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Posts de dezembro 2009

Feliz Ano-Novo

31 de dezembro de 2009 8

Se eu tivesse que pedir alguma coisa ao Ano-Novo, iria pedir coisas praticamente impossíveis de serem conseguidas, embora sejam facilmente conseguidas.

Pediria que no ano que vem não se repetisse, em nenhum dos 365 dias, aquela execução bárbara havida agora em dezembro em Eldorado do Sul, quando um avô e um neto de apenas nove anos de idade foram degolados simplesmente por assaltantes dentro de sua casa.

Eu só pediria que ninguém mais injetasse dezenas de agulhas no corpo de nenhuma criança, como aconteceu lastimavelmente na Bahia e no Maranhão.

***

Se eu tivesse de pedir alguma coisa ao Ano-Novo que se avizinha, desejaria que fossem finalmente, depois de 40 anos do abandono penitenciário, construídas novas cadeias no Rio Grande do Sul, dando início, pelo menos, ao fim desse vergonhoso monumento à anticivilização que é milhares de presos se amontoando em cubículos imundos e a perversidade entre eles se consagrando pela entrega da administração das galerias nas mãos dos próprios detentos.

***

Se este Novo Ano tivesse de ser bom, que o fosse por não se fecharem mais hospitais como condenavelmente se vêm fechando entre nós, que se abrissem os hospitais disponíveis e fossem construídos novos estabelecimentos de saúde, ao contrário do que vem desastradamente acontecendo: a equação é desnorteante, quanto mais aumenta o número de pacientes mais diminui o número de vagas.

Que, de passagem, se acabasse com a fila para a cirurgia e para a consulta, que nos remete para o tempo das cavernas. Uma cirurgia de urgência só pode ser feita anos depois de agendada, quando já restam mortos ou mutilados os que apodrecem nas filas.

***

E que, antes que os homens de todas as nações se entendam sobre como vão diminuir as emissões e os desmatamentos, não mais saia o Obama rabanando da conferência do clima, clamando por ação dos outros países sem prometer qualquer ação dos seus EUA. Não mais fique na moita a China, não arredando pé do crescimento anual de 8% mesmo que isso contribua decisivamente para o envenenamento das paisagens e para o rumo do caos na sobrevivência da espécie humana no planeta.

Que, mesmo assim, em meio a esse suicídio lento a que se atira a humanidade para um fim rápido, mesmo que por milagre, cessem essas tempestades e inundações que tantas vítimas têm feito e tantas desgraças pessoais têm causado aos flagelados.

***

Que diminuam os escândalos políticos, que os homens sejam mais gentis e as mulheres mais condescendentes, que a paciência seja uma regra nos engarrafamentos e diminuam os assaltos, mas que, se aumentarem, pelo menos os assaltantes não matem desnecessariamente suas vítimas, que se levem os anéis mas que fiquem os dedos.

Que se elejam os melhores ou os menos ruins e que o entendimento prevaleça entre os homens, que se moderem o Irã e o Hugo Chávez, que a dupla Gre-Nal faça papel melhor que o de 2009 e, principalmente, não tenha mais apagão na energia elétrica nem na ternura dos corações.

Maldita Mega Sena

30 de dezembro de 2009 74

Na verdade, eu e muita gente não queremos ganhar na Mega Sena da Virada de amanhã.

Pela simples razão de que não queremos nos mudar de Porto Alegre ou de qualquer lugar em que morem os outros.

Ganhar na Mega Sena da Virada significa perdermos a nossa identidade. Se eu ganhar R$ 100 milhões, não serei o mesmo, não serei eu mesmo, serei outro.

***

Dirá o imbecil da obviedade que basta ganhar os R$ 100 milhões e não contar para ninguém, manter em sigilo que foi o ganhador.

Como se fosse possível manter em segredo que foi o ganhador!

Mesmo que, ganhando, você não mude de cidade e não conte nada para ninguém, as pessoas vão começar a desconfiar: um cunhado seu compra uma fazenda, um filho vai morar numa mansão, os familiares começam a usar carros estrangeiros do ano, em seguida o segredo será desvendado.

***

Ninguém acredita, mas uma bolada dessas vira um inferno na vida de um ganhador.

Simplesmente porque não há nada mais difícil que esconder dinheiro. Esconder dinheiro torna-se impossível para qualquer pessoa.

E, cá para nós, o bom de ganhar R$ 100 milhões é espalhar para todos que ganhou.

E, espalhando, em que virará a sua casa? Será uma romaria interminável até sua casa, obrigatoriamente você terá de se mudar.

Mas não se mudar de casa, mudar-se de cidade. Nem de cidade chega, mudar-se de país.

Mas quem é que disse que se torna feliz quem muda de país? Pelo contrário, o que todos nós sonhamos é em sermos felizes no nosso país, na nossa cidade, na nossa rua, na nossa casa.

Ganhar na Mega Sena da Virada, portanto, é uma encrenca.

E Deus nos livre dessa encrenca.

***

Se eu perguntar para mil leitores ou leitoras desta coluna se eles querem ir morar em Nova York, 999 dirão que não querem, de jeito nenhum.

Mas, se ganhar na Mega Sena, terá de morar em Nova York. No Rio de Janeiro é que não poderá ser. No Rio de Janeiro, se escolher morar por lá, em toda a parte que for gritarão: “Aquele ali é o ganhador da Mega Sena da Virada!”.

Um inferno!

***

O pior é que obrigatoriamente quem ganha R$ 100 milhões é obrigado a contratar pelo menos 20 seguranças.

E aí passa a não dormir todas as noites com medo dos seguranças.

Uma outra das 500 desvantagens é que uma das atrações da vida, que é fazer amigos, fica inviável: qualquer pessoa que se aproximar de você será considerada interesseira.

E não existe tormento maior do que não poder fazer amigos.

***

Com esta coluna, encontrei a fórmula de consolar todas as pessoas que não vão ganhar a Mega Sena da Virada amanhã.

Ninguém vai acreditar, vão zombar de mim, mas perder na Mega Sena é muito melhor do que ganhar.

Até mesmo porque alguém que vá ganhar amanhã a bolada não tem a mínima ideia do que vai fazer (ou não fazer) com o dinheiro.

Que diabo de prêmio é este que não se sabe o que se vai fazer com ele!

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora. 

Luminosa ideia

29 de dezembro de 2009 2

Enfim, uma grande ideia para resolver um grande problema.

Como se sabia, as grandes favelas cariocas estavam e estão dominadas por traficantes.

A polícia não punha os pés lá. De repente, o governador Sérgio Cabral teve a ideia de ocupar as favelas com a polícia.

O caos dava-se exatamente pelo Estado virar as costas às favelas e deixar que elas se organizassem (ou se desorganizassem) por si próprias.

Luminosa ideia esta de criar Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) para tomar de assalto os redutos dos traficantes nas favelas.

Por essa medida, instala-se permanentemente uma unidade policial vasta dentro da favela e vai aos poucos reduzindo-se o tráfico de entorpecentes naquele território.

Evidentemente que são necessários muitos recursos humanos e materiais para implantar o plano.

No entanto, já vão lá para sete grandes favelas as ocupadas pela polícia. E os resultados são os mais auspiciosos possíveis.

Um dia após o Natal, os policiais do Bope ocuparam o Morro dos Cabritos e a Ladeira Tabajara, em Copacabana.

Oitenta policiais ocuparam as duas favelas.
Havia três dias, os PMs aguardavam nos acessos aos dois morros o momento exato de início da ocupação para evitar uma reação do tráfico. No sábado, por volta das 7h, finalmente, eles começaram a ocupação.

Não houve resistência à chegada dos policiais. Não foram ouvidos tiros e a situação era de aparente tranquilidade. Logo em seguida, eram vistos moradores descendo o morro com suas cadeiras de praia.

Já quando, há semanas, a polícia ocupou os morros de Pavão-Pavãozinho e do Cantagalo, Copacabana e Ipanema, foi desencadeada forte reação por parte de traficantes, espalhando-se ações terroristas pelos dois bairros, um ônibus foi incendiado e outro atingido por uma bomba artesanal. Por ordem de traficantes, lojas nas imediações de Pavão-Pavãozinho foram fechadas.

Mesmo com a reação, a chegada da polícia às favelas foi comemorada pelos moradores.

A ocupação da Unidade de Polícia Pacificadora no alto do Cantagalo teve a presença pessoal do governador Sérgio Cabral, num ambiente de solenidade, a que não compareceram, no entanto, as entidades comunitárias: a polícia descobriu que tinham sido ameaçados de morte pelos traficantes todos os que comparecessem ao evento ou fossem favoráveis à implantação da UPP.

Embora ainda encontre um pouco de resistência do tráfico na Favela Cidade de Deus, onde a UPP foi instalada há um ano, não circulam mais por lá traficantes armados, e quase toda semana a polícia apreende drogas e prende suspeitos.

E nas outras favelas em que se instalaram as Unidades de Polícia Pacificadora é experimentado um período de muita tranquilidade e serena paz.

Na favela Dona Marta, os índices de violência despencaram. Lá que foi a primeira UPP implantada.

No Batan, em Realengo, a UPP expulsou milicianos. E, nos morros de Chapéu Mangueira e Babilônia, pôs-se fim a uma onda de invasões e arrastões que infernizava a vida do bairro Leme.

Isso demonstra que, quando as autoridades têm energia e determinação ao aplicar medidas criativas contra o tráfico e a violência, os resultados podem ser os melhores possíveis.

O esforço é gigantesco, mas surge a luz no fim do túnel do abandono e violências das favelas cariocas.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora.

Outro caso com agulhas

28 de dezembro de 2009 18

Não cessa o sacrifício do menino M.S.A., de dois anos e sete meses apenas, na Bahia.

Ele já foi alvo de duas cirurgias, que lhe retiraram cerca de 20 agulhas do corpo.

Na segunda cirurgia, feita há dias, foram retiradas 14 agulhas dos intestinos, da bexiga e do fígado.

E ainda há mais agulhas para serem retiradas de outras partes mais delicadas de seu corpo.

Além de ser submetido a mais de 40 torturas, cada uma das agulhas infiltradas em seu corpo significava uma sessão de crueldade, agora o menino se submete a cirurgias várias para retirada das agulhas, o que leva ao raciocínio de que essa criança é pequena demais para tantas intervenções.

Não é surpresa, portanto, que, apesar de duas cirurgias bem-sucedidas, o estado de saúde do garoto ainda seja considerado grave.

Eu insisto neste assunto
porque não posso ignorar o sofrimento dessa criança. Inocente, indefesa, viu cair sobre si pesadamente a mão do destino, que a submeteu a incontáveis torturas, cujas consequências persistem, apesar de ter sido libertada das mãos assassinas de seu padrasto, que durante meses a fio cravou as agulhas no corpinho da criança.

Que carnificina!
Como pode um corpinho frágil suportar tantas agressões, as agulhas e agora as cirurgias?

Pensava-se que este caso fosse solitário e até se podia imaginar que fosse inédito.

Qual nada! No Maranhão, foi preso na quarta-feira passada o autônomo Francisco Coelho Campos, na localidade de São Vicente Ferrer, como principal suspeito de ter infiltrado sete agulhas no corpo de seu filhinho de apenas dois anos de idade, a mesma idade do menino baiano que foi torturado da mesma maneira.

O suspeito é adepto da magia negra, da mesma forma que se apresentou, sob certa hipótese, o caso baiano.

Além das sete perfurações e incisões das agulhas, o ritual de magia negra a que o menino foi submetido compreendeu também as fraturas de cinco costelas, um braço e uma clavícula do garoto, o que deve ter causado na criancinha dores indizíveis.

Mesmo familiares do pai da criança, agora preso sob a acusação dos crimes, admitem que ele é adepto da magia negra. Notando-se, assim, que criminosos cruentos tentam se passar por religiosos.

Mas que religião é essa que enfia agulhas no corpo de uma criança. Não satisfeita, ainda provoca fraturas em cinco costelas, no braço e na clavícula de um menininho? Que religião é essa?

Como se fosse permitido a qualquer religião submeter pessoas a suplício, quando o fulcro central de uma religião deve ser o bem, jamais a agressão a qualquer adulto, quanto mais a uma criança de dois anos.

Em ambos os casos, o da Bahia e o do Maranhão, os dois acusados são pessoas analfabetas, rudes, distantes da civilização, mas isso não os exime de culpa.

Mas não basta a ignorância sobre o ato para compreendê-los. E a maldade? Não há ignorância que possa, na mente de uma pessoa, exceder ao escrúpulo sobre a maldade. Torturar alguém é fato que não pode justificar qualquer prática satânica, isto é crime puro, sem qualquer atenuante.

São dois fatos que revelam com extrema crueza o grau de falta de educação e civilização, a mais completa, em que vegetam populações brasileiras.

Mas isso não autoriza nem de longe a alguém martirizar uma criança.

Postado por Sant`Ana

Bota dilema nisso

26 de dezembro de 2009 20

Se você, leitora ou leitor, fosse a Justiça, ou fosse um ministro do Supremo, teria devolvido o menino Sean Goldman ao seu pai legítimo nos EUA, ou manteria o garoto com seu padrasto e sua avó no Brasil?

Nesta hora é que todos nós folgamos em não ter de decidir uma questão tão espinhosa. Melhor que não sejamos nós que tenhamos de contentar uma parte e desprezar a outra.

Que encrenca!
Qualquer que fosse a decisão, amassaria uma das partes.

Intuitivamente, todos nós respeitávamos o direito do pai biológico do garoto de tê-lo sob sua guarda, como afinal aconteceu na véspera de Natal, quando o menino foi recambiado para os EUA por decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal.

Mas como não dar importância ao enorme tempo em que o garoto ficou sob a guarda de seu padrasto e se afeiçoou ao lar brasileiro?

Também há que se considerar, como fator importante no caso, o fato de o pai biológico do garoto ter restado nos EUA sozinho, sem seu filho, depois que sua ex-mulher morreu no Brasil.

Se eu fosse o juiz do caso, faria um raciocínio simples: se vivesse ainda a mãe brasileira do garoto, que se separou do pai nos EUA e veio morar com o menino, fosse ela viva, não teria dúvida em deixar a criança sob sua guarda no Brasil.

Mas tendo ela morrido aqui em nosso país, ninguém mais legítimo para deter a guarda do garoto do que o pai. Ele detém mais legitimidade que o padrasto e a avó brasileiros.

Pesou também na decisão, com certeza, o detalhe de que era deixar o menino com seu pai ou com seu padrasto. Nesse caso, era absolutamente claro que o direito de guarda sobre o garoto era do pai, cujo laço de consanguinidade era direto com o menino.

Mas não foi fácil decidir. A avó do garoto mostrava cartazes escritos por Sean em que ele escrevia que desejava permanecer no Brasil.

A vontade da criança, nesses casos, tem valor relativo, pode muito bem ser contestada.

Adivinha-se que o menino quisesse mesmo permanecer com o padrasto e a avó no Brasil, o vínculo sentimental que se instalou entre os três é indesmentível.

Mas e o pai, como ficaria se o menino permanecesse aqui? De mãos abanando?

Como, tão pronto a decisão do ministro presidente do STF foi divulgada, os EUA se apressaram em aprovar, no Senado, a extensão de um programa de isenção tarifária que favorece o Brasil e outros países, a avó do garoto declarou: “Não esperava que meu neto fosse trocado por um acordo econômico. O meu país, o país do Sean, já que ele é brasileiro nato, vendeu uma criança”.

Dito assim, parece que houve uma violência. Mas, embora não visível, se nota a sensação da avó e do padrasto de que era muito forte e talvez indestrutível o argumento do pai biológico. Essas questões são quase sempre resolvidas levando-se em conta o vínculo sanguíneo, embora sempre tenha a contestá-lo uma realidade sentimental pungente, exatamente como aconteceu neste caso.

Foi triste ver aquela criança
embarcar no avião na quinta-feira com seu pai. Todos os que viram a cena pela televisão se indagavam se o coração do menino não estava partido, entre o afeto pela avó e pelo padrasto e o direito inquestionável do pai, pelo laço de sangue, de ter o seu filho junto de si.

O que será que se passava na mente e no coração de Sean?

Resta a esperança de que se entendam as partes para que o menino seja visitado em toda a vida pela avó e pelo padrasto.

* Texto publicado hoje na página 39 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

A mesma sensação

26 de dezembro de 2009 9

Onde passo nas ruas, as pessoas me falam da coluna que escrevi pela morte da minha cadelinha Pink.

As mesmas emoções, mesmíssimas, são sentidas por todos que são donos de cães. Eles se referem à afeição que se instala entre pessoa e cachorro, de tal sorte que o cão passa a ser uma pessoa na relação do lar, passa a compor de forma importante a família.

E todas as pessoas que me escrevem a respeito levantam exatamente as mesmas sensações decorridas no relacionamento com seus cães, a mesma festa que eles fazem pela presença do dono, a angústia do animal quando o dono se afasta.

Resta pelos cães que morreram a mesma infinita saudade, as recordações do cotidiano repleto de ternura entre o dono e o animal, cenas que jamais vão sair de nossa lembrança.

***

Foi assim que revivi todos os momentos que usufruí com a Pink quando li a mensagem abaixo transcrita. Em tudo o poema que a dona de um cãozinho que morreu se parece com a coluna que fiz à ocasião:

“Sant’Ana, sei o que estás sentindo, só quem tem o amor de um cão pode entender.

Também perdi meu Dinho, tinha 12 anos, era um poodle branquinho e pesava menos de três quilos.

Era o bebê da casa, e ainda sinto a presença dele comigo, mesmo tendo se passado nove meses.

De repente a Pink e o Dinho se encontraram lá no Céu. Porque, se existe o Céu, os cães com certeza são os maiores merecedores dele.

Veja o que escrevi no dia em que ele se foi:

Ao cão Dinho
(14/04/1997-14/03/2009)
Era você a primeira figura que eu
Enxergava ao acordar de manhã.
E que figura!
Era você que me amava
Incondicionalmente, sem se
Importar com meus gestos,
Atitudes ou caráter.
Era você que abanava o rabinho
Quando eu abria a porta e vinha
Me encontrar tão feliz que não
Conseguia conter o resto do
Corpo já debilitado pela doença
E cansado pelo tempo…
Era você que me proporcionava
Tanta alegria que muitas vezes
Eu chegava a renunciar
Passeios, viagens, etc… Só para
Cuidar de você.
Era você um exemplo de amigo
Que só quem tem um cão pode
Entender.
Descanse em paz meu
Amiguinho!
Deus foi generoso porque deu
A você uma família que o
Amou e o cuidou como se você
Fosse um membro dela.
Deu-lhe uma vida longa e feliz e
Uma morte tranquila e assistida.
Nunca vou esquecer você meu
Cachorrinho!

(As.) Vera Pereira (veraecp@hotmail.com)

* Texto publicado hoje na página 39 de Zero Hora.

Postado por Paulo Sant`Ana

Cinquenta anos de perucas

24 de dezembro de 2009 3

Uma vez escrevi que a vida era a arte do passatempo. Sob certo aspecto, o passatempo é uma forma de driblar a paciência.

Chego agora à conclusão de que a vida é a arte da paciência. A paciência de esperar o elevador, por exemplo, pode existir algo mais cruciante? Talvez só a paciência do desempregado para esperar emprego.

A paciência infinita que se tem de ter, outro exemplo, para esperar no engarrafamento. E a inveja que se tem, com aqueles carros todos parados, da fila do lado, que anda enquanto a fila em que se está emperra…

Não existe paciência mais resignada do que a da fila do engarrafamento. Porque é a paciência de quem não tem outra coisa a fazer, a não ser esperar que desengarrafe o trânsito.

O pior do engarrafamento é que, quando se chegar ao fim da fila, vai se entrar noutra rua ou avenida onde nos esperará outro engarrafamento.

E a ausência de alternativa é massacrante. Não dá para ir pelos ares, não dá para se enfiar no fundo da terra, não adianta querer deixar de dirigir e optar pelo transporte coletivo ou seletivo, estão ali ao lado da gente os táxis e as lotações também engarrafados.

A solução seria mudar-se de cidade. Mas como fugir da vida que se leva aqui, o trabalho e a família estão aqui, o engarrafamento é o destino desesperado, sem solução?

Esses dias, ouvi um empresário executivo dizer que a maior parte do seu tempo de trabalho é ocupada escrevendo ou lendo no computador, enquanto está se deslocando pelo trânsito de São Paulo como passageiro de táxi.

Vejam que chegou ao ponto de as pessoas passarem a maior parte do tempo dentro dos táxis.

Exatamente como esses pobres e infelizes empregados humildes que levam tanto tempo sendo transportados pelos ônibus quanto o tempo que levam trabalhando: quatro horas para ir ao trabalho, mais quatro horas para voltar do trabalho, um tempo inútil, um vazio, a vida se desenrolando lá fora e a pessoa vendo-a consumir-se nas filas dos engarrafamentos.

É preciso ter paciência. Devia haver cursos para se adquirir paciência. Esperar pela sorte, esperar pelo transporte, esperar pela consulta, depois esperar pela cirurgia, esperar que a vida mude, esperar pelo fim de semana, esperar na vida pela morte.

Haja paciência para esperar por tudo.

Ora, se me lembro, faz mais de 50 anos que eu era guri ali na esquina da Barão do Triunfo com a 20 de Setembro, entre todos nós adolescentes agitados que não sabíamos que éramos pobres e não tínhamos tempo para sermos infelizes, sobressaía o Joel Silveira. Eu ia chamar agora o Dilamar Machado para que ele recordasse comigo o Joel Silveira ali da esquina da Barão. Mas o Dilamar também morreu, como o Joel. Talvez eu chame o Francisco Teles, o Chiquinho há de lembrar melhor.

E o Joel casou-se com a Jurema e fundaram um salão de beleza. E a semente daquele salão virou a empresa Perucas Jurema.

Vamos deixar que o filho do Joel fale:

“Prezado Paulo Sant’Ana. É com imensa alegria que a Perucas Jurema, após 50 anos de atividades, realiza o desejo de patrocinar a sua prestigiada coluna.

A partir da próxima quinta-feira, dia 24/12 (esta edição), estaremos no rodapé da página mais lida do veículo de informação mais importante do sul do país.

Nossa história, tu bem sabes como começou, pois estavas próximo da pessoa que a idealizou.

Meu pai. Teu amigo e companheiro de juventude Joel Silveira, que, se vivo estivesse, estaria muito feliz e orgulhoso.

Desejo a ti e a tua família muita saúde e felicidades, um bom Natal e um grande 2010. (As.) Emílio Silveira (emiliosilveira@terra.com.br).

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora.

Postado por Sant`An

Libelo à Infraero

23 de dezembro de 2009 18

Dezenas de pessoas me têm reclamado de que o aeroporto Salgado Filho está fechado para voos de chegada e saída, todos os dias, das 24h às 6h15min. Mas quando se trata de salvar vidas, não tem explicação que o aeroporto não abra naquele espaço de tempo. Tal o libelo que se depreende da eloquente correspondência que recebi de um cirurgião que salva vidas:

“Naquela terça-feira, 11 de setembro de 2001, quando os muçulmanos ensandecidos puseram as torres gêmeas para dançar e fizeram um grande rombo no Pentágono, houve a maior paralisia aérea na história americana de todos os tempos. Com o Capitólio e a Casa Branca ainda intactos, e os inimigos lambendo os beiços, ninguém podia decolar, ninguém podia pousar, e a ordem era abater, sem questionar, qualquer coisa que voasse e parecesse maior do que uma gaivota.

Pois nesse clima de pânico absoluto, com medo e paranoia servidos em grandes bandejas de terror, um único voo foi autorizado em todo o território americano: um Lear Jet decolou de Los Angeles, no meio da tarde, a caminho de Miami. Por que a exceção? Porque duas pessoas na Flórida dependiam, para continuarem vivendo, de órgãos doados na Califórnia.

Como se percebe, em lugares civilizados, mesmo em tempos de guerra, a preservação da vida é prioritária.

Uma outra terça-feira, 15 de dezembro de 2009, anoitece em Porto Alegre, tudo parece estar em paz, e a única briga no espaço aéreo estava reduzida a um pequeno conflito de quero-queros que disputam território na cabeceira de uma das pistas do aeroporto local.

Uma chamada da Central de Transplantes de Santa Catarina, que tem sido uma parceira exemplar dos gaúchos oferecendo ao RS todos os órgãos que lá não são utilizados, e a informação de que dois pulmões perfeitos estavam à disposição da Santa Casa, o hospital onde foram feitos até agora dois terços dos transplantes de pulmão do Brasil.

A retirada estava programada para se iniciar às 22h em Caçador (SC) e isto significava tempo hábil para o deslocamento das equipes no avião gentilmente disponibilizado pelo governo do Estado.

E aí começaram os problemas: o voo de volta se faria entre 2h e 3h da madrugada, e fomos informados de que isso seria impossível porque o aeroporto está fechado, por conta de obras de ampliação da pista, das 24h às 6h15min.

Depois de argumentarmos que para um avião pequeno não precisaríamos de toda a pista e que já pousamos em pistas laterais em outras ocasiões, ainda tentamos sensibilizar os interlocutores com a informação verdadeira de que provavelmente os pobres candidatos ao transplante, pela gravidade de suas condições, não teriam uma segunda oportunidade, mas nada disso funcionou.

Havia em cada negativa aquela prepotência pré-orgásmica que caracteriza o anencéfalo no exercício máximo do poder.

Desesperados à procura de uma solução, tentamos identificar alguém que pudesse dar a ordem mágica que restabelecesse a racionalidade, mas descobrimos que, se essa pessoa existe, ela está completamente blindada pela quase comovedora descerebração dos seus súditos.

Como última alternativa, apelamos para o coordenador da Secretaria de Saúde de Santa Catarina, para que tentasse atrasar o início da retirada dos órgãos. Essa decisão é de risco, porque se parasse o coração do doador todos os outros órgãos estariam perdidos. Como o doador parecia estável, a retirada foi perigosamente transferida para as 2h da madrugada para que, completada até as 5h, pudéssemos voltar a Porto Alegre, em condições de cumprir as normas burocráticas que determinam que os pousos só sejam liberados depois das 6h15min.

A pista parecia limpa, nenhum indício de bom senso ou de sensibilidade na faixa recém pintada do acostamento. Até os quero-queros se recolheram. Acho que de vergonha!

A Olga e o Mario, que tantas vezes flertaram com a morte nos últimos meses, estão felizes com seus pulmões novos, e nem imaginam o quanto os seus sonhos de renascimento foram ameaçados pela burocracia insensível, desumana e abjeta! (as.)” José J. Camargo, médico e professor universitário

Postado por Paulo Sant`Ana

Pena retributiva

22 de dezembro de 2009 25

Não há quem tenha assistido no Fantástico àquele homem confessando que enfiara dezenas de agulhas no corpo de um menino de dois anos de idade que não tenha pregado a pena de morte para aquele torturador.

A cena da confissão dele na televisão foi tão pateticamente comovente, que muitas pessoas com quem conversei disseram que só a morte daquele homem não bastava: ele tinha de ser torturado.

Imaginem a revolta que o fato causou.

 

***

Se fosse um adulto a vítima do torturador, já seria revoltante.

Mas, em se sabendo que o menino de dois anos era conduzido por dias, meses a fio, para as sessões cruciantes de introdução das agulhas no seu corpo, chega de conversinha fiada, só a pena de morte pode solucionar um caso desses.

***

E vendo aquele homem horrendo declarar que sua finalidade era matar o menino para vingar-se da mãe dele, ou seja, cada briga que tinha o torturador com sua namorada, a mãe do menino, servia de convocação do garoto para as sessões de intermináveis torturas, sente-se na televisão, sinto dizer, a vontade de cair sobre aquele monstro e esganá-lo.

Desculpem, mas a ideia que passou pela cabeça de todos diante daquela cena foi de vingança. Era todo o Brasil odiando o torturador confesso.

Como é que pode caber no cérebro doentio daquele homem tanta maldade?

Ver aquilo na televisão é um exercício de renúncia, continuar vivendo é indigno para todos nós, tal a vergonha de que somos possuídos por pertencer à mesma espécie daquele torturador (deixo de chamá-lo de assassino porque a criança não morreu).

***

E também ocorre a todos nós, que tomamos conhecimento daquele fato e vimos na televisão a confissão do autor pelo crime hediondo que violenta nossa consciência, que vivemos num círculo filosófico de existência que permite esse e outros tipos de atrocidade.

É muito incômodo e brutal ser humano entre humanos.

Postado por Paulo Sant`Ana

O trator de Lula

21 de dezembro de 2009 58

O presidente Lula da Silva deve estar rindo sozinho: a candidata Dilma Rousseff subiu na pesquisa Datafolha para 23%, diminuindo para 14 pontos a diferença entre ela e José Serra. Na pesquisa de agosto, a diferença entre José Serra e Dilma Rousseff variava entre 19 e 25 pontos.

Além disso, ao entrar no último ano do segundo mandato, o presidente Lula ostenta o maior patamar de popularidade da história das pesquisas, desde que elas são realizadas: Lula tem 72% de popularidade, um número estonteante.

***

Todos os números favorecem diretamente o presidente Lula. Ele retirou de sua cartola a candidatura de Dilma Rousseff, quando ninguém pensava nela, contra tudo e contra todos no PT, que queriam um candidato com petismo mais tradicional.

Aos poucos, foram se amansando as reações contrárias a Dilma dentro do PT, a candidatura dela foi se consolidando no seio do partido e agora ameaça também consolidar-se entre o eleitorado.

***

Por incrível que pareça, num eleitorado brasileiro de que fazem parte 58% de pessoas que não têm saneamento básico (esgoto), grande parte da opinião pública não sabe que Lula não pode candidatar-se a uma segunda reeleição.

E o que a pesquisa do Datafolha de ontem mostra é que aos poucos parte significativa do eleitorado está compreendendo que Lula não pode ser candidato. E se quiser agradar ao presidente deverá votar em sua candidata preferencial.

***

Faz parte da estratégia de Lula, estranhamente, que Ciro Gomes seja mantido como candidato à presidência para os efeitos das pesquisas.

Ciro é aliado de Lula e fez com ele um pacto de manter sua candidatura até onde for possível.

E não é à toa que as pesquisas dizem que, caso Ciro não seja candidato, os 37% que José Serra ostenta passarão para 40% ou mais.

***

A engenharia de Lula consiste em transferir aos poucos, com ações governamentais orquestradas, toda a imensa popularidade do presidente para Dilma Rousseff.

Parece que Lula, nessa sua curiosa e até agora acertada estratégia, em determinado momento da campanha presidencial, fará ver ao eleitorado o seguinte: “Se vocês estão gostando da minha gestão e querem que ela se repita, votem em Dilma”.

Lula está com a faca e o queijo na mão e chega a ser surreal que possa estar materializando Dilma como candidatura viável, ela que nunca disputou outras eleições, fato importante quando se sabe que Lula tentou por três vezes ser eleito e José Serra vai para a segunda tentativa em eleger-se.

Com Dilma é diferente, ela nunca concorreu. E só este detalhe basta para que se considere, em face da pesquisa Datafolha de ontem, que ela pode vir a tornar-se um emergente e surpreendente fenômeno eleitoral.

***

A questão, pois, a somente 10 meses da eleição, é saber-se se José Serra resistirá ao caos das enchentes em São Paulo e se o imenso caudal de popularidade de Lula, 72% na pesquisa de ontem, se transferirá para sua candidata com o correr do tempo.

A sorte está lançada. Ou Serra se firma na liderança das pesquisas, ou cede diante do trator inédito da popularidade de Lula, que poderia ser capaz de transferi-lo para Dilma.

A minha opinião é de que se elege Dilma.

* Texto publicado hoje na página 51 de Zero Hora.

Postado por Sant`Ana

Jeito de falar

19 de dezembro de 2009 5

O vice-presidente da República, José Alencar, vive há anos sério dilema de saúde, tendo sofrido já 15 cirurgias ao redor do intestino, devendo já ter reconstituído a bexiga.

Ele vive uma odisseia da saúde que comove todas as pessoas que dele têm conhecimento.

Esses dias, ao encontrar-se com Lula, o presidente procurou consolá-lo com aquele jeito peculiaríssimo de falar: “Olha, Zé, tu estás muito melhor agora do que quando tu estavas são”.

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Na semana passada, o Brasil inteiro assistiu pela televisão aos cavalarianos da PM de Brasília investirem de modo brutal contra os manifestantes que à frente do palácio governamental pregavam o impeachment do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda.

As imagens chocaram porque davam a impressão de que um governador corrupto, apanhado pela câmera de televisão enchendo os bolsos de dinheiro correspondente a um mensalão, estava a defender sua locupletação com a ajuda da cavalaria.

Os cavalos passavam por cima de alguns manifestantes que caíam. Parecia também um governo ditatorial oprimindo seu povo nas ruas.

Mas magistral mesmo foi a explicação do coronel PM que comandou as tropelias e os espancamentos: “Os cavalos foram para cima dos manifestantes, alguns atropelaram-nos com violência, mas os animais não tiveram a intenção”.

A intenção, claramente, foi do próprio coronel.

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E, como dizia a minha prima Dolores: “Ando em busca de um homem. Marido eu já tive”.

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Recebi algumas mensagens de leitores dando conta de que em Paris as bicicletas de aluguel estão sendo furtadas e danificadas, como no Rio de Janeiro.

Mas o leitor João Inácio Ribeiro (joaoinacioribeiro@gmail.com) me manda dizer: “Moro em Dublin, Irlanda, tenho 27 anos e há quatro anos resido aqui. O sistema de bicicletas de aluguel foi implantado aqui há três meses e é um absoluto sucesso”.

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Impressiona-me o número de brasileiros que me leem na Europa. Em Barcelona, o furto de bicicletas é pequeno. Um leitor manda informações de lá sobre o sistema que faliu no Rio em face dos furtos e da depredação:

“Prezado Paulo Sant’Ana!

Gostaria de explicar como funciona o sistema público de bicicletas aqui em Barcelona, que foi instalado há mais de três anos. Para ter acesso ao sistema, a pessoa interessada deve fazer um cadastro na internet, preenchendo um formulário que solicita dados como identidade, endereço e um número de cartão de crédito. Ao aceitar, estará formalizando um contrato de uso com a empresa que gere o sistema e recebe em casa, alguns dias depois, um cartão personalizado que dá direito ao uso. É aí que me parece morar a grande diferença.

Paga-se, através do cartão, uma anuidade de 30 euros, que dá direito ao uso do sistema. Cada vez que o usuário retira uma bicicleta em um ponto, ele tem até meia hora para entregar em outro ponto sem custo adicional. Caso não entregue nesse tempo, serão debitados do seu cartão alguns centavos por minuto (não sei exatamente o valor), e, se em duas horas a bicicleta não for devolvida, o usuário é bloqueado pelo sistema e se debita no cartão uma multa que deve ser o valor correspondente ao da bicicleta.

Os pontos de partida e entrega são interligados, basta o usuário aproximar o cartão personalizado e a máquina libera a bicicleta. Para devolução, basta colocar a bicicleta no suporte. Não existe atendimento. Pode-se utilizar a qualquer hora do dia e da noite. Claro que no Brasil seria uma utopia: em relação à barbárie, estou de acordo contigo. Obrigado pela atenção e grande abraço. (as.) Rafael Bazzan, estudioerbb@coac.cat”.

* Texto publicado na página 51 da ZH dominical.

Postado por Paulo Sant`ana

A ajuda aos pobres

19 de dezembro de 2009 5

Quando se aproxima o Natal, é surrada a expressão, tanta gente fala nela, mas não sinto temor em abordá-la. O nosso coração aperta na lembrança dos necessitados.


E, por experiência própria, volto também meu pensamento para todos os necessitados, não só os pobres e os despossuídos, mas para todos os que de alguma forma se achem desfavorecidos, seja pela tristeza, seja pela depressão, por qualquer outra doença ou situação pessoal de gravidade.

Mas, nesta época das festas, ocorre-nos, às vezes remotamente, que devemos auxiliar os necessitados. E a mim sempre ocorre lançar apelo em favor de duas entidades que são campeãs entre nós na ajuda aos necessitados: o Instituto Espírita Dias das Cruz e o Asilo Padre Cacique.

Ainda outro dia, o Tulio Milman, na página 3 de ZH, lembrava que o Asilo Padre Cacique gasta R$ 900 por mês com cada um dos seus idosos internos, dedicando-lhes alimentação especial, atendimento médico, fisioterapia, medicamentos, além do usufruto de suas instalações e dormitórios, enquanto um interno da Fase, antiga Febem, custa aos cofres do Estado R$ 7 mil por cada interno, o que daria para pagar escola particular e hotel de várias estrelas.

Pois é nesse sentido que divulgo, em pleno Natal, o apelo do Instituto Espírita Dias da Cruz:

“Querido amigo Paulo Sant’Ana. Quando lemos as suas colunas, tomamos cada vez mais consciência de como é difícil conviver com as deficiências, sejam elas físicas ou não, e, principalmente, quando representam um impedimento em nossas atividades. Todavia, é também difícil, amigo Sant’Ana, conviver com a extrema pobreza, com a fome, quando vemos os cem necessitados que acorrem diariamente a esta Casa, fugindo da chuva, do frio e da fome, buscando em nosso albergue o banho, a cama limpa, o prato de comida e, principalmente, o acolhimento fraterno; quando vemos os olhos cheios de gratidão das 160 crianças de nossa creche, não só pelo acolhimento, orientação, higiene e alimentação que lhes proporcionamos, mas, principalmente, pelo carinho que lhes dispensamos; quando recebemos o agradecimento dos maltrapilhos ao lhes ofertarmos uma camisa, uma calça, um chinelo ou um sapato; quando observamos a alegria das grávidas no oitavo mês ao receberem de nós o enxoval para seu futuro bebê; quando somos procurados por muitos moradores de rua que manifestam o desejo de sair da atual situação em que se encontram; quando vemos a alegria dos que concluem nossos cursos profissionalizantes tendo a possibilidade de obter um trabalho remunerado. Tudo isso faz com que nos sintamos inteiramente recompensados e felizes com o trabalho estafante, porém altamente gratificante, que esta Casa realiza.


Queremos agradecer e transferir essa alegria a todos os que nos ajudam, em especial a você, amigo Sant’Ana, que sempre nos apoiou nos momentos mais difíceis, bem como aos leitores que nos auxiliam com suas contribuições através dos boletos bancários encartados nos jornais, o que nos possibilita manter a continuidade do nosso trabalho social. Aproveitando os festejos de mais um Natal que se aproxima, estaremos, dentro de alguns dias, lançando mais um encarte no jornal em favor deste Instituto, esperando contar com a sua valiosa colaboração.


Os auxílios poderão ser depositados em nossa conta no Banrisul, agência 0100, conta corrente nº 06.075290.0-6.


Um grande abraço da diretoria desta Casa, com votos de um Feliz Natal e um Ano-Novo pleno de saúde e realizações. Atenciosamente, (as.) Wilson Uchoa Colares, presidente do Instituto Espírita Dias da Cruz”.

*Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora

Postado por Sant`Ana

Bicicletas pelos ares

18 de dezembro de 2009 37

O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e o prefeito da Cidade Maravilhosa, Eduardo Paes, em viagem à Europa, ficaram abismados quando viram como funciona lá o sistema público de aluguel de bicicletas, integrado às linhas do metrô de Paris.

Por esse sistema, o público aluga uma bicicleta num ponto e pode dispensá-la em outro lugar bem distante, bastando para isso fazer um pagamento nos postos de partida ou chegada.

E resolveram implantar o sistema no Rio de Janeiro, antes mesmo da Copa do Mundo 2014 e da Olimpíada 2016.

Em apenas quatro dias de funcionamento do sistema, das 180 bicicletas postas à disposição dos usuários, 56 foram furtadas e outro tanto de trancas foram estouradas.

Um vandalismo assustador.

Foi tornado assim inviável o sistema de bicicletário público do Rio de Janeiro em uma penada.

As trancas das bicicletas, consideradas seguras, foram arrebentadas e não se soube mais notícia dos veículos.

Em Paris, o sistema funciona
há dois anos, sem furtos e sem vandalismo.

Um choque cultural. Um choque de educação. Talvez o governador do Rio de Janeiro e o prefeito carioca, bem-intencionados, tivessem se impressionado com a escolha do Rio para a Copa do Mundo e para a Olimpíada e associaram esse fato à declaração insistente do presidente Lula, associada à realidade, de que o Brasil se prepara para ser a quinta economia do mundo.

Mas é fato inquestionável na realidade brasileira que a importância econômica do Brasil como nação nada tem a ver com o Índice de Desenvolvimento Humano de nosso país, por sinal figuramos no 75º lugar entre as nações nesse índice.

Quinto lugar em desenvolvimento econômico, 75º lugar em desenvolvimento humano.

Por isso é que, dos 5,5 mil municípios brasileiros, apenas 157 possuem estabelecimentos públicos de Ensino Superior.

Diz o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas que “precisamos de um esforço enorme do ponto de vista de educação, saúde e cultura”.

Que o digam as bicicletas de aluguel
do Rio de Janeiro. E que o diga o nível de vandalismo nos monumentos, nas praças, nos equipamentos de logradouros e até mesmo nos postes de iluminação de nossas cidades, patrimônio inteiramente destruído, em nível desanimador e assustador, pela população.

É sonho querer instalar bicicletário público de aluguel nas cidades brasileiras, assim como qualquer serviço correlato.

Basta dizer que deixa todo mundo estupefato o número recorde e gigantesco dos trotes nos telefones de utilidade pública.

No 190, apavorando os seus responsáveis, o número de trotes suplanta à goleada o número de telefonemas sérios e objetivos.

Não somos um povo civilizado.
Pelo contrário, somos um povo dedicado à barbárie, à desordem e à destruição.

E não adianta nada a parte educada e civilizada da população tentar se afastar ideologicamente dos bárbaros. Os bárbaros são componentes do nosso povo e todos nós sofremos as consequências desse atraso que se pode chamar de milenar, se se for calcular o tempo que o Brasil levará para tornar-se uma nação civilizada e educada.

Mesmo assim, numa perversidade à realidade brasileira, o mundo nos escolhe para sermos sede da Copa e da Olimpíada.

É sem surpresa que, logo que somos escolhidos, voltamos nossos olhos para a segurança nesses eventos, chamando desde logo as Forças Armadas para protegê-los.

Postado por Sant`Ana

Mais de 40 agulhas

17 de dezembro de 2009 17

Intriga a polícia, intriga a opinião pública e intriga os médicos o menino de dois anos, residente em Ibotirama (BA), que foi encontrado com mais de 40 agulhas de aço espalhadas pelo interior de seu corpo, conforme revelaram os exames de raio X.

A mãe do menino suspeita de que o filho tenha sido vítima de um ritual de magia negra.

Dizem os médicos que, se o garoto tivesse engolido as mais de 40 agulhas, elas teriam de estar depositadas em seu aparelho digestivo.

Não tem explicação, mesmo que se trate de uma criança, que como se sabe até os sete anos é um ser que não tem dominância cerebral e pode praticar atos correspondentes a um idiota, que uma criança engula 40 agulhas sem mostrar-se avessa a essa ingestão.

O mais provável é que as agulhas tenham sido incrustadas na pele do menino.

Mas, cá para nós, é possível que agulhas naveguem pelo corpo humano (uma agulha está localizada no pulmão)?

O temor dos médicos diz que sim. Eles estão preocupados com que alguma agulha vá agredir um órgão vital. No caso, o coração.

O menino está internado em uma Unidade de Terapia Intensiva no hospital da cidade de Barreiros (BA), em estado grave.

O sintoma que alertou a mãe do menino foi dor na barriga.

Eu acho este caso surreal. O suspeito de magia negra é o padrasto do menino, que havia saído com ele até a casa de um desconhecido, no dia anterior ao aparecimento dos sintomas doloridos, e ontem foi interrogado pela polícia.

Mas como pode alguém entregar-se à prática macabra de enfiar mais de 40 agulhas na pele de um menino?

E será possível que as agulhas possam migrar dentro de um corpo, de um lado para outro, sem que na pele tenha ficado qualquer vestígio de perfuração com o objeto?

Que caso estranho! A possibilidade de que uma agulha vá parar no coração, preocupação dos médicos, me faz intuir que é natural que agulhas se movimentem pelo corpo. Pelas artérias ou pelas musculaturas? Não sei, eu sou leigo, mas acho esse caso fantástico, nem sei se há notícia de que não seja inédito.

Para mal dos pecados, 17 agulhas foram encontradas no estômago do garoto, induzindo que foram engolidas.

Os médicos se recusam a retirar as agulhas do corpo do menino porque iriam agredi-lo com as incisões em várias partes do corpo.

Mesmo a agulha localizada no pulmão não impede a respiração do menino, embora tenha comprometido o funcionamento do órgão.

Este caso não me sai da cabeça, talvez porque eu tenha horror de qualquer injeção no meu corpo.

E fico a imaginar como deve ter sofrido essa criança com mais de 40 agressões prolongadas de incisão demorada das agulhas sob sua pele.

As ocasiões que mais me abalam no ofício de escrever são as que tratam da capacidade de maldade dos seres humanos para com seus semelhantes, bem presente e eloquente neste episódio.

Como pode um verdugo mostrar tanta impiedade a ponto de cravar mais de 40 agulhas no corpo de uma criança, cada uma com 4,5cm de comprimento?

E, pela mentezinha do menino, o que se passava quando era implacavelmente agredido pelas incisões?

Não tenho dúvida de que a criação pecou redondamente quando fabricou a mente humana e permitiu-lhe o defeito de incorrer no exercício da crueldade.

Resto atônito e elevando aos céus uma oração pela salvação desse menino.

*Texto publicado hoje na página 87 de Zero Hora

Postado por Sant`Ana

Linguagem do povo

16 de dezembro de 2009 57

O presidente Lula da Silva escandalizou certos círculos oficiosos ao declarar que queria tirar o povo da merda.

Foi criticado por mandar às favas o protocolo, o respeito e a majestade do cargo e pronunciar essa palavra considerada de baixo calão.

Mas se deve levar em conta que nenhum prejuízo teve Lula ao proferir a palavra escatológica.

Enquanto que, na zona de interesse do presidente da República, que é a de manter os altos índices de popularidade que desfruta nas pesquisas, foi grande o lucro de Lula, o povão adora quando ele fala a linguagem do povo, sem rebuços, sem tergiversações.

Não há forma mais apropriada de definir-se o povo brasileiro senão de que ele está na merda.

Não pode ser outra a visão de quem fica sabendo que, malgrado todos os investimentos governamentais no setor de saneamento básico, somente daqui a 66 anos o Brasil terá conseguido estender os serviços de esgoto a toda a população.

Hoje, um número aterrorizante, apenas 42% da população brasileira é atendida por coleta de esgoto.

Literalmente, como Lula afirmou, o povo está na merda.

Quando se sabe que na Roma antiga dos Césares, há mais de 2 mil anos, a capital do império era dotada de abastecimento de água e coleta de esgotos, pode-se medir daí o nosso subdesenvolvimento.

Perto de Roma, que tinha na época do império uma população em torno de 1 milhão de habitantes, nós estamos vivendo ainda a época das cavernas, apesar dos contrastes: o Brasil já está atingindo quase a marca de um telefone celular para cada habitante, enquanto alastra-se entre a população o uso espantoso de computadores.

Mas não é para os que usam computadores e quase não é para quem possui celulares que o presidente Lula fala. Ele fala para os 58% dos brasileiros que não possuem esgoto em suas habitações.

Por sinal, foi para defender e proteger esses despossuídos que ele foi eleito, daí o Bolsa-Família.

E não teria altos índices de popularidade nas pesquisas um presidente que falasse para as elites e tivesse o cuidado de não pronunciar palavras de baixo calão.

Assim, falando a linguagem que o povo fala nas ruas, Lula conquista o povo e pode ser que consiga mesmo eleger o seu sucessor.

Para o povão, pegou bem e soou amavelmente que o presidente estivesse preocupado em tirar o povo da merda.

E isso é o que interessa, enfim, para um governo popular.

Pois é preciso que se entenda que esse povo que não tem esgotos — isso é que ninguém entende —, no entanto, tem o direito a voto. Esses quase 100 milhões que não têm esgoto votam, elegeram Lula e são contabilizados nas pesquisas de popularidade do presidente.

Daí o milagre de comunicação de Lula, que espanta a todos os observadores.

Um presidente que usa a linguagem do esgoto para quem não tem esgoto está fadado mesmo à consagração.

Se Lula tivesse dito que queria tirar o povo dos excrementos ou dos coliformes fecais, só a elite o entenderia.

merda, todo mundo entendeu.

*Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora

Postado por Sant`Ana