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A morte piedosa

26 de novembro de 2009 19

Chamou-me a máxima atenção o caso do belga Rom Houben, que todos acreditavam passar por estado vegetativo, em coma que durou 23 anos, mas agora se comunicou com os médicos e declarou que esteve consciente durante esse tempo todo, sem contato nenhum com o mundo externo que não fossem seus ouvidos.

O caso é realmente fantástico.
O cérebro do jovem belga esteve raciocinando durante 23 anos, mas ele não podia cometer qualquer movimento que pudesse acusar seu estado consciente para suscitar providências médicas respectivas.

Acho até que não posso usar esta expressão, mas esse heroico cidadão belga esteve em coma consciente por 23 anos.

Como disse Zero Hora anteontem, Rom foi prisioneiro do próprio corpo por 23 longos anos. Não tinha como sair de si e ter contato com o mundo externo.

Imagine-se o sofrimento
desse homem. Nem sei como não enlouqueceu. Ele ouvia tudo o que diziam em torno de si os médicos e seus familiares, devia munir-se de intensa e crucial agonia, querendo transmitir sua consciência mas não podendo mover nenhuma parte de seu corpo, nem as pálpebras, impotente, desanimado, exangue, inerte, um morto-vivo mergulhado nas trevas do coma.

Foram 23 anos de cativeiro. Sabe-se lá de que mecanismos mentais teve de se valer para manter intactas as faculdades mentais, ele raciocinava como qualquer pessoa.

É impressionante este caso. Esse homem tem de ser entrevistado para que se saiba por que não se lhe desfaleceram as forças e ele resistiu até não deixar de raciocinar nunca.

Se para um paciente recolhido por meses a um hospital, podendo mexer-se e comunicar-se com todos os que entram no quarto, já é um suplício este internamento, imaginem um corpo preso a si próprio durante 23 anos, com o cérebro funcionando, em plena consciência, como há de ter sobrevivido esse homem?

E como seu desespero não virou loucura?

Este caso, se por um lado revela ao mundo que há vidas estuantes atrás dos muros do estado comatoso, há de remeter mais ainda para o debate sobre a eutanásia.

Dirão os humanistas que, enquanto houver vida, ninguém pode extingui-la. Ninguém tem o direito, argumentarão, de interromper uma vida, por mais inútil e sofrida que seja.

E eu não me envergonho de declarar que mais ainda me torno adepto da eutanásia depois de conhecer o caso de Rom Houben, o belga que mergulhou nas trevas do estado comatoso, sem perder a consciência, isto é, em últimas palavras, entregue miseravelmente a um sofrimento atroz e permanente.

Neste caso e em tantos outros, creio firmemente que se aplica a morte piedosa.

A ciência não tem o direito, a meu ver, de prolongar indefinidamente esse gigantesco sofrimento. Quando a um homem que sofre assim tão eloquentemente é negado o direito de pôr fim à sua vida, o ambiente externo tem de assisti-lo e socorrê-lo no caminho da morte.

Por entre as reportagens em torno desse caso, está faltando um só dado: se em meio ao monumental tormento de que foi e é vítima, o belga infeliz pensava em sobreviver ou acalentava o sonho da morte, desejando-a para colocar um fim na sua cruz.

Tenho certeza de que ele sonhava que alguma mão compassiva e inteligente pusesse fim à sua vida.

*Texto publicado na página 87 de Zero Hora de hoje

Postado por Sant`Ana

Comentários (19)

  • Elisandro Garcia diz: 26 de novembro de 2009

    Que você defenda publicamente a eutanásia, eu até consigo aceitar, embora a contragosto.
    Mas daí a “imaginar” que o belga estivesse acalentando durante todo esse tempo, o desejo de que “uma mão piedosa” pusesse fim à vida dele, já é um completo absurdo!
    Creio, isso sim, que toda e qualquer pessoa em estado de sofrimento, deseje sempre poder voltar ao convívio dos seus, caso contrário não teria eLe se mantido firme até poder finalmente se expressar.

  • Diego Caselani diz: 26 de novembro de 2009

    Pô Santanna nâo acredito que vc acreditou nessa armação,vc um cara tão inteligente!se vc for no mínimo racional vai ver que a mulher manipulou a mão dele e com certeza não é ele que está escrevendo aquele texto,já que ele nem olha o que está escrevendo e com certeza ele iria ter dificuldade de rasciocinar tão rápido,já que ele tem uma trauma muito grande e não deve ter cordenação motora…

  • Bruno SL diz: 26 de novembro de 2009

    Tá, digamos que sou a favor da eutanásia, e todos os meus familiares sabem disso. Sofro um acidente e fico em coma. Mas a partir daí este processo me faz descobrir novas perspectivas e valores. Passo a valorizar a vida e o desejo de me restabelecer. Como os meus familiares irão saber da minha decisão? Como iremos matar uma pessoa em coma se realmente não sabemos o que passa na sua cabeça?

    Se este herói não quisesse ter sobrevivido, se enlouquecesse, com certeza não teria esperado 23 anos.

  • Catimba diz: 26 de novembro de 2009

    Se o cara raciocina mas não consegue expressar-se para os outros como tu vai ser a favor da eutanasia? Pelo menos nesse caso, se fosse feita não se saberia se seria a vontade do paciente. Ele estava consciente, portanto no seu cérebro poderia imaginar “eu quero viver, quero aguentar o tempo que for assim pra ver se um dia meu corpo responde ao meu cérebro novamente” e foi o que aconteceu, se tivessem feito eutanásia nele teriam o assassinado com ele raciocinando e sem saber se ele queria isso.

  • josé de alencar souza da silva diz: 26 de novembro de 2009

    Imortal como tu Sant ` Anna não morre,vira purpurina ou vira borboleta.

  • jJosé Pahim diz: 26 de novembro de 2009

    Tu és demais Santana!!! com todas as tuas lamentações com tonturas, limites impostos pela idade, tu ainda querias matar o rapaz que vegetava conscientemente pela desídia médica, aprisionado no corpo, sem defesa, sem acusações, sem “sensibilidade externa”? Vê-se que ainda não aprendestes nada com essas “pequenas tonturinhas”, deves viver ainda por mais trinta anos! notastes que o Oscar Niemayer, aos 102 anos, parece-nos um infante e que há crianças que denotam mais sabedoria que este e perecem???

  • Tiago Wietchi diz: 26 de novembro de 2009

    Bom dia Sant`ana, antes de nomearmos o caso belga com um verdadeiro milagre devemos tecer algumas considerações importantes e ressalvas. Pois não achei ser o proprio “herói” que estava redigindo aquelas palavras aparecidas nas telas da mídia e sim uma senhora ao seu lado. Agora o respeito ao ser humano deve prevalecer e nunca devemos estigmatizar os pacientes com estados neurológicos devastos, pois afinal de contas ainda é uma área da ciência médica a ter seu mister desbravado. Abraços…

  • Matheus diz: 26 de novembro de 2009

    SERA…????

  • Toledo diz: 26 de novembro de 2009

    todos acham muito lindo manter uma pessoa viva por 30 anos numa cama, experimentem deitar e permanecer em uma mesma posicao durante 1 hora sem mover um musculo!

  • jorge diz: 26 de novembro de 2009

    Paulo, ninguém pode pensar em ter direitos sobre a vida dos outros. As dificuldades por nós encontradas durante a vida, são para serem superadas, ou no minimo, termos boa vontade para isto. Um exemplo disto é deste cidadão. Não podemos ter a soberba de acharmos que somos Deus. Não somos nada para decidirmos ou pensarmos em tal coisa.

  • Fabio diz: 26 de novembro de 2009

    Caro amigo Sant`Ana;
    Concordo com sua idéia em relaçÃo a eutanásia, principalmente depois de ver meu pai sofrer, em estado terminal acometido por um câncer, e sentindo muitas dores.
    Devia haver um documento que a pessoa pudesse assinar dizendo que caso fique em estado de coma irreversível, ou estado vegetativo, pudesse optar pela morte, assim como alguém se declara doador de orgãos por exemplo, ela pode se declarar optante pela eutanásia.

    Grande abraço

  • Alex Jung diz: 26 de novembro de 2009

    Sant`Anna: se o grêmio colocar os reservas contra o Flamengo é capaz de ganhar… se o grêmio quer realmente perder deve colocar todos os titulares à disposição, pois com os titulares só ganharam do poderoso Náutico fora de casa…hehehehe

  • Eduardo Rosa diz: 26 de novembro de 2009

    PAULO SANTANA, TEUS TEXTOS SALVAM ESSE JORNAL. PARABÉNS.

  • Fabiano Ruoso diz: 26 de novembro de 2009

    Matéria muito sensasionalista. Essa condição é relativamente frequente e muito fácil de ser diagnosticada por qualquer neurologista. Falo porque sou Neurologista. Isso se chama “Síndrome de Encarceramento” e pode ter outros nomes técnicos que não importa. É ocasionada por lesões em pontos específicos do tronco cerebral. Já é descrita na medicina há muitos anos (Posner&Plum). Basta um Eletroencefalograma simples pra identificar. Mas aí fazem essa celeuma toda em coisas corriqueiras da medicina.

  • HELENO PINTO NOBRE diz: 27 de novembro de 2009

    É UM DRAMA VIOLENTO QUANDO CHEGARMOS AO FIM DE NOSSAS VIDAS MUITAS VEZES E NOS DEFRONTARMOS COM TAL SITUAÇÃO; ACHO QUE ESTE CIDADÃO QUE VIVEU TANTO TEMPO SEM PODER MUDAR SUA CONDIÇÃO E QUE TEVE ALGUÉM QUE CUIDOU DELE NEM IMAGINAVA QUE ALGUM DIA IRIA SAIR DELA PARA AINDA VIVER UM RESTO DE VIDA QUE LHE RESTA; É SUPREENDENTE TAL SITUAÇÃO. TERÁ QUE SE ESFORÇAR PARA SE ADAPTAR E VOLTAR A TER UMA VIDA RAZOÁVEL.

  • QUE CAPACIDADDE diz: 29 de novembro de 2009

    SANTANA,SÓ EM PENSAR O QUE ESSE CARA PASSOU,TE JURO MEU,ENTRO EM PÂNICO,MIL VEZES MORRER,IMAGINA ISSO TCHE,QUE TERROR CARA,PIOR QUE SE PERDER DUAS PERNAS E OS DOIS BRAÇOS,PELO MENOS PODES PEDIR PRA ALGUÉM TE COÇAR O NARIZ,MAS,E NO CASO DELE?O QUE FAZER?E FOI GRAÇAS A ELE QUE AGORA OS MÉDICOS ESTÃO SABENDO QUE ASSIM COMO ELE,EXISTEM VÁRIOS OU MILHARES PELO MUNDO QUE PODEM ESTAR NA MESMA SITUAÇÃO,AQUI MESMO PERTO DE CASA(PERTO DO TIGRÃO)EXISTIU A MULHER DE UM MÉDICO QUE PASSOU UNS 15 ANOS ASSIM

  • Ronaldo Renato de Souza diz: 27 de novembro de 2009

    Se é algo tão fácil de ser detectável, basta um simples eletroencefalograma, dizem os médicos, por que não foi antes detectado?

    Estamos falando da Bélgica, não de um país de quinto mundo, de alguém sem acesso a moderna medicina. Acho que esse assunto ainda vai gerar muita controvérsia sobre a sua autenticidade ou não.

  • James Pizarro diz: 27 de novembro de 2009

    Ué…fui censurado porque ?…só porque falei que os temporais poderiam atingir zonas de privilegiados e então surgiriam as verbas ?…nossa mãe…que decepção…

  • Daniela Gonzalez Macedo diz: 26 de novembro de 2009

    Santana, segundo a reportagem veiculada ontem pelo Jornal Nacional, Rom Heuben não está deprimido, nunca quis morrer e agora que consegue se comunicar diz que quer aproveitar a vida. Se ele entende que pode aproveitar a vida no estado em que está, quem somos nós para determinar que ele não deve viver? Mais ainda: quem pode determinar a vida ou a morte de outro, esteja no estado em que estiver? Não somos senhores de nossa existência, nem da vida, nem da morte.

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