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Ai de quem for alegre!

10 de fevereiro de 2010 8

Temos uma confraria, uns oito amigos, que se reúne uma vez por mês num restaurante, onde ficamos em média três horas e meia.

São médicos, comerciantes, pequenos empresários e profissionais liberais.

Intuitivamente, fomos percebendo, com o passar das reuniões, que nos encontrávamos para nos queixar da vida.

O denominador comum das manifestações era o lamento das coisas, os problemas conjugais, a rotina massacrante. Enfim, as dificuldades todas que a gente enfrenta para levar adiante o barco.

Quem fala mal da vida, quem prega que não há horizontes para a existência, é ouvido com reverência e só falta arrancar aplausos dos outros confrades.

Até que um dia, inadvertidamente, um dos confrades atreveu-se a fazer um discurso otimista.

Disse que era feliz com a sua mulher, que seus negócios iam de vento em popa e que tudo dava certo para ele na vida.

Os outros sete confrades restaram estupefatos. Com que audácia, num auditório de pessimistas e queixosos da vida, aquele integrante do comitê do desânimo e da tristeza contrariava todos os cânones sobre os quais foram erigidas as reuniões mensais!

Era de se ver no semblante dos confrades a desilusão com o otimista. Como era possível existir alguém feliz entre nós? Que peito, que coragem desafiar aquela plateia de céticos e desmoronados e, ainda por cima, jogar nas nossas caras que era um homem realizado, contrariando toda a construção filosófica da roda, baseada no lema de que a vida é uma droga.

Foi evidente e amassante o mal-estar que se formou na nossa roda de pesarosos.

Os descrentes resolveram agir e consideraram aquela manifestação de hino à vida um desaforo.

Aos poucos, o otimista e feliz foi deixando de ser convidado, restando tacitamente expulso da confraria.

Ficamos nós, os queixosos e pessimistas, a desfiar todos os meses as nossa mágoa, a nossa náusea existencial, a nossa descrença.

Mas na nossa confraria, como em todas, a gente só conversa. E a conversa vai girando naturalmente, sem censura, até que esses dias um outro conviva, em meio a uma conversa, disse o seguinte: “A vida é bela”.

Foi um alvoroço. Outro dissidente?
Como ousara pronunciar frase tão acintosa.

Todos se voltaram para ele revoltados. Urgia uma explicação, numa sociedade de desanimados, era uma afronta emitir tal conceito.

Acabou aquela reunião num mal-estar nauseante, decidindo os outros membros que na próxima reunião o apóstata teria de dar explicações sobre a sua frase subversiva.

Além disso, o companheiro que arriscara dizer entre nós que a vida é bela é muito querido entre nós, seria uma lástima e um desastre expulsá-lo do nosso convívio.

Deliberou-se então que ele destrincharia o seu conceito no jantar do mês seguinte, explicando como a vida pode ser bela.

Veio o outro jantar e todos ficamos ansiosos sobre as explicações do rebelde.

Ele não se fez de rogado e explicou a sua frase hedionda: “A vida é bela, nós é que a estragamos”.

Todos se sentiram aliviados e desculparam o herege. Afinal, constava de seu conceito que a vida era uma instituição estragada e inviável.

Segue avante a confraria
com seus lamentos e desilusão.

*Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

Comentários (8)

  • Henrique Podstolak Jr diz: 10 de fevereiro de 2010

    Gostei muito deste assunto sobre pessoas que vivem reclamando da vida , estou passando por dificuldades a dois anos e estou fazendo de tudo para melhorar e tenho amigos que estão em ascensão direta e estão sempre reclamando , eu que chego todas as sextas feiras e não posso levar meu filho e esposa para sair e fazer um bota fora , chego onde meus amigos estão e digo boa noite , enquanto eles me respondem que o dia foi terrível , já faz tempo que estou me afastando deles coisa ruim atrai coisa ruim .
    Um grande abraço e até mas e que o grêmio melhore !!!!!!!!!!!!!!

  • Rafael Danton Teixeira da Cunha diz: 10 de fevereiro de 2010

    Caro Paulo
    Moro em Campo Largo no Paraná, onde me aquerênciei após sair da querência. Sentindo-me culpado de ter deixado os pagos, me associei ao Clube do Cavalo, onde 40 pessoas dos mais diversos matizes profissionais se reunem semanalmente para conversar sobre a maravilha da vida, jogar truco, combinar churrascadas, ora na fazenda de um, ora na de outro. Saímos faceiros em cima dos pingos, cantando e brincando, olhando a natureza e felizes por estarmos vivos e alegres nesta Terra maravilhosa que o Senhor nos deu. Tu não te lembras de mim, mas eu te conheço de a muito tempo. Hoje ambos com os cabelos brancos, fartos em netos (ao menos eu com 14), vivemos a vida que nos foi reservada. Eu sei que és feliz, pois não é que tu és Gremista como eu, és amado pela tua esposa e pelos teus filhos, queres coisa melhor? A vida realmente é bela. Mas ela tem um segredo. Vida só é vida, se vivida envolvida na vida de outras vidas.
    Um abraço mano velho, que o Senhor te abençoe
    Rafael Danton Teixeira da Cunha

  • Pedro diz: 10 de fevereiro de 2010

    Mais um texto para se guardar…

  • alexandre pasquali diz: 10 de fevereiro de 2010

    Prezado Santana!
    Não sou pessimista,mas os problemas surgem a cada dia.Assim,resolvi atenuar os problemas do dia e afirmei:”calma!!! amanhã será pior”.
    Abraço.

  • Machiavel diz: 10 de fevereiro de 2010

    Possivelmente, nesse grupo de vocês, tá todo mundo velho. E o pior fenômeno que existe para o ser humano é a velhice. Penso que a velhice seja, talvez, o único ponto filosófico capaz de contestar a existência de Deus. Ora, não faz sentido existir um Deus, esse ser superior tão bom e tão justo, que reserva para o ser humano uma velhice, essa velhice que sintetiza uma circunstância tão má e tão injusta. O passo lento, as dores na coluna, a aposentadoria irrisória do INSS, as pelancas caídas, a falta do desejo sexual, enfim, dezenas e dezenas de situações físicas e existenciais que só causam infelicidade ao velho. Resta ao velho apenas lamento e recordações, que é isso que vocês fazem nas suas reuniões semanais que, aliás, deve ser um pénosaco!

  • Igor D. Paes diz: 10 de fevereiro de 2010

    Muito boa Sant´Ana!

    Adorei…

  • nelson L diz: 10 de fevereiro de 2010

    Eu entendi o espirito da cronica,mas ser alegre assistindo mais da metade do povo brasileiro vivendo como párias,e os governantes contando vantagens nos comicios e na TV não é uma coisa fácil.E ainda por cima metendo a mão no dinheiro do povo sem a menor cerimonia…Vamos combinar:tem algo de podre no reino da Dinamarca!!!!

  • CA diz: 11 de fevereiro de 2010

    Eu tambem acho que a vida eh bela, hehehe

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