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Posts de outubro 2009

Eu só quero justiça!

31 de outubro de 2009 16

Não quero que me julgue um juiz culto ou erudito.

Prefiro que me julgue um juiz justo.

Quero que me julgue um juiz piedoso e compassivo.

Mas que deixe de lado a compaixão, se for para ser justo.

Podem os juízes que me forem julgar ser severos ou condescendentes, desde que, ao me aplicarem a pena ou me absolverem, sigam somente os ditames de suas consciências cognitivas.

Prefiro que ao me julgarem os juízes se atenham menos à lei do que à vida.

E insisto que o juiz que me julgar leve em conta, ao me sancionar com a condenação ou me absolvendo, a possibilidade de minha regeneração.

Ou seja, que nenhuma pena se abata sobre mim se vier impossibilitar a hipótese de que eu nunca mais venha a delinquir.

Que o meu castigo não impeça jamais a minha recuperação.

***

Que o juiz que me for julgar tenha em conta, se me for condenar, a masmorra em que serei jogado, que tome consciência, sim, de que a pena que me impuser não poderá me destruir como ser humano, atirando-me a um antro prisional que destroçará em definitivo todos os meus valores que ainda restam.

Mas que leve em conta o juiz que me for julgar, essencialmente, o dano que causei à minha vítima e a seus familiares assim como se eles estão bradando veementemente por meu castigo. Em outras palavras, que a pena que se abata sobre mim, se eu for culpado, contenha influência da insistência e veemência do pranto dos familiares da vítima que produzi.

E, se for justo apenar-me, que me apene, mas sempre baseado na esperança de que eu venha na prisão a emendar-me.

Na esperança ou na perspectiva.

***

Que o juiz que me venha julgar olhe nos meus olhos, me ouça infatigavelmente, nunca por nenhum detalhe cerceie a minha defesa e tenha bem presente em sua mente a natureza, a extensão e o conteúdo da acusação que pesa sobre mim.

E principalmente deduza firmemente o juiz que me for julgar se ao cometer o delito eu poderia tê-lo evitado, se havia ou não inexigibilidade de outra conduta minha.

***

O juiz que me venha julgar, quando pronunciar a minha sentença, deve ter bem exato em sua mente que jamais se arrependerá dela, que jamais transigirá dela, no futuro, a não ser para beneficiar-me, no caso de que fique provado que errou ao condenar-me.

Mas exijo do juiz que me julgue que, se eu for substancialmente culpado, me condene e me deixe bem claro que não havia outra coisa a fazer em defesa da lei, do Estado e dos que danifiquei.

***

Quero que o juiz que me venha julgar não tenha pressa nem se mostre lento ou hesitante. E, se for hesitar, que seja apenas para acautelar-se de um grave erro de sentença.

Exijo também do juiz que me venha julgar que se fixe com obsessão nas provas que eventualmente haja contra mim, que nunca se afaste delas por nenhum milímetro, assim como o fará com as razões da minha defesa.

***

Finalmente, desejo ao juiz que me for julgar que se orgulhe da sentença que pronunciou, tenha sido para absolver-me ou para condenar-me, que depois de pronunciá-la o juiz ou a juíza que me for julgar se olhe no espelho em casa e se sinta digno de sua missão jurisdicional, que depois vá jantar à mesa com seu marido, com sua mulher e com seus filhos e grite intimamente: “Eu tenho convicção de que hoje fiz justiça”.

*Texto publicado na página 39 de Zero Hora dominical

Postado por Paulo Sant`Ana

Os óculos escuros

31 de outubro de 2009 7

 Dizem que os olhos são as janelas da alma. Então, os óculos escuros são as venezianas.

***

Sempre desconfiei de quem não tira os óculos escuros. Parece que quer esconder dos outros algo que oculta na alma por vergonha.

Se eu não tivesse meu olho esquerdo afetado por antiga paralisia facial, o que impede que suas pálpebras fechem por intuição, só por ato volitivo, nunca usaria óculos escuros. Só os uso para proteger o olho esquerdo do sol ou da luminosidade.

Mas, sempre que alguém se aproxima de mim para conversar, tiro depressa os óculos escuros. Os meus interlocutores não os merecem.

***

Quem usa óculos escuros esconde uma traição: já feita ou que está por vir.

Por sinal, há três profissões em que são intrínsecos os óculos escuros: cantor de rock ou de pop, segurança de casa noturna e general norte-americano ou brasileiro.

E segurança de casa noturna, além de óculos escuros, usa também indefectível traje inteiramente preto.

***

Experimente arrancar desses marmanjões possantes os seus óculos escuros. Como Sansão de quem rasparam a cabeleira, ele ficará tonto, sem saber o que fazer, parece que lhe tiraram a força, a energia do utilitário físico que ele representa, enfim, arrancam-lhe a personalidade.

Uma vez perguntei a uma freira por que usava óculos escuros. Ela me disse que para atenuar a visão ofuscante das injustiças do mundo e para lhe parecerem mais sombrios os brilhos que emanam dos rostos dos maus quando eles triunfam diante dos bons.

Outra vez perguntei a um general por que ele usava óculos escuros e ele me respondeu: “Porque não posso suportar o fulgor do meu tenente-coronel diante dos recrutas”.

***

Os atores da Globo também usam óculos escuros. Os banqueiros de jogo do bicho também usam óculos escuros. Os atores da Globo, deve ser porque lhes ofusca o próprio brilho. Os banqueiros de jogo do bicho, cogito que usam óculos escuros com medo de se encontrarem na rua com apostador a quem calotearam num prêmio ou com um policial honesto, que não pertence à sua lista de suborno.

***

Mas há profissões e situações que não comportam em nenhuma hipótese óculos escuros.

Caso de um casamento a que assisti esses dias, em que o padre oficiava o sacramento de óculos escuros. Parecia ter vergonha da encrenca em que estava metendo o pobre do noivo.

E juro para vocês que no cemitério São Miguel e Almas, em agosto, estava sendo velado em uma capela um defunto de óculos escuros, eu nunca tinha visto algo igual.

Talvez um parente piedoso do defunto tenha lhe colocado os óculos escuros para livrá-lo do rigor das labaredas do inferno com que ele dali a pouco se defrontaria.

***

Ocorre-me que só há dois tipos humanos que nunca vi com óculos escuros: os bebês e os hipnotizadores.

E, a uma pessoa que disse a um homem que este parecia um canalha de óculos escuros, o homem respondeu: “Só pareço um canalha? Se você visse meus olhos nuamente, então teria certeza de que eu sou um canalha”.

* Texto publicado hoje na página 51 de Zero Hora.

Postado por Paulo Sant`Ana

Pablo, personagem da cidade

30 de outubro de 2009 32

Sou um rei na minha cidade. Se me queixo, é de barriga cheia. Por onde vou, saltam as pessoas para de alguma forma me homenagear.

Se vou no Gambrinus, tratam de cozinhar um prato especial, fora do cardápio, para me agradar. Ninguém, absolutamente ninguém, além de mim, saboreia a Tainha Frita que o Gambrinus só pra mim prepara.

No Panchos, onde todos se empanturram de parrillas, para mim é servida uma galinha com arroz molhada, úmida, molho parece que só de tomate de tão rubro.

Se vou nos diversos pontos onde servem churrasco de gato, para mim é servido espetinho de filé mignon ornado e entremeado de bacon.

Se vou no Insano, bar da Lima e Silva, a orquestra, composta de instrumentos de corda e de metalurgia, prepara introduções dos sambas mais antológicos para eu cantar nas quintas-feiras.

Se vou na casa do João de Almeida Neto e da Jane, onde me preparam assados divinos ao som de violões uma vez por semana, cerveja uruguaia, Patricia, Pilsen, Norteña, todas as marcas que dão de 10 nas nacionais me são oferecidas. E bebo até a madrugada.

Se passo na Praça Montevidéu, largo da prefeitura, as pombas saltam, palavra de honra, nas minhas omoplatas, algumas fazem cocô no meu cabelo, tão grande é a intimidade das aves com Pablo. Que o digam os pardais da Avenida Mauá, junto ao Muro ou na calçada fronteira. Os pardais da Mauá, pasmem, dançam ciranda no ar para encantar Pablo.

Se simplesmente me planto na Redação, chegam os pacotes contendo ovos-moles do Zélio Hocsman e da Zoia, quando não são arrozes de leite da Loraine Chaves, doces de Pelotas feitos falsariamente e maliciosamente em Rio Grande, não deixando mesmo assim de serem deliciosos.

E se por acaso vou visitar algum colégio, naquele dia podem crer que não há mais aulas, tal o alvoroço que Pablo causa no estabelecimento.

E se vou a algum asilo, os velhinhos e velhinhas se levantam de seus leitos de velhice cansada e ficam saltitando na minha frente como se fossem pimpolhos.

E se vou a algum cinema de shopping, basta passarem alguns minutos na escuridão e dali a pouco os espectadores começam a me abordar, oferecendo-me pipocas e balas de goma. É tanta a alaúza, que outros espectadores começam a vaiar a bagunça que se cria em torno de Pablo na sala de projeção.

E, nos mictórios públicos, insistem, dentro desses recintos sanitários, para que eu dê autógrafos e tire fotografias com todos, antes de fazer pipi, frisam, o que me causa transtornos e não raro molha as minhas calças!

Não sei onde me meter na minha cidade que não seja saudado como um mito, uma lenda viva, um fogo-fátuo, um El Cid do povo de todas as gerações.

Eu sou um rei na minha cidade, em Porto Alegre estou em casa, é a minha família, as pessoas se declaram iguais a mim, embora umas sejam gremistas outras coloradas. Mas quando eu chego ficam todas iguais.

Iguais em desejo de se aproximar de mim, de me tocar, de me ouvir, de se fazerem ouvir, e prometem que me vão mandar livros, fotos, álbuns, jornais, revistas, fazem de tudo para me agradar.

E onde Pablo passou, resta sempre um rastro de rumor de cantochões.

Pablo é rei em sua cidade.

Pablo é imperador nas margens do Guaíba.

Pablo é escravo e senhor dos porto-alegrenses.

A capital dos gaúchos nunca se orgulhou tanto de alguém, nem de Bento Gonçalves, nem de Getúlio Vargas, como se orgulha de Pablo.

E Pablo quase não acredita no que será que fez para cativar tanto os gaúchos.

Postado por Sant`Ana

Manias

29 de outubro de 2009 25

Tenho horror a chamados, principalmente da campainha da minha casa ou do meu telefone celular.

Quando um dos dois toca, estremeço: ali vem notícia ruim.

***

Nunca a campainha da minha casa tocou para surgir uma pessoa que vá me ajudar.

Quase sempre a campainha da minha casa toca para me pedirem ajuda.

E o meu telefone celular quase sempre toca para me trazer uma má notícia.

***

Já tentei jogar fora o celular e tentei desligar a campainha da minha casa. Mas não consegui.

Parece que estou viciado em más notícias, acostumado a complicações.

***

Assim é uma mania que tenho nas sinaleiras. Há dias em que estou para não dar esmolas. Saio de casa com a firme determinação de não dar óbolos para ninguém.

E, por mais que me peçam ou implorem nas sinaleiras os mendigos ou inconvenientes, não dou esmola para nenhum deles.

Mas há dias em que dou esmola em todas as sinaleiras. São 17 sinaleiras da minha casa até Zero Hora. Então, separo 17 moedas e as guardo para dar aos pedintes.

Há dias em que estou tão à flor da pele, que, quando o mendigo me ataca na sinaleira, sinto ímpetos de sair do carro e deixar o veículo para o mendigo dirigir e fazer dele o que bem quiser, até mesmo vendê-lo. 

E há dias em que brutalmente fecho o vidro do meu carro quando me aproximo da sinaleira. Não quero saber de mendigos.

Definitivamente, eu sou um ciclotímico.

***

E há dias em que estou para conversas. Chego a atacar pessoas para conversar com elas. Deito e me reviro nos assuntos.

Mas há dias, em contrapartida, em que não quero falar com ninguém, só quero ir pra casa fumar e dormir.

***

E, estranhamente, há dias em que estou para pagar contas. Pago tudo que está para ser pago, pago até contas atrasadas, acrescidas dos malditos juros.

Mas há dias em que me recuso de tal maneira a pagar contas, que não pago nem as contas que vencem naquele dia e vão me causar problemas de quitação depois.

Não pago, não pago e… pronto: vão cobrar do diabo!

***

São manias que tenho e não sei por que as tenho.

São manias, são princípios, enlouquecidos princípios.

Por exemplo, outra mania que tenho: nunca janto fora aos domingos e às segundas-feiras. Não adianta, se os jantares são em festas que caem na segunda ou no domingo, deixo de ir à festa.

Nos outros cinco dias da semana, saio para jantar fora em todos eles, estou gordo acho que por essa mania.

***

Mania é conduta que não se explica. Esta que tenho de só pegar e acender o isqueiro, sempre, com os dedos da mão esquerda, eu que sou destro, não tem explicação.

Outra mania que tenho, quando falando comigo uma pessoa joga perdigotos em meu rosto, delicadamente pergunto a ela se tem lenço. Ela pergunta por quê. E eu respondo que é para limpar os perdigotos que ela lançou no meu rosto.

Sei lá por que nós temos manias…

* Texto publicado hoje na página 71 de Zero Hora.

Postado por Paulo Sant`Ana

O olho de Franciele

28 de outubro de 2009 58

Ontem, estive a ponto de pedir uma audiência com a governadora.

Foi a respeito da menina Franciele Cunha Brandão, residente à Rua Fernando Abbott, 715, POA.

É aquela menina para quem pedi socorro às autoridades por ela estar perdendo o último dos dois olhos, do primeiro já está cega. E o glaucoma está por cegar-lhe o segundo.

Eu ia pedir audiência à governadora porque Yeda Crusius me garantiu que essa menina seria amparada.

Além da governadora, o secretário estadual da Saúde, Osmar Terra, me garantiu pessoalmente que essa menina ia ser amparada.

E, até agora, nada de amparo. Ou melhor, nada de amparo objetivo. Até agora, só firulas.

Na Santa Casa, as firulas consistiram em examinar a menina e concluir que seu caso não tem solução em Porto Alegre.

Que descoberta! Que ovo de Colombo! Quem é que não sabia que não havia solução para a menina em Porto Alegre? Se houvesse solução, creio que apesar da brumosa competência do SUS, que não se sabe se pertence à prefeitura, ao Estado ou ao plano federal, se houvesse solução em Porto Alegre, repito, creio que, apesar de todos os desacertos, já teriam solucionado.

Sabiam os oftalmologistas da Santa Casa que em Porto Alegre não há solução para o caso dessa menina. Porque isto eu escrevi na minha coluna no dia em que bradei por socorro para ela.

Escrevi mais: que a única esperança de cura para essa menina é o renomado oftalmologista de Goiânia Marcos Ávila, titular da maior clínica oftalmológica brasileira.

E é para lá que essa menina tem de ser encaminhada.

E eu ia pedir audiência com a governadora porque um atrapalhado intermediário dos quadros da Secretaria Estadual de Saúde disse esses dias à menina, que prossegue clamando por socorro, que o Estado vai pagar as passagens de avião dela até Goiânia mas não poderá pagar alimentação e hotel para ela lá em Goiás, isto terá de ser custeado pela própria menina. E mais disse o medíocre burocrata: que ela, a menina, é que terá de marcar consulta com o oftalmologista famoso de Goiânia.

Eu queria responder a esse irresponsável subcacique da Secretaria de Saúde estadual que essa menina não tem dinheiro para pagar o ônibus do Iguatemi, onde ela mora, até o Centro. Como é, imbecilidade suprema, que ela vai poder pagar hotel e alimentação em Goiânia, quando for consultar ou se operar com o oftalmologista de lá?

Ou seja, estão enrolando essa menina. Estão embromando essa menina. E por isso eu queria falar com a governadora.

Mas não foi preciso, o Paulo Burd, assessor de imprensa da Secretaria da Saúde estadual, me colocou em tempo recorde a telefonar com o secretário Osmar Terra, que estava em Brasília, mas me atendeu prontamente.

Em suma, o que me disse e me prometeu Osmar Terra, ontem à tarde, pelo telefone: “Eu quero te assegurar, Sant’Ana, que essa menina será mandada a Goiânia, com consulta marcada por nós, com passagens aéreas pagas por nós, com estadia e alimentação custeadas pelo Estado ou pelo SUS. E quero também te assegurar de mais: se em Goiânia, com o médico Marcos Ávila, a menina Franciele não resolver este problema, e se em algum lugar do mundo houver solução para seu problema, nós a enviaremos para lá, por conta do SUS, que cansa de mandar pacientes para o Exterior”.

Quero dizer que sou obrigado a acreditar nas pessoas. E vou mais uma vez dar um crédito ao excelente secretário Osmar Terra. Tenho certeza de que ele fará a menina Franciele ser acompanhada de um familiar e de um funcionário da Secretaria da Saúde a Goiânia, com tudo custeado pelo poder público.

Não foi preciso eu marcar audiência com a governadora, que fica assim reservada como minha última instância.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Amnésia ou cegueira?

27 de outubro de 2009 357

Reprodução
O Fantástico de domingo passado abriu seu noticiário sobre o Gre-Nal com o locutor dizendo: “Se o árbitro tivesse marcado este pênalti do Bolívar sobre o Réver, o resultado do Gre-Nal seria outro”.

E mostrou o pênalti escandaloso do jogador colorado segurando a camiseta do gremista dentro da área do Internacional, derrubando-o.

Depois de o Fantástico valorizar o pênalti não marcado como o lance mais importante do Gre-Nal, fui ler os colunistas de Zero Hora no dia seguinte.

O analista de arbitragem da RBS, Chico Garcia, disse no Bate-Bola da TVCOM e escreveu em Zero Hora que “agarrar o adversário pela camiseta nem sempre é pênalti”.

O analista de arbitragem da RBS esqueceu que a regra diz que segurar jogador adversário pelo uniforme fora da área é falta, dentro da área é pênalti.

Não desisti e fui ler o Wianey Carlet. Nenhuma palavra sobre o pênalti.

Nenhuma.

Fui adiante e li o Mário Marcos de Souza. Nenhuma palavra sobre o pênalti.

Nenhuma.

Aí fui ler o Ruy Carlos Ostermann, página inteira: nenhuma palavra sobre o pênalti.

Nenhuma.

Então passei a ler o Luiz Zini Pires: nenhuma palavra sobre o pênalti.

Fui correndo ler o Falcão, olhando a coluna de cima para baixo e nada sobre o pênalti, mas no último tópico da coluna do Falcão havia um subtítulo: “Pênalti”.

Enchi-me de esperança de que o Falcão fosse falar sobre o pênalti de Bolívar em Réver. Qual nada! O Falcão escreveu no último tópico de sua coluna sobre o pênalti acontecido no Maracanã, pasmem, no jogo… Botafogo x Flamengo!

Não era de crer!

Sobravam-me dois ases da crônica esportiva de antanho, que foram convidados para escrever ontem sobre o Gre-Nal em ZH: Lasier Martins e Lauro Quadros. Em ambos os espaços, nenhuma palavra sobre o pênalti. Nenhuma palavra. Nenhuma!

E o jogo não foi 8 a 0, foi 1 a 0. É demais!

Ou o Fantástico enlouqueceu, ou eu enlouqueci: os coleguinhas não viram o pênalti e, pior, não se referiram ao pênalti.

Que houve? Amnésia? Cegueira? Labirintite? Não pode ser labirintite, sinceramente, porque estou ainda com labirintite, apesar da cirurgia – e lá estava, mesmo assim, em minha coluna um veemente protesto sobre o pênalti.

Não sei o que houve, mas sempre tive explicações sobre esse fenômeno, eu e o Fantástico estávamos com a razão, o pênalti foi vergonhoso, capital, escandaloso!

E como é que não viram?

Devem ter visto e em conjunto se esqueceram de registrar.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Ruindade e azar juntos

26 de outubro de 2009 251

O frangaço de Victor tem uma explicação: a Seleção Brasileira/Jefferson Botega
Só teve uma coisa pior que o Gre-Nal: o Grêmio.

Ou seja, pior que o Internacional, só mesmo o Grêmio.

Eu decidi desde ontem não chamar mais os jogadores do Grêmio de ruins, vou chamá-los de baratos.

São jogadores que custam muito pouco e, como a imaginação dos dirigentes gremistas também é pouca, o Grêmio virou um baratilho.

Eu não sei até quando vão acreditar que esse Douglas Costa é bom jogador. Nunca foi. Mas a imprensa inexplicavelmente o incensa, daí que o Grêmio perdeu 45 minutos ontem com ele, por culpa exclusiva de Paulo Autuori, que é outro que tem maior cartaz que desempenho.

Eu não gosto de treinador de fora
porque, no caso do Grêmio, treinador de fora não conhece a grandeza do passado do clube.

Só não conhecendo nada de Grêmio, poderia o Autuori armar aquele Grêmio estéril e emasculado do primeiro tempo. Nenhuma bola chutada ao gol de Lauro. Nenhuma vez, durante 45 minutos, o Grêmio entrou sequer, pasmem, na área do Internacional.

No intervalo do jogo, se houvesse justiça, Autuori tinha de ser demitido.

E que elenco conseguiram formar os dirigentes do Grêmio!!!

Que manada de jogadores baratos e ineficientes. O Meira foi um artista ao armar um plantel tão mambembe como esse. Que time barato!

O senhor Duda Kroeff, alguém vai ter de dar um jeito nele. Alguém tem de colar quem entenda de futebol ao lado do Duda Kroeff para que ele faça um time menos ridículo do que o de ontem, em 2010.

Espere aí, seu Duda, respeite as caras. O clube que o senhor casualmente dirige e a torcida que o senhor engana vão cansar dessa pantomima que culminou ontem no Beira-Rio: o Grêmio não conseguir sequer empatar com a ruindade do Internacional.

Sobre o frangaço do Victor, tenho a dizer uma coisa. E sei como prová-la.

Todos os gaúchos são testemunhas de que durante 20 anos escrevi nesta coluna e bradei no rádio e na televisão que Seleção Brasileira estraga jogador do Grêmio.

Não foi só o alarmante frango de Victor, lembrem que cinco minutos depois o mesmo Victor errou em bola, pasmem, errou em bola dentro da área e causou um incrível escanteio.

Ou seja, Victor voltou da Seleção, na qual foi um miserável reserva, não passou disso, voltou de lá frangueiro e errador de bola.

A Seleção Brasileira que vá para o raio que a parta.
Ela e o Dunga, que adora desfalcar o Grêmio.

E, depois, não bastasse o Victor ter errado em bola no primeiro tempo, Herrera, com o gol de Lauro à feição, errou em bola no segundo tempo, junto da área pequena.

Jogador barato! Porcaria de jogador!

Então, esta é a nossa sina, torcedor gremista. Não subimos para o G4, nem de longe almejamos o título, não somos sequer campeões gaúchos, não conseguimos ganhar nem do péssimo time do Internacional.

Esta é a nossa sina! Mas isso vai ter de acabar.

Eu ia dizer que o Duda Kroeff, antes de tudo, é um azarado. Ele e o Autuori.

Azarados porque não puderam jogar no Gre-Nal Máxi Lopez, Tcheco e Jonas. Azarados porque o Victor levou um frangaço indesculpável.

Azarados porque a 36 minutos do segundo tempo Bolívar fez um pênalti escandaloso em Réver e esse juizinho pusilânime que sortearam para o Gre-Nal não marcou.

São uns azarados!

Mas vou me incluir, junto com a torcida do Grêmio, entre os azarados.

Nós é que temos azar por terem quebrado lá atrás o Grêmio com falcatruas e não ter surgido nenhum grande líder como dirigente depois da falência.

Bota azar nisso.

Nós somos uns azarados!

Só falta, agora, para completar a tragédia azarada do Grêmio, nós vencermos o Palmeiras e o São Paulo no Olímpico e darmos de bandeja o título nacional para o Internacional.

* Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Cialis e Viagra

23 de outubro de 2009 6

Estes dois remédios necessitam que haja desejo do homem pela mulher para que sejam eficazes, como eu já explicara na mais famosa revista norte-americana, a Newsweek, quando ela me entrevistou com exclusividade em Saint-Germain-des-Près, na Copa do Mundo de 1998, França.

A célebre revista norte-americana foi me entrevistar porque na minha coluna de ZH eu fui o primeiro jornalista do mundo que usou o Viagra e narrou a seus leitores quais os efeitos que o medicamento provocava.

***

Na ocasião, expliquei à Newsweek o que hoje ditam, com 10 anos de atraso, os manuais sexologistas: o Viagra sozinho não provoca a ereção, ele tem de ser acompanhado por alguma dose de desejo do homem pela mulher.

E mais expliquei à Newsweek que até agora não explicaram, inexplicavelmente, os manuais sexologistas: o Viagra não é feito para provocar a ereção, ele é feito para mantê-la. Lembro-me até que disse à revista que, se formos usar o halteres como imagem fálico-halterofilística, o Viagra não levanta o halteres, ele é usado para manter o halteres levantado.

Ainda guardo na minha casa aquele número da revista Newsweek, na qual minha entrevista compôs uma página inteira.

***

Pois bem, vamos agora ao motivo por que abordo novamente o assunto.

É que surgiu nos últimos anos um sério concorrente ao Viagra: o Cialis. Dizem os urologistas e os usuários do Cialis que sua ação demora 36 horas, enquanto a do Viagra dura quatro horas.

Ou seja, se você tomar um Cialis pretendendo fazer sexo daqui a uma hora e sua parceira, inopinadamente, quiser dançar e jantar, demorando com isso mais oito horas, ainda assim o Cialis estará em plena vigência e o sexo será totalmente satisfatório, enquanto com o Viagra o mínimo exigido é que a dose do medicamento seja repetida oito horas depois, o que talvez não seja aconselhável.

***

Explicava esses dias este fenômeno o renomado urologista porto-alegrense Henrique Sarmento Barata a um seu cliente, casado, quando o cliente ficou sabendo que além de maior duração do efeito, o Cialis exigia do usuário mais desejo, isto é, mais apetite sexual do que o Viagra.

Traduzindo, com o Viagra o usuário pode ter menos apetite sexual por sua parceira, enquanto que com o Cialis há que ter mais desejo do usuário pela fêmea.

Quando soube o cliente disso, que o Viagra exigia menos desejo do usuário pela parceira do que com o Cialis, disse o cliente casado ao Dr. Barata: 

— Entendi, em casa, com minha mulher, usarei o Cialis, que é compatível com menos desejo. E na rua, com as outras mulheres, usarei o Viagra, que exige mais desejo.

* Texto publicado hoje na página 71 de Zero Hora.

Postado por Paulo Sant`Ana

O fanho e o aleijadinho

22 de outubro de 2009 14

Eu não quero dizer que quem não sabe contar anedotas seja burro.

Mas quero afirmar que a pessoa que sabe contar anedotas é sempre inteligente.

Contar piadas é uma arte. É uma arte de construção. O contador da piada vai estruturando a sua história, construindo o seu edifício, que vai culminar no êxtase humorístico, não pode omitir nenhum detalhe que interesse ao clímax da história, vai tecendo a narrativa em bases sólidas de dialética, até que vem o final… e o delírio dos que ouviram.

Que tragédia ocorre quando uma pessoa que não sabe contar anedotas mete-se a tal. Que tragédia!

Pode ser a maior piada de todos os tempos, mas na voz e nos gestos do contador desastrado a história assume clima de velório.

Só tem uma coisa pior que mau contador de piadas: é piada sem graça contada por mau contador de piadas.

Embora toda piada fique sem graça quando a cargo de um contador sem graça ou desencontrado no relato.

Vejam a célebre piada do aleijadinho e do fanho.

Estava em pleno andamento a sessão de curas numa igreja, o pastor chamando os aleijados, os cegos, os surdos, os mudos, os fanhos ao palco, onde procederia à cura de cada um deles.

Chamou o aleijadinho e o fanho ao palco. Lá se foram eles, o aleijadinho com defeito básico em ambas as pernas e o fanho fanhando.

Então, o pastor milagroso mandou o fanho e o aleijadinho irem para trás da cortina do palco, com o fim de o público não vê-los e causar maior sensação na plateia.

Foi quando o pastor deu início ao ato milagroso-curativo. E pediu ao aleijadinho que atirasse a primeira muleta por cima da cortina, no chão do palco.

O fanho lá atrás da cortina viu quando o aleijadinho atirou a primeira muleta.

E o pastor, então, o momento se aproximando do culminante, mandou o aleijadinho atirar a segunda muleta por cima da cortina, com o que então iria se concluir o milagre, com o aleijadinho caminhando.

O aleijadinho atirou a segunda muleta e o pastor gritou:

— Fanho, como está a coisa por aí?

E o fanho respondeu gritando com alarma:

— O aleijadinho caiu!!!

Esta piada espetacular foi contada ontem no Sala de Redação e redundou num rotundo fracasso, só atenuado pela risada artificial do Ruy Ostermann.

E o desastre da narrativa só se deu por um detalhe, um único detalhe: o contador da piada substituiu a palavra muleta por bengala. Ora, bengala não podia substituir muleta, porque bengala é uma só que se usa, muleta, no caso do aleijadinho, ficava melhor, pois dava ideia de aleijume grave. Nunca na história se viu qualquer pessoa usar duas bengalas, duas muletas é curial.

Ou seja, qualquer descuido na narrativa é fatal para o contador de piadas.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Um impeachment anômalo

21 de outubro de 2009 87

Não venham os imbecis da falsa obviedade me refutar dizendo que estou defendendo Yeda Crusius ou atacando Lula. Ou então me responder que estou contra Yeda e a favor de Lula.

Mas o fato é que me manifesto frontalmente contra o instituto do impeachment como ele está sendo empregado entre nós.

Na forma como é exercitado o impeachment no Brasil, se for cogitado ou interposto este impedimento contra um governante, se ele tiver maioria no parlamento, será declarado inocente, se, no entanto, tiver minoria, será cassado por ser culpado.

Ora, isso é um jogo de cartas marcadas.

Quando estourou o mensalão, se Lula não tivesse maioria no Congresso, teria sido cassado, tal o envolvimento nas graves irregularidades, hoje sub judice no Supremo, do então chefe da Casa Civil, José Dirceu, e de outros ministros membros do governo e do partido de Lula em postos do escalão inferior e no parlamento.

Agora, se Yeda Crusius não tivesse maioria na Assembleia, seria impichada.

Como é que é? Lula é inocente por ter maioria na Câmara Federal, Yeda Crusius da mesma forma declarada inocente de impeachment por ter maioria na Assembleia

Isto parece uma lorota. Não pode continuar assim.

Eu não tenho dúvida de que, do jeito que vai, depois que Fernando Collor foi impichado, logicamente porque tinha minoria esmagada na Câmara Federal, quem deve julgar o impeachment dos presidentes, governadores e prefeitos terá de ser o Supremo Tribunal Federal. As nossas casas políticas não têm isenção para tratar do impeachment, elas são comprometidas com os governos ou com as oposições e votam o impeachment somente de acordo com seus interesses políticos e/ou partidários.

Mas não venham, repito, me acusar de estar atacando ou favorecendo algum(a) governante quando escrevo o que hoje estou abordando.

Não admito isso, os imbecis da falsa obviedade não me atingem.

É errado assim como está posto o impeachment. Trata-se de uma encenação, de uma pantomima, de um teatro mambembe: com maioria na Casa Legislativa, é absolvido o governante de qualquer impeachment; com minoria, é condenado.

Temos de pôr fim a essa legítima anedota.

Postado por Sant´Ana

Contente-se com o que tem

20 de outubro de 2009 15

O negócio é o seguinte: é difícil, mas é também incrivelmente fácil, ser feliz.
Mais difícil vai ser eu explicar isso que escrevi acima.
Por exemplo, não pode ser feliz uma pessoa que tem 50 anos e viva dizendo que gostaria de voltar à idade de 30 anos. Não pode ser feliz uma pessoa assim. No entanto, se esta ou qualquer pessoa contentarem-se com a idade que têm, serão felizes. Até mesmo porque de que adianta não estar contente com a idade que se tem? Nenhuma força científica pode mudar a idade que a pessoa tem.

Pois bem, acabei prescrevendo aos meus leitores uma receita para ser feliz: estar satisfeito com a idade que tiver.

Quem é jovem não tem nada que estar desejando ser mais velho. Quem é velho comete uma imbecilidade julgando que não é feliz por não ser jovem.
A idade que a gente tem é a idade que a gente tem e… pronto. O negócio é fazer força para ser feliz com ela.
A gente tem de ter orgulho da idade que tem: o jovem por não ser velho e o velho por ter já sido jovem.

Uma vez dei de costados com uma sinagoga. Estava lotada de judeus e de curiosos. Ali na Barros Cassal.
Falava no palco um rabino.
E disse o rabino que o sonho do homem se resume em três coisas: ser rico, ser forte e ser sábio.
E continuou o rabino: o homem quer ser forte, mas pensa que ser forte é dominar os outros. Engana-se, ser forte é dominar-se a si próprio.

Prosseguiu o rabino: o homem quer ser sábio, mas imagina que ser sábio é abeberar-se da cultura dos livros, dos ensinamentos que os sábios nos legaram pela escrita. Quando, na verdade, ser sábio é outra coisa: ser sábio é aprender com cada pessoa que se encontra na vida.

E terminou o rabino: o homem quer ser rico, mas não sabe o homem que ser rico não é amealhar toda a riqueza, ganhar e juntar todo o dinheiro que se possa. Ser rico, acrescentou por fim o rabino, é contentar-se com o que se tem.
Esta é a sabedoria, este é o jeito de ser feliz: mostrar-se satisfeito com o que se possui. E não querer se tornar feliz desejando aquilo que não se conseguiu ou não se pode conseguir.
Venham por mim.

Sobre aquela coluna que escrevi a respeito de que sempre – ou quase sempre – recebemos o mal em pagamento do bem, que basta fazermos algo de bem para alguém para receber em troca o mal, colhi nas ruas uma frase esplendorosa: “Por que me odeias e agrides, se nunca te fiz nenhum favor?”.

Perguntam-me o endereço do bistrô de comidas e salgadinhos maravilhosos e ideal para namorar, a que me referi nesta coluna: Avenida Bastian, 121, Bistrô As Santas.

Postado por Paulo Sant`Ana

Dou explicações

19 de outubro de 2009 34

Estou recebendo e-mails que estranham esta coluna ter publicado no sábado duas manifestações rudes e enérgicas de pessoas contra mim.

Estranhar por quê? Tantas e tantas vezes já publiquei elogios a mim dirigidos, como poderia agora sonegar as críticas assacadas contra este colunista?

Deixei-as rolar portanto na coluna de sábado, permiti assim aos leitores duas situações: 1) a de que soubessem que há, por mínima que seja, oposição a alguma coisa que eu escreva; 2) que os leitores lessem as duas críticas que recebi e avaliassem a procedência delas.

***

Eu faço um jornalismo diferente de todos os outros jornalistas. Esperem, não me julguem apressadamente por esta frase anterior, ela não contém nenhuma vaidade ou arrogância.

É que eu faço nesta coluna um jornalismo intimista, falo muito em mim, falo no que está me acontecendo e, principalmente, quando escrevo minhas colunas ponho nelas aquilo exatamente o que estou sentindo naquele instante em que estou no computador.

E sendo assim, como não reviso, não copidesco meus pensamentos, senão a escrita, corro o risco de ser contrariado em minhas opiniões e impressões.

Natural que eu tenha leitor que se oponha ao que eu escrevo. Vaidosamente digo que são mínimas as oposições, mas sempre existe alguma.

***

Então eu botei duas oposições a mim, transcritas dos originais que recebi, sem a mudança ou supressão sequer de qualquer vírgula, na minha coluna de sábado passado.

Nada de anormal nem de surpreendente, confesso que senti as pauladas que levei, mas até mesmo para aliviar-me da dor, pasmem, resolvi publicar os dois ataques contra mim.

Eu falo em alívio porque guardar dois e-mails ofensivos como aqueles na gaveta ou jogá-los no lixo significa alguma forma de pusilanimidade. Assim não, fiquei em paz com minha consciência, publiquei as duas agressões contra mim … e fosse o que Deus quisesse!

Além de tudo devem ter ficado recompensados os dois missivistas: tiveram suas mensagens lidas pelo Rio Grande inteiro. Devem ter babado de prazer sádico, tendo feito o colunista dobrar a sua cerviz, humilhar-se e publicar os tapas no rosto que recebeu.

***

Também tem outro aspecto: nós jornalistas ficamos imperialmente dando nossas opiniões a respeito dos fatos, parece que nos adonamos da realidade e do cotidiano e no dia seguinte saboreamos nossas opiniões impressas nos jornais.

Então sempre é bom o exercício democrático da resposta e da reação ao que escrevemos.

Foi assim que decidi publicar os dois e-mails de sábado, nunca é demasiada ou incômoda uma dose de humildade.

***

No caso da reação da senhora Kytti Kroeff às críticas que fiz ao seu irmão, o presidente do Grêmio, Duda Kroeff, quero também dizer que não retiro as censuras que escrevi ao dirigente máximo gremista.

Mas quero apenas acrescentar que fiz essas críticas ao presidente gremista e aos dirigentes que o assessoram no futebol — e ao treinador gremista Paulo Autuori — movido por violenta emoção: o Grêmio tinha perdido naquele dia para o Corínthians, era mais uma derrota fora de casa, quando o Grêmio já jogou 29 partidas no Brasileirão e só ganhou um jogo fora, contra o Náutico, entre os 15 jogos em que atuou fora do Olímpico, um absurdo!

Digo mais, esta marca dos jogos fora é inadmissível até mesmo para um clube em dificuldades financeiras, caso do Grêmio. Tinha que ter ganho no mínimo cinco jogos fora, é inaceitável que não o tenha feito.

Por isso e pela minha violenta emoção é que critiquei o presidente do Grêmio.

* Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Aurora e Crepúsculo

17 de outubro de 2009 18

Esses dias, um amigo meu se recusou a ir tomar um cafezinho no bar e fumar um cigarro no fumódromo em minha companhia, alegando que tinha muito que fazer e não podia me dar esse prazer. Eu, então, abandonado, gritei a plenos pulmões aqui na sala: “Como é chato ser dependente de um amigo!”.

Examinando bem a frase que gritei, chegaremos à conclusão de que ela encerra uma grande verdade: a gente se torna refém de todas as pessoas que ama ou que estima.

E tem o outro lado da coisa: quando se estima ou ama outra pessoa, exige-se tudo dela, comer churrasco conosco, fumar no fumódromo conosco, ir até o bar ou bistrô ou cinema conosco, enfim queremos tomar conta do ser amado ou estimado. Eu fiquei fulo da cara quando meu amigo me disse que não podia ir até o fumódromo comigo.
Quando a gente ama ou estima alguém, acha que esse alguém tem de estar sempre à nossa disposição. E não é assim, para a pessoa a quem amamos, somos apenas uma parte de sua vida. Parte importante, mas não única.

Uma vez, soube que no horóscopo chinês os signos são representados por animais. Gêmeos, por exemplo, no horóscopo chinês, é cachorro, Sagitário é cavalo. Um dia, eu encontrei uma mulher casada com um amigo meu que era cavalo no horóscopo chinês.
Essa senhora era muito ciumenta de seu marido, o tal meu amigo. E eu a aconselhava a não ser ciumenta, a não querer prender seu marido dentro de casa, não obrigá-lo a sempre estar ao lado dela.
Olhem o que eu disse a ela:
– É bobagem você querer dominá-lo e tê-lo sempre junto de si. Você tem de fazer exatamente o contrário. Porque ele é cavalo no horóscopo chinês e sabe o que diz o horóscopo chinês para os que são do signo de cavalo? Diz o seguinte: “Se queres prendê-lo, solta-lhe as rédeas”.
Os chineses são sábios, eles sabem que quanto mais você oprimir seu parceiro na relação, mais ele se cansará de você. Solte-o a galopar nas campinas repletas de fêmeas equinas.

Cá para nós, se você tem um marido – ou uma mulher –, se você tem um(a) namorado(a) e sabe que ele vem mantendo alguns namoriscos de pequenas consequências, cá para nós, que ninguém nos ouça, faça que não vê, não dê pelota, deixa ele seguir com seu retoço externo, que em seguida ele cansa e volta para seu remanso.

Não se pode querer tomar conta total de quem se ama ou estima. Pode e deve acarinhá-lo, mas não o sufoque.

Cá para nós, se amamos profundamente alguém, até é bom que esse nosso amor circule pelo mundo e mantenha estreitas relações de amizade com outras pessoas. Quando voltar de suas relações de amizade, será muito mais afetivo e estuante de amor conosco.
E, lembre-se bem, se você ama ou estima alguém, tenha sempre tolerância com ele. A tolerância é fundamental em qualquer relação amorosa ou de amizade. Está totalmente incapacitado para amar ou ser amigo quem não dedica tolerância à pessoa amada ou estimada. A tolerância é a aurora de qualquer relação, a intolerância é o crepúsculo.

* Texto publicado na página 47 de Zero Hora da dominical.

Postado por Paulo Sant`Ana

Pauladas em mim!

17 de outubro de 2009 124

Quem ler esta coluna de hoje vai dizer que enlouqueci: estou divulgando dois e-mails de pessoas que falam mal de mim e me dão pauladas que me doloriram o lombo.

Leiam e vejam a violência das críticas que recebi nas duas correspondências.

A primeira é da irmã do presidente do Grêmio, Duda Kroeff. A Kitty Kroeff, que conheci meninazinha nos braços de Fernando Kroeff, o patrono do clube, que era meu amigo. Vamos deixar que ela defenda sanguineamente seu irmão:

“Sant’Ana. É muito fácil ter um jornal para falar mal de um homem íntegro, honesto e que pegou um time passando por uma má fase, chamando-o de principiante, inexperiente e aventuresco. Não te esquece que ele (Duda) entrou no Grêmio com oito anos de idade pela mão de nosso pai, Fernando Kroeff, até hoje patrono do clube, 12 anos após sua morte. E que podes provocar revolta em torcedores fanáticos que não sabem o quanto ele faz pelo seu clube. Será que poderias fazer mais do que meu irmão Duda? Com muito orgulho de irmã, (as.) Kitty Kroeff”.

A outra sarrafada que levei vem agora: “Caro Paulo Sant’Ana! Confesso que abro o jornal diariamente principalmente devido aos editoriais. Afinal, estou em vésperas de vestibular. Mas mal termino de ler os benditos textos e já estou nas palavras cruzadas e na tua coluna.

Esta quinta, dia 15, ao ler sobre o fumódromo reinaugurado, de repente me revoltei. Já havia lido outras vezes alguns comentários teus sobre o cigarro, mas nunca tomara a iniciativa de te escrever. Pois bem, senhor Sant’Ana, eu o abomino. Eu o abomino por esse seu vício e pelos seus comentários a favor dele. Isto é um absurdo!

Se eu tivesse algum poder dentro do Grupo RBS, não hesitaria em criar uma campanha intitulada ‘Todos contra o cigarro’, a exemplo da campanha contra o crack. E, obviamente, colocaria teu nome em pauta, afinal, tu és o fumante inveterado mais famoso que conheço, e és prova viva de que até mesmo as pessoas mais inteligentes podem ser, em alguns aspectos, extremamente tolas.

Detesto, odeio e recrimino todos os tipos de substâncias químicas que tiram as pessoas do seu estado natural. Ainda bem que estão sendo criadas leis para reprimir o tabagismo, mas não é suficiente. Tenho horror a fumódromos: parecem uma salinha masoquista, uma ‘sauna’ onde as pessoas vão para compartilhar fedor e poluição. Nas ruas, continuo levando baforadas fedorentas de fumaça direto no rosto, mas as boas maneiras me impedem de expressar minha indignação. Na verdade, pouco me importo com o estado de saúde das pessoas usuárias. Não estou nem aí para os teus pulmões, Sant’Ana. A tua tolice é que dita as escolhas referentes a ti, mas tu não podes e não tens o direito de poluir o ar que outras pessoas irão respirar. O fumante passivo é o que mais sofre com a fumaça emitida pelos cigarros. Onde está o respeito? Onde está a ética? Onde está a justiça? Onde está a sua inteligência, senhor Paulo?

Escrevo para te fazer um pedido simples, mas difícil. Parar de fumar. Ah, conheço teu sermão… és velho, um pobre coitado que já não espera muito da vida, solitário e que tem no tabaco um dos seus grandes amores. Um tanto poético. Mas uma grande falácia. Por acaso não tens espelho? Tu és o colunista mais famoso do Rio Grande, todos os gremistas se emocionam contigo, inclusive eu, e o Estado inteiro curte a tua excentricidade. Não há desculpa que explique o porquê de ainda estares apegado a esse vício.

Não irei apiedar-me de ti. Te peço, portanto, uma atitude final. Provas diante de todos os teus leitores e da sociedade gaúcha que és capaz de renascer das cinzas (literalmente) e que tens um espírito do tipo Ronaldo Nazário. Tira essa DROGA da tua vida. Exorciza-te se for preciso. E não escrevas nunca mais sobre o teu carinho por um fumódromo, por favor!

Com pesar e esperança, (as.) Bárbara Limberger Neddel, 16 anos, estudante. Frederico Westphalen – RS”.

* Texto publicado na página 55 de Zero Hora de hoje.

Postado por Sant`Ana

Três palavrinhas

16 de outubro de 2009 18

Doem-me como se eu fosse atingido pelo corte profundo e frio de um punhal os silêncios que algumas pessoas fazem a meu respeito.

Foi dessa dor que me surgiu a seguinte verdade: nem as palavras mais ofensivas que possam me dirigir me afligem mais que os silêncios propositais a meu respeito, que tinham de ser preenchidos gentilmente de referências sobre mim nas eventualidades.

Os que silenciam intencionalmente a meu respeito, portanto, saibam que atingiram na mosca o desprezo que pretendem com isso me dedicar.

Que gente má.

***

Ontem foi dia de o Ambulatório de Otite Média do Hospital de Clínicas de Porto Alegre comemorar o milésimo paciente que passou por lá nos últimos oito anos.

Os amigos do ambulatório estavam todos exultantes com o êxito desse serviço modelar do HCPA, criado pelo médico otorrino Sadi Selaimen da Costa.

Deve-se ressaltar que desses mil pacientes atendidos, todos já pra lá foram encaminhados com prescrição de cirurgia.

O Dr. Sadi não cabia em si de contente ontem no churrasco comemorativo havido na Sociedade Libanesa.

***

Tem uma canção em língua espanhola muito conhecida, chamada Alma, Corazón y Vida, cujo trecho eu adoro:

Toma esta canción callada
alma, corazón y vida
esas tres cositas nada más te doy.
Como no tengo fortuna
esas tres cosas te ofrezco,
alma, corazón y vida
Y nada más.
Alma para conquistarte
Corazón para tenerte
Y vida para vivirla junto a ti

***

Pois em face desta canção, aqui neste bistrô em que nos encontramos, na Avenida Bastian, este lugar talhado para bebermos e comermos petiscos de entusiástica delícia, a par de decoração tão propícia a que nos queiramos, quero dizer-te que só existo para um dia ouvir somente três palavrinhas tuas.

Tudo o que sonho agora e aqui onde me encontro mais uma vez extasiado com tua companhia é que um dia, daqui a dois ou 10 anos, tu venhas a pronunciar estas três palavrinhas tão ansiadas.

Que num dia abençoado, pode ser de outono ou inverno, nem sonho que seja de primavera, em que me açoite o frio, a propósito até que tua frase mais que me acalore, me incendeie, estas três palavrinhas sejam disparadas de teu cérebro, corram até tua laringe e despenquem de tua língua e dos teus lábios em direção dos meus ouvidos, que não acreditarão na sua euforia timpânica ao escutá-las retumbantes e carregadas de triunfo, esperadas três palavrinhas, extremosas três palavrinhas que me redimirão como ser humano, que me dotarão enfim de uma dignidade existencial incomparável, benditas e excelsas três palavrinhas de resgate para tantas aflições e dores de procura, aguardadas três palavrinhas mais que o Éden, confortadoras três palavrinhas mais que um perdão, amada, querida, adorada, vida minha, que bom ouvir finalmente soltas de suas rédeas, libertadas de suas algemas, desamarradas de seus grilhões, da flor de teus lábios definitivamente pronunciadas para o ardor de meu deleite, somente e tão somente, como se não fossem tudo, estas três para todo o sempre suficientes palavrinhas: “Eu te amo”.

* Texto publicado na página 63 de Zero Hora de hoje.

Postado por Sant`Ana