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Posts de setembro 2009

O voo das borboletas

30 de setembro de 2009 13

O meu tema hoje se refere a um aspecto da vida humana que me tem intrigado a sobejo: a liderança.

Seja a liderança de qualquer grupo ou em qualquer situação, seja a liderança de uma nação, de um Estado, de uma empresa, enfim, de qualquer conglomerado humano grande ou pequeno.

O líder é sempre uma pessoa atormentada. Quase sempre pela responsabilidade.

Ocorre-me agora, exatamente agora enquanto escrevo, que toda professora é uma líder, ela é quem conduz os alunos e a sala de aula.

Por sinal, no fim desta coluna estarei abordando a face mais característica de um líder, que é a condução dos seus liderados.

Do líder emanam as instruções para seu grupo, emanam as luzes para seu grupo, emanam o otimismo e a confiança, tudo emana do líder.

É prosaico dizer, mas um grupo sem líder é como um corpo sem cabeça.

Um grupo sem líder é como uma mulher sem pés e mãos bonitos, empaca tudo ali, e nem uma mulher assim, sem encantos nos pés e nas mãos, mesmo que seja bela, pode ser considerada bela.

Vejam o caso dos animais. Todas as espécies, em todos os grupos, têm líderes.

Por trás de qualquer manada de elefante, embora não se perceba, nas longas caminhadas da manada em busca de água ou de qualquer outro alimento, existe um líder. E, nas manadas de elefantes e nos bandos de leões, não raramente, os líderes são femininos.

Não faz estranhar que as fêmeas de algumas espécies animais sejam as líderes, porque na espécie humana, em última análise, as mulheres também são as líderes. Basta que se diga que se criou o termo dona de casa, que indica claramente quem manda na célula principal do agrupamento, que é a família, o domicílio.

Líder, portanto, é quem vai na frente, quem está na frente, quem conduz os outros.

O líder é uma pessoa diferenciada, há até casos raros em que o líder não é quem comanda, não é quem vai na frente e sim quem está por trás.

O líder tanto distribui as coordenadas quanto as recebe dos liderados, o líder costura, inflama, constrói, anima, mentaliza o que os outros confeccionam.

Dá para sintetizar numa só imagem o papel do líder: a de uma fileira indiana de pessoas que caminham no meio de uma floresta selvagem.

Lá vai a fila indiana de pessoas em busca de um objetivo.

E, na frente da fila indiana, de umas 30 pessoas, vai o líder, é lógico.

Ao líder, que vai na frente da fila na floresta, cabe desbastar o caminho com o facão. Vai avançando a trilha a golpes de facão que vão derrubando os galhos, os nós, os cipós. É estafante o trabalho do líder na abertura da trilha. Os outros todos vão apenas atrás, na cauda, no rastro da tarefa do líder.

Além de ter de desbastar os vegetais da trilha, o único que corre risco entre toda a fila indiana é o líder: é ele, por ir na frente, quem tem a posição temerária de receber as mordidas das serpentes. Mas é claro: por vir na frente, o líder é quem primeiro invade os ninhos das serpentes e por isso pode receber a dura punição das picadas venenosas das cobras.

Parece, portanto, que vida dura é a do líder. No entanto, apesar dessa dureza, ao líder é que cabe o esfuziante privilégio, o deleite inimitável, o prazer incomensurável de, por seguir na frente dos outros na trilha, sendo o primeiro que sacode os galhos da floresta, por isso conseguir ver, o primeiro e único a assistir ao alçar do voo das borboletas.

Quem já assistiu ao espetáculo extraordinário do alçar de voo das borboletas coloridas na floresta?

Assistir primeiro e unicamente a esse espetáculo é privilégio, compensação e recompensa do líder durante a caminhada.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Por que gostam tanto de mim?

29 de setembro de 2009 74

Digo-o sem nenhum pejo: às vezes, fico matutando sobre como as pessoas gostam tanto de mim.

 

O que fiz eu para que as pessoas gostem tanto de mim? Gostam de mim mais as pessoas aproximadas de mim, os que me veem todos os dias ou em média uma vez por semana, estes são apaixonados por mim.

***

Gosta tanto de mim o Moisés Mendes, que mergulhou na internet e gravou para mim dezenas de tangos clássicos, de domínio público, como Malena, interpretado magistralmente por Adriana Varela, Volver, Mano a Mano, La Cumparsita e Viejo Ciego, este cantado pelo imortal Roberto Goyeneche.

 

Deu-se à pachorra, o Moisés, de dar-me de presente esta coleção memorável de tangos, construída com sua paciência e bom gosto ao escolher as músicas e dar-mas de presente para que eu me delicie no toca-discos do meu carro.

 

É gostar de mim ou não é?

***

Vejam o caso de Loraine Chaves, a mulher de Kadão, o Ricardo Chaves, fotógrafo de ZH.

 

Pois a Loraine deu-se à pachorra de fazer um arroz de leite, com o arroz cozido não na água, mas no próprio leite, misturar não sei com que técnica a gemada no arroz de leite, e dar-me de presente a insuperável iguaria, dentro de uma grande vasilha.

 

Outras pessoas me dão arroz de leite de todos os tipos. Mandam-me doces de Pelotas, de Encruzilhada do Sul, aqui da Capital, doces e mais doces, empanturram-me de doces, principalmente de papo de anjo com calda. E eu, descuidadamente, relapsamente não devolvo suas vasilhas.

***

Por que gostam tanto de mim as pessoas, que algumas me telefonam e quando eu respondo alô elas imediatamente desligam, só estavam com saudade da minha voz?

 

Por que me amam tanto assim as pessoas, que se acercam de mim espertamente para só estar comigo e deliciarem-se com minha companhia?

 

Por que me amam tanto as pessoas, que quando ameaço que vou deixar esta sala em que escrevo, por aqui não me deixarem fumar, é uma correria entre o Clóvis Malta, o Olyr Zavaschi, o Nílson Souza e a Suzete Braun para que eu não os abandone. Não me deixam fumar, mas quando ameaço trocar de sala me fazem todas as outras vontades, comoventemente.

***

Por que me amam tanto as pessoas, que uma senhora se empenhou durante uma semana inteira em dar-me a imagem de uma santinha, a sagrada Virgem Maria, para que eu a depositasse no quarto do hospital, em busca da esperança da minha cura?

 

Por que me amam tanto a Rosane Marchetti e a Cristina Ranzolin, que vivem perguntando para mim e para os que me cercam quando, afinal, curado, eu voltarei para o lado delas no Jornal do Almoço?

 

Por que me amam? Que atração irresistível de afeto eu inspiro às pessoas?

 

Por que me amam tanto as pessoas, que as raríssimas que me odeiam ou me invejam não o fazem por me odiar ou me invejar, mas por me admirar, numa teia psicológica intrincada que afirma cada vez mais que inveja é sinônimo de admiração?

 

Por que me amam? Vale a pena viver quando se é por esta forma amado e admirado.

 

Pois eu quero dizer a todos os que me amam que aproveitem os últimos melhores momentos de minha vida e banqueteiem-se de mim, usufruam de mim todinho.

 

Ligeiro, que falta pouco!

Postado por Sant´Ana

O cego e a motosserra

28 de setembro de 2009 13

Eu uma vez já escrevi aqui sobre o cego Justimiano. Mas não abordei um aspecto que me parece interessante na cegueira.

O cego Justimiano foi um personagem da minha infância, ele morava oito ou nove casas além da minha, na Chácara das Bananeiras, no Partenon.

O cego Justimiano vivia sempre de pijama, nunca botava outro tipo de roupa, sempre de pijama listrado, não precisava de outra roupa, porque nunca saía de casa.

Quem alcançava as coisas para ele era dona Malvina, sua mulher havia 40 anos.

Mas o que me intrigava no cotidiano dele é que era um alcoólatra.

Bebia o cego Justimiano, mas só podia beber depois das seis da tarde. Era essa uma norma rígida que traçara dona Malvina: Justimiano só podia beber depois das seis da tarde.

Lembro-me que depois do meio-dia, de meia em meia hora, Justimiano perguntava as horas para Malvina. Cada um deles tinha mais de 60 anos.

Justimiano não cabia em si de ansioso, torcia para que chegassem as seis da tarde.

Quando batiam seis da tarde, Justimiano, o único cego da vizinhança, entrava em euforia.

Dona Malvina enchia de cachaça um vidro de Biotônico Fontoura e dava para Justimiano, que ia tomando aos goles poupados a aguardente pura. Afinal, sua quota máxima era de dois vidros.

Era uma forma de o cego Justimiano aliviar-se das pesadas cruzes da sua cegueira.

Quando entrava no segundo e último vidro de cachaça, o cego Justimiano ia para o quintal, cambaleando em cima dos seus tamancos.

Ficava debaixo de uma bergamoteira e ali cantava todo tipo de música, embora gostasse mais de trovar.

Era assim a rotina cansativa da vida do cego Justimiano e de sua mulher, dona Malvina.

Os dias se arrastavam lentos, esparramando-se sobre a vida do casal e da sua amassante e perpétua desgraça.

Eu conto este fato para exaltar a natureza humana, capaz de suportar as mais pesadas cargas de infelicidade sem o desespero radical, como, por exemplo, recorrer ao suicídio.

Noto que é tão espantosa a capacidade humana de resistir à aflição quanto o é a de ser cruel.

Baseio-me no fato narrado aqui neste jornal na semana passada, quando o ex-deputado do Acre Hildebrando Pascoal foi condenado a 18 anos de prisão por ter torturado até a morte um mecânico apelidado de Baiano, que se recusava a denunciar quem matara o irmão do ex-parlamentar. O ex-deputado, com seus capangas, amarrou o pobre homem e depois, com a ajuda de uma motosserra, decepou seu pênis, serrou um braço e uma perna do torturado, furou os seus dois olhos e cravou a marteladas um prego na testa da vítima, terminando o massacre inédito e brutal ao desferir quatro tiros sobre o coitado.

Uma maldade insuperável.

Estranha capacidade de sofrer das criaturas humanas.

E mais estranha ainda a capacidade de ser cruel, como demonstra a tortura comandada pelo ex-deputado.

Consegue caber incrivelmente no coração do homem todo o sofrimento imposto pelo destino.

E do cérebro do homem nasce todo e qualquer plano de maldade executada contra o próximo, por mais gigantesca que seja.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Inpossível recomeçar

26 de setembro de 2009 20

O avião navega tranquilamente em céu de brigadeiro. De repente, lá no alto, a milhares de metros de altitude, o avião explode.

Algumas teorias aeronáuticas afirmam que a explosão de muitos aviões sem causa aparente se dá por um fenômeno que a ciência aviatória designa por fadiga dos metais.

Também no amor, como na aviação, remanesce esse fenômeno. De repente, a frágil plantinha do amor explode ou não levanta mais do chão, deixa de crescer, murcha, cai por terra.

***

A fadiga dos metais se dá no amor por força do fastio entre o casal. O avião do amor explode ou não mais decola porque não resistiu mais à inanição provocada pela rotina dos movimentos, pela ausência de planos de voo, pela satisfação definitiva dos desejos.

*** 

 

E nem pensar em reconstruir um amor em cima dos seus próprios escombros, era aí que eu queria chegar.

Já experimentou o leitor ou leitora, depois de determinado tempo, dois, três ou quatro anos, uma reconciliação de um grande amor?

Pois nem cogite remotamente dessa experiência. Ela lhe será trágica.

***

 

Uma vez me encontrei com uma mulher que tinha sido minha grande amada. E nosso reencontro tinha o objetivo velado da reconciliação.

Não há mais rotundo fracasso que esse. A gente fica olhando um para o outro, na mesa de um bar, numa biblioteca, numa praça, em qualquer lugar. A outra pessoa vai minguando, minguando na frente da gente, até que parece desaparecer: é impossível reerguer um amor que outrora foi sólido e inderrubável.

A gente perde o jeito de sorrir que tinha, como disse o Quintana. A gente perde o ânimo e a firmeza que tinha, morre o sonho, morre a utopia, nascem todos os fantasmas e todos os aliados da irrecuperável separação.

 

***

 

Assim como não se pode unir peça por peça do avião explodido, não se pode reconstruir um amor antes findo, definitivamente sepultado.

Chega a ser repulsiva a imagem daquela mulher ou daquele homem que está na nossa frente, o vazio e a distância que separam um casal que cogitou da reconciliação viram um imenso abismo intransponível.

***

Nunca queira, prezado leitor, estimada leitora, refazer um caso de amor depois de algum tempo: falecer-lhe-ão todas as forças, lhe desaparecerão todas as energias, só restará a impotência aliada à mais completa desilusão.

É muito fácil e prosaico um amor nascer. E é muito difícil, quase impossível, um amor renascer.

***

 

Porque o amor é como a mistura desses componentes químicos que, uma vez plasmada, a ela só resta a sobrevivência durante um tempo ou a morte. Jamais o renascimento de sua composição.

***

 

Eu diria até que o amor se resume só ao seu nascimento. Porque é quando nasce que o amor começa a morrer, assim como a vida de qualquer ser.

Não há nada mais amassante e dilacerante, portanto, que um casal que decida recomeçar. Porque mal sabe que sua reconciliação se chocará logo ali adiante contra os rochedos duros e rudes da impossibilidade do reflorescer dos elementos e da fadiga dos metais.

Como é triste a tentativa de recomeçar um grande amor. Primeiro porque, fosse – e não é – possível recomeçar, esse amor jamais chegaria a ser o mesmo. E, como não haverá recomeço, pela segunda nostálgica e frustrante vez é declarado extinto o grande amor.

E não há nada mais trágico do que a extinção do amor.

 

* Texto publicado na Zero Hora dominical.

Postado por Sant`Ana

Pensamentos íntimos

25 de setembro de 2009 17

Basta que se faça um bem para uma pessoa e, passado algum tempo, ela retribuirá com o mal.

Quem semeia o bem logo colherá o mal. Isso não é uma verdade absoluta, mas se trata de uma verdade corriqueira. E fatal, e inevitável.

***

Parece que é uma ampulheta. Tudo que você dedica de amparo, ajuda, afetividade, auxílio a uma pessoa, ali adiante ela devolverá em mal, em agressão, quando não em desprezo ou indiferença, mas principalmente em mal.

***

Essa lei da vida é uma desgraça, porque ela caminha no contrafluxo da caridade, do amor ao próximo, da solidariedade.

Explico: essa lei espúria da vida desanima a pessoa que quer fazer o bem, ela passa a enxergar como um inimigo em potencial toda outra pessoa que lhe pede ajuda. Fica ela logo aguardando que dali daquele objeto da sua afeição logo virá uma traição.

De cada pessoa suplicante corresponderá uma punhalada sangrenta. A cada beijo, corresponderá uma bofetada. A cada carinho, um safanão.

***

Quanto mais abrires tua bolsa e teu alforje para alcançar alimentos para quem te suplica compaixão, mais serás atingido pelos golpes contundentes ou incisivos do teu beneficiário.

Quanto mais fores cordial, sorridente e compassivo com quem necessita de ti, mais dele receberás como pagamento manobras insidiosas ou ações de agressividade ímpar e surpreendente.

Isso é como diz meu poeta Augusto dos Anjos na mais célebre das suas criações:

Toma um fósforo, acende teu cigarro.
O beijo, amigo, é a véspera do escarro
E a mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nesta boca que te beija.

***

Cometi esta semana um erro imperdoável. Ao citar uma das obras primas de Lupicínio Rodrigues, denominei-a de Aves de Rapina, quando o título verdadeiro é Aves Daninhas.

Perdoem, deve ser porque eu já estava dominado pela revolta contra as aves rapineiras da ingratidão.

***

Mas apesar da maldade das pessoas, apesar da infinitude dos gestos incordiais, do mau humor de atos agressivos, da ausência de limites para o não reconhecimento das obras mais nobres de que se beneficiam os devedores, apesar da bondade que é replicada com violências de desagradecimento, apesar da caridade ser paga com a crueldade, o mundo ainda há de ser viável, restará ainda a esperança de que se regenerem os maus e prevaleça o bem a presidir todos os gestos inter-relativos aos homens.

Não há de ser só de falta de gratidão que regerá a bolsa de pagamentos e recebimentos dos seres humanos.

Um dia o sol nascerá dessas sombras de irreconhecimento.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora.

Postado por Paulo Sant`Ana

Por que eu amo a Padre Chagas

24 de setembro de 2009 9

Confira a minha caminhada por um dos bairros mais charmosos da nossa Capital:

Postado por Sant`Ana

Asilo enjambrado

24 de setembro de 2009 14

O Rio Grande do Sul acordou perplexo ontem: todos foram abrir Zero Hora pela penúltima página e não estava ali esta coluna.

Um astucioso publicitário da Agência Escala havia comprado um anúncio conjugado que compreendia a penúltima e a antepenúltima página deste jornal.

Os leitores foram brindados com um inteligente anúncio das Lojas Colombo.

***

Mais talentosa foi ainda a Agência Escala, porque o preço das duas páginas custou um quinto do que seria o anúncio nas páginas 2 e 3 de ZH e a leitura acabou sendo 10 vezes maior.

O fato virou ontem um case que vai embasar a escolha do Publicitário do Ano, ninguém poderá bater este feito espetacular do marketing da mídia impressa; o anúncio foi comprado por preço irrisório perto da nobreza da penúltima página, que, como se sabe, há décadas é a mais lida do jornal.

***

Disseram-me hoje que Lojas Colombo entrou ontem em negociação com ZH para desde já deixar encomendado espaço idêntico para o Natal deste ano e Dia das Mães do ano que vem.

O diabo é que rege o mercado publicitário uma tabela sobre as partes mais lidas dos jornais e, segundo me comunicaram, o preço de duas páginas no mesmo local usado ontem dobrou nas últimas 24 horas.

É um fato assombroso.

E tanto mais se torna por ter sido uma campanha das Lojas Colombo que consiste em amarrar seus anúncios em várias páginas de ZH, fazendo com que atinja sua culminância na penúltima página do jornal, onde modestamente escrevo.

***

Não bastasse isso e, pela terceira vez na semana, ontem, um cronista usou a expressão “conversinha” para designar “conversa fiada”’, termo que criei há poucos dias na imprensa gaúcha.

É inumerável a sequência de palavras cujos novos significados crio ou adoto. E, tão logo caem no gosto do público, em seguida os cronistas, num efeito manada, passam a usar todos os dias as expressões que elaboro.

Sinto-me honrado. Nada há que orgulhe mais um colunista do que ser usurpado em seu direito autoral, sendo imitado por seus admiradores em expressões de livre uso mas de clara e indiscutível propriedade privada.

***

Eu e todos já tínhamos visto um presidente da República ser deposto em qualquer lugar do mundo, refugiar-se então numa embaixada estrangeira dentro do território em liça.

O que nunca tínhamos visto é o que está acontecendo incrivelmente agora: um presidente hondurenho foi deposto, saiu de seu país, agora voltou para lá com a visível ajuda do governo brasileiro e refugiou-se na embaixada do Brasil em Tegucigalpa.

É um fato inédito e assustador.

***

O que espanta no episódio é o Brasil astutamente ter montado a devolução do presidente deposto de Honduras ao território de seu país, depois de lá ter fugido.

Ou seja, o Brasil concedeu, em sua embaixada, asilo, dentro de Honduras, a um presidente que não morava mais em Honduras, nunca foi visto nada igual.

Em outras palavras, o Brasil criou em Honduras um domicílio para o presidente deposto. Só que, se foi cessado esse domicílio pelo governo que assumiu o poder, só ele poderia devolvê-lo ao desterrado, nunca um Brasil que nada tem a ver com a história e meteu-se nela de modo atravessado.

O excesso de protagonismo do Brasil não pode ser encarado como uma frivolidade diplomática, e sim como uma grave intromissão nos interesses de uma nação estrangeira.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

O fracasso do dia

23 de setembro de 2009 23

Foi um fracasso enorme a comemoração, ontem, do Dia Mundial sem Carro: a Avenida Ipiranga estava completamente engarrafada.

É um absurdo comemorar esses dias especiais: Dia Mundial sem o Marido, Dia Mundial sem o Cigarro, Dia Mundial sem o Chiclete.

Nunca vi tamanha asneira.

***

O que as pessoas pensam desses “dias”? Que um só dia de abstenção ou abstinência não adianta nada. O certo é esta campanha: Crack, Nem Pensar. Não por ser da RBS. Mas é que uma campanha tem de ser para sempre, não deve escolher só um dia. Ou é para sempre, ou não se faça campanha nenhuma.

***

Também aconteceu ontem uma falsa esperteza global: cada um pensou que seria um dia ideal para dirigir, o trânsito estaria manso e tranquilo, com os “bobos” deixando seus carros nas garagens e usando o transporte coletivo.

Aconteceu então que todo mundo foi usar desse estratagema, e Porto Alegre e o Brasil inteiro ficaram engarrafados nas grandes cidades.

***

Quem já tem mais de 50 anos, como eu, fica com saudade da juventude. Pura tolice.

A gente inveja os jovens esquecendo que já se foi jovem e eles têm o mesmo problema que tínhamos na idade tenra: aborrecimentos, tédio, angústia, desemprego, incerteza quanto ao futuro etc.

Então, o tempo é que é o senhor da razão: a vida pode ser boa ou ruim na juventude e na velhice, tudo depende da sorte e/ou do esforço e inteligência que se cometer para melhorá-la.

***

Tenho me ocupado em ouvir as gravações sobre o escândalo da Operação Rodin, a roubalheira que havia no Detran.

Não tem nada de novo nas gravações quanto ao conteúdo e mérito, só quanto à forma e ao estilo.

Então, que fique claro que sob o meu ponto de vista houve uma roubalheira, não transijo disso.

O que eu queria dizer é que se me gravarem, se gravarem o meu leitor ou a minha leitora, nas conversas que ouvirão os analistas das gravações, sempre encontrarão nos diálogos cifrados ou com cuidados um certo comprometimento.

Eu já escrevi aqui que sou contra todo tipo de gravação por parte das autoridades porque ela atenta contra o artigo quinto da Constituição, que não permite a violação da intimidade, da privacidade das pessoas.

Sou só a favor de gravar-se uma pessoa quando estiver em jogo a vida de outra pessoa, um exemplo típico é um sequestro que está sendo planejado ou se desenrolando, com a vítima em poder dos sequestradores.

***

Do jeito que é, grava-se a tudo e a todos. Há gravações que são feitas antes de as autoridades pedirem ao juiz que as conceda. Isso é um absurdo e um crime, afirmo. Ainda mais com tantos órgãos autorizados a gravar, alguns até envolvidos em brigas filosóficas, de competência ou existenciais intestinas.

Mas onde eu queria chegar é que qualquer conversa demorada pode se constituir, sob o ponto de vista de quem está investigando um fato, num indício, numa suspeita de que esta ou aquela frase interessa à investigação.

Não estou defendendo nenhum réu, até mesmo porque no escândalo do Detran existem réus indefensáveis.

O que quero dizer e afirmo é que os nexos encontrados em conversas soltas ao vento podem ser falsos muitas vezes.

E aí há que se pensar também se essas gravações podem ser publicadas antes de os réus que delas participaram serem condenados.

Isso é outra coisa que demandaria um século debater.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora.

Postado por San`Ana

Os telefonadores

22 de setembro de 2009 11

Sempre que vou escrever algo sobre política, me aconselho e me subsidio com a Rosane de Oliveira.

Mas não consigo falar com ela. Sempre que o desejo, ela está no telefone, certamente falando com políticos, como antigamente fazia o mesmo o José Barrionuevo.

Irritei-me na semana passada com a Rosane outra vez no telefone e deixei um bilhete para ela, em sua mesa: “Rosane, sempre que quero falar contigo, há oito anos, estás no telefone. Solicito que venhas falar comigo no próximo espaço entre um e outro telefonema teu, (as.) Sant’Ana”.

Dali a sete minutos, ela estava na minha sala, prestativa.

Aqui na Redação de ZH, há três pessoas que passam 90% do seu tempo de trabalho no telefone, a Rosane, o Nílson Souza e… a telefonista.

***

Estava eu ontem a remoer meus pensamentos no fumódromo da RBS, quando penetraram no recinto duas garotas de cerca de 20 anos cada.

Elas estavam prestando assessoria de moda para o caderno Donna de ZH.

Avançadíssimas, vestiam suas blusas claras coladas ao tórax, deixando provocantemente transparecer o ponto escuro e sólido dos seus mamilos.

Eu e o Wianey Carlet, que fumávamos, ficamos estatelados diante da beleza das duas jovens.

Eu, que estava com a vertigem da labirintite, tonteei mais ainda.

O Wianey, que estava pitando saudável, ficou com labirintite.

***

É inacreditável, mas dois grandes cantores da música brasileira e francesa foram motoristas de dois grandes ícones do cancioneiro.

Agnaldo Timóteo foi motorista de Ângela Maria, Charles Aznavour foi motorista de Edith Piaf…

***

Lupicínio Rodrigues era o rei das brigas com seus amores. Seu quarteto de versos na música Aves de Rapina é célebre:

Quando vou a uma festa sozinho
Esperando esquecer o meu bem
Nunca falta um engraçadinho
Perguntando “ela hoje não vem?”.

***

Telefonaram-me três corretores de imóveis porto-alegrenses me dando conta de que a coluna que fiz ontem sobre a Rua Padre Chagas e adjacentes fez aumentar como num passe de mágica, em torno de 20% em apenas um dia, o preço dos imóveis naqueles quarteirões.

***

O cancerologista, oncologista e eminente pesquisador de remédios de ervas para o câncer, o médico Gilberto Schwartzman, de prestígio profissional em nível internacional, deu-nos a seus amigos uma surpresa notável em seu sítio da Barra do Ribeiro.

Além das louças, das toalhas, dos guardanapos e dos talheres, todos de fino gosto e escolhidíssimos, do primeiro ao quinto prato do jantar, do vinho fabricado em sua dacha, o danado ainda sentou-se ao piano e para nossa perplexidade revelou-se um excelente instrumentista e cantor.

***

E é como eu sempre digo: vamos doar nossos órgãos, doar nosso sangue e, com a homenagem que me prestaram no Olímpico, com o Grêmio onde eu estiver.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

A Padre Chagas

21 de setembro de 2009 38

De fato, estamos vivendo uma revolução de progresso, civilização e, posso até arriscar, de humanidades no perímetro que compreende a Rua Padre Chagas e adjacências, no Bairro Moinhos de Vento.

Sequer há em Buenos Aires e Rio de Janeiro, com a decadência de La Recoletta e Ipanema, um lugar mais aprazível para se transitar e para estacionar os corpos do que na região da Padre Chagas e vias circunstantes.

*** 

Chegou ao ponto da Padre Chagas e confluentes se tornarem atração turística mais magnética do que os nossos shoppings, a grande novidade do final do século passado.

Houve uma espontânea atração à Padre Chagas e seus arredores de tudo que de mais bom gosto tivemos para expressar nossa arquitetura predial e humana. Eu descobri, por exemplo, anteontem, uma padaria espetacular na Padre Chagas, com variedade e qualidade de produtos superior até mesmo em quantidade às da Banca 43 do Mercado Público.

Ou seja, a Padre Chagas e seus outros cantões limítrofes passam a ser o lugar ideal para se sentar à mesa dos cafés e bares, como também um oásis para o
abastecimento de nossos lares.

*** 

Quer música? Tem lá. Quer comer? Ali você encontra os mais deliciosos acepipes, as comidas mais saborosas, os doces e sorvetes das mais sofisticadas e variadas correntes gastronômicas.

Quer conversar? Não há recantos mais hospitaleiros para um bom papo do que lá. Se alguém deseja encontrar as pessoas mais interessantes, toca para a
Padre Chagas que em seguida se formará, naturalmente, como em camadas tectônicas, uma roda que jamais se poderia formar em outro lugar da cidade.

*** 

Chegou ao ponto em que já deixei, como tanta gente, de viajar, para me dirigir à Padre Chagas. Ali me espera sempre o inesperado, ali me acalanta sempre o acalentado, ali me enternece o espírito e me encanta os olhos sempre a ternura visual e auditiva das pessoas e das coisas.

*** 

Estes dias aconteceu-me uma coisa que está mudando a minha vida: marquei uma consulta com um médico em um café da Padre Chagas.

E é tal a força telúrica e solidária do lugar que já me sinto a criar o costume e a moda: vamos todos marcar as consultas com nossos psicanalistas no bares e cafés da Padre Chagas. Abaixo os consultórios frios, insossos,herméticos dos médicos e psicanalistas. Vou sugerir ao otorrrino Sady Selaimen da Costa, ao rei do pescoço Nédio Steffen e ao clínico geral Mathias Kronfeld que levem seus equipamentos, inclusive otoscópios e estetoscópios para determinadas mesas de bares e cafés da Padre Chagas e ali atendam seus clientes, naquele ambiente que por si só já significa a cura geral e irrestrita dos pacientes.

Isto mesmo, aqueles bares, cafés e bistrôs da região da Padre Chagas compreendem a cura da alma, a cura do corpo e a consequente e ansiada cura do cansaço, da náusea, da depressão e do tédio que perturbam nossas vidas.

*** 

Nem a falta de estacionamento ameaça o sucesso da Padre Chagas. Essa bolação da Zona Azul é fantástica. Ali naquele oásis urbano estupendo, extinguiram-se
como por um milagre os flanelinhas e os inconvenientes.

Ali só tem gente agradável, só tem lugares repletos de beleza estética humana e material e de belas imagens cotidianas.

Que lugar! Parece até que ali é a zona irrepreensível da felicidade. A felicidade que supomos existir está ali. A felicidade que queremos, a que sonhamos e a que merecemos está ali.

Ali se firma, resoluto, o verdadeiro conceito de cidade, que significa a aglomeração de pessoas e de prédios que servem à funcionalidade da vida em comum.

Que lugar!

Quem quiser ter uma ideia do que sejam as paragens do Éden, corra para lá.

> Faça um comentário abaixo e dê a sua opinião sobre a Padre Chagas!

Postado por Sant`Ana

Reflexões convalescentes

19 de setembro de 2009 4

O complexo de inferioridade, no homem, é derivado da sua burrice.

Mas há teses autorizadas que afirmam exatamente o inverso.

***

Já a megalomania é derivada da insegurança. Mas há versões psicanalíticas modernas que afirmam preferentemente o inverso.

***

Por exemplo, há uma teoria médica que prega a prisão de ventre ser derivada da ansiedade.

Enquanto que não conheço, no inverso, causa mais veemente da ansiedade do que a prisão de ventre.

***

Essas três provas que dei acima, de que as aparências enganam, confirmam inteiramente outra contradição célebre: durante séculos, os filósofos e terapeutas afirmaram que uma moça só se mantém muito tempo virgem se for pudica.

Enquanto eu afirmo taxativamente que, pelo contrário, é a virgindade que sustenta a pudicícia.

***

As aparências enganam, esta é a verdade que sobressai às outras verdades. Por exemplo, a mesma honestidade de um homem que não mete a mão no dinheiro alheio por medo de ser preso – e não por dignidade – corresponde à verticalidade do ser masculino que não se dedica à homossexualidade à qual tem pendor por medo da vaia social e não por apreço à hermafrodita definição fulcral de sua espécie.

***

Se é verdade que existem muitos motivos para eu me demitir, também o é que só não me demito por um único motivo: ninguém vai acreditar.

***

Atenção para meu boletim médico e existencial: não há nada como ser operado do ouvido e da parótida, aproveitando uma só sedação, ser assistido pela RBS no hospital, os cuidados todos do plano de saúde Golden Cross, os amigos na volta, os que estão longe por viagem, no entanto, demonstram desvelo dedicado por mim no telefone.

A situação médica é a seguinte, construí até uma piada sobre ela: ao que tudo indica, pelos fatos estabelecidos neste instante, ao fim de tudo, daqui a um mês, estarei surdo do ouvido operado, estarei tonto e mareado como me encontro agora, sem poder dirigir carro, mas meu ouvido estará completamente curado. Vitória!

***

Lauro Quadros completou ontem 70 anos. Viveu 70 anos até agora e viverá uns 90 a julgar como cuida da saúde, não bebe, não fuma, não pratica sexo a não ser nos jogos de casa.

A única vantagem que tenho sobre o Lauro é que já vivi 200 anos, tal a intensidade dos meus atos existenciais.

Meus parabéns ao Laurinho.

 

* Texto publicado na página 47 da ZH dominical

Postado por Paulo Sant`Ana

Sempre à espera

19 de setembro de 2009 11

Leitor ou leitora!
Olá, como vai?
Eu vou indo. E você?
O coração está batendo?
É preciso que ele bata.
Não para viver
Mas para amar.
Não é necessário viver.
Amar é que é imprescindível.
Como vai você?
Eu preciso saber da sua vida!
Neste espaço em que não nos vimos,
Eu estava no hospital,
Magoaram-te?
Feriram-te?
Não haveriam de tê-lo feito,
Tão doce tu és
E tão merecedora
De respeito te fazes.
Insultaram-te?
Se Deus é justo,
E sendo justo Deus,
Não permitiria
Que alguém te insultasse.
Traíram-te?
Em nome de quê?
Se não há ninguém mais leal do que tu?
Mas afinal, responde:
Como vais? Tudo bem?
Por onde fores, lembra-te,
Irei trilhando as mesmas ruas.
Sempre em amável perseguição.
Não me deixa!
Não me perde de vista!
Até que isto tudo nunca acabe!
Vem! Vem, sempre do meu lado.
Como se fôssemos linha e botão.
Vem! Não deixa nunca de vir!
Como nunca deixarei de estar à tua espera.

Postado por Paulo Sant`Ana

Protesto!!!

18 de setembro de 2009 21

A sociedade brasileira vem se aterrorizando há dias com um fato que deveria tê-la aterrorizado já há muito mais tempo.

Ocorre que o povo brasileiro chegou nos últimos dias à conclusão de que tudo, ou quase tudo de importante, se decide por meio de um escore.

“Por tantos votos a tantos, o STF decidiu que são liberadas as pesquisas de células-tronco.”

“Por tantos votos contra tantos, o Supremo está decidindo que o italiano Cesare Battisti será extraditado.”

“Por tantos votos contra tantos, o Senado decidiu aumentar em milhares as cadeiras de vereadores no Brasil.”

***

E por aí afora. Tudo é decidido por escores, por placares.

No caso do júri, que julga crimes contra a vida, um réu pode ser inocentado ou condenado por diferença de apenas um voto, como em todos os casos de votações nos tribunais ou nas casas legislativas.

E o que eu pergunto à sociedade é o seguinte: mas pode haver justiça quando as sentenças são assim pronunciadas como se fossem jogos lotéricos, tantos votos a favor, tantos votos contra?

***

Há réus que são condenados a penas de 540 anos de prisão, embora vão cumprir somente 30, por um voto de diferença no anúncio do resultado.

Há projetos ou medidas provisórias que decidem as vidas de milhões de brasileiros, como o das aposentadorias ou como o da maioridade penal, por apenas um voto de diferença. Que seja lá por dois ou três votos de diferença. É justo?

Isso é o que quero saber.

***

Dirão que não há maneira de se decidirem essas coisas importantes. Tem de ser por escore, por votação.

E que há muito tempo, desde que o Brasil se organizou em sociedade, isso acontece.

Mas, então, por que só agora as pessoas estão estranhando e alguns protestando?

O que quero é justamente isso, estranhar e protestar contra esta maneira de se julgarem os homens e as coisas.

***

Não é verdade que entre as sociedades organizadas o destino das pessoas seja decidido por escores de escassas diferenças.

Ou seja, não é verdade que em todo o mundo se faz o mesmo tipo de justiça que no Brasil, onde uma pessoa pode ser condenada por quatro votos a três.

Não é verdade.

***

Nos Estados Unidos, por exemplo, há Estados onde não podem ser condenados réus — ou absolvidos — por escassos votos de diferença no julgamento de inocente ou culpado.

Há Estados, como vimos no célebre filme 12 Homens e uma Sentença, estrelado por Henry Fonda, em que o réu só pode ser condenado – ou absolvido – por 12 votos de diferença, isto é, por 12 a zero.

Os jurados só saem da sala com o veredicto depois de absolverem ou condenarem o réu por 12 votos a zero.

Se, na primeira reunião dos jurados, o escore estiver em 6 a 6, ou 7 a 5, ou 8 a 4, seja qual lá for a diferença que não seja por número total de votos a favor ou contra o réu, eles, jurados, terão de confabular, nem que isso dure cinco ou 30 dias, até ajustarem um escore de 12 a zero. Para qualquer lado.

Eu acho esse sistema muito mais justo do que essa loteria de absolver-se um homem ou condená-lo por apenas um voto de diferença.

Todos saem muito mais tranquilos de um julgamento em que os jurados votaram por determinado resultado único e não essa roleta de um, dois, três votos de diferença num resultado em que, como eu já expliquei, decide a vida, o destino das pessoas e das coisas.

Por isso é que me rebelo contra nosso sistema.

E me tranquilizo um pouco.

Porque pelo menos me rebelei contra esta bárbara injustiça.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Voltei!!!

17 de setembro de 2009 26

Sofri duas cirurgias sábado passado. A primeira no ouvido esquerdo, a segunda na parótida direita.

A da parótida direita só não podia ser chamada de menos importante porque ela significava o Dr. Nédio Steffen tirar um pedaço do tumor do órgão para levá-lo a uma biópsia.

Felizmente, as 12 provas a que o patologista Geraldo Geyer submeteu as amostras do meu tecido tumoral documentaram a ausência de malignidade.

***

Quanto à cirurgia do ouvido, segundo o Dr. Jorge Gross, que a assistiu pelo microscópio durante mais de uma hora, disse a nós que se tratou da “melhor e mais competente cirurgia que vira em sua vida”. E olhem que ele já viu um milhar.

Foi autor da cirurgia o médico Sady Selaimen da Costa, de quem se diziam maravilhas e agora evidentemente vão se dizer coisas como “é um mago do Sião”.

Ainda estou dolorido pela intervenção, doem-me os ossos, doem-me os músculos, as cartilagens, estou muito tonto ainda, mas as mais autorizadas previsões dão conta de que em uma semana mostrar-me-ei inteiramente recuperado.

***

Não considero elegante o tipo de identificação que usam determinadas pessoas ilustres para registrar recados em seus celulares: “Aqui é Fulano de Tal, não posso atendê-lo neste momento. Deixe recado e em outra hora conversamos”.

Sinto-me quase ultrajado quando ouço isso em secretárias eletrônicas.

Então, quer dizer que não podem atender-me agora? Embora justificável, sintam que é um pé no saco não ser atendido, quando se queria ser atendido.

E depois: com que, então, além de não ser atendido quando queria ser atendido, “em outra hora conversamos”?

Quando o que tinha de ser dito é que não podem me atender naquele momento, mas “imediatamente me atenderão”. Imediatamente.

***

As pessoas que menos azucrino são aquelas que odeio.

As pessoas que amo não azucrino: não precisa.

***

Mas ontem um amigo me disse que, mais que azucrinar, costumo maltratar algumas pessoas que amo.

Respondi que só bato verbalmente nas pessoas que amo: é por sentir-me no direito adquirido disso.

***

Não existe lugar mais sublime que um hospital: ele é feito para curar as pessoas.

Por isso, detesto determinados hospícios, que são estruturados para enlouquecer as pessoas.

Bem assim como muitas prisões, que são feitas para tornar as pessoas mais criminosas do que já eram antes de entrar lá.

E há faculdades que são feitas exatamente para tornar seus alunos mais burros do que já eram ou nunca quiseram ser.

E há salões de beleza que se esmeram em enfear as mulheres.

Como há personal trainers de mulheres que incrivelmente as tornam mais pachorrentas.

Talvez por as deixarem empanturradas de prazer.

* Texto publicado hoje na página 71 de Zero Hora

Postado por Paulo Sant`Ana

Do tempo do Gildo

16 de setembro de 2009 8

Moisés Mendes (interino)

Essas gravações com as conversas da Operação Rodin ganham outra vida quando aparecem agora em áudio. Eu li as 1.238 páginas da ação de improbidade administrativa do Ministério Público Federal contra os nove acusados de envolvimento nas fraudes do Detran. Li em dois dias. Levei um ano para ler o Ulisses, do Joyce, e li o Catatau, do Leminski, em um mês. Fui o único além do Leminski que leu o Catatau inteiro.

Com o relatório do MPF, bati meu recorde. Nos dois dias, comi pouco, dormi pouco e tive pesadelos. Sonhava com precatórios, fotos, livros, cones, cadernos, escrituras, tudo aquilo que aparece nas conversas com outro sentido. A PF e os procuradores dizem que esses eram os nomes para propina. Precatórios e cadernos assustadores, cheios de números, partilhas, apelidos. Sonhava que seria soterrado por escrituras, fotos, cones.

Os grampos da PF pegaram mais de 20 mil telefonemas. É de tontear telefonista de pronto-socorro. Soltas, as conversas são confusas, cifradas, nebulosas, tortuosas. Mas o MPF seguiu os rastros de cada uma, fez as conexões das falas com os movimentos dos envolvidos. Assim, as falas ganham sentido. Agora, com os áudios que começam a sair da CPI, temos a entonação da voz, as vírgulas, os silêncios, os pigarros. Os pigarros são aterrorizantes.

Essas conversas com informações em código acionam a memória de quem viveu no Interior. Me criei ouvindo os avisos da Rádio Marajá, de Rosário do Sul, e da Rádio Alegrete. Notícias e pedidos de gente da cidade para os parentes e conhecidos da campanha. São os programas de mensageiro, os e-mails do vasto mundo dos campeiros. Há todo um folclore em torno desses avisos com notícias de quem foi à cidade fazer compras, ir ao médico, ou está esperando alguma encomenda das fazendas.

Há muito do formato desses avisos nas conversas gravadas. Imaginei o que a PF teria gravado nas rádios do Interior se os envolvidos na Operação Rodin morassem no Alegrete e os avisos fossem lidos pela voz potente do saudoso Aury Dornelles. Aury se divertia lendo os avisos.

Imagino que seria mais ou menos assim:

— Atenção senhor Decênio, láááá no Jacaquá. O Frutuoso avisa que ainda espera as batatas e que não aceita receber em parcelas. Manda dizer que a porquinha dará banha da boa.

— Guaçu Boi, atenção senhor Capitulino. O doutor Plácido recebeu as alfaces e pede que continuem regando a horta do Liderança uma vez por mês.

— Atenção, atenção dona Dalcenira, no Touro Passo ou onde estiver. Seu marido avisa que esperava os precatórios e recebeu dois chuchus. Se chover, fica na cidade até a chegada da escritura do boi manso.

— Atenção senhor Aldemiro, na Jararaca. O Tibo pede que mandem o Tibica pelo ônibus das onze. Enviem junto um bonsai de repolho e dois rolos de fumo. Entregar à meia-noite nos fundos da estação. A senha é: nos fumo.

— Atenção dona Valcíria, lá nos rincões do Itapevi: Anastácio pede que tirem a alfafa do boi do potreiro grande e mandem mais queijo com 7.1 de gordura porque o jurídico comeu toda a primeira remessa.

Os avisos sobrevivem, nesses tempos de Internet, nas rádios de São Gabriel, Candelária, Itaqui, Lajeado, Santiago, Bagé, nesse mundaréu onde a única coisa virtual é o boitatá. Vou parar porque me deu saudade do Gildo de Freitas. No tempo do Gildo não existia tanta bandalheira.

* Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora

Postado por Moisés Mendes