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Morte ficta

28 de julho de 2009 7

Podem não crer, mas só nos últimos 30 dias fui descobrir que amo demais a vida, que é injusto que me sobrevenha a morte justamente quando percebi que a existência me proporciona alguns êxtases de felicidade capazes de me realizar como ser humano.

Eu já sabia, claro, que a felicidade não existe, por ser efêmera.

Mas o que eu não sabia é que esses instantes passageiros de felicidade se constituem exatamente na essência da vida, que eles sozinhos justificam uma existência inteira.

***

Delirantes instantes de felicidade. O corpo e a alma da gente são tomados por um deleite de delícia incomparável.

Isso deve ser o que os artistas sentem quando lhes sobrevém a criatividade ou quando interpretam a inspiração dos criadores com tal beleza de representação, que a obra parece ainda mais estupendamente realçada.

***

Descobri também nesses últimos dias por que falo tanto em morte: é o medo pânico de vir a perder pela eternidade este tesouro da vida.

***

Mudando de ângulo mas não de assunto, uma das minhas obsessões mórbidas é saber como serão meu velório e enterro.

Chego a tremer de medo pela contingência funesta e inevitável de que eu não possa ver os atos do meu funeral.

***

Por isso celebrei um contrato gratuito com Ibsen Pinheiro. Ele se comprometeu na semana passada que escreverá como interino da minha coluna, descrevendo um ficto velório e suposto enterro meus.

Breve, aqui na coluna, presumidos velório e enterro de Pablo na pena de Ibsen Pinheiro.

***

Será uma maneira astuciosa minha de driblar o meu terror pela morte.

Deste jeito, saborearei pela inspiração do Ibsen a antevisão da morte.

Ou seja, sentirei todo o peso da minha morte, no relato necrológico, sem no entanto estar morto.

Ficará marcado no pergaminho da minha pele e no escaninho da minha alma o meu obituário que não houve.

***

Breve aqui, portanto, a minha morte em vida. Breve aqui, os melhores momentos das minhas exéquias, a falência múltipla dos meus órgãos, mas no entanto a minha vida atestará que meu coração ainda palpita e recebe sopros, isto é, o Ibsen descreverá os atos ficcionais da minha morte, só que no dia seguinte eu estarei ressuscitado, vivo, incólume, pronto para ser feliz ou apto para as piores vicissitudes.

Breve aqui, a carpintaria mágica do Ibsen esculpirá o meu caixão mortuário mas se defrontará ao mesmo tempo com a realidade do meu tablado de movimentações.

Breve aqui, finjo que morro enquanto estou bem vivo.

É delicioso a gente ficar assim tergiversando com a morte, roçando-a perigosamente, driblando-a, distraindo-a, atarantando-a com a promessa de entrega total e confundindo-a por outra face com uma vida resistente e estuante.

Breve, aqui nesta coluna, a dança temerária da morte com a vida, o balé do esqueleto imóvel com o corpo vibrante, vida de Paulo, morte de Pablito e ressurreição de Pablo, um complicado e sublime silogismo.

* Texto publicado na página 47 da Zero Hora de hoje.

Postado por Sant`Ana

Comentários (7)

  • elio farinon diz: 28 de julho de 2009

    Quem brinca com fogo, se queima!
    Cuidado Sant`Anna, és muito precioso aos teus fans, para brincares de morto!
    Não deixo o Ibsen escrever essa maldade!

  • Bruno Dametto Aranguiz diz: 28 de julho de 2009

    Sant`Ana, estou curioso para saber como será seu enterro, mas ao mesmo tempo quero que você viva eternamente.

  • Rubens Miranda diz: 29 de julho de 2009

    Isso não é nada, nobre Sant`Anna! A morte é um passo para a perfeição. É que somos atomentados pelo desconhecido da morte, do que ocorre atrás do véu que nos separa do mundo mortal, atrual, do mundo dos espíritos. Afinal, ninguém voltou daquele lado para nos fazer um relato. Todavia, creio ser um lugar de paz, de descanso e de afazeres, melhor do que esta vida que vivemos, neste mundo absurdo. De belezas e encantos também, claro! Mas de muitas loucuras e prepotência. Abraços.

  • loveli garske diz: 28 de julho de 2009

    Pablo , acho que agora estás conseguindo mesmo driblá-la. Tua lucidez é a maior prova da vida que pulsa em teu ser. Viva vida longa ainda antes do Ibsen lançar as palavras.Agora que olhaste a morte de frente ponha-a de lado, ela ainda não te pertence.Não a atarante, ela é sagaz, deixe-a quieta e volte teus pensamentos para a luz.

  • luiz vieira diz: 28 de julho de 2009

    Prezado Pablo: Cada minuto é um momento único; um milagre q nunca mais será repetido. Nunca chores por não ter visto o sol, pois as lágrimas te impedirão de ver as estrelas.

  • tiago moraes diz: 29 de julho de 2009

    sera com certeza com a camisa do gremio e por cima uma bandeira xavante

  • MIGUEL ADAD diz: 28 de julho de 2009

    Sant`Ana,ao ler teu texto sobre a MORTE FICTA,lembrei-me quando adolescente,agora estou com 67 anos,nas festas onde estava Antoninho Onofre (lembra dele?),sempre alguém levantava e propunha “AGORA VAMOS CANTAR A MÚSICA DO ENTERRO DO ANTONIHO ONOFRE”Eu via com que prazer Antoninho junto aos demais cofrades cantava o samba que seria entoado por ocasião de sua morte.Só me lembro do início do samba “Morreu Antoninho Onofre
    Gente boa estava ali
    Os anjos lá no cèu cantam
    Morreu Antoniho Onofre”

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