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Posts de novembro 2009

É preciso acabar com essa fórmula

30 de novembro de 2009 137

Há quase um mês venho dizendo: se depender de mim, o Grêmio tem que perder. O Grêmio tem que jogar com os reservas. E eu, que era absolutamente sozinho nessa opinião que o Grêmio jogasse com os reservas contra os rivais do Inter na disputa pelo título, agora fiquei com o apoio de toda a torcida.

A torcida gremista inteira ontem gritava “Mengo! Mengo! Mengo!”. E a torcida vai mais longe do que eu. Porque eu dizia não para entregar os jogos, mas para colocar os reservas. E a torcida quer que o Grêmio entregue o jogo. Esta é a vontade soberana da torcida gremista.

É isso que os dirigentes despreparados devem entender: o time do Grêmio deve atender aos interesses da torcida! E o interesse da torcida é que o Internacional não se classifique e não seja campeão. Será que é difícil de entender?

Existem vezes em que perder significa ganhar, é do futebol, é a realidade.

A culpa disso tudo é da fórmula, que se revela imoral no fim do campeonato. Veja o que aconteceu com Corinthians e Flamengo ontem. O Corinthians fazendo de tudo para perder o jogo, debochando, brincando depois de levar o gol. Não queria ganhar do Flamengo para não favorecer o São Paulo.

É preciso acabar com essa fórmula, que obriga que o gremista torça pelo Internacional e o Inter torça pelo Grêmio para conseguir ser campeão.

Que fórmula é essa?

Confira a íntegra do meu comentário no Gaúcha Hoje:

Postado por Paulo Sant`Ana

Cadeira Vazia

30 de novembro de 2009 20

O Programa do Jô, quando dá para ser bom, sai da frente.

Foi assim na semana passada quando ele entrevistou o cômico Marcos Veras, ótimo ator e excelente imitador, que sacudiu o público durante dois segmentos do programa com suas tiradas e extraordinário humor picante.

E foi assim, ainda melhor, também na semana passada, quando foi entrevistada Mariza, grande fadista, cantadeira portuguesa.

Jovem e bela, produziria na entrevista com o Jô um dos mais instigantes momentos da música popular.

Em primeiro lugar, trata-se de uma grande cantora. Além disso, possui uma vivacidade ímpar, cantou maravilhosamente um fado e disse que conhecia muito da música brasileira.

Eu e todos os telespectadores ficamos torcendo para que o Jô Soares pedisse a ela para cantar uma página brasileira. E dali a pouco o Jô nos atendeu, solicitando que ela cantasse algo da nossa música.

Amigos, foi um momento alto da arte popular. Sem anunciar o que iria cantar, Mariza saiu dando de um modo tão alto, tão sensível, tão envolvente que a plateia e os telespectadores ficaram abismados que uma cantora estrangeira pudesse suplantar os intérpretes nacionais com aquela afinação e dicção divinas. E a canção foi escorrendo límpida, luminosa, para delícia total de quem a ouvia:

Entra, meu amor, fica à vontade

E diz com sinceridade

O que desejas de mim

Entra, pode entrar a casa é sua

Já te cansaste de viver na rua

E teus sonhos chegaram ao fim

Eu sofri demais quando partiste

Passei tantas horas triste

Que não posso lembrar este dia

Mas de um a coisa podes ter certeza

O teu lugar aqui na minha mesa

Tua cadeira ainda está vazia…

E foi até o fim encantando a todos. O Cadeira Vazia, de Lupicínio Rodrigues, ganhava uma feição que ainda não tivera nos lábios de tantos cantores e cantoras brasileiros. Mariza cantou com sotaque integralmente brasileiro, mas nem Elis Regina, que se não me engano gravou esta música, atingiu os píncaros de beleza de Mariza.

Ela massacrou, entusiasmou, divinizou o Cadeira Vazia, chamou a atenção de todos como nunca ninguém o fizera, para a beleza desta canção eterna, que é muito conhecida pelos amantes de Lupicínio , mas que passou a ser encarada ainda mais bela do que já se a considerava.

Foi um instante de perturbadora delícia, pouca vezes vibra-se tanto quando alguém canta como aconteceu desta vez.

Assim vale a pena ficar-se até o romper da madrugada à espera do Jô Soares.

E esta cantora Mariza já é afirmada em Portugal, mas tenho a certeza que se tornará em uma das mais destacadas intérpretes de fados e outras canções europeias.

Ela é simplesmente espetacular.

Quem puder, tente escutá-la para ver:

*Texto publicado na página 51 de Zero Hora de hoje.

Postado por Sant`Ana

O relógio e o espelho

28 de novembro de 2009 16

Até o máximo possível e permitido, nunca se deve dar relógio de presente para crianças. O primeiro passo para a aflição do homem é o relógio. A criança é feliz porque não tem noção das horas, do compromisso, do dever com hora marcada.

Nunca vi em minha vida uma criança acordar-se e ver que horas são. Este é o reflexo imediato de qualquer adulto. Depois do sono reparador, do desligamento da vida, retornamos às nossas preocupações.

O sono é o céu do vazio, do nirvana, o relógio traz-nos de volta ao inferno das obrigações.

***

Consulte seu passado, o tempo mais feliz de sua vida foi aquele em que não usava relógio, indiscutivelmente.

O relógio é o instrumento que mede a vida e dá-nos a consciência da morte, a pior desgraça dos humanos. Os animais são felizes porque não sabem que terão de

pagar o preço da morte. O homem começa a ter noção de que sua vida terá um fim quando põe pela primeira vez um relógio no pulso, ignorando que aquela é a algema que o amarra ao tempo, portanto à finitude.

***

Eu nunca daria de presente um relógio a uma criança. Gostaria que ela permanecesse indiferente e imune aos prazos, solta, que não tivesse nem noção do dia e da noite, apenas fosse dormir e despertasse quando tivesse sono ou dele se saciasse.

Ter hora para dormir, para acordar-se, para trabalhar, para comparecer à audiência ou ao encontro, estas horas fatais todas é que vão destruindo as pessoas e aproximando-as da morte, senão pelo fato, mas pela perspectiva.

***

O paraíso de Adão e Eva dá-se exatamente porque não havia lá um relógio, nem o casal primevo conhecia quem o antecedera, o que significaria a morte.

Os tempos da infância e da juventude são os mais felizes pela inconsciência da morte. Até quando fiz 40 anos, eu pensava que era imortal. E essa é a sensação de todos os jovens.

O jovem sabe que vai morrer, mas está tão distante da morte, que consegue ignorá-la, ela não passa de uma utopia diante da vida estuante que se oferece à sua frente. Tem mais é que pensar na vida, o prazo da morte desaparece em meio à delícia existencial.

***

Não há instante mais crucial da vida que aquele em que o homem se olha no espelho e vê que não é mais aquele. O primeiro inimigo do homem é o relógio, o segundo é o espelho.

Reparem que as crianças nunca se olham no espelho, a não ser quando cobiçam idiotamente tornaremse adultas. Já o adulto olha-se no espelho sempre com um pé atrás, sabendo que seu aspecto só pode retroceder.

O homem que olha para o relógio ou para o espelho está sendo aos poucos aniquilado pela maior adversária do homem, que é a pressa.

Não conheço pessoa madura que não seja escrava prestativa do relógio ou do espelho, instrumentos da sua agonia.

Nunca dê um relógio ou um espelho para uma criança. Ela só é feliz porque estes dois objetos sãolhe absolutamente dispensáveis.

Crônica publicada em 5 de dezembro de 1999

*Texto publicado na página 47 de Zero Hora dominical.

Postado por Paulo Sant`Ana

Pobres flagelados!

27 de novembro de 2009 19

Todos os dias, a televisão e os jornais dão conta dos flagelados das chuvas e das tempestades.

Parece que há uma revolução na natureza. As pessoas são expulsas das suas casas aos milhares, metade vai para a casa de parentes, a outra metade é amparada pelos abrigos conseguidos pelas prefeituras.

E todos os dias se sucedem as inundações, os dramas vão se multiplicando na beira dos rios, famílias inteiras se tornam desabrigadas e passa pelo nosso pensamento que não serão socorridas a contento pelo poder público.

É fácil desconhecer a tragédia que atravessa as vidas dessas pessoas. Banalizam-se insistentemente os flagelos das enchentes.

Nada posso fazer por essas pessoas. Mas cumpro o dever apenas de voltar minha lembrança para elas e me apiedar de sua situação.

A tempestades e a alta dos rios se sucedem com frequência assustadora em todo o país. E, nos últimos dias, mais se tornou grave a condição desses flagelados.

Antigamente, a queda de uma descarga elétrica era um acontecimento raro, tanto que passaram a integrar o folclore os relatos das pessoas que eram atingidas pelos raios.

Agora é diferente: todos os dias aparecem vítimas fatais de raios no noticiário dos jornais.

Mas o que está havendo? Será que é mesmo real que o homem está destruindo a natureza e esses desequilíbrios meteorológicos são fruto da devastação das florestas e do efeito estufa, que já preocupa os dirigentes das mais importantes nações?

Anteontem, foi noticiado com ênfase o temporal que caiu sobre o distrito de Progresso, município de Três de Maio.

Os ventos atingiram as casas, os galpões, a escola, a igreja, um enorme ginásio e o centro comunitário.

A fotografia do ginásio destruído pelos ventos é impressionante. Sua estrutura desabou pelo chão.

Da mesma forma, o prédio onde ficava o setor administrativo da escola de Progresso teve suas telhas inteiramente arrancadas pelos ventos.

Os 30 alunos que se encontravam na biblioteca foram apanhados de surpresa pela tempestade e tiveram de se refugiar debaixo das classes. Felizmente não houve vítimas fatais.

No ginásio, as suas paredes e a sua cobertura foram inteiramente demolidos pelos ventos. E, na volta, os galpões de alvenaria desmoronaram.

Que fúria é essa
dos elementos que dias atrás destelhou 11,5 mil casas somente no Litoral?

Será que de repente os ventos foram tomados de uma ira incontrolável e alcançam velocidades nunca antes conseguidas?

A Defesa Civil e os bombeiros se entregam a atividades estafantes. À medida do possível, os governos auxiliam os flagelados, mas permanece a impressão de que eles tiveram suas vidas arruinadas.

Por que tantos raios?
Nunca se viu antes tantas descargas elétricas e tamanhas tempestades destruindo as pontes e levando os telhados por diante.

As estradas pioram, afundam-se no barro. As linhas elétricas se deterioram.

E a nós, aqui nas cidades grandes, imunes às tragédias, só nos resta levantar as mãos para os céus por não termos sido atingidos por essas tragédias e voltar o pensamento para os flagelados, cujas vidas nunca mais serão marcadas pela normalidade de outrora.

É o que estou fazendo nesta coluna, tentando estimular os governantes a liberarem mais verbas para as vítimas dos flagelos, inspirar a todos que socorram seus semelhantes atingidos pelas cheias e de alguma forma voltar a nossa solidariedade, ainda que abstrata, para os nossos irmãos das cheias.

Cheias que cada vez mais se agudizam, sabe-se lá por que fenômeno de zanga da natureza contra o homem.

*Texto publicado na página 79 de Zero Hora de hoje

Postado por Sant`Ana

A morte piedosa

26 de novembro de 2009 19

Chamou-me a máxima atenção o caso do belga Rom Houben, que todos acreditavam passar por estado vegetativo, em coma que durou 23 anos, mas agora se comunicou com os médicos e declarou que esteve consciente durante esse tempo todo, sem contato nenhum com o mundo externo que não fossem seus ouvidos.

O caso é realmente fantástico.
O cérebro do jovem belga esteve raciocinando durante 23 anos, mas ele não podia cometer qualquer movimento que pudesse acusar seu estado consciente para suscitar providências médicas respectivas.

Acho até que não posso usar esta expressão, mas esse heroico cidadão belga esteve em coma consciente por 23 anos.

Como disse Zero Hora anteontem, Rom foi prisioneiro do próprio corpo por 23 longos anos. Não tinha como sair de si e ter contato com o mundo externo.

Imagine-se o sofrimento
desse homem. Nem sei como não enlouqueceu. Ele ouvia tudo o que diziam em torno de si os médicos e seus familiares, devia munir-se de intensa e crucial agonia, querendo transmitir sua consciência mas não podendo mover nenhuma parte de seu corpo, nem as pálpebras, impotente, desanimado, exangue, inerte, um morto-vivo mergulhado nas trevas do coma.

Foram 23 anos de cativeiro. Sabe-se lá de que mecanismos mentais teve de se valer para manter intactas as faculdades mentais, ele raciocinava como qualquer pessoa.

É impressionante este caso. Esse homem tem de ser entrevistado para que se saiba por que não se lhe desfaleceram as forças e ele resistiu até não deixar de raciocinar nunca.

Se para um paciente recolhido por meses a um hospital, podendo mexer-se e comunicar-se com todos os que entram no quarto, já é um suplício este internamento, imaginem um corpo preso a si próprio durante 23 anos, com o cérebro funcionando, em plena consciência, como há de ter sobrevivido esse homem?

E como seu desespero não virou loucura?

Este caso, se por um lado revela ao mundo que há vidas estuantes atrás dos muros do estado comatoso, há de remeter mais ainda para o debate sobre a eutanásia.

Dirão os humanistas que, enquanto houver vida, ninguém pode extingui-la. Ninguém tem o direito, argumentarão, de interromper uma vida, por mais inútil e sofrida que seja.

E eu não me envergonho de declarar que mais ainda me torno adepto da eutanásia depois de conhecer o caso de Rom Houben, o belga que mergulhou nas trevas do estado comatoso, sem perder a consciência, isto é, em últimas palavras, entregue miseravelmente a um sofrimento atroz e permanente.

Neste caso e em tantos outros, creio firmemente que se aplica a morte piedosa.

A ciência não tem o direito, a meu ver, de prolongar indefinidamente esse gigantesco sofrimento. Quando a um homem que sofre assim tão eloquentemente é negado o direito de pôr fim à sua vida, o ambiente externo tem de assisti-lo e socorrê-lo no caminho da morte.

Por entre as reportagens em torno desse caso, está faltando um só dado: se em meio ao monumental tormento de que foi e é vítima, o belga infeliz pensava em sobreviver ou acalentava o sonho da morte, desejando-a para colocar um fim na sua cruz.

Tenho certeza de que ele sonhava que alguma mão compassiva e inteligente pusesse fim à sua vida.

*Texto publicado na página 87 de Zero Hora de hoje

Postado por Sant`Ana

Sinto cheiro de título para os gaúchos

25 de novembro de 2009 62


O que eu vejo é uma facilidade imensa para o Internacional ser campeão. O Inter pega o Sport morto, pega o Santo André morto, enquanto os outros times que disputam o título vão ter partidas dificílimas, alguns até entre si. Não parece que o título está oferecido para o Internacional?

A opinião não é só minha, é também do David Coimbra, de que a fórmula é imoral. No final do campeonato, os times, segundo o David, estão bocejando, alguns não querem mais nada com o certame, estão desinteressados, e isso desiguala completamente a competição. A fórmula começa a apresentar defeitos transcendentais no final do campeonato. Na Europa não há queixas contra essa fórmula, mas aqui as queixas estão se avolumando no final do campeonato.

O único obstáculo que tem para o Inter chegar ao título é o jogo entre Goiás e São Paulo. Mas eu vejo o título sorridente para o Internacional, pela brava e surpreendente resistência que o Goiás apresentou contra o Flamengo no Maracanã. Vamos ver como fica, mas estou sentindo cheiro de título para os gaúchos.

Confira a íntegra do meu comentário no Gaúcha Hoje:

Postado por Paulo Sant`Ana

O lixo nas praias

25 de novembro de 2009 15

É fácil suportar a dor dos outros, difícil é suportar a própria dor. Não existe ditado mais verdadeiro do que “cada um sabe onde lhe aperta o calo”.

Medito, assim, que o homem verdadeiramente santo ou verdadeiramente sábio é o que chora pela dor alheia, o que sente na própria carne o sofrimento dos outros: eis um homem superior.

Se só sofrendo se consegue ser uma pessoa, então estou formado para a vida depois destas tonturas.

***

O pior da tontura é que na nossa volta ninguém mais a está sentindo.

E essa inveja que se sente dos que não estão tontos é uma dor ainda mais aguda do que a própria tontura.

A tontura priva o tonto de todos os prazeres, o de achar graça, o de rir, o de comer, até mesmo o de conversar.

Olho para os meus circunstantes e não entendo como eles podem não estar alegres, eufóricos, delirantes de alegria por não estarem tontos.

Comparo-me a eles e calculo que a nenhum deles sucede o acicate da dor permanente, da dor contínua, sem quartel.

***

Não há manifestação mais genuína de felicidade do que se estar apto para cantar ou para ouvir música. Um ser que canta ou ouve música é um ser feliz ou propício a ser feliz.

Isso me ocorre porque nesses longos dias de tontura nunca me sucedeu ousar cantar qualquer verso de tango ou de samba.

Adivinho que se for cantar ou ouvir qualquer melodia não usufruirei da música na essência do que ela é: a alegria do espírito.

Pode-se avaliar a felicidade das pessoas ouvindo-as cantar ou dançando.

Quem canta ou dança seus males espanta. O canto e a dança são o habeas corpus para a felicidade.

***

Não me ocorre beber, não me ocorre ler, não me tenta ser espirituoso em quaisquer conversas, a grande arma que sempre tive para cativar pessoas e cultivar amigos.

E o pior é que ninguém viu a minha dor chorando. O meu sofrimento não se mostra, ele é só meu, terrivelmente só meu, não consigo justificá-lo, sua invisibilidade ainda mais me amassa por não atrair de ninguém a compaixão.

***

Não tem jantar, não tem almoço, não tem bate-papo, esta tontura é uma dor que não tem programa, a dor da solidão.

***

Tento driblar a tontura com o trabalho. Pois ela me será muito mais dolorosa se eu me entregar ao ócio. Pelo menos o trabalho me distrai e atenua a náusea.

***

E, enquanto cismo absorto em dor, leio que o prefeito do Rio de Janeiro critica violentamente os seus munícipes.

O usual é os munícipes criticando o prefeito. Lá, não. O prefeito chama os habitantes do Rio de Janeiro de “porcos” por sujarem a cidade: mais de sete toneladas de lixo são retiradas diariamente só das praias do Rio.

Ninguém se aplica em colocar o lixo nas lixeiras, o trabalho de recolhimento dos detritos é gigantesco, as verbas gastas com isso são monumentais, parece que os banhistas se comprazem em ir largando o lixo onde ficam e por onde passam.

Isto de jogar o lixo fora sem colocá-lo na lixeira é um vandalismo, por ele se pode aferir o caráter de um povo.

Não é só nas praias, onde o lixo fica mais visível, mas qualquer detrito que jogarmos fora em qualquer parte das ruas passa a ser algo que se volta contra nós. Essa despesa com o recolhimento do lixo recairá em nossos próprios bolsos.

Nisso e em outros mil detalhes, o Brasil demonstra estar muito longe ainda de um patamar razoável de civilização.

*Texto publicado na página 55 de Zero Hora de hoje

Postado por Sant`Ana

2009 deve ser apagado da história do Grêmio

24 de novembro de 2009 121

A emenda ficou pior que o soneto. O Grêmio agora ameaça colocar os reservas contra o Flamengo. Antes o presidente tinha dito que jamais o Grêmio iria jogar para perder, e agora coloca os reservas contra o Flamengo. Tardiamente, porque o Grêmio já deu os sete pontos que o Internacional queria para classificar-se para o G-4 e candidatar-se ao título nacional.

O Grêmio tirou dois pontos do São Paulo, tirou dois pontos do Cruzeiro e tirou três pontos do Palmeiras. É pueril a alegação de que o Grêmio fez isso para entrar na Sul-Americana. A Sul-Americana não existe. O que existe é o risco, parcialmente já perpetrado, de o Internacional se classificar para a Libertadores e ser campeão nacional.

2009 vai ter que ser apagado da história do Grêmio: o ano em que o Grêmio deu para o Internacional a Libertadores de 2010 e talvez o título. Os dirigentes que tomaram esta atitude deveriam se aconselhar com pessoas mais experientes. E agora vem a decisão que contra o Flamengo jogarão os reservas. O que é isso, meu Deus? Esta decisão manchou o Grêmio, porque o Grêmio não pode ajudar o seu rival.

O Internacional jogou com os reservas contra o São Paulo no ano passado para evitar que o Grêmio fosse campeão nacional. Qualquer criança sabe que os rivais devem proceder assim.

Uma vez o Grêmio foi obrigado a perder para o Juventude para se classificar no Campeonato Gaúcho. Porque perder significava ganhar. Muitas vezes, perder significa ganhar. E o dever do clube é ganhar. Perdendo, no caso.

Dane-se o formalismo, o que interessa é que o Grêmio colaborou com sete pontos para que o Inter fosse para a Libertadores e, quem sabe, ficasse com o título nacional.

Confira a íntegra do meu comentário no Gaúcha Hoje:

Postado por Paulo Sant`Ana

A gravata e a bomba

24 de novembro de 2009 19

Quem já viu o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, de gravata?

Eu nunca o vi de gravata, mas é possível que ele alguma vez ceda à tentação dos costumes ocidentais tradicionais e vista esse apêndice da moda.

Por sinal, eu sempre admirei secretamente as pessoas que comparecem a solenidades e festas onde se recomenda a gravata nos convites e não vestem aquele adereço.

A pessoa enfrenta sem gravata o ambiente com a maior naturalidade, é única, entre todos, sem gravata e desembaraça-se com desenvoltura, parecendo não importar-lhe que esteja trajada diferente de todos e contra a recomendação da etiqueta.

***

Mas eu queria mesmo é falar do anãozinho Ahmadinejad. Vi-o ontem discursando no Itamaraty, o único sem gravata.

E fico a pensar no que deseja mais a autossuficiência de Ahmadinejad que não seja somente a destruição de Israel.

Quando ele nega tenha havido o Holocausto judeu, parece insinuar que ainda não houve o Holocausto. Ele próprio o cometerá dentro em breve, usando de armas nucleares que o Ocidente acusa que ele está elaborando. Quer atrair para si a primazia de destruir Israel.

Para ele, não tem meio-termo nem negociação, ele pretende “varrer Israel do mapa”.

E quem expõe assim seu ideal sem nenhum constrangimento, torna-se perigoso, daí por que as Nações Unidas e os Estados Unidos olham com desconfiança o programa nuclear iraniano, considerando o risco que será o Irã cultivar um artefato atômico.

***

Israel, por exemplo, possui a bomba nuclear. Consta que a Índia e o Paquistão já possuem artefatos nucleares.

Mas Israel não declara por nenhum dos seus governantes que quer varrer o Irã do mapa.

A Índia e o Paquistão têm conflitos, nenhum até agora que possa acarretar um ataque nuclear unilateral ou recíproco.

Com o Irã, se dá o contrário, e é por isso que o mundo se preocupa: suspeita-se de que seu plano nuclear esteja se desviando da finalidade pacífica, justamente para “varrer Israel do mapa”.

Por isso é que é naquele lugar do Oriente Médio que se concentram todas as preocupações mundiais.

***

No dia em que os serviços de informações de Israel detectarem que o Irã está avançando num programa nuclear não pacífico, é certo que o país dos aiatolás será bombardeado. Pronto, eis a guerra e todas as suas consequências desastrosas.

O que se nota, pois, é que só uma força pode romper o equilíbrio de poder militar no mundo: o ódio.

Nenhum dos detentores de energia nuclear bélica pode ter governantes fanáticos. Esse é justamente o temor que Ahmadinejad e o Irã inspiram.

***

Em cerimônia em que constava a entrega dos espadins aos novos capitães da Brigada Militar, fui agraciado sábado passado, entre outros homenageados, com a Medalha dos Serviços Distintos, outorga tradicional da Polícia Militar gaúcha.

Sinto-me honrado e agradecido com o galardão.

Postado por Paulo Sant`Ana

Com a ajuda do Grêmio, Inter está na Libertadores

23 de novembro de 2009 130

Com a prestimosa ajuda do Grêmio, o Internacional já está praticamente garantido na Libertadores da América e caminha para o título. Tudo isso porque, com a consciência de que ia ajudar o Inter, o Grêmio tirou dois pontos do Cruzeiro e tirou três pontos do Palmeiras.

Foi o grande papel do Grêmio neste campeonato. Estava reservado para o Grêmio um papel decisivo: pavimentar o caminho do Internacional para o G-4, para a Libertadores, e asfaltar a estrada do Internacional no rumo do título. Os dirigentes do Grêmio devem estar orgulhosos deste papel que o time desempenhou neste campeonato. E o Grêmio ainda tem que fazer mais: tem que ganhar ou empatar com o Flamengo no Maracanã.

Aí, sim, o papel reservado ao Grêmio neste campeonato estará muito definido. Brilhante papel do Grêmio de doar para o Internacional um lugar na Libertadores da América no ano que vem e, quem sabe, pavimentar a estrada do Inter no rumo do título.

Com isso, o Internacional ganhará milhões de reais para reforçar o seu time e golear o Grêmio nos Gre-Nais que houver no ano que vem.

Que papel, Grêmio, que papel!

Confira a íntegra do meu comentário no Gaúcha Hoje:

Postado por Paulo Sant`Ana

A guerra é aqui!

23 de novembro de 2009 13

A guerra contra o tráfico de drogas se intensifica até mesmo em táticas de contraguerrilha para conter os métodos dos traficantes cariocas.

A PM do Rio de Janeiro
está enviando para a Colômbia oficiais que se especializarão em combate contra o terror nas favelas e entornos do Rio de Janeiro.

Os traficantes do Rio de Janeiro estão usando barricadas e casamatas de concreto para não permitir a passagem de carros blindados da polícia, a nova arma contra o traficantes.

Os policiais que vão aprender táticas modernas na Colômbia foram até lá levados pelas bombas, minas terrestres e outras armadilhas engendradas pelo tráfico, o que transforma definitivamente o Rio de Janeiro em um palco de guerra, com todas as tintas de uma guerra civil, já enfrentada pela Colômbia e agora instalada no Brasil.

Para evitar a entrada nos pontos de depósito e distribuição de drogas, os traficantes utilizam trilhos na pista e muretas de concreto com aberturas por onde os criminosos atiram, além de uma nova tática com método nitidamente militar: a abertura de fossos para impedir os carros blindados de avançar e se instalar no centro vital de ação dos traficantes.

Acostumados a usar mão de obra de ex-militares, os traficantes passaram a utilizar armadilhas ensinadas pelos manuais das Forças Armadas, abrindo fossos de 1m50cm de extensão por 1m de largura. Essas crateras são implantadas nas entradas das favelas e visam a não permitir a passagem dos carros blindados policiais, que estavam se tornando eficiente estratégia da PM para atingir o âmago da atividade do tráfico.

E os bandidos estão jogando óleo nos fossos para impedir sua concretagem.

A possibilidade de que os bandidos venham a colocar explosivos nessas crateras é já admitida pela polícia.

Como se vê, a guerra entre polícia e traficantes no Rio de Janeiro se torna um combate militar a que foi levada a polícia pelos sofisticados métodos de estrutura bélica montada pelos traficantes.

É guerra de guerrilha pura, guerrilha urbana genuína, com instrutores de batalha utilizados em ambos os lados.

Chegamos ao ponto em que o tráfico não se especializa só em transportar, depositar e comercializar as drogas, mas também em adotar estratégia militar para protegê-las e impedir o acesso das forças policiais a seus bunkers.

A tática de guerrilha dos traficantes chegou ao ponto de arremessos de coquetel molotov contra os caveirões (carros blindados) da polícia, além de bombas de tinta para atrapalhar a visão dos policiais dentro dos veículos.

Esses combates não se verificam nas selvas, longe dos centros civilizados, é ali mesmo, junto à Zona Sul carioca, encravada entre os morros e sujeita assim aos ataques criminosos, enchendo a sociedade de medo e terror.

Assim como a Polícia Militar está enviando oficiais para aprender táticas antiguerrilha na Colômbia, os traficantes também se apoderam de táticas militares que lhes são transmitidas por ex-militares contratados para instruí-los.

Estas notícias são as mais apavorantes de que se tem notícia. Porque revelam nitidamente que esta guerra urbana sem quartel não tem fim, está marcada para se desenvolver nos próximos anos e décadas, sujando a paisagem humana do Rio de Janeiro e ameaçando contagiar as favelas de São Paulo e das grandes cidades provincianas.

Deus salve-nos desta tragédia.

*Texto publicado na página 35 de Zero Hora de hoje

Postado por Sant`Ana

O apagão

21 de novembro de 2009 21

Até agora não foram esclarecidas as causas do apagão da semana retrasada, que deixou às escuras 18 Estados brasileiros.

Visivelmente, as autoridades não mostram convicção de que tenha havido um somatório de vento forte, chuva e descargas elétricas que tenham causado um curto-circuito nas linhas de transmissão de Itaipu.

O ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, já pediu um relatório à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que deverá constar de uma “análise profunda” das causas do blecaute.

Uma vez pronto o relatório, para ainda mais legitimá-lo, o governo pretende submetê-lo a especialistas de universidades de Rio e São Paulo.

***

Há críticas ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) por ter permitido que a Usina de Itaipu abastecesse praticamente sozinha a maior parte do consumo de todo o país.

No entanto, o governo insiste na tese de que o apagão se deveu a fatores climáticos.

A impressão é de que não há convicção sobre a origem do blecaute e que as investigações não vão solucionar as dúvidas.

Já era tempo de ter sido produzido um diagnóstico seguro e definitivo sobre as causas, mas o Ministério de Minas e Energia tropeça em dúvidas e indecisões.

***

Fica portanto no ar a hipótese de que possa no futuro vir a ocorrer um novo apagão com as consequências graves e amplas desse último, que aturdiu o país.

São cinco as linhas de transmissão da energia de Itaipu. O normal é que haja problemas em uma ou duas delas, mas nesse apagão ocorreu um colapso no conjunto de linhas, um fato raro, que no entanto não tem cabido nas explicações governamentais.

Este assunto é fechado à compreensão do público em geral, somente os especialistas se debruçam sobre ele. No entanto, as divergências entre eles demonstram que a linha de investigação sobre as causas se revela perturbada e inconvicta.

***

Como é que é? Pode ter apagão no futuro ou não? O grupo de trabalho que analisa a origem do blecaute, composto pela Aneel e pelo ONS, tem 30 dias, a partir da última segunda-feira, dia 16, para apresentar os relatórios sobre as causas do apagão.

Mas fontes do setor elétrico afirmam que esse prazo é muito longo e não passa de uma forma de esvaziar o debate, eis que em seguida virão o Natal e o Ano-Novo e o assunto ficará escondido no noticiário.

Interessante é que o ministro Edison Lobão declarou que o apagão terá análise “às claras”.

Melhor que seja.

***

Como brasileiro, no entanto, me preocupo com essa análise. É um assunto de extrema gravidade, vital para a vida nacional e transcendental para a economia.

Se um tal sistema de transmissão de linhas for precário, as medidas para aperfeiçoá-lo deveriam ser tomadas antes de um novo colapso.

E, se for precário o sistema, tudo indica que os investimentos para corrigi-lo serão de alta monta, bilionários.

Ao mesmo tempo, um sistema de transmissões que seja frágil e nevrálgico apenas à intempérie causa enorme preocupação.

Parece claro que a população brasileira tem o direito de saber detalhadamente o que sucedeu, além de se munir da garantia de que não mais acontecerá.

E as trevas dos relatórios e dos diagnósticos, além das explicações oficiais, têm-se mostrado até agora mais escuras que o próprio apagão.

 

*Texto publicado em Zero Hora dominical

Postado por Sant`Ana

A bela sozinha

21 de novembro de 2009 29

Estou no fumódromo e uma das cadeiras ocupadas o é por uma linda moça, ali pelos 20 anos, no máximo 22. Um portento de senhorita.

Pernas torneadas, cabelo alinhado, pés e mãos com dedos simétricos, deixa antever duas maçãs nos seios que se forem se libertar do sutiã parecerão dois pombos assustados.

Bela senhorita.
Além de tudo, é portadora de uma meiguice encantadora.

Pergunto-lhe de chofre: “Deve ser fácil para você arranjar um namorado?”.

Ela respondeu prontamente: “Tá muito difícil”.

Fico a cismar no que deseja mais a minha curiosidade que não seja perscrutar a alma da forçosa moça.

No entanto, está difícil para ela arranjar um par. Imagino como são idiotas os rapazes que deixam de explorar aquela energia desaproveitada.

Como dizem na rua, o difícil é a relação. Aquela moça por exemplo está prestes a ser conquistada, no apogeu da sua formosura e juventude.

E no entanto não lhe surge o príncipe encantado.

Falta um estalo para aquela moça ou para cada um dos seus prováveis pretendentes.

É só uma questão de encaixe, alguém que adivinhe ou simplesmente constate os seus encantos.

Mas está ali aquela moça abandonada, amor febril para doar, estuante, pronta para a entrega, ou apta para a pronta entrega, e não aparece nenhum imbecil para desfrutá-la.

Como são intrincadas as relações humanas! Como é penoso livrar-se da solidão, mesmo que estejam aptas as pessoas para se entrelaçarem!

Aquela senhorita não pode continuar sozinha. Mas visivelmente há algo nela que a impede de aproximar-se de alguém que a entenda e mostre interesse.

E assoma como transcendental a sua beleza, o seu aspecto frágil de gata esquiva apelando por um adestrador.

Quantos e quantos desperdícios como esse espalhados por aí! Quanta gente à procura de um cais onde atraque seu vulto esplêndido de jovem bela e oferecida à procura de quem a guie pelos caminhos deliciosos do amor!

Mas por que prosperam assim tantas incompletudes? Por que tanta ânsia desatendida, por que tantos fastios desanimados?

Por que é indispensável que a mulher se una ao homem para realizar-se? Por que, enquanto não se dá esse encontro, uma frustração amassante percorre esses seres dilacerados, essas almas abandonadas à procura de um refúgio, de uma realização?

Por quê? Para que serve a semente sem germinação? Mas por que é tão difícil encontrar terra fértil e propícia em que prospere?

O que intriga é que eu não esteja aqui com piedade de uma mulher feia, sem atrativos, indesejável.

O que me deixa estupefato é que estou sentindo compaixão por uma mulher bela e desejante, capaz também pela sua ternura de fazer qualquer homem feliz.

Será a timidez que a impede de relacionar-se? A ofuscante beleza é que não é.


*Texto publicado na página 55 de Zero Hora de hoje

Postado por Sant`Ana

As árvores são as primeiras a tombar na tempestade

20 de novembro de 2009 5

Quando me encontrei com meu amigo Miltão, que mora em Alvorada, ele era um quadro desolador: ele estava com os sapatos inteiramente encharcados, e as suas calças todas molhadas. Sua casa, em uma vila de Alvorada, foi quase que inteiramente destruída pela tempestade terrível que se abateu sobre o Rio Grande do Sul. As árvores são as primeiras que tombam nas tempestades, mas tombam também casas. E na frente da Zero Hora havia uma árvore caída, parecia que era uma pessoa que foi tombada, como diz meu poeta Augusto dos Anjos:

“— As árvores, meu filho, não têm alma!

E esta árvore me serve de empecilho…

É preciso cortá-la, pois, meu filho,

Para que eu tenha uma velhice calma!

— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!

Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!

Deus pôs alma nos cedros… no junquilho…

Esta árvore, meu pai, possui minha`alma!…

— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:

“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”

E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,

O moço triste se abraçou com o tronco

E nunca mais se levantou da terra!”

A Árvore da Serra – Augusto dos Anjos

Confira a íntegra do meu comentário no Gaúcha Hoje:

 

Postado por Paulo Sant`Ana

Os insones

20 de novembro de 2009 25

De repente, me assalta indagar sobre o que vem a ser a insônia.

Só se apercebem que a insônia é uma doença os que de uma hora para outra, em noites sucessivas, se veem impedidos de conciliar o sono.

Logo lhes ocorre que a insônia deve ser uma súbita supremacia das preocupações contra o sono.

Mas sempre tiveram preocupações e nunca deixaram de dormir, como agora lhes sucede isso?

É preciso dormir para descansar e alimentar os músculos e os ossos, recuperar-se do dia fatigante.

E o sono não vem. Mas como é que antes vinha?

O sono é um dos prazeres da vida. Outro prazer é o paladar. Mas nunca ouvi dizer que alguém tivesse perdido o paladar como se perde o sono.

É possível que a algum desfavorecido da sorte tenha lhe desaparecido o paladar. Reflito, então, que a falta do sono é igual à falta do paladar.

Porque são transcendentais à sobrevivência humana os atos de comer e dormir. Ambos têm a salutar função de alimentar o corpo.

E, se não há notícia de que tenham falhado as glândulas gustativas de alguém, no entanto nos jornais e revistas pululam pessoas se queixando de insônia. E como resolvem suas insônias os que são atacados por elas?

Fatalmente recorrerão aos soníferos, agentes artificiais do sono. Mas não pode uma pessoa tomar um, dois ou mais comprimidos todas as noites antes de dormir, pode criar uma dependência perigosa.

Então, como resolvem a insônia as vítimas dela? E, se há assim tantas vítimas de insônia espalhadas pelo mundo, por certo haverá já setores da medicina ocupados exclusivamente com doentes de insônia.

Raciocino assim, voltando ao que pensei antes, que não são as preocupações que levam à insônia. Acontece o seguinte: não podendo dormir, os insones em sua vigília anormal mergulham nas preocupações.

As pessoas normais vão para a cama absortas em preocupações, nem por isso deixam de dormir, até mesmo para fugir delas.

Os insones é que, impossibilitados de dormir, não têm outra coisa que fazer que não seja preocupar-se.

Não fosse assim, os que têm outras doenças, os endividados, os presidiários, os mal-amados, os gremistas, não dormiriam.

E, no entanto, todos dormem. Só não dormem os insones, embora tenham sono.

Como sei, pelos e-mails que recebo, que muitos leitores meus padecem de insônia, quero daqui enviar-lhes o meu respeito e minha solidariedade.

Pode ser que esta coluna por alguma forma os ajude a dormir nalguma noite.

***

O presidente do Grêmio, Duda Kroeff, após o jogo de anteontem, deu entrevista em que cometeu injúria contra mim.

Considero que a única forma de desagravar-me é pedir desculpas públicas pelo que disse, pois critiquei-o duas ou três vezes de modo civilizado e alto.

Como ele tem a aparência de que não pedirá desculpas, estará cavado um escuro abismo entre nós.

Postado por Sant`Ana