Moisés Mendes (interino)
Nada é mais desconfortável do que o conforto de um quarto de hospital. Um homem num hospital, mesmo que não esteja ali pelo SUS e possa dispor de quarto privativo e dos serviços oferecidos por um bom convênio, está entregue aos comandos alheios na hora de comer, tomar banho, fazer xixi.
Menos o Sant’Ana. Pablo circula pelo hospital como se desfrutasse dos direitos assegurados por um usucapião. É posseiro de um apartamento desde sexta-feira. Está inquieto, mas feliz.
E Pablo entrou no hospital cheio de temores. Não há homem que não fraqueje quando entra num hospital. Um hospital é como uma oficina. Mexem no carburador e encontram uma mangueira entupida. As primeiras horas num hospital são assustadoras. Tem o reconhecimento do quarto, dos parceiros de quarto. Avalia-se quem está bem, quem está mais ou menos, quem não passa do entardecer.
É preciso se submeter aos procedimentos, às normas, ao olhar enigmático de enfermeiras, à fala de idas e vindas dos médicos. Até o passarinho que senta no parapeito da janela parece trazer alguma mensagem nebulosa.
– Olha o passarinho. É bom sinal – alguém diz para despertar algum otimismo no doente.
– É bonitinho... Mas por que é preto?
Pablo passou bem pela cirurgia no ouvido, feita pelo cirurgião Sady Selaimen da Costa, e pela biópsia na parótida, pelo cirurgião Nédio Steffen. A biópsia é só para que não fique encanzinado, para eliminar dúvidas. Pablo tem nove doenças e não tem nada. Está cercado de craques. Além dos que o operaram, o paparicam os doutores Jorge Gross, Paulo Sérgio Guedes, Paulo Prates, Matias Kronfeld, Fernando Nora e Celso Daligna.
Pablo escolhe as doenças para poder escolher os médicos. Todos têm a mesma marca: o humor solto, fluido, inteligente. Pablito não escolheria médicos burros. Ontem pela manhã, o quarto era uma arquibancada. Estavam ali Gross, Guedes, Prates e Selaimen. Foi divertido ver aqueles homens sábios manipulando dois aparelhos de controle remoto como se estivessem tentando algum contato com marte. Ninguém conseguiu fazer a TV funcionar para que se visse o filme da cirurgia. Uma enfermeira os socorreu. O filme é horroroso. A sessão foi suspensa no segundo minuto. Mas deu para ver que até o ouvido de Pablo é azul. E o pijama de Pablo, claro, é azul.
No sábado, Pablito entrou cantando no bloco cirúrgico. Cantava Folhas Secas, do Nelson Cavaquinho e do Guilherme de Brito:
Quando eu piso em folhas secas
Caídas de uma mangueira
Penso na minha escola
E nos poetas da minha estação primeira.
E cantava Foi um Rio que Passou em minha Vida, do Paulinho da Viola. E entrou na sala cantando, até submergir na penumbra da anestesia e acordar no início da tarde – cantando de novo. À noite, ligou a TV e assistiu a Henrique VIII, de Pete Travis. Ficou acordado até as 7h. Às 11h de ontem, cantava para os médicos. Está bem cuidado pelos médicos e pela mulher, Inajara. Deve voltar até quarta, livre da labirintite. Pablo não para de cantar. Canta e chora, mas canta mais do que chora. É um choro de quem está feliz por poder olhar pela janela e dizer: me aguardem, pardais. A primavera não pode nunca maltratar um pardal.
* Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora
Postado por Moisés Mendes
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