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Só pode ser amor

23 de maio de 2009 16

Não sei onde estava e do que me possuíra quando escrevi a coluna abaixo.

É tão inacreditável, que chego a pensar que não fui eu que a escrevi. Como posso ter chegado a tão grande altura? Ei-la, deixem eu me exibir:

Eu já devia ter pressentido que era amor quando curtia magnífico prazer somente em olhá-la de longe. Eu já devia saber que era amor quando vibrava com seus êxitos e me entristecia com seus embaraços. Eu tinha que ter percebido que era amor quando me sentia invulnerável à solidão se me aproximasse dela a um raio de 20 metros. Só podia ser amor aquele estremecimento que me percorria todo o corpo quando ouvia sua voz se dirigindo para os outros. E quando, num ambiente repleto de pessoas, eu passava a não distinguir as feições de todos, vendo-os apenas como vultos expletivos, realçando-se como esplendorosamente icônica sua figura arrebatadora, já naquele tempo eu não devia ter duvidado de que era amor.

 

***

 

Já era fortemente suspeito que durante as minhas tristezas elas desaparecessem como por um milagre se eu usasse como antídoto a simples lembrança do seu meigo sorriso. E que, quando diante da visão dela por apenas um segundo, durante o resto do dia os meus passos e gestos se impregnassem de alegre coragem de viver. Ou como naquele dia em que topei abruptamente com ela no estacionamento e fiquei tão ruborizado, que parecia estar focado pelo facho de luz emanado da palavra de um profeta.

***

Não podia ser outra coisa aquela constante palpitação, aquela ruidosa esperança, aquele contentamento ansioso nas manhãs e o meu pulsante e taquicárdico coração vibrando ante a obsequiosa visão de sua esplendente silhueta vespertina.

Só podia ser amor a minha alma assim tão cheia de cuidados para preservar o meu segredo, o medo de que minha palavra ou o meu escrito, num escorregão, violassem o esplêndido sigilo do sentimento abrasador que me dominava.

***

Só podia ser amor que, depois de ela ter surgido luminosa na escarpa da caverna da minha solidão, eu deixasse de me entregar ao exercício fastidioso da comparação. Ninguém ou nada mais se equivalia ou se assemelhava a ela, mãe, irmã, parceira, namorada, companheira. Cheguei loucamente a pensar que a única cidadela capaz de manter íntegro aquele meu frágil amor inconfessável era mantê-lo em segredo, imune ao conhecimento dos outros e até mesmo incrivelmente dela.

Dar a conhecê-lo arrastaria ao tremendo risco de fazê-lo soçobrar ali adiante, presa fácil do fastio da convivência ou de uma resposta contundentemente adversa.

***

Ah, silencioso amor cheio de delícias e ilusões. Precavido amor que não se declara com medo da quebra do cristal. Ah, amor que quanto mais distante mais crescente, quanto mais errante mais certeiro, quanto mais secreto mais ditoso, quanto mais expectante mais real, quanto menos empírico mais ideal, quanto menos dela mais meu, quanto mais irrealizado mais duradouro, quanto mais prometido mais honrado. Quanto menos compartilhado, mais definitivo. Amor por eleição, tão alto, tão profundo, tão desinteressado, que não importa sequer o que faça dele e do seu mandato a sua eleita.

Nem que o malbarate por não pressenti-lo.

* Texto publicado na página 47 da Zero Hora deste domingo.

Postado por Paulo Sant`Ana

Comentários (16)

  • Elizete Luz diz: 11 de junho de 2009

    Paulo Santana
    Já havia guardado a cópia deste texto há algum tempo(recortei do jornal). Sou colecionadora de mensagens e grande admiradora de quem possui a sensibilidade de colocar em palavras os sentimentos.
    Este texto é muito lindo, descreve exatamente o que um simples mortal gostaria de expressar para definir o amor.
    Ainda bem que temos entre nós pessoas especiais, com esse dom maravilhoso.
    Verdadeiros poetas!
    Parabéns!

  • Eddie Friedrich diz: 25 de maio de 2009

    Já vi tu descreveres muitas coisas Sant`Anna, mas amor.. Ah, esta é a primeira vez. Estufa o peito, porque realmente este texto é uma obra de arte. Mui belo. Parabéns!

  • ANDRE ADEMIR FERRAZ diz: 24 de maio de 2009

    É ISSO AI COLORADO.ESSE É PURO SANGUE,PARAGUAIO NÃO TEM VEZ NO GIGANTE VAMO,VAMO INTEEEEERRRR!!!!!

  • Nara Nonnenmacher diz: 29 de maio de 2009

    Sant`Ana: você é o CARA!
    Escrever sobre câes furiosos, políticos corruptos e ter essa sensibilidade para escrever de amor, tem que ser o CARA.

    Abraços.

  • Silvio Marques Dias Neto diz: 24 de maio de 2009

    Meu Caro Paulo Santana.
    Que momento de inspiração. Como eu gostaria de ter escrito esse e, talvez, todas as tuas crônicas. Sensacional.Um abraço de um leitor permanente dos teus escritos. Silvio Marques Dias Neto

  • paulo roberto diz: 24 de maio de 2009

    Muito bom, mas fica aqui a pergunta que não quer calar. será que foi o Santana que escreveu mesmo? Não houver plágio ou ele realmente é um gênio e poeta.

  • Antonio diz: 25 de maio de 2009

    Segue tentando santana esta está melhorzinha que as outras.

  • Bruna Weber diz: 28 de maio de 2009

    Caro Paulo Sant`Ana,
    Há alguns dias que quero passar por este espaço e deixar anotada a minha profunda e sincera admiração pelo belíssimo texto escrito.
    “Só pode ser Amor” é o registro da auto-descoberta. O apontamento de um homem que reconhece dentro de si próprio o sentimento mais sublime.
    Que este texto seja publicado novamente e republicado, se necessário. Nós, homens e mulheres, carecemos olhar mais para dentro de nós mesmos. É lá que reconhecemos os verdadeiros sentimentos!Parabéns!

  • Ricardo diz: 24 de maio de 2009

    ” Sant`Ana, e quem nunca viveu um amor assim?é um sentimento nobríssimo,que faz realmente o ser humano mover-se ao estímulo dele…” M.g.ui, eu te amo.

  • Jéssica diz: 24 de maio de 2009

    Sublime. Ninguém sabe usar as palavras como Paulo Sant`anna.

  • jose luiz machado de castilhos diz: 24 de maio de 2009

    Santana, leio tuas colunas desde, sempre. Como tens transtorno bipolar, segundo voce mesmo comentou, e eu descobri que as colunas que sao obras primas sao aquelas escritas quando estas muito depremido ou muito euforico, vamos, os teus fãs de carteirinha, descobrir uma pilula anti-fluoxetina( fluoxetina medicamento usado para depressão), com duração de no maximo de 6 horas , tempo mais que suficiente para escreveres tuas colunas memoráveis.A tua coluna SO PODE SER AMOR conseguistes o apice.

  • Mariana diz: 23 de maio de 2009

    Andas lendo muito Camões, Sant`ana! hehe, bela coluna!

  • Lucas diz: 23 de maio de 2009

    Não poderia deixar de externar minha profunda admiração pelo trabalho do filósofo Paulo Sant`Ana.
    Muito mais do que um simples comentarista, os anos deram a ti, Sant`Ana a sutileza de sentir o que as pessoas precisam ouvir e a grandeza de nos dar palavras fortes, repreensivas muitas vezes.
    Sou grato por isso, e creio que é isso que faça de ti o maior do mundo no que faz.
    E aqui vai um pedido, se possivel escreva algo para meus alunos, esses precisam de amor e disciplina.

  • Dilnei Nunes Serafim diz: 23 de maio de 2009

    In vino veritas!

  • Aristóteles diz: 23 de maio de 2009

    Será que existe alguma mulher que mereça uma quarta parte de tudo isso aí? Francamente falando, acho que sou mais da realidade, ou seja, das camas separadas, ou, melhor ainda, daqueles onde os verdadeiros amores vivem em cidades separadas, como diria o velho e experiente Pablo!

  • Mary Laux diz: 23 de maio de 2009

    “amor que quanto mais distante mais crescente, quanto mais errante mais certeiro, quanto mais secreto mais ditoso, quanto mais expectante mais real”

    que lindooo *-*

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