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A falta dos amigos

27 de julho de 2009 10

Tadeu Vilani

Morreu Lauro Schirmer na semana passada e eu fiquei na saudade. Saudade desde o dia que ele foi lá em cima na sala do seu Maurício Sirotsky conseguir uma vaga para mim no Sala de Redação.

Era um tempo em que o diretor de Zero Hora era também diretor da Rádio Gaúcha. E era isso que o Lauro era.

Impressionado com o fato de que eu fizera sucesso nos 30 dias intercalados em que participei do Sala de Redação como convidado do Cândido Norberto, Lauro foi pedir ao seu Maurício um salário para mim, um contrato para mim.

***

Corria o ano de 1972. E depois de ficar reunido com seu Maurício por mais de uma hora, lá veio o Lauro Schirmer se encontrar de volta comigo em uma sala da RBS.

E me disse o seguinte: conseguira um salário de 400 cruzeiros para eu participar para sempre do Sala de Redação.

Eu não coube em mim de contente, quando o Lauro me disse que ainda tinha mais para me dizer: que Maurício Sirotsky lhe autorizara a me contratar para escrever também uma coluna de Zero Hora pela qual eu iria ganhar o salário de 200 cruzeiros.

Quatrocentos cruzeiros pelo Sala de Redação e duzentos cruzeiros por uma coluna de Zero Hora.

Para resumir, para definir o que senti naquele momento, declaro agora que foi o dia mais feliz da minha vida.

*** 

E depois tive tantas outras alegrias junto ao Lauro Schirmer aqui na Zero Hora. Tive também tristezas, dificuldades, trabalhando ao lado do Lauro.

No entanto, na média existencial, foi muito doce e feliz para mim ter encontrado o Lauro e com ele conviver tantos anos de trabalho e camaradagem.

Agora morreu Lauro Schirmer e eu fiquei aqui órfão da sua compreensão, apoio, experiência, humanidade.

Eu não sei quando é que o destino vai parar de me levar os amigos, deixando-me privado de suas vantagens de ternura e consideração.

Como a morte é faminta e como nunca deixa de saciar sua fome! E vai levando os amigos, vai devorando os afetos da gente, vai nos enfraquecendo, vai mexendo no nosso equilíbrio e nos deixando tontos pela falta dos que se vão aos poucos, todos os meses um, ainda mais na idade em que estou, quando a morte teima em chamar quase todos os meus contemporâneos.

Que falta que já estás fazendo e ainda mais irás fazer, Lauro Schirmer!

***

E prosseguiu a procissão antropofágica liderada pela morte, levando em seu andar trágico para outras paragens eternas o Sanzi Biaggio, sepultado também na semana passada.

Durante décadas o Biaginho nos atendeu ali no Restaurante Copacabana, sorridente, meigo, com aqueles cuidados todos com que nos cozinhava o espaguete, o rascatelli, ou então o Rei Alberto com que me regalava na sobremesa.

Ah, Biaginho, como farás falta nas nossas noites de empanturramento de molhos e de massas, daqueles bifes enrolados no molho de tomate, ah, Biaginho, desde o tempo em que o Carlos Nobre ia todos os dias fumar sua piteira e beber o seu Campari, que saudade que vais nos dar, Biaggio, saudade das tuas braciolas.

Que diabo, Biaginho, a gente vai ouvir a tua voz lamentosa temperada de teu sorriso pelos três salões do Copacabana.

A morte é uma maldita e indevida espiã e assassina dos nossos sonhos, Biaginho.

* Texto publicado na página 35 da Zero Hora de hoje.

Postado por Sant`Ana

Comentários (10)

  • Rubens Miranda diz: 29 de julho de 2009

    De novo eu, caro Sant`Anna! A morte não é maldita, é presença real e constante companheira daqueles que estão vivos. Um passo para a perfeição e descanso e de afazeres, do outro lado da vida. Assim penso eu, porque não deverá ser apenas moleza, lá, do outro lado, mas teremos muito o que fazer.Ademais, nossos sonhos sim, esses tem fim com nossa morte. Por isso devemos fazer o que temos de fazer aqui nesta vida e bem.Se voce é cristão, como eu, deve lembrar que quem ama mais esta vida,perde-la-á.

  • Cleomar Santos diz: 27 de julho de 2009

    Perder grandes amigos causa solidão, é por isso que devemos sempre manter contato com pessoas mais novas, gente difente, geração diferente, mas gente, e isso é o importante.

  • augusto/gremista diz: 27 de julho de 2009

    Santana como externas nossos sentimentos exatamente como eles são: E quando perdermos a ti o que será de nós, do grêmio enfim, o que será de nós: responda-nos por favor..

  • Bruno Dametto Aranguiz diz: 27 de julho de 2009

    Paulo San`Ana, você é o melhor, eu sou seu fã e você meu mestre.
    é… mas a morte é rapida e passageira como o vento, que arrasta tudo que nos é valido e deixa para trás uma imagem de solidao e tristeza. A unica coisa boa da morte sao as alegrias que nos voltam à memoria. Já a tristeza vem acompanhada do sentimento de impotencia, nos cercando, nos amontoando num canto escuro de nosso cerebro.

  • pedro ramos diz: 27 de julho de 2009

    Caro Santana
    a morte certamente chegara para todos nós, ao pobre e ao rico, e uma dia jesus perguntou a um rico que se gabava com suas conquistas,
    Nesta noite reclamarão de você a sua alma, e de quem será o que você preparou?’ éssa pergunta é para todos nós. a propósito, santana para quem voce esta preparando sua alma?

  • loveli garske diz: 29 de julho de 2009

    Sinceras condolências pelos teus amigos queridos que partiram. O Lauro foi na frente , conseguir uma sala prá ti lá em cima.Mas isso é uma demanda muito grande, então tens tempo de sobra pra ficar por aqui !!!!

  • Fausta Regina Paz Piccoli diz: 28 de julho de 2009

    Muito Bom Dia!
    Menino Preocupado!
    Adoro sua coluna, mais últimamente sinto tristeza no meu coração,sem falar sua preocupação com a tão certa morte que é para todos.Mais hoje podemos chegar aos 100 anos,acho que estás sofrendo á-toa, de véspera,volte ser aquele menino de bem com a vida alegre,feliz,cantando, contando piada,torcendo pelo grêmio,o amanhã pertence a Deus,se a vida nos faz restrições e daí?faz parte,viva!viva!.Se morressemos hoje,aqui já é bom,imagina no céu com Deus.
    Paz&Bem

  • Gabriela diz: 27 de julho de 2009

    Fantástico!

  • Eduardo diz: 27 de julho de 2009

    Sabe Santana, vou plagiar o título dos teus posts destaques. “No sábado, eu chorei”
    Moro fora do país há 2 anos, além de há 3 anos antes, estar trabalhando em SP (mas indo todos os finais de semana para POA).
    Não era amigo do Biaginho, mas gostava muito do Copacabana, o qual fui várias vezes. Para mim, ele era uma figura daquelas que lembra Porto Alegre, assim como o “tio” da folhinha no calçadão ou o “tio” das rosas “Trago esta rosa, para te dar.” Mais um pouco de POA morreu para mim.

  • marcelo diz: 30 de julho de 2009

    o problema é que a morte se esconde e ataca de surpresa , como se fosse um senador.

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