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O improviso do gênio

11 de julho de 2009 9

Certa vez, há muitos anos, em 1974, fui convidado às pressas para comparecer a um jantar no Restaurante Adega Espanhola, na Rua Andrade Neves. Quando lá cheguei, vi que a grande atração da noite era o gênio pajador do Rio Grande, Jayme Caetano Braun, que fez o seguinte improviso, mas improviso mesmo, avistando-me entre os convidados:

O silêncio já foi feito
E a garrafa não é canha,
É bala que me acompanha
Pois frouxa as mágoas do peito
E eu me sinto satisfeito
E confesso com orgulho
Eu não gosto de barulho
Nem de nada se mexendo
A não ser águas correndo
Nas sangas de pedregulho

Não sei nem como comece
Nesta noitada divina
Porque a emoção me domina
E o pajador se enternece
Mas o meu verso é uma prece
Nesta noite ainda guria
Eu cumpro esta liturgia
E estou de cabelo branco
Mas só firmo bem o tranco
Da meia noite pra o dia
E perdoe se eu me apresento
Neste jeitão atirado
Como um guacho desmamado
Que foi criado ao relento
Mas eu chego contra o vento
E vou cantando, pachola,
Como quem chega pra escola
Depois de uma féria grande
Neste galpão do Rio Grande
Que é a velha Adega Espanhola

Já cantaram os maiores
Com tanto brilho e cultura
Mas nunca com mais ternura
Que nos meus versos menores
Mas eu canto entre os melhores
E isso faço sem consulta
Canto pra gente tão culta
Porque sei que me quer bem
E aquele que dá o que tem
Não ofende nem insulta

Eu venho lá das Missões
Do lombo das sesmarias
Emendo as noites e os dias,
Os invernos e os verões
Emendo as quatro estações
E o peito não se ataranta
Porque o que sai da garganta
É pura rima baguala
E quando um gaúcho fala
É a terra chucra que canta

Não confundam pajador
Com poeta de gabinete
O pajador é um ginete
Que já nasce domador
Por isso aquele que pensa
Dê aos dois poetas o valor
Ao poeta e ao pajador
Não lhes tenha indiferença
Que o verso é um mal de nascença
Ao qual nada se compara
É mesmo assim que uma tara
Pelo de potro e de touro
Por isso é que um nasce mouro
E outro nasce malacara

Para nós, os pajadores,
Que andejamos os caminhos
O Deus que fez os espinhos
É o mesmo que fez as flores
Eu tive tantos amores
Porque a vida me foi grata

Eu não juntei muita prata
Mas digo de peito cheio
Não tenho marca de arreio
E nem arranhão de gata
Mas que dizer ao Sant’Ana
Este ilustre candidato
Neste lindo anfiteatro
Da velha terra pampiana
A gremista não se engana
Eu pajador abstêmio
Merecia ter um prêmio
Do velho pago querido
Sant’Ana como é sofrido
A gente torcer pelo Grêmio!

Não falo mais no Sant’Ana
Não falo mais em ninguém
Outros vão cantar também
Nesta noitada pampiana
Nesta noite brasiliana
Onde não estamos sós
Benditos tataravós
Do velho pago imortal
Que a trompaço de bagual
Fizeram o Brasil para nós

* Texto publicado na página 47 de Zero Hora dominical

Postado por Paulo Sant`Ana

Comentários (9)

  • Antonio diz: 11 de julho de 2009

    Que me perdoem todas as outras correntes do nosso tradicionalismo, mas a que o Jayme Caetano Braun nos brindou é a maior. Enquanto vivo, nenhum outro se atreveu a emparelhar-lhe, num trono só cabe uma magestade, e que nao sabemos quando voltará a ser preenchido. É querido Paulo Sant` Ana, nós já podemos nos considerar uma civilizacao, pois cá neste rincao temos os nossos genios, vós incluído, que já naquela época era cantado por outro genio. Um povo se faz de tradicao e homens q nos orgulham

  • José Mattos diz: 11 de julho de 2009

    Justa homenagem D. Pablo. Meus cumprimentos pela iniciativa. Sem dúvida foi o maior de todos. Ele era completo. Sabia tudo de gauchismo. Deixa muita saudade.

  • Cleto Guedes diz: 12 de julho de 2009

    Depois de tudo acabado, isso foi lá pelas tantas
    lombos cortados, gargantas e bugre descaderado
    sangue fresco misturado com gordura de candeeiro
    mas saiu limpo o gaiteiro, que o tocador é sagrado

    Quando veio o comissário, pra tratar dos seus assuntos
    pra encomendar os defuntos veio também o vigário
    inda hoje o vizindário, quando fala se arrepia
    nunca mais desde esse dia, festejei aniversário
    Saudades do Jaime
    Abraços Santana

  • Claudionor Ventura Oliveira diz: 12 de julho de 2009

    Parabéns pela sua recordação Paulo Sant´Ana, em poucas letras revivemos, saboreamos a nossa origem, de nossos gloriicados, bisavôs,avôs,pais de nossas Famílias, Sant´Ana, Família é a FAMÍLIA… é a VERDADE!

  • Mateus diz: 11 de julho de 2009

    Sensacional, aqui longe do pago, seguido ouço o nosso Jayme, as pajadas, mesmo escritas há muito tempo, continuam atuais, certamente serão eternas.

  • Telmo Aparício Freitas Silveira diz: 11 de julho de 2009

    Simplesmente genial, bigenial. Um encontro destes seria como pisar na lua. Paulo Sant`Ana e Jayme Caetano Braun. “Deus o livre”. Que coisa linda seria, a Deus agradeceria se pudesse ver isso! É inimaginávael!

  • marcelo souto diz: 11 de julho de 2009

    muito lindo este texto……….pra mim que estou tão longe do meu sul e poder ver uns textos destes do jaime caetano braun e falando em ti santana , no meu grêmio, deixa a gente um pouco mais perto……..grande abraço !!!!!!

  • elio farinon diz: 12 de julho de 2009

    Fantástico!
    Só Pablo pode nos repassar essas emoções!

  • danier boucinha viana diz: 12 de julho de 2009

    Jaime Caetano Braun, Sant`ana… Deus como é bom ser Gremista!!!

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