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O lixo nas praias

25 de novembro de 2009 15

É fácil suportar a dor dos outros, difícil é suportar a própria dor. Não existe ditado mais verdadeiro do que “cada um sabe onde lhe aperta o calo”.

Medito, assim, que o homem verdadeiramente santo ou verdadeiramente sábio é o que chora pela dor alheia, o que sente na própria carne o sofrimento dos outros: eis um homem superior.

Se só sofrendo se consegue ser uma pessoa, então estou formado para a vida depois destas tonturas.

***

O pior da tontura é que na nossa volta ninguém mais a está sentindo.

E essa inveja que se sente dos que não estão tontos é uma dor ainda mais aguda do que a própria tontura.

A tontura priva o tonto de todos os prazeres, o de achar graça, o de rir, o de comer, até mesmo o de conversar.

Olho para os meus circunstantes e não entendo como eles podem não estar alegres, eufóricos, delirantes de alegria por não estarem tontos.

Comparo-me a eles e calculo que a nenhum deles sucede o acicate da dor permanente, da dor contínua, sem quartel.

***

Não há manifestação mais genuína de felicidade do que se estar apto para cantar ou para ouvir música. Um ser que canta ou ouve música é um ser feliz ou propício a ser feliz.

Isso me ocorre porque nesses longos dias de tontura nunca me sucedeu ousar cantar qualquer verso de tango ou de samba.

Adivinho que se for cantar ou ouvir qualquer melodia não usufruirei da música na essência do que ela é: a alegria do espírito.

Pode-se avaliar a felicidade das pessoas ouvindo-as cantar ou dançando.

Quem canta ou dança seus males espanta. O canto e a dança são o habeas corpus para a felicidade.

***

Não me ocorre beber, não me ocorre ler, não me tenta ser espirituoso em quaisquer conversas, a grande arma que sempre tive para cativar pessoas e cultivar amigos.

E o pior é que ninguém viu a minha dor chorando. O meu sofrimento não se mostra, ele é só meu, terrivelmente só meu, não consigo justificá-lo, sua invisibilidade ainda mais me amassa por não atrair de ninguém a compaixão.

***

Não tem jantar, não tem almoço, não tem bate-papo, esta tontura é uma dor que não tem programa, a dor da solidão.

***

Tento driblar a tontura com o trabalho. Pois ela me será muito mais dolorosa se eu me entregar ao ócio. Pelo menos o trabalho me distrai e atenua a náusea.

***

E, enquanto cismo absorto em dor, leio que o prefeito do Rio de Janeiro critica violentamente os seus munícipes.

O usual é os munícipes criticando o prefeito. Lá, não. O prefeito chama os habitantes do Rio de Janeiro de “porcos” por sujarem a cidade: mais de sete toneladas de lixo são retiradas diariamente só das praias do Rio.

Ninguém se aplica em colocar o lixo nas lixeiras, o trabalho de recolhimento dos detritos é gigantesco, as verbas gastas com isso são monumentais, parece que os banhistas se comprazem em ir largando o lixo onde ficam e por onde passam.

Isto de jogar o lixo fora sem colocá-lo na lixeira é um vandalismo, por ele se pode aferir o caráter de um povo.

Não é só nas praias, onde o lixo fica mais visível, mas qualquer detrito que jogarmos fora em qualquer parte das ruas passa a ser algo que se volta contra nós. Essa despesa com o recolhimento do lixo recairá em nossos próprios bolsos.

Nisso e em outros mil detalhes, o Brasil demonstra estar muito longe ainda de um patamar razoável de civilização.

*Texto publicado na página 55 de Zero Hora de hoje

Postado por Sant`Ana

Comentários (15)

  • HELENO PINTO NOBRE diz: 25 de novembro de 2009

    NÃO CONSIGO ENTENDER ; COMO OS MÉDICOS QUE TE ATENDEM; OU ATENDERAM ANTES DE FAZERES A CIRURGIA AINDA NÃO DESCOBRIRAM A RAZÃO; DESTE MAL ESTAR; CHUTO QUE DEVE SER A SITUAÇÃO EM QUE O TEU GRÊMIO SE ENCONTRA. MUDANDO DE ASSUNTO; NO RJ ; ONDE A MARGINÁLIA JÁ TOMOU CONTA A MUITO TEMPO E A MÁ EDUCAÇÃO ACREDITO EU NÃO SÓ NO RJ ( DIGO NO PAÍS INTEIRO )TAMBÉM PERSISTE. AQUI ONDE MORO TAMBÉM O PODER PÚBLICO TENTA DE TUDO; MAS O POVO NÃO COLABORA. TEMOS UM POVO BASTANTE RELAXADO.

  • Eduardo diz: 25 de novembro de 2009

    Santana, os que jogam lixo nas ruas,são em sua esmagadora maioria, frutos de acasalamentos,tipo rato,aqueles onde geram os bandidos, que não tem estrutura nenhuma familiar,são frutos do total descontrole de natalidade e ignorância educacional deste país, o que é de interesse de governantes populistas,pois os mantem no poder, e a população ativa,consciente e honesta paga, os impostos e o pato.

  • Maria diz: 25 de novembro de 2009

    SOFRO TMB DE LABIRINTITE, MAS DESDE QUE COMEZEI A TOMAR O CHÁ DE ALECRIM, CRAVO DA INDIA E ERVA DOCE, SOMENTE UMA VEZ ME ACOMETEU. AI A DRA. ME MANDOU TOMAR DRAMIN- B6 DE 6/6 hs DURANTE 5 DIAS E DEPOIS DISSO NÃO TENHO TIDO MAIS TONTURAS!!! Saudações

  • Felipe diz: 25 de novembro de 2009

    praia suja? não vamos nos esquecer daqueles que, em nome de um tradicionalismo fajuto, organizam cavalgadas pelo litoral, emporcalhando as nossas praias de esterco!

  • Antonio Magalhaes diz: 25 de novembro de 2009

    Sofro do mesmo mal que tu, tenho labirintite e tontura todos os dias e é das fracas, e já me perturba muito se a tua é forte e acompanhada da tradicional nausea sei o que estás passando. Vais ter que ter muita paciencia e seguir a orintação médica para melhorar tua qualidade de vida.Muito raramente concordo com o que escreves sou aquele que diz que fazes pouco pela população com o poder que tens em mãos(coluna). Mas no caso da enfermidade me solidarizo.
    Desejo melhoras.

  • dilmão diz: 25 de novembro de 2009

    Ah tá bom…até concordo que uma boa parte do lixo é produzido pelos “ratos” (que assim os chamou foi o faciscta/leitor acima)…mas também vemos muito “playboys e filhos bem-nascidos jogando lixo pela janela de seus carrinhos” ou com seu consumo desenfreado e sem consciência, desperdício, não separação de lixo….ignorância é uma coisa, falta de educação e cidadania é outra bem diferente…

  • Diego Jucá diz: 25 de novembro de 2009

    Estes mesmos que aqui jogam lixo no chão sem nenhuma vergonha quando vão para o exterior são os primeiro a respeitar as regras de fora e os primeiros a dizer que o Brasil não presta!

  • josé de alencar souza da silva diz: 25 de novembro de 2009

    Por isso parece tão estranho que se faça as OLímpiadas no Rio de Janeiro,não dá pra entender porque não escolheram cidades muito melhor preparadas como Madri,Tóquio e Chicago.Se escolheram pelas belezas naturais vão encontrar praias cheias de lixo.

  • Paulo B Bandarra diz: 25 de novembro de 2009

    Pois é. Enquanto pensamos o que levar para Copenhague aqui o povo ainda joga lixo nas ruas e nas praias. Sem falar em rios e bueiros esperando que “alguém” os limpem. Não bastasse isto, nossos compatriotas mais aquinhoados compram carros enormes, que consomem quantidades enormes de matéria prima e gastam muito mais de combustíveis para celebrarem o consumismo como a última festa da Ilha Fiscal como foi o ocaso do Império. A preservação e a moderação são deixadas para os “outros”, nunca para si.

  • Fernando Antunes Dias diz: 25 de novembro de 2009

    Eu tento entender a tua dor física, apesar de não sofrer desse mal. Agora, se no caso o Inter for campeão, a dor será na tua alma e de cada gremista. Aí todos vão entender como é sofrer.

  • Geraldo diz: 25 de novembro de 2009

    “Jogar o lixo fora da lixeira é vandalismo.
    Jogar bituca de CIGARRO no chão ou na floreira é poesia.” Hipócrita!

  • Thiago diz: 25 de novembro de 2009

    “Estes mesmos que aqui jogam lixo no chão sem nenhuma vergonha quando vão para o exterior são os primeiro a respeitar as regras de fora e os primeiros a dizer que o Brasil não presta!”

    Eu não jogo lixo no chão aqui no Brasil e nem no exterior, aliás depois de conhecer lá fora é extremamente deprimente voltar para o Brasil…

  • Rafael diz: 25 de novembro de 2009

    Eu tenho a solução: lei da chibata!
    Foi pego largando lixo na rua? Vai apanhar ali mesmo!
    Quero ver se alguém se atreveria a repetir.
    Infelizmente pra ignorante não adianta falar, querer conscientizar …

  • Alceu diz: 25 de novembro de 2009

    Parabéns Paulo Sant`Ana pelo teu assunto de hoje. realmente, observo em nossas praias a mesma sujeira que tu referistesno Rio. Lugar de lixo é na lixeira e de procos nos chiqueiros. Eu, se fosse prefeito de algum município do Litoal, limparia a praia só no primeiro dia. Depois, se sujassem, deixaria assim mesma suja, para os porcos chafurdarem nos seus detritos.Tem gente que suja e enterra na areia sua sujeira. Esses são os piores da praia.

  • Daniela Gonzalez Macedo diz: 26 de novembro de 2009

    Pois é, Santana, nessas horas é que vemos que frágeis criaturas somos e quanto estamos nas mãos de Deus… Imagina só o quanto sofrem outros em condições piores do que as tuas… Os mendigos, por exemplo. Porém, nenhum deles comete suicídio. Em vista disso, não achas que devias pelo menos reconsiderar a tua posição a respeito da eutanásia? Mas a soberba é o grande mal da humanidade…

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