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Socorro por imposição

10 de julho de 2009 9

Interino – CLÁUDIO BRITO

Deve-se ou não dar esmolas? Como agir no embate dos mandamentos cristãos com as lições dos sociólogos e assistentes sociais? As esquinas da cidade estão ganhando novos moradores a cada noite e se diz que nada pode ser feito para afastá-los dali, como vi ontem neste jornal. Retirados hoje, voltarão amanhã. Para uma nova retirada e outra volta no dia seguinte. Não se pode obrigar as pessoas a buscarem suas casas e suas turmas. Existam casas e turmas, ou não. Não se pode forçar a abrigagem em algum albergue, oficial ou privado. Usa-se a Constituição Federal para justificar a atitude aparentemente desleixada das prefeituras, ONGs e outros órgãos assistenciais. Afinal, todos têm direito a ir, vir e ficar onde bem entendam.

Belas desculpas para nada se fazer. Sei que mexo em tema delicado e controvertido.

Lamento a oposição que por certo virá ao meu pensar, mas está na hora de se impor o socorro aos necessitados. A mesma Constituição que assegura dignidade às pessoas deve servir de instrumento a que se dê amparo a todos, mesmo aos que dizem não querê-lo.

A esmola reproduz a miséria?

Se for limitada ao alcance caridoso das avenidas, naquele gesto que mais alivia a quem dá do que beneficia a quem recebe, posso até concordar. E se o poder público souber canalizar a boa vontade da população e realizar programas que envolvam a comunidade? Com efetividade e não como um faz de conta. Há quem prepare uma sopa todas as noites para levá-la aos que estão estirados na calçada? Pois que se lhes dê a sopa, com a condição de que os beneficiados a recebam no albergue. Que essa força solidária o Estado saiba usar adequadamente. Não posso entender que os técnicos da assistência social vejam como adversários os cidadãos dispostos a gestos de bondade. Não lhes parece razoável reunir toda essa disposição e convidar a cidadania a uma participação organizada e voltada ao mesmo fim?

Não me venham dizer que os pobres preferem as ruas para gozarem de liberdade. Pasmem, senhores, mas sou testemunha de casos em que presos libertos forçaram a volta à cadeia pelo prato de comida e o desconforto da cela superlotada. Se construírem casas populares, se encaminharem ao trabalho e à educação toda essa gente, verão como todos preferirão o aconchego entre quatro paredes. Se o máximo que os governos oferecem é o recolhimento noturno de quem aceita o convite, então se diga que também os órgãos públicos estão apenas dando esmolas, com os mesmos prejuízos que toda esmola possa representar. Os programas de assistência oficial deveriam encaminhar à retomada da vida digna, com perspectivas de mudança até um novo quadro existencial, permanente. Sei que muito se faz com tais objetivos e com bons resultados. Ainda é pouco, no entanto. A situação está clamando por uma decisão que represente conceder prioridade a esse tema. As abordagens para convencimento por assistentes abnegados e dispostos ao bem, no entanto, igualam-se aos gestos de caridade das famílias que percorrem as ruas levando comida e agasalho aos desabrigados. Dizem os entendidos que tudo isso apenas realimenta esse quadro de miserabilidade.

Se há um bom número de homens, mulheres e crianças optando pela rua, não quer dizer que nela sejam mais felizes. É que a rua acaba sendo mesmo melhor que a noite em albergues que são provisórios, que despejam a todos pela manhã. O modelo assistencial praticado é que está equivocado a ponto de fazer a rua ser mais atraente. O mesmo desafio que a drogadição da juventude nos impõe, aqui também aparece: cabe-nos tornar mais interessante o abrigo que a calçada, como, no caso das drogas, cabe-nos tornar a vida careta melhor que a ilusão que o frenesi do uso de narcóticos pode oferecer. Não sei não, mas ainda acredito no que aprendi nas aulas de catecismo com os lassalistas do Colégio Nossa Senhora das Dores, no velho casarão da Riachuelo: quem dá aos pobres empresta a Deus.

E Pablo, onde está? Em casa, refazendo-se da estafa que o turbilhão de emoções dos últimos dias lhe terá provocado. Diz ele que uma gripe se soma à labirintite. Menos, muito menos, eu sei. O Sant’Ana tirou uns dias para olhar o mundo de seu reduto particular, embriagado pelo amor e admiração que todos lhe têm dedicado na infinda comemoração de seus 70 anos. Refeito, logo volta.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora.

Postado por Equipe zerohora.com

Comentários (9)

  • César diz: 10 de julho de 2009

    Essa questão passa pela CULPA da desigualdade social, pelo MEDO da mudança do status quo atual, e pela velha e útil HIPOCRISIA.

  • Mariluci Velasques Possebon diz: 10 de julho de 2009

    Creio que uma possível solução seja uma efetiva política de saúde mental,já que um dos fatores que impedem a ida para os albergues,é a regra de que não se pode fazer uso de álcool e drogas,então quem sabe profissinais desta área prestando atendimento desde a abordagem na rua,culminando em um tratamento contínuo,e com relação a sociedade civil é fácil questionar profissionais como os assistentes sociais,então mais uma sugestão Alcólicos Anônimos apoiando na abordagem e convidando para reuniões.

  • Wagner diz: 10 de julho de 2009

    Penso que o mais correto não seria dar a esmola, mas sim, propiciar uma ocupação digna que permita a pessoa garantir seu próprio sustento. Oferta farta de emprego, senhores! É disto que este país precisa e que está faltando, de norte a sul, de leste a oeste. Responsabilidade de quem? Dos senhores políticos e do funcionalismo público que por nós são sustentados. É deles esta responsabilidade de gerir o bem estar público. Faça um político trabalhar: não o reeleja. Elejamos gente nova.

  • Carlos Santos diz: 10 de julho de 2009

    Basta reduzirem acentuadamente a carga tributária que o Brasil muda totalmente.
    Seria um novo Brasil, bem diferente deste que aí está.
    Pensem sobre isso.
    É muito melhor o dinheiro com o povo do que com o governo.

  • Mariana diz: 10 de julho de 2009

    Emprestar a Deus é realmente ridículo!!! E posso saber quando é que ele vai nos devolver tudo que já pegou emprestado??? Deus é o maior devedor do universo, meu caro. Se ele se dignasse devolver ao menos uma parte, não haveriam tantos mendigos pelas ruas. Se ele tudo pode, então é óbvio que ele não quer! Enquanto isso, vocês continuam rendendo graças e emprestando a fundo perdido. Santa ignorância!!!

  • Rin Tin Tin diz: 10 de julho de 2009

    A sociedade é solidária com a preocupação dos desabrigados. Entretanto a solução, antes de ser simplista como querem os assistencialistas, deve se preocupar com ócio. Penso na máxima que deve-se dar o primeiro peixe e após ensinar a pescar. Tendo os abrigos o bem estar, inclusive com o trabalho realizado pelos abrigados,a té para o seu sustento, merece ser analisado. Um centro comunitário, sem vínculo empregatício, para trabalho comunitário, bem estruturado, ajudaria o sustento inclusive do ego.

  • Ronaldo Sindermann diz: 10 de julho de 2009

    Tenho que ao darmos esmola nas sinaleiras estamos incentivando muitas vezes o tráfico de drogas.

  • Adriano diz: 10 de julho de 2009

    Político e administradpr público com alguma responsabilidade social, kakkaak, é piada, essa gentalha só tem ânimo pra roubar.

  • Tereza da Motta & Ronan Wittée diz: 10 de julho de 2009

    Penso que é algo muito pessoal,do tipo:não saiba a tua mão direita o que faz a tua esquerda.Caridade,começa em casa.Sou contra a sumariedade do não.Temos o instinto de ajudar e,isto não deve ser revogado pelo aparente conforto da omissão.
    Olha,há tanta gente precisando até mesmo de uma palavra de conforto,que não será em uma única vida que encontraremos uma resposta adequada.
    Se sinto que é justo e perfeito,dou.
    Não quero recibo nem autoría!

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