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Posts de julho 2009

A velocidade das mulheres

31 de julho de 2009 5

Tenho um amigo que se separou da primeira mulher por julgá-la muito “lenta”.

Ontem, ele me disse que, depois de dois anos com a nova e segunda mulher, está começando a considerar que esta é muito “rápida”.

Postado por Sant`Ana

Viva Cristo!

31 de julho de 2009 1

Receberei das mãos do bispo Remídio José Bohn, na missa matinal da Igreja São Jorge, no Partenon, domingo próximo, uma placa comemorativa ao fato de que fui o primeiro sacristão da paróquia, em 1951.

Depois, por volta das 11h30min, haverá um galeto no Salão Paroquial, com salada, pão e derivados, refrigerantes, vinho e cerveja.

E o preço do galeto por cada pessoa que dele queira participar é incrível: R$ 10.

Temo já, por ser a segunda vez que noticio isso em minha coluna, que um pelotão da Brigada Militar terá de ser chamado para conter a multidão que não conseguirá convites para o galeto e entrada na missa e se sentirá prejudicada vitalmente.

E um outro pelotão de cambistas já está se movimentando desde ontem para vender com ágio os ingressos para o galeto.

O pároco Paulo está regurgitando alegria.

Viva Cristo!

Postado por Sant`Ana

O barbeiro

31 de julho de 2009 4

Gostei muito desta anedota: um homem sem dois braços foi ao barbeiro.

O barbeiro envolveu o cliente no penteador. Não me perguntem por que aquele imenso pano branco que os barbeiros lançam sobre os corpos dos clientes e amarram na altura de seus pescoços se chama penteador.

Não tem sentido, mas se chama penteador, sim, senhores.

Pois bem, o homem sem os dois braços estava sendo atendido pelo barbeiro.

Quando o barbeiro começou a cometer uma série de barbeiragens com o cliente sem os dois braços, cortando-lhe levemente o lábio superior ao aparar o bigode, logo em seguida cortando a orelha do cliente, o que ocasionou perda de sangue que foi estancada por uma pedra mágica usada pelos barbeiros, minutos depois dando um verdadeiro talho na bochecha do cliente na altura do osso zigomático, isto é, perto do ouvido, quem vem da direção do nariz, ali nas adjacências do rosto, quando também verteu sangue, igual e prontamente estancado pela pedra mágica.

***

Até que o barbeiro terminou de fazer a barba do cliente. Não me perguntem como um homem sem os dois braços, obviamente sem as duas mãos, consegue puxar dinheiro do bolso para pagar o barbeiro, o certo é que o cliente em causa não era inadimplente nem caloteiro e pagou o preço do serviço da barba ao barbeiro.

Foi quando o barbeiro, despedindo-se, cometeu a última tentativa de ser cordial, também para amenizar os pequenos estragos que fizera no rosto do paciente (nesta altura não era mais cliente, era paciente de três ameaças de incisões cirúrgicas).

***

O que perguntou na despedida o barbeiro para o cliente minutos antes sangrante: “Diga-me, eu já não tinha atendido o senhor numa outra vez?”.

E o cliente de pronto respondendo ao barbeiro: “Não. Nunca me atendeu antes. Eu perdi estes dois braços numa explosão na Guerra do Vietnã”.

Sensacional.

* Texto publicado na página 87 da Zero Hora de hoje.

Postado por Sant`Ana

O jeitinho do bem

30 de julho de 2009 5

Léo Gerchmann (interino)

Ah, quanto orgulho me dá ser interino do Sant’Ana, neste espaço sagrado que meu pai me ensinou a ler desde guri. Com tanto carinho que tenho pela coluna e pelo titular, não vou traí-lo. Seguirei sua linha editorial, que é a defesa independente e por vezes corajosa de teses que nem sempre seguem o senso comum – muitas vezes, são o seu avesso. Independência radical, portanto!

Assim sendo, arregaço as mangas, pigarreio e, ousado, mando ver: vou defender o malfadado jeitinho brasileiro. Não se trata, aqui, de justificar deputados que viajam a turismo com dinheiro público, senadores que fazem do gabinete uma permanente festa familiar, governantes que se envolvem em falcatruas e deixam o Estado à deriva para economizar alguns tostões ou empresários que enriquecem às custas da Viúva. Não, nada de afrouxar os padrões éticos. Não é isso.

Falo, sim, do azulzinho com quem conversei outro dia, em frente ao colégio onde estudam meus filhos. Que personagem! Quanto rigor! Entre outras pérolas, fiquei sabendo que, não bastasse multar pais que necessitam ficar em fila dupla dentro do carro por alguns minutos e o fazem com pisca ligado esperando que o filho, uma criança, entre no colégio, ele já autuou alguém que falava ao celular com o veículo estacionado. O motor estava ligado! Por isso, a infração.

A resposta dele:

— É a letra fria da lei.

Saí daquela conversa convencido de que esses guardas de trânsito, cujos julgamentos são na prática definitivos, deveriam ter uma formação jurídica mais acurada, para saber que a letra da lei não pode ser fria, que a lei é apenas uma das fontes de quem aplica a Justiça. Nunca soube de alguém que tenha obtido sucesso em recursos à EPTC — claro, deve haver as exceções de praxe.

Quanto rigor! Quanto legalismo exacerbado!

E o bom senso, onde fica?

Pois o jeitinho, tão difamado, é a alma brasileira que vai se esvaindo em um país cada vez mais regrado e sem graça. Como a energia nuclear, o jeitinho pode ser usado para o mal — mas também para o bem. Nossa vocação não é essa rigidez que nos violenta. Aprendemos, com a ginga da nossa música e com o negaceio do drible, a ter maleabilidade quando a lei requer interpretação mais sensível.

Somos um povo afeito a resolver adversidades com criatividade, com malícia. E isso é necessariamente ruim? Que saudade da época em que o Rio era a referência cultural do país, o cartão-postal que se impunha, a malandragem do bem. Agora, São Paulo tomou conta, com seu cimento incorruptível no mau sentido e aquele céu gris que nem os paulistanos aguentam mais. Faria um bem danado assumirmos nossos modos, que o diminutivo tanto desqualifica, mas que podem ser conduzidos para o bem. É tudo questão de jeito, ou de jeitinho.

***

E a tal da cordialidade, criticada com razão por Sérgio Buarque de Hollanda? Claro que ninguém quer saber do compadrio e da confusão entre público e privado, que só não são moda porque sempre existiram por aqui. Mas o brasileiro cordial pode ter essa sua característica preservada quando se fala em sorrisos abertos, hospitalidade e solidariedade. São coisas brasileiras. Do bem.

Vamos preservar o que temos de bom!

***

Isso tudo me remete ao livro que o talvez maior de todos nossos antropólogos escreveu: O Povo Brasileiro. Ali, Darcy Ribeiro desatou o nó do traço comum que faz do Brasil uma nação. Somos a mistura de brancos, índios, negros, europeus e demais etnias que se aprocheguem. Nada mais brasileiro que o Sertão! Que a Bahia! Que a serra gaúcha! Que a Fronteira! Que o Bom Fim! Somos multifacetados, essa é a característica que nos une. Falta-nos, claro, resolver a desigualdade social, que gera esta violência cotidiana insuportável, este pouco valor à vida, este “não tô nem aí” geral. No mais, temos uma natureza própria, que, como diria o Gonzaguinha, é bonita, é bonita e é bonita!

***

Pensei também em escrever sobre outros temas que correm contra a maré. Sou contra o rebaixamento dos nossos times mais tradicionais (não me venham com a conversa de que são como empresas privadas. Não são! Mexem com a paixão de milhões e deveriam ser tombados como patrimônio cultural! Mediocridade é começar o ano já pensando em não cair). Sou contra campeonatos sem finalíssima (cadê o clima de decisão que forja os craques?). Sou a favor do politicamente correto (não é o que ensinamos aos nossos filhos?). Aliás, nada mais politicamente correto, hoje, do que meter pau no politicamente correto. Contradição? Neste espaço onde se escrevem as teses mais corajosas, até a contradição cai bem.

* Texto publicado na página 71 da Zero Hora de hoje.

Postado por Léo Gerchmann

Boletim médico

29 de julho de 2009 4

Daniel Marenco


Atenção leitores!

Vou publicar aqui o boletim médico do paciente Pablo: das nove doenças que tenho, nos últimos sete dias melhorei em quatro, piorei em quatro e a nona permaneceu estável.

Ou seja, estou como o Grêmio no Brasileirão: 50% de aproveitamento.

Postado por Sant`Ana

Contigo aprendi

29 de julho de 2009 3

Lembro-me bem, fazia seis anos que minha deusa me desdenhava.

Nunca me deu um cumprimento, nunca me disse uma palavra, nunca me dedicou um só sorriso que fosse. Tinha o cuidado de não sorrir para as outras pessoas quando eu estava perto. Justiça se faça à minha deusa: ela também não sorria para os outros, para que eu não me sentisse discriminado.

Em suma, ela me desconhecia, mas não tripudiava sobre mim. Só que esta sua gélida indiferença para comigo se constituía por si só num tripúdio.

***

Esqueci-me de dizer aos meus leitores que minha deusa era a mais bela de todas as mulheres. Pelo menos para mim, suspeitíssimo, seus pés eram lindos (ainda permanecem belos embora decorram seis anos da primeira divina visão que dela tive). Seu sorriso de castor era o mais belo de todos os sorrisos.

Seu corpo era o tipo do corpo que gosto porque era amparado por duas pernas esbeltas, não tenho nada contra pernas femininas grossas, sei de muitos amigos que idealizam isso, mas para meu fetiche as pernas de mulheres têm de ser finas.

***

Pois bem, estávamos neste pé: ela durante seis anos com glacial indiferença sobre mim.

Até que ganhei coragem, apanhei-a desprevenida e falei com ela: disse-lhe o quanto a amava, atrevi-me a desafiá-la, dizendo-lhe que ela com certeza já tinha percebido nos meus olhares o amor puro que lhe dedicava, que para mim não existia mulher igual no mundo, talvez existissem muitas superiores a ela em todos os itens, só que para mim ela era a rainha.

Ela me respondeu: “E tu pensas que eu acredito nisso que estás dizendo?”.

Parecia que eu ia explodir de tanta alegria.

***

Por que meu extravasante contentamento? Pensem comigo, leitores. Se ela disse que não acreditava no que lhe falara, deu-me a entender que, se acreditasse, a minha chance de conquistá-la seria enorme.

Nem quis mais falar com ela, saí correndo e dando pulos de euforia.

Meu amor, minha deusa. A ela, público leitor, só faltava, para que fosse minha, acreditar no meu sonho e nas minhas promessas.

***

Para finalizar, quero depor a meus leitores que ainda a amo. Nunca ninguém irá superá-la nos meus devaneios.

Como no célebre bolero de Armando Manzanero, por sinal cantado por mim no Jornal do Almoço enquanto ele tocava piano, o pequenino Manzanero, o iucatano Manzanero, mas, como eu estava dizendo, o verso do divino bolero que eu aproveitaria para declarar todo o meu amor por esta minha amada é: “Y contigo aprendí/ que yo nací/ el día en que te conocí”.

* Texto publicado na página 47 da Zero Hora de hoje.

Postado por Paulo Sant`Ana

Morte ficta

28 de julho de 2009 7

Podem não crer, mas só nos últimos 30 dias fui descobrir que amo demais a vida, que é injusto que me sobrevenha a morte justamente quando percebi que a existência me proporciona alguns êxtases de felicidade capazes de me realizar como ser humano.

Eu já sabia, claro, que a felicidade não existe, por ser efêmera.

Mas o que eu não sabia é que esses instantes passageiros de felicidade se constituem exatamente na essência da vida, que eles sozinhos justificam uma existência inteira.

***

Delirantes instantes de felicidade. O corpo e a alma da gente são tomados por um deleite de delícia incomparável.

Isso deve ser o que os artistas sentem quando lhes sobrevém a criatividade ou quando interpretam a inspiração dos criadores com tal beleza de representação, que a obra parece ainda mais estupendamente realçada.

***

Descobri também nesses últimos dias por que falo tanto em morte: é o medo pânico de vir a perder pela eternidade este tesouro da vida.

***

Mudando de ângulo mas não de assunto, uma das minhas obsessões mórbidas é saber como serão meu velório e enterro.

Chego a tremer de medo pela contingência funesta e inevitável de que eu não possa ver os atos do meu funeral.

***

Por isso celebrei um contrato gratuito com Ibsen Pinheiro. Ele se comprometeu na semana passada que escreverá como interino da minha coluna, descrevendo um ficto velório e suposto enterro meus.

Breve, aqui na coluna, presumidos velório e enterro de Pablo na pena de Ibsen Pinheiro.

***

Será uma maneira astuciosa minha de driblar o meu terror pela morte.

Deste jeito, saborearei pela inspiração do Ibsen a antevisão da morte.

Ou seja, sentirei todo o peso da minha morte, no relato necrológico, sem no entanto estar morto.

Ficará marcado no pergaminho da minha pele e no escaninho da minha alma o meu obituário que não houve.

***

Breve aqui, portanto, a minha morte em vida. Breve aqui, os melhores momentos das minhas exéquias, a falência múltipla dos meus órgãos, mas no entanto a minha vida atestará que meu coração ainda palpita e recebe sopros, isto é, o Ibsen descreverá os atos ficcionais da minha morte, só que no dia seguinte eu estarei ressuscitado, vivo, incólume, pronto para ser feliz ou apto para as piores vicissitudes.

Breve aqui, a carpintaria mágica do Ibsen esculpirá o meu caixão mortuário mas se defrontará ao mesmo tempo com a realidade do meu tablado de movimentações.

Breve aqui, finjo que morro enquanto estou bem vivo.

É delicioso a gente ficar assim tergiversando com a morte, roçando-a perigosamente, driblando-a, distraindo-a, atarantando-a com a promessa de entrega total e confundindo-a por outra face com uma vida resistente e estuante.

Breve, aqui nesta coluna, a dança temerária da morte com a vida, o balé do esqueleto imóvel com o corpo vibrante, vida de Paulo, morte de Pablito e ressurreição de Pablo, um complicado e sublime silogismo.

* Texto publicado na página 47 da Zero Hora de hoje.

Postado por Sant`Ana

A falta dos amigos

27 de julho de 2009 10

Tadeu Vilani

Morreu Lauro Schirmer na semana passada e eu fiquei na saudade. Saudade desde o dia que ele foi lá em cima na sala do seu Maurício Sirotsky conseguir uma vaga para mim no Sala de Redação.

Era um tempo em que o diretor de Zero Hora era também diretor da Rádio Gaúcha. E era isso que o Lauro era.

Impressionado com o fato de que eu fizera sucesso nos 30 dias intercalados em que participei do Sala de Redação como convidado do Cândido Norberto, Lauro foi pedir ao seu Maurício um salário para mim, um contrato para mim.

***

Corria o ano de 1972. E depois de ficar reunido com seu Maurício por mais de uma hora, lá veio o Lauro Schirmer se encontrar de volta comigo em uma sala da RBS.

E me disse o seguinte: conseguira um salário de 400 cruzeiros para eu participar para sempre do Sala de Redação.

Eu não coube em mim de contente, quando o Lauro me disse que ainda tinha mais para me dizer: que Maurício Sirotsky lhe autorizara a me contratar para escrever também uma coluna de Zero Hora pela qual eu iria ganhar o salário de 200 cruzeiros.

Quatrocentos cruzeiros pelo Sala de Redação e duzentos cruzeiros por uma coluna de Zero Hora.

Para resumir, para definir o que senti naquele momento, declaro agora que foi o dia mais feliz da minha vida.

*** 

E depois tive tantas outras alegrias junto ao Lauro Schirmer aqui na Zero Hora. Tive também tristezas, dificuldades, trabalhando ao lado do Lauro.

No entanto, na média existencial, foi muito doce e feliz para mim ter encontrado o Lauro e com ele conviver tantos anos de trabalho e camaradagem.

Agora morreu Lauro Schirmer e eu fiquei aqui órfão da sua compreensão, apoio, experiência, humanidade.

Eu não sei quando é que o destino vai parar de me levar os amigos, deixando-me privado de suas vantagens de ternura e consideração.

Como a morte é faminta e como nunca deixa de saciar sua fome! E vai levando os amigos, vai devorando os afetos da gente, vai nos enfraquecendo, vai mexendo no nosso equilíbrio e nos deixando tontos pela falta dos que se vão aos poucos, todos os meses um, ainda mais na idade em que estou, quando a morte teima em chamar quase todos os meus contemporâneos.

Que falta que já estás fazendo e ainda mais irás fazer, Lauro Schirmer!

***

E prosseguiu a procissão antropofágica liderada pela morte, levando em seu andar trágico para outras paragens eternas o Sanzi Biaggio, sepultado também na semana passada.

Durante décadas o Biaginho nos atendeu ali no Restaurante Copacabana, sorridente, meigo, com aqueles cuidados todos com que nos cozinhava o espaguete, o rascatelli, ou então o Rei Alberto com que me regalava na sobremesa.

Ah, Biaginho, como farás falta nas nossas noites de empanturramento de molhos e de massas, daqueles bifes enrolados no molho de tomate, ah, Biaginho, desde o tempo em que o Carlos Nobre ia todos os dias fumar sua piteira e beber o seu Campari, que saudade que vais nos dar, Biaggio, saudade das tuas braciolas.

Que diabo, Biaginho, a gente vai ouvir a tua voz lamentosa temperada de teu sorriso pelos três salões do Copacabana.

A morte é uma maldita e indevida espiã e assassina dos nossos sonhos, Biaginho.

* Texto publicado na página 35 da Zero Hora de hoje.

Postado por Sant`Ana

Herança genética

25 de julho de 2009 3

No auge do dia em que publiquei nesta coluna o e-mail enviado pelo médico Bayard Fischer, com uma assembleia do Cremers pegando fogo, quando os médicos presentes discutiam a estratégia geral para responder às ofensas graves que Bayard fez a Marco Antônio Becker e ao Cremers, um dos médicos que estava na reunião acalorada me telefonou.

É um médico famoso de Porto Alegre, um dos ases da medicina em sua especialidade no nosso meio.

Vejam o que ele disse: “Pelo que noto aqui no Cremers, 15 mil médicos vão querer o teu fígado”.

E eu respondi: “Eu, Prometeu?”, referindo-me à lenda mitológica grega em que Prometeu foi condenado a servir de pasto a um corvo gigante que lhe arrancava as vísceras.

No dia seguinte, quando publiquei a coluna com a defesa do Cremers, assinada pelo presidente da entidade, tendo também o mesmo presidente Cláudio Franzen dado uma entrevista para ZH, o mesmo médico aquele me telefonou: “Olha Sant’Ana, retiro o que disse sobre teu fígado, o que os 15 mil médicos estamos querendo agora é o teu cérebro”.

                                                  ***

Um assunto mais leve: sobre meu neto, Gabriel Sant’Ana Wainer, com 17 anos.

Quando morava em Porto Alegre e estudava no Colégio Anchieta, há anos, sempre que dizia ou escrevia uma frase brilhante, os professores lhe afirmavam: “Puxou ao avô”.

Ele ficava furioso. Porque queria o mérito do seu brilhantismo para si e não para o avô.

Mudou-se para São Paulo, seu pai foi ser empresário lá.

E no colégio de lá, onde ninguém conhece seu avô, fez a primeira frase brilhante nos trabalhos de aula e o professor perguntou-lhe: “Tens algum escritor na tua família?”.

                                                     ***

No próximo domingo, dia 2 de agosto, data em que aniversaria minha querida irmã Teresinha Sant’Ana Oliveira, haverá um grande galeto ao meio-dia na Paróquia São Jorge, Partenon.

Querem me homenagear neste galeto, o pároco Paulo Dalla Rosa descobriu que eu fui o primeiro sacristão da história daquela igreja, nos idos de 1950.

Vai ser um galeto monumental, também porque estarei, se Deus quiser, presente, mas ainda porque a humildade do pároco e dos paroquianos permite cobrar somente R$ 10 por cabeça.

Vai faltar lugar, vai ter cambista vendendo ingresso até por R$ 20, procurem imediatamente o pároco e garantam seus lugares.

Atrás da verde-rosa só não vai quem já morreu.

Nunca vai se ver jamais tão grande multidão devorando um galeto. Reserve, Padre Paulo, um galeto minu para mim, o senhor pode adquri-lo no Záffari.

Ia me esquecendo, não sei como, mas o galeto é em benefício de melhoramentos físicos nas instalações da paróquia.

Tantum ergo sacramentum! Viva Cristo!

Padre Paulo, venha por mim, depois desta nota na coluna, compre galeto para no mínimo mil pessoas.

                                     * Texto publicado na página 47 da Zero Hora dominical

Postado por Paulo Sant´Ana

Em nome de Deus

25 de julho de 2009 18

Olhem o diálogo entre José Sarney e seu filho, transcrito em gravação por todos os jornais do país, inclusive ZH, ontem:

FERNANDO SARNEY (O FILHO) – Bênção, pai.

JOSÉ SARNEY (O PAI) – Deus lhe abençoe. Você não tinha me falado no negócio da Bia (neta de José Sarney e filha de Fernando Sarney, os integrantes deste diálogo).

***

O diálogo prosseguiu com Fernando pedindo a intervenção do pai, José Sarney, para nomear um namorado da neta de José Sarney e filha de Fernando.

Resultado desse diálogo: o namorado da neta foi nomeado funcionário do Senado, onde hoje Sarney é presidente e sempre foi e para sempre será senador, em ato secreto assinado por Agaciel Maia, ex-diretor-geral do Senado, completamente enrolado em centenas de irregularidades cometidas em seu cargo.

***

Notem que o nome de Deus é usado por Sarney no telefonema com o filho.

O nepotismo no Brasil, como se vê (e se ouve), é transcorrido em nome de Deus.

Ou seja, os nepóticos creem não só que não é pecado nepotiar como também citar Deus em seus nepotismos.

Em suma, acreditam que praticar nepotismo usando o nome de Deus não quer dizer uso em vão do nome divino.

Sarney e sua família mamam nas tetas do erário público desde antes de Pedro Álvares Cabral aportar na Bahia.

***

Sarney e seu filho Fernando se julgam ser Rômulo e Remo e se arvoram em mamar nas tetas da Loba do Capitólio, como se ela fosse o Tesouro Nacional.

O ditado filosófico antigo que apregoa que “o homem é lobo do homem” foi corrigido milênios depois no Brasil: o nepotismo é lobo do contribuinte.

***

O gaúcho diz que o quero-quero canta num lugar e põe o ovo no outro. Pois incrivelmente isto acontece com Sarney, que com o quero-quero tem o seguinte parentesco: Sarney é o protótipo do político brasileiro que encarna o QUEROMEU, personagem de Luis Fernando Verissimo.

Sarney não para de querer. Quanto mais quer, mais leva dos cofres públicos.

E tanto Sarney põe o ovo num lugar e canta no outro, que nasceu no Maranhão, viveu pouco no Maranhão, mas é para lá que encaminha o grosso de seu patrimônio, mas é senador pelo Amapá.

O Sarney senador pelo Amapá, sendo maranhense, é um escândalo tão tonitruante quanto à hipótese louca do Pedro Simon ser eleito senador nas próximas eleições pelo Tocantins.

O nepotismo e a corrupção no Brasil mudam a geografia.

Ou melhor, o nepotismo e a corrupção no Brasil não têm no mapa.

 

***

Por que causa tanta revolta justa no Brasil o nepotismo?

Porque, se todos os políticos empregarem seus parentes no serviço público, fica desigual: não há lugar para os outros brasileiros na sinecura.

Incrivelmente o nepotismo não é crime, não passa de uma irregularidade.

Quando, em realidade, ele é um dos maiores crimes: destinar o serviço público para parentes e apaniguados é atacar frontalmente o sublime instituto do concurso público, a única forma justa de escolha de ocupantes dos cargos públicos.

E não vale dizer que o nepotismo no Brasil se caracteriza nos cargos de confiança. Porque, na verdade, a maior parte dos funcionários públicos brasileiros entraram no serviço público pela via do cargo de confiança.

Depois, espertamente, os políticos efetivam os ocupantes dos cargos de confiança e eles se tornam estáveis.

Isto é nojento.

*Texto publicado na página 55 de Zero Hora de hoje

Postado por Paulo Sant`Ana

De avô para neto

24 de julho de 2009 7

Meu neto Gabriel Sant`Ana Wainer, 17 anos, anda seguindo meus passos. Ele escreve belos textos e, agora, seu talento com as palavras pode ser conferido no blog Andei Pensando, no site do Kzuka.

Pois fui entrevistado por esse jovem escritor para uma matéria do jornal Kzuka, que mostra as diferenças entre os adolescentes de hoje e da minha época.

Confira abaixo como foi:

Gabriel — Vô, hoje em dia, com todos esses problemas de segurança que nós enfrentamos, ir de um lugar a outro se torna cada vez mais difícil. Na tua época os teus pais eram encanados com esse tipo de coisa?

Sant’Ana — Não havia isso, Gabriel, no meu tempo de criança e jovem. Na cidade, todos ficavam com a janela aberta durante toda a noite e as cadeiras das casas ficavam nas calçadas. Era um paraíso.

Gabriel — Você e os seus amigos saíam para fazer o quê?

Sant’Ana — A gente saia solto pelas ruas para realizar folguedos, a polícia não tinha trabalho nas ruas. Nem ladrão havia. A única coisa que existia era batedor de carteiras, que em vez da violência usavam a habilidade.

Gabriel — E tinha horário pra voltar?

Sant’Ana — Não tinha horário para voltar. Houve gente que até hoje não voltou.

Gabriel — Com que idade você começou a escrever tão bem quanto eu? Hahahaha… Foi pensando no futuro que você entrou pra esse ramo?

Sant’ana — Claro que foi pensando no futuro que entrei para essa profissão de jornalista. Mas só comecei a escrever tão bem quanto tu quando fiz 60 anos. Eu sou um retardado.

Gabriel — E as namoradas? Como eram as paqueras naquele tempo?

Sant’Ana — As namoradas naquele tempo eram todas eram virgens. Os homens só tinham sexo na zona do meretrício ou quando se desapertavam com as empregadinhas domésticas. Sexo naquele tempo entre namorados só depois que se casassem.

Postado por Sant`Ana

Aviso prévio (II)

24 de julho de 2009 0

Eu já tinha escrito quase por inteiro uma coluna em que dirigia uma carta aberta à governadora para que ela me fizesse o obséquio de explicar o estranho fato de um delegado de polícia, acompanhado do chefe de gabinete da governadora e de um dirigente da Susepe, ter ido até a residência do presidente do Detran para avisá-lo de que seu filho seria apanhado dali a instantes em flagrante, portando 23 quilos de maconha, quando chegou na minha caixa eletrônica de correspondência o e-mail do próprio delegado de polícia que foi até a casa do presidente do Detran, ocasionando isso a incrível demissão deste último. Isso tudo se deu no início da noite de ontem.

Eis o e-mail:

“Prezado jornalista Paulo Sant’Ana: com relação aos fatos noticiados em sua coluna no dia 23/07/2009, em que é titulada ‘Departamento de Aviso Prévio’, passo a discorrer o seguinte. No início da noite do último dia 14/07/2009, foi recebida uma denúncia anônima neste órgão, informando que em um apartamento no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, havia certa quantidade de substância entorpecente armazenada. Ainda fomos informados de que o filho do presidente do Detran era o responsável pelo acondicionamento da droga, sendo que a substância ilícita seria retirada daquele local ainda naquela noite e que o apartamento pertencia ao presidente daquela autarquia.

De imediato levei o fato ao conhecimento do diretor do Denarc e foi cogitada a possibilidade de tratar-se de uma denúncia falsa, feita simplesmente com o propósito de constranger o presidente de uma autarquia por demais polêmica, que é objeto de embates políticos no Poder Legislativo Estadual, há pelo menos três anos. Por ironia do destino, a intenção naquele momento era a de que a polícia não fosse utilizada como instrumento de constrangimento, com base em falsa denúncia, instaurando, de plano, procedimento policial para apurar o crime de tráfico de entorpecentes em um imóvel do então presidente do Departamento Estadual de Trânsito.

Ressalte-se que, não raro, as denúncias anônimas feitas às polícias, além de colaborar na elucidação de autoria de práticas delituosas, muitas vezes têm o intuito de servir para constranger pessoas desafetas ao denunciante, colocando os denunciados no rol de suspeitos da prática dos mais variados crimes.

A legislação processual penal prevê que há duas formas para a polícia ingressar na residência de um cidadão para realizar uma diligência: com o consentimento do morador ou com um mandado judicial.

Considerando que o caso em pauta, conforme a denúncia, referia-se a um imóvel de um presidente de um órgão em permanente conflito político, optou-se por realizar contato com o responsável pelo imóvel e obter autorização para ingresso dos policiais para averiguar a veracidade da denúncia. Em razão de contatos prévios em atividades governamentais, foi buscado auxílio com o senhor Ricardo Lied que, como Chefe de Gabinete do Palácio Piratini, em nossa avaliação, naquele horário (22h), era pessoa que teria um acesso rápido e dinâmico ao então presidente do Detran, bem como a todos os integrantes do governo de primeiro e segundo escalão. A participação do senhor Mário Santa Maria foi apenas de nos levar até o senhor Ricardo, pois Mário encontrava-se, naquele momento, em um evento social juntamente com o Diretor do Denarc, quando levei o conhecimento do fato.

A conversa com o senhor Sérgio Buchmann foi no sentido de conseguir autorização para ingresso no imóvel para apreender a droga e prender os responsáveis, e não para avisá-lo da diligência policial como foi noticiado, o que aí sim implicaria crime de violação de sigilo profissional. Já está bem claro no procedimento da corregedoria, inclusive no próprio depoimento do senhor Sérgio Buchmann, de qual era o objetivo da polícia naquela diligência.

Ressalte-se que durante todo o episódio o apartamento alvo da denúncia permaneceu cercado, discretamente, pelos policiais. Ocorre que, em razão dos nomes ou dos cargos que ocupam as pessoas envolvidas nos fatos secundários deste episódio, criou-se uma crise política no Estado, em torno do fato principal, que é a prisão dos traficantes e a apreensão da substância entorpecente (23 Kg de maconha e 500 gramas de cocaína), esquecida por todos.

Sabes bem que, ao contrário de outras carreiras jurídicas, não têm as autoridades policiais, em inúmeras circunstâncias, mais que alguns segundos para avaliar e diligenciar o melhor encaminhamento de suas decisões.

Assim foi decidido naquela ocasião, e reafirmo que o procedimento foi correto à luz da legislação e investigação policial.

(Ass.)Luis Fernando Martins Oliveira, delegado de polícia”

Postado por Sant`Ana

Departamento de Aviso Prévio

23 de julho de 2009 0

Divagando sobre os últimos acontecimentos, ocorreu-me um raciocínio, em face de que o médico Bayard Fischer referiu no e-mail que me enviou: ter o seu caso uma parecência com o Caso Daudt.

É verdade. E o nexo de similutude mais ecoante para mim é que tanto Antônio Dexheimer, réu absolvido do assassinato de Daudt, quanto Bayard Fischer, não indiciado mas investigado no assassinato de Marco Antônio Becker, são microcirurgiões, isto é, manejam com o bisturi invasivo num delicado impulso, movido por extremados cálculos.

***

O que impressionou no e-mail de Bayard Fischer enviado a esta coluna, contendo graves acusações a Becker e ao Cremers, foi que um investigado no inquérito do assassinato investiu furiosamente contra a vítima do homicídio, tentando desqualificá-la perante a opinião pública.

Por sinal, o advogado de Bayard é o criminalista Nereu Lima. Todos desconfiaram ou disseram que foi Nereu quem escreveu o e-mail de Bayard publicado nesta coluna.

Todos menos eu, que entrevistei Bayard e pude notar da sua autonomia intelectual e semântica.

Pode ter sido escrito por Nereu Lima, mas meu controle sensorial me permite levantar a hipótese de que o texto é de autoria de Bayard.

***

Não sei se Bayard é culpado de matar Becker. Mas também não sei se Bayard é inocente deste crime.

Se o inquérito, presidido pelo delegado Rodrigo Bozzetto, ainda não indiciou ninguém, prossegue apenas investigando, como me seria concedida a faculdade de avançar sobre o mérito da autoria do crime?

***

Deixa eu entender: consta no noticiário de anteontem que um delegado de polícia, acompanhado do chefe de gabinete da governadora, foi até a casa do presidente do Detran para avisá-lo de que seu filho (filho do presidente do Detran) iria ser preso a qualquer momento por tráfico de drogas (mais de 20 quilos de maconha).

Não estou entendendo mais nada. Diga-se de passagem que a Polícia Civil vem surpreendendo nos últimos tempos, realizando prisões espetaculares de quadrilhas com numerosos integrantes, desbaratando criminosos em todo o Estado, um desempenho notável recentemente.

Mas agora vem esta de um delegado que foi avisar o pai de um traficante que seu filho seria preso em seguida, com a agravante que o pai do traficante era dirigente de autarquia estadual.

Não dá para acreditar.

A coluna se põe à disposição do delegado em questão para que ele explique este fato que como saiu no jornal ficou inexplicável, inacreditável.

Eu pensara que a polícia fazia prisões em flagrante, de surpresa, de supetão.

Mas se a moda pega de avisar a família dos criminosos que seus familiares serão presos em flagrante nas próximas horas, então tem de ser criado na Polícia Civil o Departamento de Aviso Prévio.

Não dá para acreditar!

*Texto publicado na página 55 de Zero Hora de hoje

Postado por Paulo Sant`Ana

Resposta do Cremers

22 de julho de 2009 1

Recebi ontem do presidente do Cremers um esclarecimento oficial sobre as acusações lançadas contra aquele órgão, nesta coluna, pelo médico Bayard Fischer, que teve lá seu registro profissional cassado.

Eis a correspondência:

“Na condição de presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul, dirijo-me a ti para esclarecer questões referentes à ação do Cremers como órgão julgador da Ética Médica.

Em primeiro lugar, quero deixar claro que o Cremers é um tribunal e como tal tem o dever de julgar médicos acusados de delitos éticos que se enquadrem no que prevê o Código de Ética Médica.

Mesmo sem querer particularizar um determinado cidadão, que outrora foi médico, sou obrigado a esclarecer que este cidadão teve 14 sindicâncias contra si no Cremers, das quais sete foram arquivadas, duas suspensas por ações judiciais e cinco se transformaram em Processos Ético-Profissionais, sendo que em um deles foi condenado à pena máxima – CASSAÇÃO do seu registro profissional. Por outro lado, esclareço que o mesmo cidadão tem quatro Processos Ético-Profissionais em São Paulo.

Devo esclarecer que o Dr. Becker não participou do julgamento, nem aqui no Estado, nem no Conselho Federal de Medicina, em Brasília, por ter se sentido impedido pelo fato de ter sido colega de turma do denunciado.

Também, deixo claro, o Dr. Becker em vida se defendeu das acusações que ora contra ele estão sendo levianamente assacadas, e em todas as esferas judiciais (TCU, Tribunal Eleitoral, Tribunal de Justiça do Estado) tais acusações foram arquivadas por improcedência.

Prezado Paulo Sant’Ana, é nítida a intenção do ex-médico de tentar macular a imagem do Dr. Becker, dos conselheiros e do Cremers para com isto conseguir na Justiça a anulação do processo de cassação do registro profissional. Saliente-se que já tentou e teve negadas várias ações.

O Cremers é reserva moral da categoria médica e jamais teve seu nome manchado com desfalque ou qualquer outra ação menos digna.

O Cremers é um órgão de deliberação coletiva, suas decisões são tomadas pelo Plenário eleito pelos médicos e composto por 21 conselheiros efetivos e 21 conselheiros suplentes.

A presidência é exercida por médico eleito pelos conselheiros e suas decisões são sempre levadas a plenário, que tem a palavra final. As ações do Dr. Becker no passado, como as minhas hoje, sempre tiveram e têm o respaldo do Corpo de Conselheiros.

Para que tenhas ideia do trabalho que desenvolve o Cremers, basta citar alguns números: no período de 2004 a 2009 foram julgados 274 médicos, sendo absolvidos 159 e condenados 125, cinco dos quais tiveram seus registros cassados.

Todos os médicos julgados tiveram amplo direto de defesa e usaram, inclusive, formas de postergar seus julgamentos, como no caso deste cidadão, cujo processo tramitou de 2002 a dezembro de 2008, e que agora se apresenta como vítima.

Temos plena consciência de nossa responsabilidade social e a exercemos com coragem e sem qualquer eiva de corporativismo. Aqueles médicos afastados do exercício profissional o foram por macular a Medicina e são uma minoria, não representando a honradez, a seriedade, o compromisso e principalmente o juramento de Hipócrates, que desde 360 a.C. rege a atividade médica. (ass.) Dr. Cláudio Balduíno Souto Franzen, presidente do Cremers.”

*Texto publicado na página 47 de Zero Hora de hoje

Postado por Paulo Sant`Ana

Coluna democrática

21 de julho de 2009 9

A coisa está no seguinte pé: fui procurado por e-mail pelo doutor Bayard Fischer, atualmente com seu registro profissional cassado pelo Conselho Regional de Medicina gaúcho, com ratificação em Brasília, isto é, impedido de clinicar e fazer cirurgia.

Ele procurou a mim, eu não tenho culpa de que as pessoas me procurem, tornei-me um polo jornalístico sedutor, isto foi fruto de meu trabalho de 38 anos na imprensa.

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Modéstia à parte, sou preferido entre leitores e entidades, como o são também outros jornalistas e órgãos de imprensa. Mourejei quase 20 horas por dia durante quatro décadas para atingir esse prestígio. Ainda modéstia à parte, eu mereço este lugar que conquistei na imprensa gaúcha.

Vai daí que o doutor Bayard me procurou, como me procuraram milhares de pessoas nestes anos todos que tenho de profissão, presos, perseguidos, culpados, inocentes, testemunhas, outros que não têm e nunca tiveram voz, modéstia à parte esta coluna se tornou numa campeã dos Direitos Humanos.

Por sinal, só por causa de minha profissão e fé jornalísticas eu ganhei, meu maior orgulho, o Prêmio Direitos Humanos da entidade correspondente, em cerimônia inesquecível.

Então estão falando com quem ganhou o Prêmio Direitos Humanos, não é pouca coisa, é o meu maior troféu, porque alcançado ao terçar armas contra a opressão, a injustiça, o abandono, a exclusão.

Eu me gabo disso, fruto de meu trabalho e da minha obstinação por justiça e igualdade.

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Sendo assim, Zero Hora e eu concedemos espaço ontem e hoje ao doutor Bayard Fischer, como estamos prontos a conceder espaço em qualquer tamanho e a qualquer tempo aos que representam a memória do doutor Marco Antonio Becker e aos que representam o Cremers, violentamente atingidos por Bayard.

Só não publiquei nada do Cremers porque até ontem, horário de fechamento do jornal, ninguém do Cremers tinha me mandado qualquer mensagem.

Sei que estavam reunidos ontem às pressas no Cremers e a partir de amanhã encetarão a reação. Esta coluna está aberta ao Cremers, como se abriu ao doutor Bayard, como está aberta a qualquer gaúcho ou brasileiro que queira dela se valer para defender-se ou para gritar seus direitos.

***

Pelo amor de Deus, não me julguem mal ou apressadamente. Já cansei de provar que sou justo, sempre dei direito de resposta a todos nesta coluna, o Rio Grande está de prova. Cheguei até, inúmeras vezes, a ser chato para conceder direito de resposta.

Elaborem o Cremers e os médicos suas respostas, elas serão abrigadas democraticamente por esta coluna e por este jornal, porque em última análise esta coluna e este jornal estão a serviço do povo gaúcho.

Mas lembrem bem, a serviço de todos os gaúchos. Não a serviço, jamais, de apenas uma parcela ou facção.

A serviço de todos, pela justiça, pela liberdade.

Mobilizem-se, organizem-se e mandem suas respostas. Jamais neguei direito de resposta a ninguém.

Esta coluna é uma cidadela tradicional do livre debate e do trânsito livre de ideias.

*Texto publicado na página 39 de Zero Hora de hoje

Postado por Paulo Sant`Ana