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Remédio trigueiro

25 de abril de 2009 31

Como sou diabético e fumo três maços de cigarro por dia, corro um risco muito grande.

Por isso, fiquei tentado no ano passado por um remédio do qual se diziam maravilhas, sendo classificado entre os médicos como o mais poderoso medicamento para curar o vício do tabagismo.

Nome do remédio: Champix.

Preço da caixa do remédio: em torno de R$ 1 mil, mas com muitos comprimidos, um tratamento de meses.

Nome do laboratório: Pfizer.

Comprei a caixa do remédio. Me parece que o tratamento se iniciava com meio comprimido diário, depois ia aumentando.

Fui tomando o remédio, e era tal a sua fama, que, por via das dúvidas, saboreei ainda mais os cigarros que ia fumando. Afinal, me preparei para abandonar o supremo êxtase de fumar.

 

Aumentei a dose como mandava a sofisticada bula, fui tomando, fui tomando.

E cada vez fumava mais, na ânsia de me despedir com exuberância irracional do vício tão estimado por mim. Sabem como é, o cigarro se incorporou de tal forma à minha personalidade e ao meu metabolismo, que sempre o considerei ser indissociável do meu ser.

Enquanto isso, os amigos me diziam que finalmente eu acertara. O remédio tinha um prestígio notável no meio médico e era cantado em prosa e verso por muita gente que tinha deixado de fumar com o tratamento.

Não me lembro ainda qual o prazo que a bula do remédio me dava para deixar de fumar, enquanto prosseguiria ingerindo os comprimidos.

Mas, enquanto eu podia fumar, fumava. E ia tomando o remédio.

Lá pelos 50 dias de tratamento, comecei a notar leves mas perceptíveis sinais de transformação no meu hábito de fumar.

Eu já não fumava três carteiras por dia, passei para duas e meia, o nível de exigência do meu paladar diminuíra.

Logo em seguida, um sinal mais perturbador: gradativamente, à medida que os dias iam passando, notei uma diferença no gosto do cigarro. Ele já não me apetecia tanto quanto no tempo em que eu não usava o remédio.

Achei aquilo estranho, mas o meu médico me disse que o plano estava dando certo, aqueles eram mesmo os sintomas esperados para o sucesso do empreendimento.

O que me atormentava especialmente era que, antes de terminar o prazo para eu cessar de fumar, embora mantivesse o tratamento, eu estava ingressando no perigoso terreno de enjoar de cigarro. Já não o acendia ansioso para tragá-lo, já não comprava com ímpeto as várias carteiras que sempre reservei a um estoque considerável. Meu apetite pela fumaça diminuíra violentamente.

Até que baixei a cota para duas carteiras de cigarros por dia. Parece-me que a índole do remédio é essa, diminui-se o número de cigarros que se fuma, naturalmente, por falta de demanda instintiva, enquanto a dose do medicamento aumenta.

Para abreviar, até mesmo porque minha memória é péssima e eu não lembro de alguns detalhes, cheguei à conclusão de que eu estava perdendo o gosto pelo vício e não tinha mais aquele prazer antigo e inesquecível de saborear os cigarros.

Fiz uma imediata reunião comigo mesmo e decidi radicalmente: “Sabe de uma coisa, na marcha que vai, se eu continuar tomando este remédio, vou acabar perdendo inteiramente o gosto pelo cigarro e terei de inevitavelmente parar de fumar”.

E concluí botar aquela porcaria do remédio fora, antes que ele me separasse para sempre de um dos dois únicos grandes prazeres que me restaram.

E como parei de tomar o remédio, prossigo novamente a fumar três carteiras por dia.

Mas estou feliz, isto é o que interessa. Com medo concreto de que o cigarro me venha a ser fatal, mas feliz.

Neste domingo às 19h30min, na Cervejaria Dado Bier do Bourbon Country, o psiquiatra Paulo Sérgio Guedes autografa seu livro de poesia Nada Precisa Ser como É.

*Texto publicado na página 47 de Zero Hora dominical

Postado por Sant`ana

Comentários (31)

  • nelson L diz: 26 de abril de 2009

    Quer dizer que teus mais exemplos não se restringem ao gremismo fanatico e inconsequente????

  • KAKO diz: 26 de abril de 2009

    Paulo Santana!

    COMPACTUO COM TUA SANDICE, NÃO FUMO TRÊS MAÇOS DE CIGARRO POR DIA MAS DOIS. NÃO SEI SE BEBES, MAS EU SIM, UM POUCO, PORÉM TEMOS UMA GRANDE DIFERENÇA SOU COLORADO CONVICTO, MAS NÃO TROCO O PRAZER DE FUMAR ,OU NÃO CONSIGO TROCAR(HE HEH HE), MESMO SABENDO QUE ESTE “PRAZER NOS LEVARÁ MAIS DEPRESSA DESTE MUNDO. PENA QUE NÃO VAMOS NOS ENCONTRAR, JÁ QUE ATÉ NO PARAÍSO JAGAREMOS EM TIMES CONTRÁRIOS.

    KAKO

  • Ronei dos Santos Schmidt diz: 26 de abril de 2009

    Grande Paulo Santana, admiro muito o que tu escreves, mas acho que neste caso você deu um péssimo exemplo na sua coluna. Tu és uma pessoa pública, já imaginaste quantos jovens podem começar a fumar, sabendo que tu escreveu que é um prazer. Gol contra Paulo Santana.

  • Alexandre Guedes diz: 25 de abril de 2009

    Adoro Paulo Santana, Zero Hora, Clic Rbs. acesso diariamente a página do Clic e da Zero Hora, mas ao divulgar um texto desse, acho que todos estão prestando um deserviço a comunidade.

  • Bruno Gomes diz: 26 de abril de 2009

    Caro Paulo: Não posso aceitar, como médico, o conteúdo de sua crônica. As atitudes que se tomam em relação a própria vida são de responsabilidade de cada um, mas na figura de uma pessoa pública tais atitudes passam a não mais serem adequadas. O fato é que o cigarro é uma droga lícita, que mata milhões de pessoas ao ano e pode ser comprada em qualquer mercearia de esquina. Sugiro a troca da palavra cigarro por crack ou cocaína e veja mensagem que pode passar inadvertida.

  • Rin Tin Tin diz: 28 de abril de 2009

    Liberdade e felicidade não tem nada a ver com burrice. Largue mão do cigarro. Conceituada que é tua pessoa, é um mau exemplo. Se não por ti, largue do cigarro pelos outros.

  • Luciana diz: 26 de abril de 2009

    Péssimo exemplo para os que estão tentando parar de fumar. Decepcionante!!!

  • elias diz: 26 de abril de 2009

    Muito de meus amigos de infância, de peladas nas ruas, bolas de gude e outras tantas coisas hoje estão com suas vidas destruídas por algo chamado crack, alguns conseguiram largar por um ano ou dois, mas acabaram novamente na mesma situação. Tudo começou com o cigarro, e hoje vejo garotos q outrora eram promissores aprisionados e com suas vidas sem expectativa.
    O cigarro é a porta para todas as demais drogas, logo ela é a pior de todas.
    ?isso de uma pessoa letrada e de vasto conhecimento como vc

  • Luis Carlos Salinas Criado diz: 27 de abril de 2009

    Sant`Ana.Quero parar de fumar. Tenho 32 anos, e fumo desde os 15.Comprei o CHAMPIX em março, tomei a cartela de inicio, depois a de manutenção e não consegui parar de fumar. Me disseram que o CHAMPIX nao tem nicotina, por isto seria o melhor tratamento.Para não dizer que não fez nenhum efeito, te conto que diminui de 1 maço por dia para meio maço por dia. Mas isto em média, tem dias que fumo mais de um maço.Nem este nojo do cigarro eu senti, para mim este remédio foi uma completa decepção.

  • Guenther Sehn diz: 26 de abril de 2009

    Brilhante. Ouvi o Wianey comentar sobre esta história no Sala de Redação, mas ainda não à conhecera de forma detalhada. Sou também visto como um radical entre meus amigos fumantes neste sentido; todos tentando parar, e eu defendendo sempre o prazer da fumaça enebriante.
    Já ouviste falar do “cigarro eletrônico”? Resumindo, é um “aparelho” morfologicamente igual a um cigarro (como um cigarro-cop) em que você ingere somente vapor de água com nicotina.
    Um forte abraço, mesmo!

    Guenther

  • Luiz Carlos Knopp diz: 26 de abril de 2009

    Me diverti muito lendo teu post. Sou visceralmente contrário ao cigarro, mas defendo de forma inequívoca o direito do fumante de conscientemente dar suas “baforadas”.

  • Mauricio Todeschini diz: 26 de abril de 2009

    Só não entendi por que diabos você comprou aquele remédio…

  • Claudio Flores diz: 26 de abril de 2009

    Caro Paulo me sinto constrangido em fazer este comentário pis escuto e leio seus comentários a decadas e sempre admirei sua lucidez e inteligência quando se manifesta,porem fiquei desapontado com esta sua opinião sobre fumar,pois você pode fazer o que quiser com sua saúde porem como homem publico você não deve e não pode fazer apologia e nem denunciar sua fraquesa pelo cigarro.

  • Alexandre André Zortéa diz: 26 de abril de 2009

    Santana, mostra-te um fumante convicto e cheio de teorias que demonstram o prazer da prática irracional de aspirar fumaça. Até aí tudo bem…. Cada um escolhe o seu caminho….
    O que não acho justo, é eu ter que pagar a conta de suas prováveis doenças decorrentes deste seu hábito insano, através dos impostos que pago. Ou alguém tem dúvida que somente os impostos pagos pelos fumantes são insuficientes para bancar todo custo de um tratamento médico…..

  • Marcos de Luca Rothen diz: 26 de abril de 2009

    Interessante ponto de vista. Difere um pouco daquela turma que sofre quando pega um cancer de pulmão e depois fica sem ar e mal diz o cigarro!

  • Suzana diz: 26 de abril de 2009

    Temos algo em comum: o gremismo. Tínhamos tb o gosto pelo cigarro. Digo tínhamos pq fazem 4 (QUATRO) anos q deixei de fumar após 30 anos. Tenho 60 anos e sinto-me + jovem, praticando caminhadas além de exercícios físicos c/peso em academia. O q quero te dizer q além de me prejudicar o cigarro tb me envelhecia. Sou tua fã e por isto mesmo gostaria de continuar a ler tuas crônicas diárias por vários anos. Tente! Resista! Deixei de fumar sem remédios! Foi terrível, mas consegui!Coma balas e chicles

  • Guilherme diz: 26 de abril de 2009

    É… todos devemos ir em busca da felicidade, mesmo sabendo se faz bem, ou mal. O importante é ser feliz.

  • HELENO PINTO NOBRE diz: 27 de abril de 2009

    Somente hoje tomei conhecimento deste fato e fiquei triste porque tenho apreço pelo colunista ( 27/04/2.009 )Tenho sonhado ver um dia em que verei a noticia de que o Paulo Santana deixou de fumar; parece que não vai ser desta vez; mas como dizem a esperança é a última que morre. Gostariamos de poder ver a notícia de que deixou de fumar; achei espantoso ele declarar que fuma até no chuveiro; ele é realmente surpreendente.

  • Pablo diz: 25 de abril de 2009

    Olha só cara larga de frescura e para de fumar q é o melhor que vc fará com a sua vida, depois do cigarro sempre terá coisas melhores…

  • Rodrigo Tricolor diz: 26 de abril de 2009

    Lamentável.. então é isso que pensas definitivamente ?? Blz, quem é viciado em cigarro segue fumando, viciado em alcool segue bebendo, viciado em cocaina segue cheirando.. e assim por diante. O vicio é uma doença Santana; deletéria a saúde, se entregar a ela é a forma mais simples de encará-la !!!

  • Érico Ricardo Koerich diz: 26 de abril de 2009

    Li o que lhe aconteceu, e imediatamente lembrei de algo parecido que ocorreu comigo alguns anos atrás. Começei a utilizar Niquitin (em goma de mascar), e no primeiro dia de uso, fumei apenas um cigarro (fumava uma carteira por dia), no segundo dia não fumei nenhum, fiquei 14 dias sem colocar um cigarro na boca, até que um dia olhei para o remédio e pensei, vou jogar você fora e comprar uma carteira de cigarro. E foi o que aconteceu. Resumo, o verdadeiro vício não é fisico, é pscicológico…

  • Ana Figueiredo diz: 27 de abril de 2009

    Realmente! Nada precisa ser como é.

  • MACHADO diz: 26 de abril de 2009

    Ah, sim! Muito inteligente sua decisão. E ainda a publica…..

  • JUNIOR ROZA diz: 25 de abril de 2009

    Quer um trofeu pelo feito? achei mau exemplo esta historia, e sou seu Fã de carterinha Paulo Santana….

  • elias diz: 25 de abril de 2009

    A propósito, deixo para vc e os demais freqüentadores do blog uma dica.

    Coleção “Análise da inteligência de Cristo” de Augusto Cury, é composta de 5 volumes.

    OBS: É um livro sobre psicologia e não sobre religião. Garanto q ninguém se arrependera.

  • Gabriel diz: 29 de abril de 2009

    Parei de fumar graça ao Celso Roth. Em 2003, Celso treinava o Inter com o costume de vencer o jogo por 85 minutos, equivocar-se em substituições e levar gol de empate nos acréscimos. Durante um jogo contra o Guarani em Campinas, eu pegava outro cigarro quando levamos o gol de empate aos 47 do segundo tempo e eu quebrei todos os cigarros de raiva. Percebi que não havia nenhum lugar aberto para comprar e, enraivecido, fui para casa sem cigarro. Nunca mais fumei. Obrigado, Celso Roth!

  • Rodrigo Gamboa diz: 26 de abril de 2009

    Prezado Santana, antes de mais nada, eu sou colorado. Dito isso, venho a comentar que eu também fumava, pouco, mas fumava, e pensava que nunca ia parar. Tenho 32 anos, e decobri um problema de saúde, que esta sob controle, mas que depende de mim melhorar ou piorar. Parar de fumar era uma medida que me ajudaria muito, e parei. Não deixe algo que você julga ser um prazer, atrapalhar sua caminhada nesta vida. Aliás, existe vida após se parar de fumar. Acredite. É uma dica, de um amigo colorado!

  • elias diz: 25 de abril de 2009

    Boa!!! Vou aconselhar meus 2 sobrinhos a começarem cedo para terem mais anos de apreciação por esse vicio sujo e vulgar… q sobre tudo extrapola a regra da boa educação nos privando muitas vezes de freqüentar determinados ambientes pelo total descaso dos fumantes para com aqueles q como eu abominam tal pratica.

    Ignorando minha opinião pessoal…

    Jesus te ama independente de qualquer circunstancia…

  • cleiton diz: 26 de abril de 2009

    Santana,estou decepcionado com o jornal Zero Hora.Leio a ZH desde que fui alfabetizado,em 1965,e hoje a leio diariamente pelo computador aqui em Goiânia.Hoje,domingo26/04,não há UMA única linha sobre o Grêmio.Nada,nadica de nada,a não ser um comentário do Wianey sobre as finanças.Temos um jogo importantíssimo em dois dias,na maior competição das Américas E NÃO HÁ UMA ÚNICA LINHA SOBRE O GRÊMIO.Para os colorados,páginas e mais páginas. Meus pêsames ao grupo RBS pela enorme parcialidade e descaso.

  • RENEU J. K. diz: 26 de abril de 2009

    Na minha opinião, todo e qualquer paciente acometido de doença desencadeada pelo cigarro, bem como pelas demais drogas, lícitas ou não, e que não procura tratamento intensivo para sua doença de base, não deveria receber assistência médica patrocinada pelos cofres do dinheiro proveniente do contribuinte.

  • bruno diz: 3 de março de 2010

    Quando sai proximo-tipo- O MELHOR DO MELHOR DO PABLO

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