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Posts de maio 2009

Vicky, Cristina e Daiane

30 de maio de 2009 6

* Moisés Mendes (interino)

Ouvi na sexta-feira num café aqui perto da Redação. Um guri disse para o colega ao lado: hoje em dia, é preciso saber de tudo. Era um trainee, com jeito de trainee, corte de cabelo de trainee. Trainees falam com as duas mãos enfiadas nos bolsos da calça e sabem tudo. Eu sei regra de três composta, que poucos sabem, mas isso vale pouco hoje em dia. Sei fazer quase tudo num computador. Uso o mouse com as duas mãos. Mas não domino um celular que comprei há dois dias porque o meu ficou mudo, depois de um ano de uso, e o modelo saiu de catálogo. Celulares se renovam, no design, nas configurações, nos teclados e se transformam em máquinas enigmáticas para quem tem mais de 50 anos. O meu tem visor rosa-choque, e a moça assegurou que é unissex. Não basta ser uma esfinge, é uma esfinge rosa.

      Na loja, a moça pediu que eu testasse o aparelho, que ligasse para alguém. Liguei para um amigo e avisei, meio empolgado: estou aqui comprando este celular e telefono neste momento para fazer um teste. Recebi os parabéns do amigo e recolhi todos os olhares da loja. Celular é uma máquina de propagar bobagens e pensamentos em voz alta. Recolhe-se o que se pode de quem conversa por perto, os fragmentos, as personagens, os apelos, as angústias, os silêncios.

      Há seis anos, quando ainda sentia estranhamento com essas conferências públicas de intimidades, caminhava pela Rua Lobo da Costa e um rapaz andava logo adiante falando ao celular. O moço disse: Daiane, jura que tu vai ser sincera, jura. O rapaz andava devagar. Na ultrapassagem, ouvi a segunda frase, uma interrogação dolorida: Daiane, tu voltou pro André? E o moço insistiu: tu voltou pro André, Daiane?

      Na esquina da João Pessoa, em marcha mais lenta, constrangido e atraído pelo drama público do rapaz, fui para um lado e ele para outro. Desci a João Pessoa, e o guri grandão subiu a rua levando junto as próximas frases e o mistério. Eu nunca mais saberia se Daiane voltara para André.

      Uns dois anos depois, esperava uma vaga no estacionamento do Shopping Praia de Belas, e uma moça descia do carro. Falava ao celular. Dizia: para com isso, cara, eu não tenho nada, nada, nada com esse André. Temi que uma vaga se oferecesse ali por perto. Queria ficar e queria sair, me sentia de novo constrangido e atraído por uma conversa da qual conhecia o início. Era Daiane, claro. Morena, pequena, inquieta. Eu ouvia ali, dois anos depois, a frase que o rapaz deve ter ouvido lá na Lobo da Costa. Ou tudo se repetia, e Daiane passara todo aquele tempo explicando que não tinha nada com André.

      A moça se foi e desde então, quando ouço um jovem falando alto ao telefone, me flagro, ainda constrangido, tentando identificar o terceiro personagem. Mas o roteiro, que asseguro ser real, em nome de todos os que já se submeteram aos vexames acionados ao celular pelas inseguranças do amor, ainda é muito incompleto. Conheci o primeiro personagem, o rapaz que temia André, mas não sei seu nome. Estive ao lado de Daiane. Mas nunca encontrei André.

      É quase certo que nunca vou encontrá-lo e sei que, contando essa história, posso provocar a vaidade de farsantes. Quantos Andrés sairão contando que chamaram, sim, Daiane de volta e a dispensaram depois, por piedade ou enfaro, para que retornasse chorando ao moço da Lobo da Costa. Eu torço pelo rapaz, por sua perseverança, pela capacidade de compartilhar em voz alta a dúvida que o atormentava e por ter concluído que ele é de fato o melhor para Daiane.

      Só agora conto essa história porque comprei um celular novo e porque assisti tardiamente, na semana passada, a Vicky Cristina Barcelona. O filme nos põe diante do dilema de escolher quem fica com quem, mesmo que às vezes ninguém fique com ninguém. Claro que não vou contar o final, mas fiz minhas escolhas e nenhuma combinou com o desfecho. Meu final era previsível, com tudo bem amarradinho, como na novela das oito. É difícil ser Woody Allen. Penso em Vicky e Cristina e penso com quem estará Daiane, enquanto continuo desconfortável com esse visor rosa. Às vezes, nem a cor da tela de um celular é como esperamos que seja. Mas a moça da loja me disse que a gente acaba se acostumando.

 

* Texto publicado na página 55 da ZH dominical

Postado por Paulo Sant`Ana

Lixo demolidor

29 de maio de 2009 8

CLÁUDIO BRITO (interino)

Há 10 anos, nos morros do Rio, travou-se uma guerra inesperada. Traficantes contra traficantes. Na esteira, a chacina de muitos jovens, soldados do narcotráfico, sentinelas das vielas e gerentes de algumas “bocas”. O motivo era inexplicável para quem visse aquele mundo apenas à distância. Matavam-se porque tinha gente vendendo droga demais. Não era uma droga qualquer, das conhecidas e mais procuradas. Era uma sujeira que, segundo argumentavam alguns chefões que manipulavam a guerrilha, “estragaria o mercado”. De um poder avassalador para causar dependência, surgia com fartura e facilidade. A preços irrisórios e, se fosse possível dizer assim, aviltantes.

Então, a guerra. O comércio carioca de entorpecentes não queria reproduzir a periferia de São Paulo, já dominada pela novidade.

As favelas sabem tudo dessa droga desde então. Em 10 anos, perde-se a conta dos que morreram por causa do vício maldito, diretamente ou assassinado em algum canto de rua num ajuste de contas.

Cinco anos depois, na entrada de Porto Alegre, à margem de uma rodovia, um automóvel queimou até tornar irreconhecível o cadáver sentado em seu banco dianteiro. Poucos dias de investigação foram suficientes para definir que se tratava de uma execução no submundo do tráfico de entorpecentes. Poucos perceberam, no entanto, que havia alguma coisa em comum com crimes noticiados no eixo Rio-São Paulo. A motivação era a mesma. A disseminação da nova porcaria tinha uma reação na intimidade do crime organizado. Quem ganhava dinheiro com maconha e cocaína pretendia preservar seu quinhão sem permitir que a devastação da novidade invadisse a área. Não, aquele lixo brabo jamais. Li e ouvi depoimentos estranhos: “Tá louco, nego. Isso é doideira geral, nessa onda não vou não, não mexo com isso”.

Quem mexesse tomava tiro. O pavor foi geral. Dentro e fora dos espaços dominados pelos traficantes. Os últimos a conhecer e compreender o que estava ocorrendo foram os que deveriam cuidar da prevenção. Nossos órgãos públicos e a rede social que atua na área da drogadição e seus tratamentos, médicos e jurídicos. Não que quisessem que fosse assim, mas foram todos vencidos pela rapidez com que o mal se espalhou.

Ainda é tempo, no entanto.

Ainda temos o que fazer. E vamos fazer. Todos. Sociedade, governos, operadores do direito e da saúde. Com um ingrediente principal, o amor. Amor ao próximo, amor-próprio, amor familiar. Amor, enfim.

Depois de capacitados da indispensabilidade do amor, o conhecimento. Vamos saber muito bem sabido que droga é essa. Fuma-se, aspira-se, injeta-se, afinal, como é que esse veneno invade o corpo e a alma, destruindo a ambos? Como é que ele é alcançado às crianças que já se perderam engolfadas pela fumaça nojenta e bandida? Quanto custa, quem vende, quem prepara? Quais são os primeiros sintomas de quem já experimentou? Como salvar essa gente? Talvez seja impossível libertar quem se deixou levar. Dramática realidade. A destruição é irreversível. Usou uma vez? Danou-se. Então, nada a fazer? Tudo a fazer. Tratar e devolver alguma qualidade de vida a quem se envenenou, cuidar, avisar, ensinar e impedir que seja tocado quem ainda não escorregou.

Todas as drogas são horríveis. Mesmo as lícitas. Bebida alcoólica e cigarro de tabaco. O que dizer da maconha, cocaína, anfetaminas, as voláteis e as sintéticas. Tudo é droga. Tudo é porcaria. Nada foi tão devastador, no entanto, quanto a droga que assustou até os traficantes dos morros do Rio. E que já destrói mais de 50 mil gaúchos. E impedir que esse número se multiplique é nossa missão, dever de todos nós. Temos que retomar valores meio escondidos, como os da família, por exemplo. A ausência da figura paterna está na roda de causas da drogadição irremediável. Isso tem que ser corrigido. Pelo comportamento dos pais pouco atentos, pela substituição dos que se ausentaram. É preciso sacudir, é preciso conscientizar, é preciso dizer não às drogas, mas, fundamentalmente, é indispensável afastar de todos o cálice horrendo desses dias. O cachimbo mortífero onde se queima o lixo demolidor. Temos que parar a corrida assassina do crack. Nele, nem pensar!

* Texto publicado na página 63 de ZH de hoje.

Postado por Sant`Ana

Que sufoco e que alívio aquele gol do Grêmio

28 de maio de 2009 46

Grêmio empatou por 1 a 1 contra o Caracas no jogo de ida/Harold Escalona, EFE
O Grêmio assustou os seus torcedores ontem. O jogo ia andando, andando e desmentindo um favoritismo inexplicável que Paulo Autuori e a maioria da crônica esportiva do Rio Grande do Sul davam ao Grêmio no jogo contra o Caracas.

Inexplicável o favoritismo porque o Caracas vinha de 100% em aproveitamento no seu estádio e seu último retrospecto era uma vitória de 4 a 0 sobre o Cuenca. Inexplicável que Autuori e cronistas tenham dito que o Grêmio era favorito contra o Caracas.

O que se viu em campo foi justamente o contrário. O Caracas foi muito melhor e o Grêmio teve uma atuação desanimadora. Finalmente o resultado de 1 a 1 — com um grande lançamento em cobrança de falta de Tcheco para Fábio Santos — deixou o Grêmio em uma situação cômoda de que com 0 a 0 no Estádio Olímpico, no segundo jogo, será um dos quatro melhores da América. Cômoda situação, péssimo desempenho e grande resultado!

Enquanto isso aqui no Beira-Rio, só cego é que não vê que o Internacional já é finalista da Copa do Brasil. Vai ser um dos dois últimos sobreviventes da competição. Deverá decidir o título contra o Corinthians. Eu sinto dizer, não gosto de dizer, mas no meu entender o Internacional é o favorito para conquistar a Copa do Brasil e o Brasileirão. O meu intelecto me conduz a raciocinar que o Inter será o campeão dos dois campeonatos já mencionados.

De qualquer sorte, que sufoco e que alívio aquele gol que o Grêmio conseguiu arrancar do Caracas!

Ouça meu comentário no Gaúcha Hoje

Postado por Paulo Sant`Ana

RBS lança campanha assustadora, mas necessária

28 de maio de 2009 7

A RBS está lançando uma campanha contra a epidemia do crack que grassa no tecido social gaúcho. Não se aproxime do crack! Não experimente o crack! Experimentar o crack significa a morte. Não toque no crack! A campanha é assustadora, mas necessária.

Especialistas dizem que é preciso que as pessoas tenham as famílias, os jovens e as crianças — tenham a consciência dos malefícios terríveis dessa droga. Não se aproxime — Crack, nem pensar!

Postado por Paulo Sant`Ana

O nó górdio da questão

28 de maio de 2009 23

Nunca recebi talvez tantos e-mails como ando recebendo agora, com dois assuntos dominantes: o dilema daquela testemunha do crime na Rota do Sol e a libertação dos 15 ladrões de caminhões pelo juiz que alegou falta de vagas nos presídios.

E muitos e-mails de leitores admitem a falta de vagas nos presídios mas afirmam que mesmo assim os 15 ladrões tinham de ser recolhidos às prisões.

Confesso que não entendi esses leitores. Porque Galileu Galilei, Leonardo Da Vinci, Einstein, se revirariam no túmulo se soubessem que um dos princípios básicos da Física, o de que “dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço”, é violado escandalosamente no Presídio Central de Porto Alegre, onde três e meio corpos ocupam o mesmo espaço. Com vagas para somente 1,5 mil apenados, lá são colocados 4,9 mil presos. Pasmem!

Galileu Galilei se revira no túmulo.

E ainda querem muitos leitores que quatro, cinco, seis corpos venham a ocupar o mesmo espaço no Presídio Central!

Escrevi ontem aqui que o erro estrutural do problema carcerário brasileiro repousa em que os presídios não são administrados pelo Poder Judiciário.

Quando o Estado decreta a prisão de um indivíduo, o faz pelo único meio permitido: decisão do Poder Judiciário.

Aquele preso, portanto, como a própria lei o afirma, terá sua pena administrada pelo Poder Judiciário.

Como é então que no nosso regime o Poder Judiciário transfere a custódia desse preso ao Poder Executivo, que administra as cadeias?

O erro reside em que o poder que administra as penas não administra os presídios.

Redunda então que as verbas carcerárias vão para dentro de um cesto de centenas de verbas do orçamento do Poder Executivo, que não as pinça de lá nunca, porque construir e administrar presídios não dá votos.

Em suma, quem tem de construir e administrar presídios é o Poder Judiciário, ao qual cabe a tutela do preso, o poder que não precisa de votos dos eleitores.

Isso foi o que tentei explicar ontem aqui na coluna. Pois compareceu ontem ao programa Polêmica o desembargador Marco Antônio Scapini.

E, no início dos debates, ele disse o seguinte: “Eu poderia dispensar a minha participação neste debate dizendo que tudo o que se disse a respeito deveria ser resumido à certeira opinião do colunista Paulo Sant’Ana em Zero Hora de hoje”.

Fiquei honrado tanto com esta referência quanto com outra do desembargador Scapini: “Ao tempo em que eu e o Dr. Fernando Cabral éramos juízes da Vara de Execuções Criminais, nos reuníamos ambos para nos confortar com as opiniões do colunista Paulo Sant’Ana sobre política carcerária”.

Desculpem a imodéstia, mas deste assunto eu entendo. E muito.

O doutor Scapini, que foi juiz penal experimentado, relatou ontem o dilema que cerca os juízes quando vão apenar alguém: a Constituição brasileira afirma em seu artigo 5º que “ninguém pode ser submetido a tortura ou a condição degradante”.

E a condição dos presídios brasileiros atualmente é degradante.

Se algumas dessas pessoas que defendem o recolhimento dos presos aos presídios, mesmo em condições degradantes, visitassem os presídios, não mais o defenderiam.

Sairiam de lá enojadas, nauseadas, chocadas, traumatizadas, defendendo somente que se criassem mais vagas nos presídios.

Infelizmente, essa intelecção não é exercitada pela maioria das pessoas.

* Texto publicado na página 63 de ZH de hoje.

Postado por Sant`Ana

Pessoas são mutiladas pitbulls e ninguém faz nada

27 de maio de 2009 72

Cabe aos donos dos pitbulls não permitir que eles convivam com as pessoas/Adriana Franciosi, BD - 17/10/2006

Todas as semanas há o registro de um ataque implacável e feroz de cães da raça pitbull contra pessoas. Eles matam idosos, matam crianças, destroçam a pessoa e agora este caso em Santa Cruz do Sul quando dois cães pularam a cerca que dava para um vizinho, invadiram o pátio de uma senhora e a atacaram. Ela está com as duas pernas inutilizadas, vai perder uma delas. Imagine a dor e o sofrimento dessa pessoa diante de um ataque incontível dessas duas feras.

Esse ataque dura de 5 a 10 minutos, não existe dor e sofrimento maiores do que este. Os cães devorando as pernas da senhora. Cães matam idosos indefesos há anos no Rio Grande do Sul e não é tomada nenhuma providência por parte das autoridades.

Eu não posso, me sinto impedido de pregar o extermínio dessa raça porque a Constituição Brasileira não permite o extermínio de raça alguma — por mais nociva e feroz que ela seja. Mas eu tenho de pregar que não se permita mais a existências desses cães no círculo civilizado. Quando eles estão soltos, eles atacam. Quando estão presos, enfurecem mais ainda. Não há solução pra isso.

Todas as semanas as pessoas estão sendo mutiladas ou mortas por cães pitbull em nosso meio social e nada de faz. Imagine as pessoas com as suas vidas destruídas porque perdem os membros, perdem os sentidos. Eles abocanham por inteiro as cabeças das crianças, pois eles têm uma força na arcada dentária igual a de um tubarão e estão aí soltos.

Há proprietários de pitbull que os carregam soltos nos parques das cidades ou com guias sem focinheiras. Até quando vai prosseguir esse morticídio em nosso meio social? Alguma coisa tem que ser feita! As autoridades têm que tomar uma providência depressa.

O proprietário do cão tem sempre a mesma alegação: ele era mansinho. A raça não é mansinha, a raça não é sociável, a raça é assassina. Cabe aos donos dos cães não permitir que eles convivam com as pessoas, mas nada se faz e os ataques continuam. Isso vai ter que ter um paradeiro.

>> Clique aqui e assista ao meu comentário no Jornal do Almoço

Postado por Paulo Sant`Ana

Noite de tensão para as duas torcidas gaúchas

27 de maio de 2009 23

Eu tenho tempo já nesta estrada e acredito que não esteja errado. Em toda a minha vida eu nunca tinha visto na mesma noite e na mesma hora, a dupla Gre-Nal estar decidindo competições tão importantes. O Internacional define a sua passagem para a finalíssima da Copa do Brasil e o Grêmio a classificação para as semifinais da Copa Libertadores.

Pode ser que eu esteja enganado, mas eu nunca tinha visto a Dupla decidir na mesma hora tão importantes classificações.

No caso do Grêmio, é um jogo de invictos. O Grêmio ganhou todos os jogos fora e o Caracas está invicto em sua sede. Vai ser um jogo muito difícil, disputado e muito parelho lá na Venezuela nesta quarta-feira. Ainda mais pela goleada que o Caracas aplicou no Cuenca por 4 a 0.

E aqui em Porto Alegre, o Internacional pode hoje à noite passar para a finalíssima se fizer uma goleada no Coritiba, o que não é impossível porque o aproveitamento colorado no Beira-Rio é simplesmente fantástico e extraordinário.

Portanto, é uma noite de tensão, é uma noite nervosismo, é uma noite de ansiedade para as duas torcidas gaúchas. Pena que os jogos sejam no mesmo horário e a gente não possa assisti-los simultaneamente. Vamos todos aguardar com muita ansiedade essas decisões. Será que o Paulo Autuori conseguirá passar para as semifinais da Libertadores? Será que o time do Tite vai confirmar a excelente fase garantindo já hoje à noite no Beira-Rio a sua passagem para a final da Copa do Brasil?

Depois dos jogos nós teremos a resposta!

Ouça meu comentário no Gaúcha Hoje

Postado por Paulo Sant`Ana

O erro estrutural

27 de maio de 2009 8

Cada um sabe onde lhe dói o calo. Cada um sabe qual é o seu maior problema.

Sendo assim, elejo como as três grandes obras prioritárias para o Rio Grande: 1) o metrô de Porto Alegre; 2) A ponte sobre o Guaíba; 3) o bar da Redação da Zero Hora.

Todo secretário de Transparência de qualquer governo deveria usar óculos escuros.

O nó górdio da questão carcerária gaúcha e brasileira é que está escrito em lei que a administração das penas é da competência do Poder Judiciário.

Ao natural, quem administra as penas tem também de administrar os presídios.

Entre nós, o Poder Judiciário administra, através das Varas de Execuções Criminais, mas quem administra os presídios, erradamente, é o Poder Executivo.

Vai daí que as verbas carcerárias entram no imenso cesto orçamentário do Poder Executivo, que tira de lá toda sorte de verbas menos as carcerárias, que não dão votos.

Aí está a razão estrutural do abandono dos presídios. Se o Poder Judiciário, com sua importância e influência, manejasse as verbas carcerárias, não teríamos este caos.

Ontem, um dos corregedores de Justiça declarou na Rádio Gaúcha que atualmente cerca de 500 detentos já atingiram o regime de progressão, isto é, estão aptos a serem transferidos para o regime semiaberto.

Como não há vagas no regime semiaberto, esses 500 presos permanecem, erradamente e injustamente, nos presídios, não abrindo vagas para os novos candidatos.

Soube-se ontem que o estrangulamento populacional nas prisões não se dá só no regime fechado.

É uma crise de todos os regimes.

A repercussão sobre a minha coluna de anteontem foi enorme. Zero Hora ocupou com ela as páginas 4 e 5 de ontem, o jornal Pioneiro, de Caxias do Sul, encorpou sua edição de ontem na discussão sobre a coluna que escrevi, instalando um interessante debate entre leitores e jornalistas.

Descanse o casal de testemunhas, não se pode atribuir qualquer responsabilidade aos dois no crime.

Mas não era de se exigir de todos que a conduta deles não fosse examinada.

O episódio serviu para que a sociedade adquira a consciência de que não pode cruzar as mãos quando uma agressão (ou um crime) está se desenrolando.

No livro Nada Precisa Ser Como É, o psicanalista Paulo Sérgio Rosa Guedes aborda num poema os pensamentos recorrentes dos homens da terceira idade:

Tenho me surpreendido pensando na morte;

não bem na morte, mas no fim da minha vida.

Tenho me surpreendido pensando na doença,

destino inexorável para quem envelhece

mas não morre. Coisa sabida.

Tenho então olhado a morte,

também como uma sorte, até como uma solução,

dura, é verdade, duríssima, mas talhada

para quem que, como eu, não entende a vida morna,

vida que torna a vida um nada – ou a mantém calada.

Minha a morte, ideia estranha… muito estranha…

Nunca a preferi à vida. Nunca!

A vida forte

A vida que, também por sorte,

A tive quase toda, inteira;

a vida

que cria vida e aceita o fim

que nutre a emoção e dela se alimenta,

que busca , sem parar, dizer que sim.

(a morte,

a sorte,

o fim…

Nunca pensei estas questões

ligadas a mim).

* Texto publicado na página 55 de ZH de hoje.

Postado por Sant`Ana

Se não há espaço, não há como prender

26 de maio de 2009 25

Não há como deixar de compreender a razão dos policiais que não se conformam de terem pedido a prisão preventiva de 15 ladrões de caminhões e o juiz tenha se recusado a prendê-los. A Associação dos Delegados de Polícia publicou uma nota na qual diz que também não se conforma dos bandidos não serem recolhidos ao presídio.

Vamos ao exame profundo da questão: é uma lei da física que cada corpo deve corresponder a um espaço. Se não há espaço para se colocar um preso na prisão, ele não deve ser colocado lá. A Justiça estava se acumpliciando com o Poder Executivo ao superlotar os presídios. Só quem pode prender é a Justiça. A polícia não prender, ela solicita a prisão. A polícia não prender, ela solicita a prisão.

A Justiça está tirando um peso da consciência. As condições são selvagens e ultrajantes nos presídios. Não pode um local ter 5 mil pessoas quando a capacidade é só de 1,5 mil. Uma hora a Justiça teria que começar a selecionar os presos e há muito tempo que o órgão vem fazendo isso.

Desses milhares que estão no semiaberto, muitos deles tinham que estar presos, mas não estão porque não há vagas. Eles estão no semiaberto e continuam delinquindo nas ruas.

O caos prisional no RS é antigo, mas agora chegamos a uma situação limite. Existe uma desumanidade completa. Então a Justiça deveria tomar uma atitude e foi essa.

Essa questão só tem promessa e promessa do governo para a construção de novos locais de prisão. Não falo apenas dessa administração, mas de sucessivos governantes, que desprezaram a questão carcerária no Estado. Quanto pior forem as condições dos presos, mais crimes haverão nas ruas. Se a sociedade quer punir seus criminosos, ela dever criar meios para punir, mas ela não constrói. 

Era fácil de prever que nós enfrentaríamos esse caos.

Ouça o meu comentário no programa Gaúcha Hoje

Postado por Sant`Ana

Eis o caos, governadora!

26 de maio de 2009 12

Chegamos ao ápice da catastrófica situação prisional em nosso Estado: a Justiça gaúcha só está encaminhando criminosos aos presídios em “situação excepcionalíssima”.

Foi desbaratada uma quadrilha de ladrões de caminhões pela Delegacia de Furtos de Veículos de Porto Alegre, foram apreendidas dezenas de caminhões e indiciados 15 ladrões.

Mas os criminosos não foram recolhidos à prisão, em face de o Presídio Central e outros estabelecimentos carcerários estarem completamente lotados.

Os policiais se irresignam, mas a Justiça nada mais faz agora do que atender ao mandamento lógico e científico de que só pode ordenar a prisão provisória de indivíduos que cometeram furto no caso de que haja vagas nos presídios.

Um corpo só pode ocupar um lugar se há espaço para ele. Não havendo vaga no presídio, não há como mandar prender alguém lá.

Por esse ato extremo, segundo o juiz de Canoas, ordenado por instâncias superiores, a Justiça gaúcha se exime finalmente da responsabilidade de manter presos em situação indigna, medieval, desumana.

Até agora, a responsabilidade pelo caos prisional era solidária entre o Poder Executivo e o Poder Judiciário, o primeiro não constrói presídios onde possam habitar em condições humanas os detentos, o segundo recolhia os detentos para os calabouços imundos e humilhantes à mínima civilização.

Finalmente, os integrantes da Justiça gaúcha chegaram ao sensível entendimento de que ela é responsável direta pelo caos carcerário ao mandar prender em locais animalescos reservados pelo Poder Executivo aos sentenciados.

A Justiça está, em última análise, retirando um peso da sua consciência: para haver trânsito livre e seguro do trâmite penal é imprescindível que o Poder Executivo se muna de recursos para abrigar nos cárceres presidiários que neles sejam hospedados sob condições mínimas de habitabilidade.

Se essas condições não são satisfeitas, se é ultrajante e selvagem o regime penitenciário, cabe à Justiça, como se resolveu lamentavelmente só agora, embora não tardiamente, não se tornar cúmplice do Poder Executivo e não recolher aos presídios infectos e superlotados os autores de delitos menos graves (entenda-se por delito mais grave o que lesa a pessoa, por menos grave o que lesa somente a propriedade).

Chegamos ao cúmulo razoável, diante do caos penitenciário, de que a Justiça passa agora a selecionar os indiciados, réus e apenados que serão recolhidos à prisão, pela ordem de gravidade dos delitos que cometeram.

O alvo da revolta justa dos policiais que veem seus esforços baldados ao não serem presos os criminosos não deve ser a Justiça. Tem de ser o poder que eles próprios integram, o Executivo, que entre nós não constrói presídios há décadas, apesar do aumento geométrico da criminalidade.

Em seu despacho negativo ao recolhimento dos 15 ladrões de caminhões de Canoas, o juiz Paulo Augusto Oliveira Irion conclama a sociedade a uma reflexão: deve pressionar o Poder Executivo a proporcionar condições a que sejam recolhidos a prisões condignamente humanas os criminosos.

Quero responder à Sua Excelência: há 37 anos que no meu modesto reduto jornalístico clamo por essa pressão que o magistrado sugere.

Expliquei em vão para a sociedade gaúcha, durante 37 anos, solitariamente, pregando no deserto, que quanto piores se tornavam as prisões, mais crimes haveria em todas as ruas.

Eu cumpri com meu dever racional, intelectivo e de sensibilidade social.

Se tivessem me atendido nesse tempo todo, não estaríamos agora diante deste extremo aterrador: a Justiça, adequadamente, se negando a prender.

Agora, o Poder Executivo passa a ser único e exclusivo responsável e culpado.

Tenho fé de que assim cheguemos à solução.

* Texto publicado na página 47 da Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Cães morrendo de inanição é crime, prefeito!

25 de maio de 2009 25

Senhor prefeito de São Leopoldo, Ary José Vanazzi, e comunidade de São Leopoldo, as cenas exibidas no Jornal do Almoço de hoje depõem contra o belo, o progressista, o exemplar município de São Leopoldo. A prefeitura não pode permitir que um canil com mais de 400 cães fique abandonado à própria sorte. Nós vimos as cenas de cães mordendo as grades, querendo fugir naquele inferno, sem água, sem comida. Morrem 10 ou 20 por dia de inanição, senhor prefeito!

A responsabilidade objetiva é do poder público. A presidente da Associação Leopoldense de Proteção aos Animais (Alpa), Ana Maira Gomes, vem dizer para a reportagem que os cães estão comendo mais do que comiam antes. Mas eles estão comendo nada, nós vimos as imagens. E a sede? Falta água! Não é só o recurso que falta, há também o abandono do canil. O prefeito tem que prestar contas disso. É um crime ambiental inominável.

A comunidade gaúcha tinha que ser privada dessas imagens terríveis exibidas no Jornal do Almoço. Então soltem esses cães para que eles morram, pelo menos, individualmente de fome nas ruas. Mas não fiquem nesse espetáculo de crueldade, os cães com os ossos à mostra e a presidente do canil diz que eles estão comendo bem. Como é que se ergue um canil dessa magnitude no centro de uma cidade bela e aprazível como é São Leopoldo? A prefeitura tem que responder por essa barbaridade.

>> Clique aqui e assista ao meu comentário no Jornal do Almoço

Postado por Paulo Sant`Ana

O Inter ameaça tornar o Brasileirão sem graça

25 de maio de 2009 72

Inter ganhou três das três partidas que atuou/Jefferson Botega
Os torcedores do Internacional devem estar eufóricos com os resultados do clube no Campeonato Brasileiro, além dos resultados na Copa do Brasil. O Inter está muito bem na Copa do Brasil e é admitido como favorito para a conquista do título, já que tem um time superior aos outros três semifinalistas.

No Brasileirão, o Inter ganhou três das três partidas que atuou. E o impressionante é que seis desses nove pontos conquistados foram fora de casa (contra o Corinthians e o Goiás). Ou seja, o Internacional, que no ano passado ganhou só duas partidas fora, agora em apenas três jogos já ganhou duas partidas fora no Brasileirão.

O Internacional ameaça tornar o Campeonato Brasileiro sem graça. Esse sistema de pontos corridos fica sem graça para 19 clubes quando um dispara, que é o caso do Inter. Teoricamente, ele terá 12 pontos em quatro jogos, já que o próximo desafio é no Beira-Rio, onde o time tem se tornado imbatível. Com 12 pontos em 12 disputados, no início do campeonato, o favoritismo que a crônica esportiva nacional dá para o Internacional será inteiramente confirmado. E o que releva é que nos três jogos que o Inter disputou, seus três adversários tiveram domínio do jogo, atacaram mais e mesmo assim o Inter é o líder absoluto do Brasileirão.

Eu me lembro na entrevista inaugural do treinador Paulo Autuori, antes desses novos pontos que o Inter adquiriu, ele disse o seguinte: “Quando um time se torna altamente competitivo, ele ganha até quando não joga bem”. Pois é exatamente isso que está acontecendo com o Internacional. Imagina quando jogar bem então, vai amassar os seus adversários e vai conquistar facilmente esse título nacional.

Enquanto isso, o Grêmio teve uma ótima vitória na estreia do Autuori. Foi muito bom que o treinador gremista tivesse vencido o jogo, pois ele vem precedido de grande expectativa e de ótimas credenciais. O Grêmio já é o oitavo colocado. Não tem a saliência do Internacional no campeonato, mas quem sabe lá se não vai disputar as quatro colocações da Libertadores como aconteceu com o treinador Celso Roth no ano passado.

A dupla Gre-Nal não está muito mal na vida futebolística. As esperanças dos nossos torcedores estão justificadas.

Ouça meu comentário no Gaúcha Hoje

Postado por Paulo Sant`Ana

O medo da testemunha

25 de maio de 2009 242

Zero Hora publicou sábado uma entrevista com um dentista não identificado que viu, na Rota do Sol, o caminhoneiro Fabiano Costa de Lima agredindo na beira da estrada a também dentista Márcia Nascimento, morta e estuprada momentos depois pelo mesmo caminhoneiro.

A entrevista do repórter Daniel Corrêa foi muito elucidativa. Revelou em todos os detalhes a experiência do entrevistado, que avistou o caminhoneiro envolvido fisicamente com a jovem assassinada.

O entrevistado admite que o fato de a dentista, que estava sendo agredida pelo criminoso, atirar as chaves do seu carro na estrada era um pedido patético de socorro.

E, ante o pedido, o entrevistado resolveu parar o seu carro e buzinar, com a intenção de evitar que o ataque continuasse ocorrendo.

Diante disso, o criminoso ameaçou puxar uma arma da cintura para atacar o entrevistado.

Mas o próprio entrevistado admite que notou que o caminhoneiro não tinha arma na cintura, mas que naquele momento só pensou na segurança da namorada e de um cão, que estavam dentro do seu carro, e se afastou do local, telefonando de seu celular para a Brigada Militar, não mais retornando ao local.

Não dá para culpar o entrevistado de omissão de socorro, porque ele revela que teve medo de ser assassinado pelo caminhoneiro.

Mas a situação dá a entender uma falta de empenho para tentar evitar o ataque de que estava sendo vítima a jovem dentista por parte do caminhoneiro.

A atitude que se exigia do entrevistado era a de que voltasse ao local. Se é que tanto temia pela sorte de sua namorada e de seu cachorro de estimação, deixasse-os em um lugar seguro da estrada e retornasse ao lugar do ataque e fizesse o caminhoneiro notar que estava sendo vigiado, mesmo sem parar o carro, mas intimidando o criminoso de forma a que ele não prosseguisse no ataque à dentista e em seu intento criminoso.

Era dia claro, entre meio-dia e uma da tarde, por que o entrevistado não tentou parar outros veículos e pedir socorro para a dentista?

É duro de entender, mesmo que tenha telefonado à Brigada Militar, que, segundo consta, falhou em não socorrer a assassinada, que o entrevistado tenha seguido viagem sem se importar com o destino da jovem dentista.

O entrevistado declara que pensou em chegar a um bar da subida da estrada e pedir socorro, mas ficou com receio de que o criminoso estivesse vindo atrás dele, “se rendesse mais pessoas, aí não seria uma vítima, mas uma chacina”.

Estou me colocando no lugar dessa pessoa entrevistada, que não foi identificada pela reportagem, até mesmo porque só deve ter concordado com a entrevista se sua identidade fosse mantida em sigilo.

Mas, no meu caso – e acho que no caso da maioria das pessoas –, eu não teria desistido nunca de socorrer aquela mulher que estava sendo atacada.

Eu teria parado no bar da “subida”, teria deixado lá minha namorada e meu cachorro, teria pedido auxílio a um ou dois homens, teria apanhado um pedaço de pau ou uma barra de ferro, quem sabe uma arma que houvesse no bar – e teria rumado até onde estavam o caminhoneiro e a dentista.

Eu não ia poder seguir viagem com aquela cena do ataque do caminhoneiro à dentista dominando a minha mente. O remorso iria roer-me a consciência.

Não quero acusar diretamente a testemunha de omissão de socorro, mas tenho dificuldade de encontrar explicação para que ela não tenha tentado parar sequer um carro para levar socorro à vítima. Tinha que parar diversos carros, tinha de deixar seu carro nas proximidades do local do ataque para atemorizar o caminhoneiro, tinha de fazer algo mais do que telefonar para uma polícia que lamentavelmente não foi socorrer a vítima.

Imaginem o desespero da dentista ao ver uma testemunha presenciar a agressão, afastar-se do local e ninguém mais retornar para acudi-la!

Imaginem!

Que caso repleto de remorso. O caso de um crime que até, quem sabe, podia ter sido evitado pela testemunha e pela patrulha militar notificada.

Sei que é nosso dever considerar o pavor instalado naquele km daquela rodovia naquele dia. E só isso, talvez, explique a omissão.

Que lástima!

* Texto publicado na página 35 da Zero Hora.

Postado por Paulo Sant`Ana

Só pode ser amor

23 de maio de 2009 16

Não sei onde estava e do que me possuíra quando escrevi a coluna abaixo.

É tão inacreditável, que chego a pensar que não fui eu que a escrevi. Como posso ter chegado a tão grande altura? Ei-la, deixem eu me exibir:

Eu já devia ter pressentido que era amor quando curtia magnífico prazer somente em olhá-la de longe. Eu já devia saber que era amor quando vibrava com seus êxitos e me entristecia com seus embaraços. Eu tinha que ter percebido que era amor quando me sentia invulnerável à solidão se me aproximasse dela a um raio de 20 metros. Só podia ser amor aquele estremecimento que me percorria todo o corpo quando ouvia sua voz se dirigindo para os outros. E quando, num ambiente repleto de pessoas, eu passava a não distinguir as feições de todos, vendo-os apenas como vultos expletivos, realçando-se como esplendorosamente icônica sua figura arrebatadora, já naquele tempo eu não devia ter duvidado de que era amor.

 

***

 

Já era fortemente suspeito que durante as minhas tristezas elas desaparecessem como por um milagre se eu usasse como antídoto a simples lembrança do seu meigo sorriso. E que, quando diante da visão dela por apenas um segundo, durante o resto do dia os meus passos e gestos se impregnassem de alegre coragem de viver. Ou como naquele dia em que topei abruptamente com ela no estacionamento e fiquei tão ruborizado, que parecia estar focado pelo facho de luz emanado da palavra de um profeta.

***

Não podia ser outra coisa aquela constante palpitação, aquela ruidosa esperança, aquele contentamento ansioso nas manhãs e o meu pulsante e taquicárdico coração vibrando ante a obsequiosa visão de sua esplendente silhueta vespertina.

Só podia ser amor a minha alma assim tão cheia de cuidados para preservar o meu segredo, o medo de que minha palavra ou o meu escrito, num escorregão, violassem o esplêndido sigilo do sentimento abrasador que me dominava.

***

Só podia ser amor que, depois de ela ter surgido luminosa na escarpa da caverna da minha solidão, eu deixasse de me entregar ao exercício fastidioso da comparação. Ninguém ou nada mais se equivalia ou se assemelhava a ela, mãe, irmã, parceira, namorada, companheira. Cheguei loucamente a pensar que a única cidadela capaz de manter íntegro aquele meu frágil amor inconfessável era mantê-lo em segredo, imune ao conhecimento dos outros e até mesmo incrivelmente dela.

Dar a conhecê-lo arrastaria ao tremendo risco de fazê-lo soçobrar ali adiante, presa fácil do fastio da convivência ou de uma resposta contundentemente adversa.

***

Ah, silencioso amor cheio de delícias e ilusões. Precavido amor que não se declara com medo da quebra do cristal. Ah, amor que quanto mais distante mais crescente, quanto mais errante mais certeiro, quanto mais secreto mais ditoso, quanto mais expectante mais real, quanto menos empírico mais ideal, quanto menos dela mais meu, quanto mais irrealizado mais duradouro, quanto mais prometido mais honrado. Quanto menos compartilhado, mais definitivo. Amor por eleição, tão alto, tão profundo, tão desinteressado, que não importa sequer o que faça dele e do seu mandato a sua eleita.

Nem que o malbarate por não pressenti-lo.

* Texto publicado na página 47 da Zero Hora deste domingo.

Postado por Paulo Sant`Ana

Os serviços de intendência

23 de maio de 2009 13

É intrigante como, de repente, em menos de um segundo, as pessoas boas e normais se transformam em feras, contrariando toda a conduta reta que demonstraram em toda a sua vida.

Fiquei pensando insistentemente nisso quando li a história macabra do caminhoneiro que matou a facadas a jovem dentista na Rota do Sol.

Ele vinha seguindo o seu destino pela estrada, transportando no seu caminhão frutas e legumes.

De repente, segundo relatos, desentendeu-se no trânsito da estrada com a dentista, que dirigia o seu carro.

Ambos desceram para discutir e então se desatou uma série de acontecimentos que desgraçaram a vida dos dois protagonistas.

***

Segundo se sabe agora, o caminhoneiro era um homem devotado ao trabalho, cumpridor dos seus deveres, chefe de família exemplar. Enfim, um homem de quem jamais se poderia esperar a conduta de estupro assassino que ele desenvolveu em poucos minutos naqueles atos de delírio fatídico que se apossaram dele.

Não se sabe se o caminhoneiro se revestiu de ódio pela dentista na discussão que travou com ela ou se por uma fúria libidinosa de desejo quando a atacou, estuprou-a, amarrou-a em uma árvore, esfaqueou-a por seis vezes e, depois de lavar-se na pipa que estava instalada ao lado da cabina do caminhão, livrando-se assim das manchas de sangue de sua vítima, seguiu viagem, imaginando que prosseguiria impune na sua vida laboriosa de transportador de gêneros alimentícios.

***

Como pode um homem exato na sua vida profissional e familiar, uma existência inteira constituída de trabalho e dedicação à família, ver desatados dentro de si demônios furiosos que nem ele pressentia e que se ocultavam em sua alma?

Em apenas alguns minutos, pipocaram na psiquê desse homem instintos nunca antes revelados ou pressentidos na sua conduta.

Ou será que nós somos bons porque nunca se apresentou uma oportunidade para sermos maus?

Que diabo de vida é esta que pode nos pôr à prova em qualquer dia, desmentindo tudo o que obramos em apenas um instante de insanidade?

O caminhoneiro assassino e estuprador da dentista na Rota do Sol deve estar perplexo com o que ele fez. Se disser aos jurados e ao juiz que não poderia ter sido ele quem fez aquilo, não há razão para que não se acredite nele.

***

Analogamente, leio que em Santa Maria um capitão e um tenente do Exército furtavam durante anos gêneros alimentícios que deveriam ser consumidos pela tropa e os vendiam para supermercados locais.

Como pode dois oficiais de carreira mancharem assim os seus currículos, desviando do quartel material alimentício cujo valor total foi de cerca de R$ 800 mil em todos esses anos?

Está certo que, há sucessivos governos, os salários dos militares foram achatados miseravelmente, o que também deve ter contribuído para a prevaricação dos dois oficiais.

Mas quantos oficiais, sargentos e cabos atravessam essa maldição de parcos salários sem corromperem-se? Por que os dois oficiais estragaram assim lamentavelmente suas carreiras?

Meu pai, que também era militar, sempre me dizia que a honestidade de um militar só pode ser atestada se ele trabalhar nos serviços de intendência da caserna (o órgão que trata da compra e administração das provisões para a tropa) e não se corromper.

São demais e poderosas as tentações dos serviços de intendência.

* Texto publicado na página 55 da Zero Hora deste sábado.

Postado por Paulo Sant`Ana