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Posts de janeiro 2010

Soneca na sinaleira

30 de janeiro de 2010 8

Aconteceu uma cena notável, quinta-feira passada, na sinaleira da Rua Bogotá, esquina da Avenida Assis Brasil, Zona Norte.

Eram sete horas da manhã e um motorista embriagado dormiu no volante, congestionando e atrapalhando todo o trânsito. Uma fileira imensa de carros ficou atrás do veículo dirigido pelo embriagado.

O nosso repórter de trânsito, Mauro Saraiva Jr., que chegou junto com a polícia, acordou o motorista embriagado e eu ouvi a entrevista na Gaúcha.

– O senhor está embriagado?

– Negativo.

– O senhor está se sentindo bem?

– Positivo.

– O senhor aceita se submeter ao bafômetro?

– Positivo.

– Por que o senhor ficou parado na sinaleira?

– Parei por causa da blitz.

O fato é que não havia blitz nenhuma na sinaleira, não se sabe como o bebum enxergou uma blitz.

***

Afora esse fato singular, as pessoas estão dormindo nas sinaleiras de Porto Alegre.

Conheço inúmeros motoristas que tiram sonecas nas sinaleiras. Um deles me disse que quando está com bastante sono se dirige para a esquina das Avenidas Princesa Isabel e João Pessoa e forra o poncho dormindo naquela sinaleira de três tempos. Demora, demora, o motorista tira uma pestana prolongada.

***

Para tratamento sonoterápico, sugiro aos motoristas que se dirijam à Rua Lucas de Oliveira, que atravessa a cidade do Partenon até a Auxiliadora: não existem sinaleiras mais demoradas e frequentes.

A Avenida Assis Brasil, onde em uma das sinaleiras o motorista bêbado foi apanhado em sono profundo, dá pra parar o carro na sinaleira, descer do veículo, ir comprar um refrigerante e frutas e voltar para o volante a tempo de seguir depois que o sinal abre.

***

Quem vem pela Avenida Praia de Belas na altura do Pão dos Pobres e quer converter à esquerda para entrar na Avenida Aureliano de Figueiredo Pinto, prepare-se para dormir na sinaleira. Quando passo por ali, vejo o ronco dos motoristas confundir-se com o do motor dos carros.

No Laboratório do Sono, o Dr. Dênis Martinez costuma receitar uma infalível receita contra a insônia: dirigir 15 dias seguidos no trânsito de Porto Alegre. Não há quem resista e não pegue no sono ao parar nas sinaleiras da Capital.

E há duas sinaleiras que estão ficando famosas pelo sono que provocam nos motoristas que as cruzam: a da Faixa Preta (Dr. Campos Velho), esquina da Avenida Cavalhada, e a da Avenida Ipiranga, esquina da Borges de Medeiros, que já ganharam até apelidos dos motoristas porto-alegrenses: Dormonid e Lexotan.

*Texto publicado na página 47 de ZH Dominical

Sístole e diástole

30 de janeiro de 2010 6

Descobrimos, ainda a tempo, que nós, brasileiros, estávamos descuidados com a saúde do nosso presidente Lula.

Assistimos ao esforço hercúleo do presidente atingir, só em 2009, 83 dias viajando pelo Brasil e ainda 91 dias no Exterior, visitando 31 países. Três meses viajando pelo Exterior, quase outros três meses viajando pelo Brasil.

São seis meses só de viagens. Só quem viaja sabe o quanto isso é desgastante.

E só agora, depois da crise hipertensiva de Lula às vésperas do embarque para Davos, na Suíça, é que fomos perceber que descuidávamos da saúde do presidente.

Esse incidente é que afinal nos levou a dar maior atenção à saúde presidencial.

Ficamos sabendo até o que vem a ser a pressão sanguínea, isto é, a pressão exercida pelo sangue contra a parede das artérias.

Soubemos até, só agora, depois do susto de Lula, que uma medida considerada ótima para pressão arterial é menor que 120mm/Hg na sístole (contração do átrio) e 80mm/Hg na diástole (relaxamento do átrio).

E que, quando a pressão está entre 140mm/Hg e 90mm/Hg, ou maior, já é considerada alta.

O normal (ideal) da pressão é, portanto, 12 por 8. E Lula apresentou esta semana 18 por 12, daí por que os médicos o impediram de ir a Davos receber o título de Estadista Global no Fórum Econômico.

Eu gostaria de saber como é que se decide suspender uma viagem dessas. Se o presidente está acima de todos, como podem os médicos ordenar que ele não viajará e não receberá um título importante desses?

O mais correto talvez fosse dizer que o presidente Lula foi quem decidiu não viajar, a conselho do médicos.

Desde 2003, quando assumiu, Lula passou nada menos do que 426 dias no Exterior, enquanto que às viagens nacionais dedicou quase 600 dias.

E, quando está em Brasília, Lula tem uma agenda diária de pelo menos 12 horas.

Bota trabalho e vigília nisso. É uma agenda apertada que exige saúde muito boa de quem a cumpre.

Agenda tão estafante, que o presidente não achou tempo para fazer o seu check-up de 2009.

Apesar de exercitar-se fisicamente todos os dias, quando não está viajando, mantendo hábitos morigerados, destoa no entanto o presidente quando fuma cigarrilhas.

Mas afirma o chefe do Departamento de Hipertensão do Hospital das Clínicas de São Paulo, Dr. Décio Mion Júnior, que não foram o cigarro, nem o resfriado, nem a dieta à base de proteína, as causas da crise sofrida por Lula.

Mion disse que o excesso de sal na alimentação ou de álcool também só afetam pessoas que já tenham um quadro hipertensivo, o que não é o caso de Lula.

Acrescentou o médico: “Se a pessoa acender um cigarro após o outro, pode sofrer uma elevação muito discreta da pressão, mas não uma crise aguda. O cigarro leva ao enfarte, não é recomendável, mas não age diretamente sobre a pressão”.

Admirável opinião médica esta que singularmente, em oposição à cascata que vem ao contrário, não atribui ao cigarro a causa de uma doença importante.

O fato é que depois desse conhecimento do quadro geral de Lula, que sentiu um desconforto, uma dor de garganta e apresentava uma coriza, nós, brasileiros, estamos advertidos de que temos que cuidar melhor da saúde do nosso presidente.

Os cuidados médicos são os seguintes: melhorar a alimentação, evitar o consumo de sal, exercitar-se e parar de fumar.

*Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora

Os leitores e as pernas

29 de janeiro de 2010 21

Recebi este e-mail de uma leitora ainda indignada com a minha coluna de segunda-feira e resolvi republicar aqui no blog.

(Foto: Arquivo Pessoal)

“As veranistas de Capão Novo que me perdoem, mas isso SIM são coxas grossas, com MUITÍSSIMOOOO orgulho, e dignas da genética — porque não passamos horas e horas na academia para termos coxas musculosas!

Para você, Sant’Ana! As brasileiras são referências por suas coxas e não por suas coxinhas!

Um grande abraço,

Ariane Chagas, Luana Oliveira e Natalia Dias, de Porto Alegre.”

O império dos ratos

29 de janeiro de 2010 4

É a verdadeira revolta dos ratos. O Posto de Saúde Ernesto Araújo, no Morro da Cruz, amanheceu fechado na terça-feira pela infestação de ratos.

Os ratos passeiam olimpicamente por todos os ambientes, na copa, nos corredores, na farmácia, no almoxarifado e nas outras salas.

Os pacientes estão sendo atendidos e de repente atravessa a sala um tremendo ratão.

E o pior: quando alguém tenta retirar ou espantar um rato, ele enfrenta quem faz isso, não se deixa atemorizar e cria um clima de guerra lá dentro do posto.

O que quer dizer que se trata de ratões nutridos, criados a toddy, prontos para encarar qualquer medida que pretenda tirá-los de lá, eles são donos do território.

Não tem explicação que a Secretaria Municipal de Saúde tenha permitido que a situação chegasse a tal ponto.

Assim é que estamos tratando a saúde dos nossos munícipes? Se lá no templo da saúde dominam os ratos, como anda a coisa aqui por fora?

* * *

Era governador da Guanabara Negrão de Lima. Um dia o seu secretário da Saúde veio lhe dizer algo que parecia estonteante:

– Não dá mais, governador, os ratos dominaram a cidade do Rio de Janeiro: já temos 100 milhões de ratos, são 10 ratos para cada habitante da cidade. Algo precisa ser feito.

E o governador perguntou ao secretário:

– O senhor podia me dizer como é que vocês fazem para contar os ratos.

* * *

Recebo do Dr. Amarílio Vieira de Macedo Neto, presidente do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, uma reclamação sobre a coluna que escrevi domingo, em que disse que a Santa Casa e o Hospital de Clínicas têm “estupenda capacidade ociosa em suas emergências”.

Tem inteira razão o Dr. Amarílio, eu quis me referir somente a Santa Casa e incluí por equívoco o Hospital de Clínicas.

Peço desculpas, sei do quadro de superlotação permanente da emergência do Hospital de Clínicas, com 65 leitos, 49 para adultos, 13 pediátricos e três obstétricos.

Sei que é rotina a emergência efetuar o dobro de atendimentos de sua capacidade.

Quanto ao “silêncio” que reclamei do Hospital de Clínicas na questão das emergências, não me referi à rotina de comunicação do hospital com a mídia, mas por não ter vindo a público dizer o que exatamente agora está me dizendo o presidente: prestando contas dos serviços relevantes efetuados em sua emergência.

Eu queria apenas cutucá-lo, Dr. Amarílio, para vir para a planície, pois a superintendente do Conceição, Jussara Cony, soltou o verbo, gritando que o GHC lotava porque os outros hospitais fechavam suas emergências logo que excediam suas capacidades.

E o senhor está esclarecendo que no ano de 2009 a média anual de ocupação da emergência do Clínicas foi de 128%, ou seja, não só atendeu toda a sua imensa capacidade como ainda a excedeu em 28%.

Só peço, Dr. Amarílio, que, quando se comunicar com esta coluna, faça-o em texto com menor tamanho, o que o senhor mandou levaria várias colunas para divulgá-lo.

O fim da vida

28 de janeiro de 2010 3

Logo que surgiu a notícia da morte de Marlene Sirotsky, todos associaram seu vulto a esta esplêndida figura humana que é seu viúvo, Jayme Sirotsky.

Não pudemos vê-lo, ele estava nos EUA com dona Marlene, desembaraçando os atos funerários que culminarão hoje à tardinha com o enterro, aqui em Porto Alegre.

Mas dá para calcular a dor em que estão imersos ele e seus três filhos, Marcelo, Sergio e Milene.

A mão sombria da morte atingiu-os depois de mais de 50 anos de relacionamento conjugal e filial, na rememoração de tantos momentos felizes do casal que se conheceu muito jovem, da mãe que foi embalando seus filhos desde o nascimento até a maturidade, surgindo os netos como recompensa a este convívio estreito e inseparável.

Resta-nos somente partilhar a dor do seu Jayme e de seus filhos com o passamento de dona Marlene.

A morte faz parte da vida. Ela decide que vai levar em seus braços a todos nós.

Melhor que o faça assim, depois de tantos anos de convivência familiar produtiva e afável.

A melhor homenagem que eu poderia prestar a dona Marlene é declarar que não tenho dúvida de que seu Jayme daqui por diante será um homem diferente sem ela, embora cada vez mais vivo e atuante, não lhe faltando virtudes e atributos que possam recuperá-lo do tremendo choque, principalmente a capacidade ilimitada que ele tem de fazer e encantar amigos.

Recebi e transcrevo por ser essencial para o SUS de Porto Alegre a participação da Santa Casa: “Prezado Paulo Sant’Ana: excelente a tua coluna ‘Energia desaproveitada’, publicada na edição do último domingo. Trata-se de mais um bem-vindo capítulo dessa tua incansável e tão necessária campanha pela crescente qualificação da assistência médica e hospitalar aos beneficiários do SUS.

Tens razão quando afirmas que a Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre é destaque em nosso Estado no atendimento aos pacientes do SUS. Ao longo de seus 206 anos de história, a Santa Casa jamais deixou de cumprir sua missão de prestar assistência médica e hospitalar a pessoas de todas as condições sociais, sobretudo aos mais necessitados.

Em 2009, a instituição realizou 357.038 consultas, 26.454 internações, 30.990 procedimentos cirúrgicos e obstétricos e 2.078.361 exames diagnósticos e de tratamento aos beneficiários do SUS, o que consolida sua condição de hospital privado que mais atende a esse público no Rio Grande do Sul.

No entanto, a assistência prestada já foi maior, pois tem havido, em anos recentes, crescente diminuição nas cotas que os responsáveis pelo sistema público de saúde destinam aos hospitais privados que atendem ao SUS. Em 2002, por exemplo, o SUS autorizou 37.175 internações hospitalares nas sete unidades do complexo da Santa Casa, volume que caiu para 26.454 no ano passado. Em 3 de fevereiro de 2009, protocolamos junto ao gestor municipal da saúde uma proposta para ampliação da cota de assistência ao SUS. Ainda não recebemos resposta. Quanto à emergência SUS para adultos – oficialmente com oito leitos –, temos tido uma média diária de 30 pacientes internados, com os excedentes acomodados em leitos extras e em macas… Um grande abraço (as.) Carlos Alberto Fuhrmeister – diretor-geral e administrativo da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre”.

*Texto publicado hoje na página 79 de Zero Hora

A vida das abelhas

27 de janeiro de 2010 6

Um jovem haitiano de 24 anos foi salvo dos escombros depois de permanecer 11 dias em um espaço de apenas um metro quadrado.

Deve ter sido um sofrimento terrível. Ele trabalhava no bar de um hotel, que caiu todo sobre seu corpo.

Completamente coberto pelo pó dos destroços, declarou, ao ser salvo, que sobreviveu comendo pequena quantidade de biscoitos durante os 11 dias, mas principalmente bebendo Coca-Cola.

Sabe-se que o organismo humano sobrevive a dezenas de dias sem alimentos sólidos, mas perece se não tomar líquido.

Calculei que a Coca-Cola que esse homem bebia para sustentar seu metabolismo não era Coca Light nem Coca Zero. Era Coca normal mesmo. Só com muito açúcar, ele pôde manter firme seu esqueleto.

Cismei também sobre a sorte desse rapaz: ele ficou restrito a espaço de apenas um metro quadrado e os refrigerantes que lhe restaram ali não eram dietéticos. Fossem-no e ele teria morrido.

Sobre refrigerantes dietéticos tenho um depoimento que pode alterar a ciência da apicultura.

Estava tomando minha Coca Zero no famoso Miau da Cabral, que serve, ali naquela rua com esquina para Miguel Tostes, deliciosos espetinhos de picanha, queijo, toscana, xixo, calabresa e outros, quando percebi que um bando de abelhas voejava em torno à minha mesa.

Pensei comigo que aquelas abelhas estavam loucas, a Coca-Cola que eu bebia não era normal, não havia açúcar nela.

Então por que estavam sendo atraídas pelo líquido?

Elas foram levitando como helicópteros em direção à lata de Coca-Cola, uma a uma iam pousando no bojo da lata e penetrando pelo furo, desaparecendo no fundo.

Daí que cheguei a uma conclusão laica: o que atrai as abelhas não é o açúcar, mas o doce. O líquido melífluo da Coca Zero é também saboreado pelas abelhas, o que quer dizer que o aspartame ou outro ingrediente das substâncias dietéticas são do interesse proteico das abelhas.

Fiquei intrigado sobre se o mel que aquelas abelhas produzirão depois de terem ingerido Coca Zero será dietético ou não.

E, na minha investigação alienada sobre a origem do mel, cheguei à conclusão de que as flores onde as abelhas vão buscar o néctar para produzir o mel contêm forte quantidade de açúcar.

Nunca reparei quando mastiguei pétalas ou cílios de flores que eles eram doces. Será que o pólen é doce? Vou prová-lo uma hora dessas nas margaridas que tenho na sacada da minha casa.

Fico sabendo à última hora que as abelhas têm cinco olhos, três deles no topo da cabeça e dois olhos compostos, maiores, na frente.

E que uma abelha produz cinco gramas de mel por ano. Para produzir um quilo de mel, as abelhas têm de visitar 5 milhões de flores.

E que só as abelhas fêmeas trabalham, os machos servem apenas para fecundar a abelha rainha. E, se nascerem duas abelhas rainhas, elas entram em luta, até que uma delas morra.

E que, no fim do verão, depois que os machos já tenham fecundado a rainha, as operárias fecham a porta da colmeia e deixam os machos lá fora morrerem de frio e de fome.

A abelha rainha vive durante quatro anos e as operárias apenas 45 dias.

Dizer que eu só fui adquirir esse conhecimento a partir da minha Coca Zero!

*Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

Bombaram as pernas grossas

26 de janeiro de 2010 37

Não sei bem a que propósito escrevi a coluna de ontem, que está bombando em todos os blogs, que foi discutida ontem no rádio e na televisão. O assunto era o surto atual de mulheres de pernas grossas na televisão.

Mas eu sei, em verdade, qual era o meu propósito. Era o de encorajar as mulheres de pernas finas.

E consegui o meu objetivo: inúmeras mulheres de pernas finas me escreveram exultantes, declarando que se envergonhavam de suas pernas finas, mas que a coluna veio afinal a valorizá-las.

Algumas mandaram me dizer que suas pernas finas se traduziram em trauma para elas, sentiam-se inferiores vendo essa onda assustadora de mulheres de pernas grossas na televisão, parecendo que não havia mais no mundo lugar para elas.

Salvei-as, disseram todas. Elas acham agora que vão ter coragem de enfrentar a vida.

O objetivo da coluna, em suma, era filantrópico.

Mas não entenderam assim as mulheres de pernas grossas. Quase me encheram de desaforos, como esta aqui: “Tenho as pernas grossas, bem sei, mas meu marido gosta de minhas pernas, e você, colunista, não tinha nada de se meter”.

Eu não queria criar polêmica, acabei construindo um bafafá.

Eu queria escrever sobre senso estético, sobre harmonia corporal. Queria escrever também sobre os exageros da malhação, sobre os excessos da musculação nos corpos das mulheres, que as tornam menos femininas.

Longe de mim classificar as mulheres somente entre as de pernas finas e as de pernas grossas.

Evidentemente que a minha coluna continha também o meu gosto pessoal, não tenho o direito de tê-lo?

Mas acertei na veia com a coluna. Muitas leitoras concordaram comigo e disseram que há uma tendência estranha de engrossamento das pernas das mulheres. Quando se fala nisso, está se falando no que se vê na televisão, que é o que interessa: todo o Brasil, sobre quase todos os assuntos, se baseia em seus gostos pela televisão.

Houve também os que me escreveram dizendo que a nova tecnologia de imagem na televisão, inclusa nela a TV digital, engorda as pessoas e engrossa as pernas das mulheres.

Isso é verdade, mas no Big Brother as pernas são grossas mesmo, a equipe que tratou da escolha das participantes, nitidamente, baseou seu critério estético por mulheres possantes, de pernas grossas, praticantes da malhação.

Mas, se o conteúdo estético dominante pendeu para as pernas grossas, o que seria das mulheres de pernas finas?

Eu ainda tentei dizer que meu tipo era o de pernas esbeltas, esguias, o padrão clássico de beleza a que estávamos acostumados até surgir esta nova onda de mulheres estivadoras, que parecem erguer halteres ou sacos cheios de areia com as pernas para agradar aos homens.

Também timidamente alertei para o perigo e o contrassenso de as mulheres estarem programando seus corpos para somente elas se acharem bonitas, não lhes importando a opinião dos homens a respeito.

Quando, na verdade, se algum padrão deva ser buscado em matéria de estética corporal, por homens e por mulheres, deve ser o de agradar aos seres do sexo oposto.

Eu não desconhecia que há homens que preferem pernas femininas grossas, outros finas.

Mas, afinal – este foi o elemento fulcral da minha coluna –, o que é afinal o belo?

O senso de beleza é que me preocupava. E eu só achei que as pernas grossas, como as que deram para aparecer agora, estavam agredindo este senso.

Mas é só uma opinião. E muito pessoal.

*Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

Epidemia de pernas grossas

25 de janeiro de 2010 162

O alarma soou quando Juliana Paes apareceu com as pernas grossas no Faustão, livres das saias e das calças usadas nas novelas.

Depois foi com a Patrícia Poeta, no próprio Fantástico, mostrando as pernas assustadoramente grossas.

E terminou com o desfile de mulheres de pernas excessivamente grossas no Big Brother.

Elas parecem que se sustentam sobre moirões.

O que espanta é que elas pensam que ficam bonitas assim.

Não estou falando da Angélica, que já nasceu com as pernas grossas e Deus sabe que sacrifício enfrentou – e deve ainda enfrentar – para afiná-las.

Não ficam bonitas, veem diminuída sua beleza engrossando as pernas.

Não é esse o padrão de beleza clássico das mulheres artistas e rainhas das baterias. Todas estão engrossando demais as pernas e isso pode não ter volta.

Achei que poderia ser um fenômeno proteico, ligado à alimentação, podendo deflagrar um movimento hormonal na direção das pernas.

Mas não é. O que espanta é que as mulheres televisivas estão orgulhosas das suas pernas grossas, quando deveriam, senão envergonhar-se, pelo menos persignarem-se de que podem estar enveredando por um caminho sem volta, engrossando as pernas até isso virar um aleijão.

A causa dessa irregularidade assombrosa deve estar, quase que seguramente, na malhação.

Mas não há forma de malhar sem engrossar as pernas?

Será que elas não calculam o suplício das mulheres que de nascença têm as pernas grossas e são obrigadas a esconder-se atrás das calças compridas para permanecerem no mercado romântico e sensual?

Não posso saber que motivo levou essas mulheres a entenderem que serão mais atraentes se tiverem as pernas grossas.

Está aí o mercado de desfiles de moda a pregar claramente que o caminho para a beleza está na esbeltez.

Não estou pregando que as mulheres todas se projetem na anorexia, o outro extremo que leva a enfeá-las.

Mas essa avalancha de pernas grossas está repercutindo num silencioso repúdio da classe masculina, que, acho, deveria ser o objetivo das mulheres agradar.

Do meu canto anônimo, protesto pela onda de pernas grossas que invade a televisão brasileira e dali se expande em metástase para todo o país.

Não é isto que nós, homens, queremos.

Mas se esse levante de pernas grossas pouco está se importando com a opinião masculina, então retiro o meu time de campo.

Elas que se ralem.

*Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora

Importante medida

23 de janeiro de 2010 11

Agradeço a atenção do Dr. Alberto Beltrame, secretário de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, importante e vital cargo para a questão da saúde no RS, que, no programa do Lasier Martins, ontem, disse que tem lido atentamente esta coluna sobre a evolução dos acontecimentos na crise das emergências dos hospitais porto-alegrenses.

A crise está servindo para movimentar os atores responsáveis pelo atendimento de saúde em nosso meio. E penso que também para agilizá-los.

Uma das soluções mais importantes é narrada no e-mail abaixo, transmitido a esta coluna pelo secretário estadual de Saúde.

A implantação de quatro unidades de pronto atendimento na Capital sem dúvida irá desafogar as emergências.

Vejamos como se dará:

***

“Prezado Paulo Sant’Ana. Em relação a tua preocupação com os problemas de atendimento de urgência e emergência em Porto Alegre, gostaria de esclarecer:

1) Não existe tentativa de empurrar a responsabilidade por parte do governo estadual, além de existirem aspectos constitucionais que definem as responsabilidades dos gestores federal, estadual e municipal;

2) Quem contrata os prestadores de serviço é quem define o volume de atendimento para cada setor;

3) Quem faz isto em Porto Alegre é o gestor municipal. O Estado entra com incentivos de atendimento básico hospitalar, além de ampliar a regionalização do atendimento no interior do Rio Grande do Sul. O volume de recursos do SUS ainda é distribuído de forma desigual entre os hospitais que prestam serviços. Só dois hospitais públicos – o Grupo Hospitalar Conceição e o Hospital de Clínicas de Porto Alegre – custam aos cofres públicos mais que os 300 hospitais estaduais juntos, e atendem 10% da demanda estadual.

4) Tentando ajudar a resolver os gargalos da urgência e emergência da Capital, o Estado vem negociando com o Ministério da Saúde a construção de quatro Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) em Porto Alegre. Serão 36 ao todo no Rio Grande do Sul. Elas são novos prontos-socorros, grandes unidades de atendimento ambulatorial 24 horas por dia, podendo atender mais de 500 consultas diárias (volume próximo ao Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre). As UPAs terão investimento de custeio do Ministério da Saúde e governo do Estado, além da participação do município, e ficarão em pontos estratégicos definidos pela Secretaria Municipal da Saúde. Uma será no Centro Vida – Zona Norte –, outra no Bairro Navegantes, outra na Zona Sul e a quarta no Bairro Partenon. As duas primeiras UPAs a serem construídas foram contratadas junto ao Ministério da Saúde pelo governo do Estado e deverão ser entregues no primeiro trimestre de 2010. Na última quinta-feira, dia 21 de janeiro, reunimos as secretarias estadual e municipal da Saúde e a empresa responsável pela obra. A construção deve se iniciar em fevereiro e será num sistema modulado. A obra estará pronta em poucas semanas.

5) Ainda no primeiro semestre de 2010, deveremos ter as quatro UPAs funcionando e aliviando as pressões sobre as urgências dos grandes hospitais. Se somarmos isso à ampliação que Porto Alegre faz dos postos de saúde e das equipes de saúde da família, teremos uma melhora sensível nesse problema que se arrasta há décadas.

Grande abraço de (as.) Osmar Terra – secretário estadual da Saúde.”

*Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora

Jogo de empurra

22 de janeiro de 2010 16

E aí? O que foi feito para solucionar o problema da superlotação das emergências dos hospitais de Porto Alegre?

Até agora, aparentemente nada. Há uma difusa responsabilidade entre o município, o Estado e a União. O que em realidade se transformou em difusa irresponsabilidade.

De quem a sociedade tem de cobrar? Não se sabe, embora o gestor do Sistema Único de Saúde em Porto Alegre seja a Secretaria Municipal de Saúde. No entanto, como os leitores verão a seguir, o gestor responsabiliza a União.

O Hospital Conceição responsabiliza os outros hospitais, que fecham as emergências quando elas lotam.

O Estado fica lançando farpas contra os hospitais. Antes declarava que 50% das verbas do SUS para o Estado eram destinados para Porto Alegre. Agora, o secretário estadual de Saúde, Dr. Osmar Terra, está declarando que 50% das verbas do SUS para o Estado são destinadas a somente dois hospitais: o Conceição e o Clínicas.

E acrescenta sarcasticamente: “Só o que faltava, consumindo metade, exatamente a metade das verbas do SUS para o Estado, o Clínicas e o Conceição fecharem as suas emergências”.

Visivelmente, embora não seja direto, o Estado está responsabilizando a União pela grave e permanente crise.

Olhem a obra-prima de esquiva que é a nota que transmitiu a esta coluna a Secretaria Municipal de Saúde, a gestora do SUS na Capital:

“Sobre a situação da emergência do Hospital Conceição, abordada na sua coluna de hoje, 19, a Secretaria Municipal de Saúde esclarece:

Porto Alegre, como todas as capitais brasileiras, recebe recursos do Ministério da Saúde dentro de um teto financeiro previamente estabelecido. Somente para os hospitais, são repassados R$ 44 milhões por mês. Devido ao aumento crescente da procura por serviços de saúde na Capital, ocasionada em grande parte pela demanda do interior do Estado, a SMS vem pleiteando, há anos, o aumento do teto SUS para a Capital. A prefeitura municipal de Porto Alegre destina 19% da sua receita para a saúde, quando a Constituição prevê investimento de 15%. O mesmo não ocorre com os governos federal e estadual. Para aumentar o número de leitos, precisamos de recursos.

Nos governos anteriores, foram fechados os hospitais Lazarotto, Ipiranga, Maia Filho e quase foi decretada a falência de outros hospitais de Porto Alegre. Na ocasião, nada foi feito. No governo Fogaça, já aumentamos em 30% o número de leitos de internação para dependentes químicos. Estamos trabalhando incansavelmente para minorar as dificuldades do SUS em POA. (as.) Secretaria Municipal de Saúde, Assessoria de Comunicação”.

Quer dizer, uma nota que quase não diz nada, a não ser se incluir no jogo de empurra lamentável entre as três esferas.

Alguém vai ter de tomar a liderança desses três ramos. Porque, caso contrário, nada será feito.

O que tem de ser feito é aumentar o número de leitos nos hospitais públicos e filantrópicos.

O que tem de ser feito é aumentar a capacidade das emergências da Santa Casa, do Hospital da PUC, do Hospital de Clínicas e do Hospital Conceição. Urgentemente. Inadiavelmente.

Um empurrando para o outro a responsabilidade, a crise se agrava.

Quem é que vai tomar a providência? Quem é que vai tirar a Saúde porto-alegrense do atoleiro?

Como muito bem têm dito vozes ligadas à questão, esta crise nas emergências é um atentado aos direitos humanos.

Mas quem vai assumir a responsabilidade? Vão parar com o jogo de empurra? Vão ou não vão aumentar os leitos e as capacidades das emergências?

Isto é para ontem.

*Texto publicado hoje na página 71 de Zero Hora

Morte dos expedicionários

21 de janeiro de 2010 7

Há muito tempo ou há nenhum tempo, desde a II Guerra Mundial, não morriam soldados brasileiros em missão no Exterior.

Pois agora morreu quase uma vintena deles, acrescidos de civis, na campanha de paz do Haiti, que muitas vezes não é de paz.

Dois gaúchos mortos no Haiti tiveram ontem seus corpos desembarcados entre os mortos. Estão sendo prestadas honras militares ao primeiro-tenente do Exército Brasileiro Bruno Ribeiro Mário, de São Gabriel, e ao cabo Douglas Pedrotti Neckel, de Cruz Alta.

São os nossos heróis, os nossos mártires, a quem devemos demonstrar nossa admiração e gratidão.

Por isso é que vem a calhar, no momento em que voltam ao solo pátrio os corpos dos soldados mortos no terremoto do Haiti, o Hino do Expedicionário, linda canção composta por Guilherme de Almeida, o Príncipe dos Poetas Brasileiros.

Os dois gaúchos e os demais brasileiros que tombaram no cumprimento do dever são expedicionários cuja morte choramos e cuja saga foi cantada neste mais belo hino brasileiro em todos os tempos.

A letra é muito extensa, mas os principais versos publico a seguir:

***

Você sabe de onde eu venho?

Venho do Morro do Engenho,

Das selvas, dos cafezais,

Da boa terra do coco,

Da choupana onde um é pouco,

Dois é bom, três é demais,

Venho das praias sedosas,

Das montanhas alterosas,

Dos pampas, do seringal,

Das margens crespas dos rios,

Dos verdes mares bravios

Da minha terra natal.

Por mais terras que eu percorra,

Não permita Deus que eu morra

Sem que volte para lá;

Sem que leve por divisa

Esse “V” que simboliza

A vitória que virá:

Nossa vitória final,

Que é a mira do meu fuzil,

A ração do meu bornal,

A água do meu cantil,

As asas do meu ideal,

A glória do meu Brasil.

Eu venho da minha terra,

Da casa branca da serra

E do luar do meu sertão;

Venho da minha Maria

Cujo nome principia

Na palma da minha mão,

Meu limão, meu limoeiro,

Meu pé de jacarandá…

Minha casa pequenina

Lá no alto da colina,

Onde canta o sabiá.

Por mais terras que eu percorra

Deus permita que eu não morra

Sem que volte para lá…

*Texto publicado hoje na página 79 de Zero Hora

Ultrapassou o limite

20 de janeiro de 2010 26

O que não pode acontecer, o que definitivamente não pode acontecer, é as pessoas lotarem as emergências dos hospitais de Porto Alegre em pleno janeiro, serem fechadas ao arbítrio dos hospitais as emergências – e a emergência que não fecha nunca, a do Hospital Conceição, restar estrangulada, sem poder dar conta da demanda dramática de pacientes por atendimento.

Não pode acontecer, as autoridades têm de depressa dotar o atendimento público e gratuito de uma solução definitiva para esse problema, o mais grave, vital para o equilíbrio social entre nós.

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O médico Márcio César Rocha, presidente da Associação dos Médicos do Hospital Conceição e Criança Conceição, adverte: “Em Porto Alegre, não há mais espaço físico hospitalar para a população ser atendida com dignidade pelo SUS”.

Como deixamos chegar a este ponto, autoridades?

Que colapso de civilização é este, autoridades? Onde é que estamos? Onde é que foram parar os hospitais e os leitos? Como é que se chegou a este estado de incúria, em que os valores dos direitos humanos foram totalmente pisoteados?

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Prossegue o Dr. Rocha: “E o dilema maior para nós, médicos, não é o espaço físico abarrotado, a agressão eventual de familiares dos doentes emocionalmente descontrolados, o cansaço das jornadas exaustivas. O dilema maior é ter que, de qualquer maneira, atender, medicar, deixar em pé, sentar (às vezes, até conseguir deitar) um ser humano gravemente enfermo. E essa imposição não é patronal, não é judicial. É a voz maior que vem de dentro de também seres humanos que optaram em ser médicos. É-nos impossível deixar de auxiliar nossos iguais e saber que poderão morrer na calçada”.

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A situação na emergência do Hospital Conceição é de deixar morrer na calçada, não há mais lugar para os doentes lá dentro?

Não há drama maior no nosso tecido social do que doentes não sendo atendidos nas emergências. Isso é o fim de tudo, isso é o princípio do caos civilizatório.

E os hospitais são só fechados, não se constroem novos hospitais, enquanto a população aumenta geometricamente e não são destinados leitos hospitalares para ela.

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O governo federal é o principal responsável por este caos. Destina verbas que, apesar de volumosas, são insuficientes para atender a demanda.

Subsidiariamente está a responsabilidade do governo estadual e da prefeitura da Capital.

Em 17 anos, diminuíram incrivelmente os leitos do SUS, enquanto cresce a população.

Como é que o presidente Lula não atenta para isso, nem ele nem seu Ministério da Saúde?

Onde é que vamos parar? O alarma está soado, isto aqui em Porto Alegre está igual ao Haiti, presidente Lula!

*Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

O Haiti daqui

19 de janeiro de 2010 36

Não é preciso ir ao Haiti para se conhecer o caos no atendimento de saúde.

Basta comparecer à emergência do Hospital Conceição, que, segundo o Sindicato Médico, viveu ontem à tarde – e ainda vive – o maior estrangulamento no atendimento de sua história.

Os pacientes se acotovelavam na emergência e fora do hospital, todos necessitando de atendimento urgente, ninguém podendo ser atendido: eram 144 pacientes para uma capacidade de atendimento de 50.

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Não é preciso ir ao Haiti para se assistir ao caos na saúde.

O Brasil está socorrendo com ajuda humanitária e tropa de paz o Haiti.

Além disso, o governo federal designou a quantia imediata e urgente de US$ 15 milhões como ajuda ao Haiti.

Mas quem socorre o Brasil?

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Ontem, o clima no Hospital Conceição era o do mais completo esgotamento físico e espiritual por parte dos pacientes e dos funcionários.

Um paciente atingiu com um soco um funcionário e o derrubou ao chão em nocaute.

A superintendente do Conceição, Jussara Cony, partiu para o ataque: disse que isso se deve a que os outros hospitais do SUS da cidade fecham suas emergências quando elas lotam e o excesso vai todo para o Conceição.

Hospital não pode fechar emergência, faz bem o Conceição em não fechá-la.

Mas tudo tem um limite e ontem estava dramático o atendimento no Conceição.

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O Sindicato Médico afirma que é a mais profunda crise na emergência do Hospital Conceição em toda a sua história, repito, para dar uma ideia desses vergonhosos fatos que cercam nossa Saúde.

Não dotam as autoridades, lamentavelmente, de mais leitos os hospitais. Ocorre então o que ocorria ontem lá: pessoas que tinham de estar hospitalizadas recorriam desesperadamente à emergência, provocando aquele triste acontecimento.

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A governadora e o prefeito de Porto Alegre têm de imediatamente criar mais leitos nos hospitais da Capital. A questão é vergonhosa e urge imediata solução.

Chega do sofrimento atroz de pacientes em busca mínima de atendimento.

Isso que é fevereiro, calculem o que vai ser no inverno.

Vamos lá, seu Fogaça e dona Yeda. E o Lula tem também de mandar ajuda para o Haiti daqui.

(Interessante é que isso se dá exatamente quando dizem que estão sendo enviados cem médicos do Conceição para o Haiti.)

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O cantor João de Almeida Neto e regional fazem hoje à noite no Teatro do CIEE, na Avenida Dom Pedro II, 861, o show de MPB Gaúcho também chora.

*Texto publicado hoje na página 39 de Zero Hora

Pena rigorosa

18 de janeiro de 2010 33

A gente vive pedindo a pena de morte, mas quando nos deparamos com o caso do brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira, 48 anos, que foi preso na Indonésia em 2004, por portar 13,4 quilos de cocaína em sua asa-delta, ao entrar no país, fica-se tomado de alguma compaixão.

Há seis anos ele está condenado à morte, esperando a execução na prisão de Pasin Putih, uma das quatro do complexo de Nusakambangan.

Ali está preso também o surfista paranaense Rodrigo Gularte, 37 anos, autor do mesmo crime: levava 6 kg de cocaína escondidos em pranchas de surfe, sendo detido no aeroporto de Jacarta, a capital do país rigoroso com as drogas.

Também foi condenado à pena de morte.

O governo brasileiro já fez um pedido de clemência por Marco Archer, mas foi negada pela Indonésia.

Um segundo pedido de clemência foi ignorado.

E o condenado está pedindo que seu caso não fique no esquecimento, solicita desesperadamente a intervenção do presidente Lula: “Sempre peço para minha mãe (que está com câncer e não tem podido visitá-lo na prisão) para falar com Dona Marisa (Letícia, esposa de Lula), que o nosso presidente tem como dar um jeito nesta história. O Lula é poderoso, né? Ele é da classe trabalhadora”.

Lula já fez dois pedidos de clemência.

Marco Archer quer que ele faça um terceiro.

Aqui no Brasil se pede e se clama até pela pena de morte, mas para crimes hediondos, em que haja violência cruel.

Para o crime de tráfico de drogas, a nossa pena varia de 5 a 15 anos.

Por isso é que causa piedade o caso desses dois brasileiros condenados à morte na Indonésia.

Já na Indonésia, o combate às drogas é prioridade política, cultural, social e religiosa, pelos efeitos nefastos das drogas, daí a severidade incomum das penas a que ficaram sujeitos os brasileiros, que deviam saber desse rigor máximo e, se se arriscaram, apesar de tudo, é porque desejavam enriquecer com o tráfico: teoricamente, num país em que se encara com tanto rigor este crime, a recompensa financeira para quem o comete e é bem-sucedido é muito maior.

Vamos torcer para que os dois brasileiros tenham comutadas suas sentenças.

Porque só de pensar-se no ritual da execução da pena de morte na Indonésia a gente treme.

A execução é feita em campo aberto por 12 soldados com rifles, apenas duas das armas são carregadas.

Cada soldado atira uma vez no peito do condenado, a uma distância de cinco a 10 metros. Se o executado continuar vivo, leva um tiro na cabeça, à queima-roupa.

É de arrepiar.
A pena brasileira parece ser mais proporcional ao crime.

No entanto, cada país tem a sua ordenação jurídico-penal.

E os dois brasileiros correram um risco calculado, isso não impede que torçamos por eles para que sejam perdoados, cumprindo somente pena de privação de liberdade.

*Texto publicado hoje na página 39 de Zero Hora

A vida é uma droga

16 de janeiro de 2010 18

Só um idiota como eu pode querer saber de quem é a responsabilidade por esta catástrofe do Haiti.

Só um idiota como eu pode querer responsabilizar o destino, a Providência, Deus, o conjunto de regras imutáveis e mutáveis da vida pela tragédia do Haiti.

Não tenho nada de perquirir sobre as origens das catástrofes, sobre seus autores ou licenciadores.

Não há autoria. A vida é assim, cercada de desastres e crivada de dores lancinantes e de mortes porque assim é a vida.

A vida é assim, cheia de horrores, causados pela natureza ou pelos próprios homens, repleta de maldades e crueldades, porque é assim e pronto, não cabe aos homens investigar o porquê de a vida ser uma droga.

Pela minha cabeça idiota e absurda, passa que pelo menos dessa tragédia do Haiti os fados tinham de nos ter livrado.

Como se não fossem outro dia acontecer novas tragédias, como se, caso não ocorresse esse terremoto, o mundo seria melhor, os homens se compreenderiam e se abraçariam.

Nada disso. A cada semana que passa, vão continuar a se suceder as tragédias, grandes e pequenas, do terremoto ao desemprego, das inundações às dívidas pessoais.

Basta nascer o sol para que o mundo e a vida pessoal das pessoas estejam aptas às tragédias.

O grave no Haiti
é que o terremoto veio apenas se somar à fome que já existia, ao desemprego colossal que já existia, à desabitação que já existia, aos assassinatos que já existiam, aos saques que existiam e agora aumentam em número.

Por sinal, quando se diz que há o perigo de sobrevirem os saques no Haiti, percorre minha mente uma dúvida: peraí, mas vão saquear o quê?

Se não há comida, se não há água, saquear o quê?

Só se caem como formigas em cima de qualquer comida ou água que surgir ali adiante como ajuda internacional.

Outra coisa: é tal o espectro de penúria a que está submetida a sociedade haitiana, que não entendi o que mandam dizer os correspondentes: os pobres habitam a parte plana da cidade, os ricos habitam os morros, ao contrário do Brasil.

Mas como é que em condições de extrema pobreza do povo possam existir ricos?

Sempre ouvi dizer que onde existe miséria existe luxo, mas não passa na minha cabeça que possa existir alguém rico no Haiti, se não existe sociedade organizada.

E, se há ricos, havia ricos, depois de uma tragédia dessas, os pobres certamente saquearam os ricos, deve ser por esse risco que foram enviadas tropas internacionais para o Haiti, muito antes do terremoto, para servirem de forças policiais que não permitam que quem tem menos avance sobre o semelhante que tem mais.

As tropas internacionais devem ter ido para o Haiti para manter a pobreza, sem choques.

O fato é que, há várias noites, sem morar no Haiti, longe do Haiti, milhares de quilômetros distante do Haiti, sou alvo de amargos pesadelos sobre o que está acontecendo no Haiti.

*Texto publicado hoje na página 39 de Zero Hora