomináveis. Ela desfilou, chorou, perdeu, com a infinita paciência que tem a mulher para entender como o ‘homem’ da nossa civilização age quando se trata de posse, poder e sexo. Ao final, tudo se esclareceu. E ela não estava amarga, não havia feito nada que considerasse errado durante todo aquele período de provação, e viveram na mesma aldeia depois do pedido de desculpas público, da restauração, do líder da mesma.

Considero a coletiva do Dr. Mauro Renner quando provou a idoneidade da casa como o ‘The End’ do meu filme. Pude tirar o colar da Letra Escarlate. E continuar governando o Rio Grande, eleita que fui para honrar compromissos e fazer a roda virar para a frente. O povo sentiu-se aliviado, a sombra carregada da dúvida, para os que seguem a política, foi afastada. Brilhou o sol de novo, a alegria podia ser mostrada à luz do dia. Este o 2008, o ano que terminou com Déficit Zero e a honestidade provada da governadora.

O segundo filme é mais recente O Escafandro e a Borboleta. Raras vezes me permito chorar no cinema. Mas nesse filme o fiz por muitas vezes. Pois é ele que me referencia durante esse período de governo, desde a famigerada Operação Rodin aos 10 meses de governo e uma derrota inacreditável na Assembleia do projeto de restauração do Estado, por todas as razões que não interessa aqui descrever mas que tem a ver com a tua pergunta naquele Jornal do Almoço. Eu fiquei no escafandro. De certa forma, estarei nele até que possa ter o produto final por aquela terapeuta e seu método de escrever o livro ditado pelo único pedaço do homem no escafandro que se movia: o olho.

E quando estiver escrito, poderei voar como a borboleta.

Arrisco que muito não seja percebido desta longa mensagem, Paulo. Se os filmes foram vistos então sim, muito será entendido. Mas não desisto, não vou entregar prus ôme de jeito nenhum, amigo e cumpanhêro.

E para te dizer da minha admiração, da minha companhia através das tuas colunas (TV não vejo mais e rádio também não ouço, foi demais nesse período, um pouco de proteção criei), sempre, do meu amor pela vida que te inclui de modo afirmativo e de tanto tempo. Nunca dou de ombros. Só entenda o escafandro. Não me deram nenhuma folga até hoje. Esta é da decisão de escrever, é num lindo domingo, uma mensagem pessoal – entenda, não deve ser pública.

E para te presentear com o que não aconteceu, vou te remeter o Manifesto da Marca do Governo Yeda. Não é nem será público. Por isso, vai com selo. Creio que o Luciano do GAD é um dos que, como a fisioterapeuta do livro, entendeu. Mas por enquanto não há condições de mérito para eu dar esse upgrade nem ao meu governo nem ao Rio Grande que não quer ser sacudido a cada dia com uma ‘crise de governo’.

Algum dia mais adiante sim.

Abraço muito afetuoso

(ass.) Yeda Crusius, governadora do Estado”.

Postado por Paulo Sant’ana

Agora podemos chamar Chávez de ditador

16 de fevereiro de 2009 43

Harold Escalona, EFE

A machete do dia é o referendo na Venezuela, que permite ao Hugo Chávez a reeleição indefinidamente, ou seja, quanto tempo quiser. Ele vai ser o presidente eterno da Venezuela.

Não vale dizer que Adenauer, na Alemanha, e Margareth Tacher, na Inglaterra, se reelegeram durante muitos mandatos porque na Alemanha e na Inglaterra havia um controle parlamentar rígido sobre o Executivo. E ontem, na Venezuela, foi arrombada a democracia porque o poder ficou ilimitado.

Um referendo já havia sido feito. Chávez tinha sido derrotado. Fez outro referendo e faria quantos fossem necessários para ser reeleito indefinidamente.

A partir deste referendo, legitimamente pode-se chamar Chávez de ditador.

O poder não pode se concentrar indefinidamente sobre uma pessoa só. Isso é a típica ditadura. Observem o exemplo do presidente Lula: ele tem tudo para continuar no poder indefinidamente. Tem maioria no Congresso se ele acenar de que quer continuar se reelegendo por diversas vezes ele obterá do Congresso e do povo essa mudança na constituição.

No entanto, o presidente dignamente se recusa. Essa é a diferença de Chávez e Lula. Não há mais democracia na Venezuela. Há uma ditadura instalada estranhamente pelas urnas, mas uma ditadura muito definida, com sua face bem estampada. Isso é uma lástima para o continente.

Ouça o meu comentário sobre o assunto no Gaúcha Hoje

Postado por Sant`Ana

Não há civilização

16 de fevereiro de 2009 16

O fator mais grave e alarmante da crise civilizatória brasileira não é a falta de segurança nas ruas, a sucessão de assaltos e outros tipos de roubos que infestam as cidades brasileiras.

O detalhe que nos remete para os tempos das cavernas, envergonhando a nação, embora dele a sociedade não tome conhecimento por pouco se importar de sua realidade, é o caos carcerário.

No fim de semana se soube de um caso de um empresário envolvido no escândalo do mensalão que foi recolhido a uma prisão e lá, onde permaneceu durante três meses, foi extorquido pelos presos, permanecendo a chantagem e a extorsão mesmo depois dele ter sido libertado, o que revela o poder que têm as quadrilhas organizadas, com sede dentro dos presídios.

Um dado aterrador foi agora revelado pelo jornal o Globo: os líderes das quadrilhas que comandam as facções carcerárias estão forjando suicídios nas celas de presos, mortes que são provocadas por homicídio (execução) dentro dos presídios para aparecem como suicídios.

Somente em janeiro passado, foram encontrados em presídios de Alagoas cinco cadáveres de presos que estavam degolados, em casos de aparente suicídio.

O Ministério Público e a OAB acreditam que um esquadrão da morte está agindo nas cadeias alagoanas.

Em São Paulo, onde está depositado mais de um terço dos mais de 400 mil presos brasileiros, o método de eliminação física dos presos sofisticou-se também para uma falsificação: o comando interno dos presídios, isto é, o comando dos presos, sentencia que alguém, por qualquer motivo, entre eles o de se ter tornado “desafeto” da cúpula por não ter pago dívida de compra de drogas, tem de morrer.

O “condenado” é apanhado pelos outros presos encarregados pela execução e obrigado a ingerir um líquido chamado de “gatorade”, uma mistura de água com cocaína, que provoca a parada cardiorrespiratória.

A morte entra para a estatística policial e carcerária como “natural”.

Outro método, tão cruel quanto o citado acima, é de se entregar ao detento escolhido para morrer um “kit-suicídio”, composto por um banquinho e uma “teresa” (pano que serve como corda). O escolhido “se suicida” como “prêmio” para não sofrer morte mais cruenta.

Imaginem os leitores o ambiente de terror, de tortura e de dor em que se tornaram as prisões brasileiras.

Se 1% desses milhares de crimes ocorridos dentro dos presídios, com vítimas ou autores entre os próprios presos, ocorressem nas ruas, pela sofisticação dos métodos e ambiente de horror que se impregnam nesses atos, a sociedade se levantaria em protestos que iram redundar em uma revolução cultural.

O diretor do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), o nosso gaúcho Airton Michels, declara que o núcleo do colapso carcerário brasileiro se localiza na superpopulação.

Ele diz ser inaceitável que onde caibam 300 presos sejam depositados 900 ou onde só possam estar 50 pareçam 200.

Também diz não ser possível que apenas 10 agentes cuidem de 500 presos.

E faz uma revelação eloquente: “Não há preocupação dos agentes em controlar os presos, e sim o cuidado de preservar a própria vida. E com razão”.

Nem nos tempos medievais, nem nas épocas diversas mais escuras do caimento do processo civilizatório eram verificados tal primitivismo, tais violências físicas e psicológicas, reinantes nos presídios brasileiros.

E a “sociedade organizada” esconde tudo isso debaixo do seu tapete.

Todos fingem que esse holocausto da comezinha dignidade humana não existe.

*Texto publicado hoje em Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

A cirurgia plástica

14 de fevereiro de 2009 4

Lembro-me bem de quando, há mais de 30 anos, levado pela mão generosa do dr. Sílvio Zanini, fui parar na famosa clínica do dr. Ivo Pitanguy, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro.

Um ano antes, o dr. Pitanguy tinha examinado detidamente o meu rosto e decidira não me operar, no dizer dele para “não agredir a recuperação de uma paralisia facial que estava em curso”. Mandou que eu voltasse um ano depois.

Quando meu nervo facial foi seccionado inteiramente numa cirurgia no ouvido médio, fiquei com a face desfigurada, um verdadeiro Frankenstein.

Cheguei a pensar que nunca mais trabalharia em televisão e até em rádio, o sério acidente cirúrgico acabou por adulterar minhas feições, suprimiu definitivamente a metade esquerda da expressão da minha face, além de entortar o meu sorriso e avariar profundamente a minha dicção.

***

Apesar do duro golpe, sobrevivi. Quando voltei à televisão, quatro meses depois, recordo-me que me receberam com flores no estúdio, tive o carinho dos meus colegas e a compreensão do público, estima e complacência que até hoje perduram.

Mas voltando ao dr. Pitanguy, que é o assunto que me empolga. Quando finalmente ele decidiu por realizar um lifting no meu rosto, recordo-me que ao dirigir-me na maca para a sala de cirurgia, pedi a ele que aproveitasse a ocasião para tirar as três rugas da minha testa.

Ele, de avental verde, me respondeu: “Ah, isto é muito difícil”.

Em dois minutos, eu estava sedado, inteiramente submetido à extraordinária habilidade do maior cirurgião plástico da história da medicina.

 

***

Quando horas mais tarde me acordei da anestesia, o Éldio Macedo e o saudoso político Mário Ramos estavam à beira do leito para me emprestar solidariedade, tinha se operado no meu rosto um milagre: olhando para as fotos de antes e depois da cirurgia, senti que minha vida profissional estava salva e meu aspecto tinha se tornado socialmente aceitável.

E, por generosidade do grande cirurgião, ele de inhapa fez desaparecer as três rugas da minha testa. Disse-me ele que nunca um paciente seu havia sangrado tanto na costura do couro cabeludo: perdi três litros de sangue.

No dia seguinte à cirurgia, o dr. Pitanguy levou até meu leito um repórter do New York Times, que me entrevistou sobre os clientes do notável cirurgião que foram por ele reabilitados para exercer seus papéis no cinema e na televisão.

Nunca vou me esquecer da gentileza, da humanidade, da serena e cordial sabedoria do dr. Ivo Pitanguy.

Ele foi decisivo em meu rosto para 75% da correção do acidente, que até hoje ostento.

 

***

Escrevo isso porque certamente se deve a Pitanguy o extraordinário avanço da cirurgia plástica no Brasil. O cirurgião dos reis e dos atores de cinema célebres que passaram por suas mãos é o maior responsável por exercermos no mundo uma notável liderança em cirurgia plástica, atraindo para o Brasil milhares de estrangeiros que vêm anualmente submeter-se a operações reparadoras ou estéticas em nosso país, provindos muitos deles dos EUA e da Europa.

 

***

De setembro de 2007 a agosto de 2008, portanto um ano, foi realizado o número de 629 mil cirurgias plásticas no Brasil. Um número fenomenal, não igualado por nenhum outro país.

Pela primeira vez, no ano passado, os implantes de silicone (96 mil no período citado) ultrapassaram as lipoaspirações (91 mil).

As mulheres foram as que mais procuraram os procedimentos estéticos: 402 mil, contra 55 mil homens.

Mas o número que mais impressiona é o de que, por dia, são realizadas 1,2 mil cirurgias plásticas no Brasil. Por dia!

E se popularizou tanto entre nós a modalidade, que esses dias restamos aturdidos quando o governo federal autorizou o funcionamento de consórcios para cirurgias plásticas.

A cirurgia plástica está transformando para muito melhor, numa ajuda milagrosa à natureza e à criação, ou em consertos prodigiosos aos acidentes e sinistros, os rostos e os corpos dos brasileiros.

 

*Texto publicado na edição dominical de Zero Hora

Postado por Paulo Sant’ana

Plano Saci

14 de fevereiro de 2009 13

* Texto publicado na página 47 de Zero Hora


Contando, ninguém acredita, mas acontecem coisas do arco-da-velha em nosso meio.

A leitora Cristina Emília Schüneman (cristinaemilias@yahoo.com.br), assinante de Zero Hora e fiel leitora desta coluna, residente em Panambi, associou-se a um plano de saúde, descontando em seu salário há cinco anos as prestações do plano.
Agora, por disposição genética, está enfrentando problemas com varizes em ambas as pernas.
Foi até o médico, que lhe prescreveu um exame denominado Ecodoppler Vascular.
Dirigiu-se até o plano de saúde para obter a autorização para o exame.
Qual não foi sua surpresa quando, no plano de saúde, lhe disseram que só autorizam o exame para um membro apenas.
Ou seja, só fornecem autorização para o exame radiológico de uma perna. Das duas, não.
Não estou publicando o nome do plano de saúde, um dos mais famosos e prestigiados, porque só tenho a versão de uma parte, não gostaria nem de fazer injustiça nem de arranjar incomodação.
Mas é risível. O que deve ter acontecido é que o plano tem um teto de cobertura para exames e esse teto deve ter sido superado em uma perna só. Se fosse submeter as duas pernas ao exame, ultrapassaria esse teto.
Mas isto é ridículo! Como é que uma pessoa só tem cobertura do plano de saúde para uma perna? E a outra perna?
Quando for com um oftalmologista, a pessoa só pode tratar de um olho?
E, quando for com otorrino, só pode tratar de uma narina?
Que negócio esquisito é este de saúde somente para uma metade do corpo?
Esses planos de saúde estão exagerando em suas exigências e nos limites que impõem a seus associados.
Imaginem a sensação dos segurados: “Metade de mim está segurada, se adoecer a outra metade, que se rale”.
Isto causa uma insegurança às pessoas que têm duas pernas, dois braços, dois ouvidos, dois olhos, dois rins, portanto as pessoas normais.
Imaginem, só uma perna pode ser tratada: a esquerda ou a direita.
A saúde no Brasil já estava em colapso. Agora, tratando as pessoas só pela metade, pobre do povo brasileiro.
Esse plano de saúde tinha de mudar de nome. Tinha que ser Plano Saci, só sai satisfeito quem tem apenas uma perna.
Eu acho a exigência desse plano uma idiotice: que custava fazer o exame nas duas pernas?
Até mesmo porque, se for por causa do preço dos exames, como eu suponho, a paciente poderia requerer exame para a perna esquerda, dali a 15 dias iria lá no plano e pediria autorização para exame da perna direita.
Mas não, a burocracia envenenada submete o paciente à humilhação de ver-se diminuído, constrangido, humilhado, só podendo examinar uma perna, quando as duas pernas estão com varizes.
É uma estupidez tão grande, que estou com vontade de publicar o nome do plano de saúde.
Ou, então, publico o nome do plano pela metade.

Postado por Sant`Ana

Ataque a intimidade e privacidade da governadora

13 de fevereiro de 2009 43

Daniel Marenco

Eu pego por um ângulo curioso e diferente esta campanha que os sindicatos estão lançando contra Yeda Crusius com a fixação de outdoors em todo o RS e a distribuição de máscaras da governadora.

Nos outdoors, o rosto dela está com a imagem desfocada, enrugada, esmaecida, envelhecida, escurecida. No meu entender, a imagem de qualquer pessoa, quando é publicada assim, insistentemente, ela pertence a própria pessoa. Se eu não gostar de uma foto minha que coloquem em algum outdoor insistentemente, eu posso entrar na justiça para pedir que aquela imagem não continue sendo publicada. Porque está na constituição o direito a privacidade e no meu entender uma imagem minha publicada todos os dias na rua é da minha intimidade, que não pode ser invadida pelas outras pessoas.

Reafirmo que estou pegando por outro ângulo essa história e não pela acusação que os sindicatos fazem contra a governadora. Eu acho que as fotos são desfavoráveis e depreciativas a imagem da chefe do Executivo, pois a que é publicada não é a imagem real, natural e espontânea de Yeda. Por esse motivo, eu acho que os cartazes podem ser proibidos. É ferida a privacidade da governadora quando se colocam fotos em outdoors depreciativas e agressivas a sua intimidade e privacidade.

Ouça o meu comentário sobre o assunto no Gaúcha Hoje

Postado por Sant`Ana

A privacidade da imagem

13 de fevereiro de 2009 8

No presídio denominado Instituto Penal de Mariante, em Venâncio Aires, foram apreendidos anteontem, em uma operação pente-fino desenvolvida por 70 agentes penitenciários e 136 PMs, 10 revólveres calibre 38, três pistolas de uso exclusivo das Forças Armadas, 24 facas de cozinha, sete tijolos de maconha, 200 buchinhas de maconha, 35 pedras de crack e duas balanças de pesar cocaína.

Foram ainda apreendidos 82 celulares e dezenas de carregadores.

Como estão presos no local cerca de 190 presos, temos então um celular para cada dois presos, proporção muito maior que em inúmeras comunidades.

Um dia antes, no Presídio de Taquara, foram feitas apreensões da mesma ordem.

Sugere-se, para modernização dos presídios, em face da grande quantidade de celulares apreendidos em seus interiores, que se instalem em cada casa prisional lojas de atendimento da Vivo e da Claro, em face das reclamações que certamente advêm sobre os serviços dessas prestadoras.

Pelo visto, com um celular para cada dois presos, há uma demanda contida de aparelhos nos presídios. A Vivo e a Claro precisam satisfazer essa demanda, elevando a proporção para um aparelho para cada preso.

Se fosse dada liberdade de expressão aos detentos, certamente as reclamações deles contra as companhias telefônicas iriam engrossar ainda mais os caudalosos protestos que se derrubam sobre as redações de jornais contra as prestadoras, por parte do público em geral.

Aproveitando a extraordinária quantidade de drogas apreendidas nos presídios, revelando forte atividade econômica entre os detentos, seria o caso também de instalarem-se no interior das casas prisionais agências bancárias com guichês e caixas eletrônicos em atendimento de 24 horas.

Supõe-se que não haja lugar mais seguro para a instalação de agências bancárias do que dentro dos presídios. As lojas bancárias estariam totalmente livres dos assaltos que infernizam as agências normais aqui da rua.

A gente se preocupa aqui fora com o atendimento dos diversos serviços, sem atentarmos que nossos presidiários, destituídos de todas as liberdades, inclusive a de expressão, não possuem voz para reclamar contra o mau atendimento de que são vítimas.

E também, pela grande quantidade de armas brancas e de fogo que é encontrada nos presídios, há que se instalar neles armeiros e afiadores de facas.

Porque sempre é preciso lembrar que a privação da liberdade não implica perda dos direitos civis. E o Código de Defesa do Consumidor certamente contempla os presidiários.

Quem paga tem direito ao eficiente atendimento.

Soube incrivelmente que, ontem, 10 sindicatos de servidores públicos estaduais, entre eles o Cpers, lançaram uma campanha contra a governadora Yeda Crusius, divulgando outdoors em todo o Estado com a fotografia da governadora, com farta distribuição de máscaras com a imagem da ocupante do Piratini.

Simultaneamente, o governo do Estado publicou nota em que promete processar os manifestantes.

Ao deparar ontem com as imagens reproduzidas nos outdoors, notei claramente, o que deve ser a impressão geral, que a imagem da governadora foi totalmente modificada para pior.

O rosto da governadora nos outdoors está visivelmente esmaecido, empalidecido, envelhecido, não correspondendo ao seu aspecto real e atual.

Desde já, a Justiça deverá assegurar à governadora o direito à privacidade de sua imagem, que no caso consistirá da substituição de sua imagem nas fotos.

Os sindicatos foram solertes e perversos ao escolher e editar as fotos da governadora, sua imagem está visivelmente alterada para pior.

O mínimo direito que tem qualquer pessoa, quanto mais uma pessoa pública, é o de escolher as fotos em que aparecerá publicizada.

Ainda mais quando o alvo do protesto é uma mulher.

A mulher tem maior direito que o homem de não aparecer descuidada e fisicamente depreciada em fotos de tanta repercussão.

Só essa manobra agressivamente antiestética pode bastar para que os cartazes venham a ser proibidos pela Justiça.

*Texto publicado hoje em Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

RS vive um colapso carcerário

12 de fevereiro de 2009 4

Divulgação

No Instituto Penal de Mariante (IPM), em Venâncio Aires, houve um pente fino da polícia que resultou numa apreensão de 13 armas de fogo, 24 facas, munições, bebidas, drogas e 82 celulares, o equivalente a um celular para cada dois presos. Essa média é maior do que a de muitas cidades do país. Ela revela expressivamente o caos carcerário que ronda o Estado.

Foram para lá a Brigada Militar e a Polícia Civil, e apreenderam essas armas todas. E no dia-a-dia entra todo esse material e ninguém sabe como!

É ou não é um colapso?

Ouça o meu comentário sobre o assunto no Gaúcha Hoje

Postado por Sant`Ana

Mais uma chacina

12 de fevereiro de 2009 14

André Feltes

Eu sofro mais do que meus circunstantes porque me preocupo com fatos que não são preocupação da classe média.

E, como só a classe média tem poder para pressionar os governos, os alvos das minhas preocupações continuam abandonados à própria sorte.

É que a classe média nem liga para as brutais chacinas que acontecem com frequência na Grande Porto Alegre.

E eu considero da mais alta gravidade esses crimes encomendados que vitimam famílias inteiras nas vilas populares que nos circundam.

O alvo principal das chacinas é sempre um homem que está num casebre ou num bar, acompanhado de familiares ou de amigos.

E não é só este alvo principal que é eliminado. As pessoas que estão em sua companhia são também atingidas pelas balas assassinas.

Quem comete assim essas chacinas nas vilas pobres detém um poder singular: julga e executa.

E quem assim julga e executa fica solto e certamente praticará outros crimes.

Ou seja, são uma espécie de milícia a serviço do tráfico ou do roubo que se encoraja pela impunidade e reina nos territórios de sua ação.

Quantas e quantas pessoas que não são mortas porque se submetem a esses esquadrões criminais? Quantas?

Evidentemente que estou escrevendo isso em face da chacina que vitimou quatro pessoas ontem na Vila Bom Jesus.

Como sempre acontece, os assassinos invadiram um casebre onde moravam as vítimas, pela noite, e despejaram dezenas de tiros sobre os quatro corpos.

Na grande maioria das chacinas, é divulgado que foi um ajuste de contas entre criminosos.

E a opinião pública, que optou por festejar que criminosos sejam mortos, encara com indiferença esses trágicos episódios.

Quanta violência, quanta chantagem, quanto amedrontamento, quanto medo, quantos cerceamentos de liberdade impostos pelos criminosos a moradores dessas vilas estão por trás das chacinas!

Fica muito claro que este terror criminal dividiu o nosso meio social em duas fatias muito bem definidas: a classe média e os abastados que vivem do lado de cá e os pobres do lado de lá, estes últimos encravados em um território em que reina a violência e o medo.

Há um apartheid nítido na sociedade e os que não são pobres encaram com indiferença toda sorte de violência impune que grassa entre as comunidades destituídas.

A classe média só se revolta ou se comove quando um dos seus membros é atingido por essa violência que fatalmente respinga, por assalto ou assassinato, nos segmentos mais favorecidos.

Mas, se as chacinas ocorrem nos casebres pobres ou miseráveis, nos cantões onde reinam soberanos os criminosos armados e organizados em grupos, a classe média, a chamada sociedade, que afinal detém o poder político, dá de ombros e não se importa com o noticiário, pouco se lhe dá que várias chacinas se verificaram do último ano até ontem ou anteontem, morrendo sempre a cada evento três, quatro ou cinco pessoas.

Só que os atores criminais estão espalhados ao redor das cidades. Fatalmente, eles atacarão as cidadelas, tanto que dentro delas hoje impera em nossos espíritos o medo, por onde quer que transitemos e muitas vezes até onde quer que moremos.

Eu sofro porque me dói, me punge e me revolta a sorte dessas vítimas das chacinas. Além de que esses atos, por serem em sua alentada maioria impunes, darão lugar obrigatoriamente a outros eventos igualmente trágicos.

É imperioso que todos nós, pelo menos, nos munamos da consciência de que vivemos num ambiente moral infecto e que, tanto dentro quanto fora dos presídios, a atmosfera que nos cerca é de perigo e dor.

E que as chacinas que ocorrem na Grande Porto Alegre são manifestações muito claras de que o crime está nos devorando como se devora mingau quente, pelas beiradas.

*Texto publicado hoje em Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Eu prevejo sofrimento para os gremistas

11 de fevereiro de 2009 41

Fernando Gomes, Banco de Dados - 29/01/2009

Eu acho que esse ano vai ser de sofrimento para a torcida do Grêmio. Hoje, em Zero Hora, está assentado pelo técnico Celso Roth que o Grêmio jogará com apenas um avante na Libertadores, como jogou o Gre-Nal apenas com Alex Mineiro. Esse esquema desequilibra o time.

O Grêmio dominou o Gre-Nal, mas perdeu. E o Celso Roth está dizendo, ou insinuando, que o Grêmio teve dez chances de gol com este esquema. Eu não vi dez chances de gol do time gremista no último domingo. Eu vi apenas um lance perdido, que foi aquele chute do lateral esquerdo no poste. No mais eu vi os jogadores chutando de longe e o goleiro do Internacional fazendo boas defesas. Então, eu imagino que o Grêmio, com esses seis homens na meia-cancha, dominará todos os adversários como dominou o Inter, mas não fará gols.

Esse esquema é muito precavido, muito retrancado. Seis homens na meia-cancha e só o Alex Mineiro lá na frente. Com isso, eu prevejo, se Roth não colocar pelo menos dois avantes, muito sofrimento para a torcida do Grêmio em 2009.

Ouça o meu comentário sobre o assunto no Gaúcha Hoje

Postado por Sant`Ana

Presídios de brinquedo

11 de fevereiro de 2009 9

Miro de Souza

Curiosa a fuga do apenado Gilmar dos Santos, o Nenê, 40 anos, do presídio de Taquara, domingo passado.

Segundo fontes da Brigada Militar, elas alertaram a direção do presídio para a possibilidade iminente da fuga.

No entanto, nenhuma providência especial foi tomada.

Já mais intrigante se torna a fuga porque o preso não tinha nada de estar recluso naquele estabelecimento. Ele foi transferido da Penitenciária Estadual do Jacuí, de maior e máxima segurança, sob o pretexto de que tinha familiares em Taquara.

E foi-se ver que não tinha familiar algum em Taquara.

Já depois, o ato da fuga mais pareceu uma encenação. Aproveitando-se do dia de visitas, um homem, não se sabe por que detalhe, rendeu um agente, que foi abrir a cela de onde fugiram Nenê e outros detentos, em três carros que os esperavam na frente do presídio.

A vigilância externa do presídio, também inexplicavelmente, era precária e ofereceu incipiente resistência.

Uma facilidade inexplicável, uma fuga com roteiro, com script.

Uma fuga esperada. Esperada e com preso certo e escalado para fugir.

Impressiona a vulnerabilidade dos presídios gaúchos, exceção ao complexo do Jacuí e ao Presídio Central.

As autoridades judiciárias já tinham alertado para a precariedade e segurança mínima deste presídio de Taquara.

A impressão que dão dezenas de cadeias gaúchas é de que delas não fogem os presos que não querem fugir ou não têm condições econômicas ou de periculosidade para fugir.

Como é então que um presidiário do vulto criminal de Nenê foi dar com os costados num presídio com 165 presos e que apresenta, é incrível, apenas um policial militar em apenas uma guarita externa?

Isto é um presídio de brinquedo, de anedota.

E acabou risível a fuga, sem qualquer reação da guarda interna e tímida reação do guarda da guarita, solitário e sem poder de fogo para reprimir a fuga organizada puerilmente.

Esse tipo de fuga ainda mais deve servir para amedrontar a sociedade.

O que se pensa aqui fora dos muros das cadeias é que há uma supremacia tácita dos atores criminais sobre o sistema de segurança.

Sem recursos humanos para deter a avalancha de delitos que se derrubou sobre o Estado, a polícia e os agentes penitenciários se deixam levar por um desânimo e um abandono que os faz restar entregues praticamente à própria sorte.

E todo o colapso do sistema penal se localiza na superpopulação dos presídios.

Já se chegou ao cúmulo, em diversas regiões do Estado, de juízes, adequadamente, não permitirem mais o ingresso de criminosos nas cadeias, obrigando as autoridades policiais a soltá-los.

Tanto eu já disse, mas nunca é demais repetir: sem cadeias seguras e de tratamento digno aos presos, compatíveis com o castigo penal a que se destinam, não se terá segurança nas ruas.

Mas isso terá de ser repetido à exaustão para que finalmente o governo se convença de que o principal passo para a segurança das pessoas em suas comunidades é a segurança e habitabilidade dos presídios.

A incúria dos governos na questão carcerária até agora fez um casamento exitoso com a opinião pública, que despreza e detesta os presídios, chegando ao cúmulo de as comunidades não permitirem que eles se instalem em seus territórios.

A opinião pública exige que se prendam os bandidos, mas não se esforça um milímetro para construir lugares em que se os prenda.

Aos que não viveram o tempo de Garrincha, Robinho fez ontem um gol contra a Itália que resume toda a malícia e a molecagem do futebol brasileiro.

Os zagueiros italianos foram feitos de bobos por Robinho, que dançou para um lado e para o outro, driblando todos que lhe vinham ao encalço.

Um hino à individualidade.

*Texto publicado hoje em Zero Hora.

Postado por Sant`Ana