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Lixo demolidor

29 de maio de 2009 8

CLÁUDIO BRITO (interino)

Há 10 anos, nos morros do Rio, travou-se uma guerra inesperada. Traficantes contra traficantes. Na esteira, a chacina de muitos jovens, soldados do narcotráfico, sentinelas das vielas e gerentes de algumas “bocas”. O motivo era inexplicável para quem visse aquele mundo apenas à distância. Matavam-se porque tinha gente vendendo droga demais. Não era uma droga qualquer, das conhecidas e mais procuradas. Era uma sujeira que, segundo argumentavam alguns chefões que manipulavam a guerrilha, “estragaria o mercado”. De um poder avassalador para causar dependência, surgia com fartura e facilidade. A preços irrisórios e, se fosse possível dizer assim, aviltantes.

Então, a guerra. O comércio carioca de entorpecentes não queria reproduzir a periferia de São Paulo, já dominada pela novidade.

As favelas sabem tudo dessa droga desde então. Em 10 anos, perde-se a conta dos que morreram por causa do vício maldito, diretamente ou assassinado em algum canto de rua num ajuste de contas.

Cinco anos depois, na entrada de Porto Alegre, à margem de uma rodovia, um automóvel queimou até tornar irreconhecível o cadáver sentado em seu banco dianteiro. Poucos dias de investigação foram suficientes para definir que se tratava de uma execução no submundo do tráfico de entorpecentes. Poucos perceberam, no entanto, que havia alguma coisa em comum com crimes noticiados no eixo Rio-São Paulo. A motivação era a mesma. A disseminação da nova porcaria tinha uma reação na intimidade do crime organizado. Quem ganhava dinheiro com maconha e cocaína pretendia preservar seu quinhão sem permitir que a devastação da novidade invadisse a área. Não, aquele lixo brabo jamais. Li e ouvi depoimentos estranhos: “Tá louco, nego. Isso é doideira geral, nessa onda não vou não, não mexo com isso”.

Quem mexesse tomava tiro. O pavor foi geral. Dentro e fora dos espaços dominados pelos traficantes. Os últimos a conhecer e compreender o que estava ocorrendo foram os que deveriam cuidar da prevenção. Nossos órgãos públicos e a rede social que atua na área da drogadição e seus tratamentos, médicos e jurídicos. Não que quisessem que fosse assim, mas foram todos vencidos pela rapidez com que o mal se espalhou.

Ainda é tempo, no entanto.

Ainda temos o que fazer. E vamos fazer. Todos. Sociedade, governos, operadores do direito e da saúde. Com um ingrediente principal, o amor. Amor ao próximo, amor-próprio, amor familiar. Amor, enfim.

Depois de capacitados da indispensabilidade do amor, o conhecimento. Vamos saber muito bem sabido que droga é essa. Fuma-se, aspira-se, injeta-se, afinal, como é que esse veneno invade o corpo e a alma, destruindo a ambos? Como é que ele é alcançado às crianças que já se perderam engolfadas pela fumaça nojenta e bandida? Quanto custa, quem vende, quem prepara? Quais são os primeiros sintomas de quem já experimentou? Como salvar essa gente? Talvez seja impossível libertar quem se deixou levar. Dramática realidade. A destruição é irreversível. Usou uma vez? Danou-se. Então, nada a fazer? Tudo a fazer. Tratar e devolver alguma qualidade de vida a quem se envenenou, cuidar, avisar, ensinar e impedir que seja tocado quem ainda não escorregou.

Todas as drogas são horríveis. Mesmo as lícitas. Bebida alcoólica e cigarro de tabaco. O que dizer da maconha, cocaína, anfetaminas, as voláteis e as sintéticas. Tudo é droga. Tudo é porcaria. Nada foi tão devastador, no entanto, quanto a droga que assustou até os traficantes dos morros do Rio. E que já destrói mais de 50 mil gaúchos. E impedir que esse número se multiplique é nossa missão, dever de todos nós. Temos que retomar valores meio escondidos, como os da família, por exemplo. A ausência da figura paterna está na roda de causas da drogadição irremediável. Isso tem que ser corrigido. Pelo comportamento dos pais pouco atentos, pela substituição dos que se ausentaram. É preciso sacudir, é preciso conscientizar, é preciso dizer não às drogas, mas, fundamentalmente, é indispensável afastar de todos o cálice horrendo desses dias. O cachimbo mortífero onde se queima o lixo demolidor. Temos que parar a corrida assassina do crack. Nele, nem pensar!

* Texto publicado na página 63 de ZH de hoje.

Postado por Sant`Ana

Comentários (8)

  • sonia louzada diz: 29 de maio de 2009

    santana enquanto não forem revistas as leis do eca nada vai mudar, pois deram muitas regalias para as crianças, e tiraram o respeito que elas deveriam ter por seus pais, pois atraves do eca elas só tem deveres, direitos eu não vejo nenhum

  • nelson L diz: 31 de maio de 2009

    Al Capone,foi imortalizado por ter sido o maior “traficante” de bebida alcoolica, na época da LEI SECA nos EUA da década de 30/40.Isto é,a proibição (e criminalização) de qualquer “droga”:cocaina,crack,aborto clandestino,carteado,roleta,prostituição,jogo do bicho etc…só conduz à formação de quadrilhas de psicopatas que se aproveitam para faturar em cima do aumento de preço que a proibição provoca.Ou libera(e ai cada um por si e Deus por todos) ou institui leis severas(como nos paises arabes)

  • Aristóteles diz: 29 de maio de 2009

    Depois do que li, vi e ouvi, posso dizer que a campanha contra as drogas é burocrática e politicamente correta. Não vai alterar o quadro que aí está. Enquanto os formadores de opinião não se mobilizarem para tornar o usuário da droga um criminoso nada se modificará. O usuário da droga deve ser tratado de forma semelhante ao motorista que dirige alcoolizado e que sabe que é um criminoso em potencial e assume o risco de sê-lo. Deve ser penalizado e ponto final! Chega de tantos sofismas!!!

  • Ricardo Monteiro Albuquerque diz: 29 de maio de 2009

    Bom dia.
    Hoje pela manhã, liguei a tv para dar uma olhada rápida nas notícias antes de sair.
    1ª-ALUNO ESFAQUEADO POR ASSALTANTES NA SAÍDA DA ESCOLA.
    2ª-ENFERMEIRA PAGA PELA FAMILIA FLAGRADA AGREDINDO IDOSA DEFICIENTE
    3ª-DJ FAMOSO ACUSADO DE ABUSAR SEXUALMENTE DE MENINA DE 4 ANOS POR MAIS DE 10 DIAS.
    Continuando a discussão que o Sant`Ana levantou, eu pergunto;
    FALTAM LUGARES NOS PRESIDIOS OU AUMENTOU MUITO A CRIMINALIDADE?SE AS PENAS NÃO FOREM MAIS RIGOROSAS, VAI PIORAR.E A PENA DE MORTE??

  • Flavio diz: 29 de maio de 2009

    Excelente e oportuno comentário, eu como policial acompanho o avanço do crack e o dano que causa à pessoa, à familia e a sociedade.

  • jeferson luis diz: 29 de maio de 2009

    santana sou de nh e tambem temos muitos problemas com o crack, pois eu mesmo já presenciei uma familia atormentada pelo vicio de um de seus filhos e tambem de meninas se prostituindo para poder comprar a droga . dou os parabéns para toda a rede RBS que esta tomando esta iniciativa, parabens a todos.

  • Rin Tin Tin diz: 29 de maio de 2009

    Ei! Com todo ao nobre colunista interino, que merece o maior respeito, mas, cadê o Sant´Ana?

  • Jones dos Santos diz: 29 de maio de 2009

    Olá Santana, sou colorado e seu admirador.

    Desculpe usar esse espaço pra isso. Mas dá umas dicas para as moças do Clube do Bolinha.

    Que demonstrar amor por uma equipe (GRÊMIO), para todos, tem que ser feita com responsabilidade.

    Caso vc não saiba do ocorreu eu explico:

    Elas publicaram que a torcida do INTER havia armado aquela FAIXA DE COLIGAY na torcida do CARACAS. Quando descobriram que tudo não passou de uma acusação IMPARCIAL elas pediram desculpas pelo ERRO TENDÊNCIOSO.

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