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Posts de fevereiro 2010

E os lotéricos honestos?

27 de fevereiro de 2010 13

Eu me preocupo com esta enchente de notícias no caso do bolão de Novo Hamburgo por um aspecto: o que devem estar sentindo, sofrendo e pensando os donos de agências lotéricas honestos, que cumprem suas obrigações e que até podem organizar bolões, mas o fazem de forma correta, registrando-os no terminal da Caixa Econômica e atendendo solícita, idônea e prestimosamente seus clientes?

Como estão essas pessoas? A imprensa tem uma força muito grande, mas muitas vezes não se sensibiliza com todo o campo que atinge. Para os proprietários decentes de lotéricas, a notícia foi um desastre.

Tentando atenuar esse drama é que publico hoje uma carta que me foi enviada por um dono de lotérica:

Bom dia, Paulo Sant’Ana. Eu também, como milhares de gaúchos, sou leitor assíduo de tua coluna há vários anos, e como este assunto é de meu interesse particular, pelo fato de ser proprietário de uma agência lotérica em Porto Alegre, resolvi te escrever.

Sou revendedor lotérico desde maio de 1989, portanto há mais de 20 anos, sempre na Avenida Wenceslau Escobar, no bairro Tristeza, na zona sul de Porto Alegre. Tenho, por isso, plena consciência para opinar sobre o assunto: os bolões de qualquer jogo realizados em nossos estabelecimentos são desde o início das atividades de revenda de jogos oficiais praticados e de grande procura e solicitação dos clientes. É uma modalidade que permite a pessoas de poder aquisitivo menor participar de jogos com maior quantidade de números, que lhes darão maiores chances ou possibilidades de ganhar com um investimento pequeno, dentro de suas posses. Outros casos também existem, de pessoas com poder aquisitivo grande que se unem e procuram uma lotérica, investindo altas somas quando os acumulados são de grande monta. Portanto, é uma prática usual e amplamente aceita entre os apostadores, o que diferencia é a maneira como esses bolões são montados. Eu, na minha experiência, desde que houve a troca de sistema de apostas pela Caixa Federal, que permitiu que um jogo de grande quantidade de números pudesse ser feito em somente um comprovante de aposta, passei a anexar este recibo em forma de cópia xerox junto com o comprovante que é entregue para cada cliente e nunca fiz esses bolões para mais de 10 participantes. E mais: eu mesmo, como proprietário e responsável pelo negócio lotérico, é que cuido, confiro e guardo no cofre o recibo original junto com a relação dos compradores, todos com telefone para posterior identificação.

Portanto Sant’Ana, após ler esta semana em tua coluna a carta de nosso revendedor lotérico mais antigo tanto em idade quanto em tempo prestado, me senti também no dever de externar minha tristeza por este momento em que toda a nossa classe está sendo julgada por um fato tão lamentável que ocorreu infelizmente com um representante de nossa categoria entre mais de 10 mil existentes em todo o país. Já na carta do senhor Genarino, em tua coluna desta semana, ele salienta o grande trabalho social que exercemos hoje para a população brasileira. Hoje somos uma extensão de nossa parceira Caixa Federal, não somente para jogos, atendemos a classe mais sofrida deste Brasil pagando todos os benefícios e aposentados do INSS, prestamos serviços bancários de toda ordem, recebemos contas tanto de empresas prestadoras de serviços (luz, telefonia, saneamento e outros) quanto boletos bancários. Enfim, tudo o que um banco faz, nós, hoje, além das apostas, também fazemos, e com um agravante Sant’Ana: com funcionários na sua maioria de pouca instrução, sem nenhuma experiência e treinamento (toda a responsabilidade de transmitir algum conhecimento recai sobre o proprietário), sem traquejo bancário e com salários baixos, que é o que dentro da lucratividade podemos pagar, trabalhando das 8h às 19h.

Meu registro para finalizar é de que a imprensa em geral tente separar o fato grave ocorrido de toda uma classe que representa hoje para nosso país uma importância imensurável, o fato é lamentável, é triste mas é uma situação isolada, nossa categoria continua trabalhando com honestidade e presteza para a população brasileira. (as.) João Cezar Aguiar Borowski, Galeria da Sorte”.

* Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora

O azar dos azares

26 de fevereiro de 2010 12

Tenho um amigo que é a pessoa mais azarada que conheço. Tudo dá errado para ele. Se investe na bolsa de valores, no dia seguinte quebra o mercado de capitais da Islândia, derrubando as bolsas de todo o mundo.

Se compra um imóvel, em poucos dias o prédio desmorona. Se adquire um carro, a revenda chama-o para diversos recalls, tudo está estragado no veículo.

Não pode ter ninguém mais azarado do que ele. Ontem, encontrei-o e ele foi logo me dizendo: “Quando vi essa história do bolão da Mega Sena em Novo Hamburgo, fui logo vasculhar na minha casa onde estava o meu comprovante desse bolão. Não o encontrei, mas vou procurar de novo. Foi tanto o azar dos apostadores desse bolão, que eu devo ser um deles. É certo que eu comprei esse bolão”.

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Dezenas de leitores me mandaram e-mails sobre isto: a pretensa aposta do bolão de NH seria de R$ 132. Com 40 cotas a R$ 11, que é o preço por que foram vendidas, a soma é de R$ 440.

O lucro, portanto, da lotérica seria de R$ 308, um lucro sobre todos os títulos excessivo, mais de 200% do valor da real aposta.

Esse negócio dos bolões é bilionário, movimenta grandes quantias.

E, ainda por cima, quando os apostadores acertam, não recebem.

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Assisti ontem ao vídeo entregue pelo proprietário da lotérica à polícia, no qual se vê a funcionária encarregada do bolão chegando às pressas à lotérica, depois do sorteio, sábado à noite: nervosa, fica procurando supostamente o talão premiado. Não o encontrando na gaveta, leva as mãos à cabeça e parece começar a chorar.

Toda a aparência do vídeo é revestida de autenticidade.

Resta saber por que, em matéria tão importante e lucrativa como essa do bolão, o proprietário da agência não toma para si a conferência dos jogos, averiguando se eles foram feitos ou não. Por que deixar a cargo de uma funcionária uma missão tão especial e delicada como essa?

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Acho que muitos leitores não leram ou não entenderam a coluna em que escrevi que a agência lotérica tem o dever de antes registrar a aposta e só depois proceder ao bolão.

Isso foi praticamente o que primeiro escrevi, mas tantos leitores me mandam dizer esta mesma coisa que penso ser útil a repetição.

Na ocasião escrevi mais: não só fazer primeiro a aposta, antes da venda do bolão, é obrigação da lotérica, como, também, cada volante vendido de bolão tem de ser acompanhado de uma fotocópia da aposta real feita.

Fora disso, é tudo confusão. E incerteza. E locupletação dos bolonistas que organizam os jogos e que porventura sejam desonestos.

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Chega um elogio justo ao SUS: “Boa tarde! Prezado Sant’Ana. Vimos por meio de sua coluna agradecer à doutora Manoela Jorge Coelho e sua equipe, que fazem parte do Programa de Assistência Domiciliar (PAD) do Grupo Hospitalar Conceição. Minha mãe tem 82 anos, apresenta quadro delicado de saúde e está sendo acompanhada pelo PAD desde que recebeu alta hospitalar. Além da visita semanal, nos é fornecido material p/curativos em úlcera de pressão, medicamentos p/hipertensão e diabetes, atendimento via telefone quando temos alguma dúvida, além do carinho inenarrável que minha mãe está recebendo desses profissionais da saúde. Os filhos agradecem com carinho.

Gostaria que publicasse este agradecimento, até mesmo para mostrar que o atendimento do SUS não é tão ruim como muitos falam. Grata. (as.) Susana Minussi, (smminussi@uol.com.br)”.

* Texto publicado hoje na página 71 de Zero Hora

Bolão na credenciada

25 de fevereiro de 2010 27

Mais esta sobre o Bolão da Desgraça na lotérica de Novo Hamburgo: o proprietário da agência lotérica declarou que uma das 40 quotas dos apostadores era sua, ele resolveu ficar com ela para concorrer junto com as outras 39.

Desculpem os leitores que eu insista neste assunto do bolão, mas é que ontem, no fumódromo aqui da RBS, era só o que se falava, e as discussões se tornaram acesas, veementes, é um daqueles assuntos que pegam e não querem largar mais.

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Esta aposta de Novo Hamburgo foi a mais azarada da história:

1) Foi azarada porque deram os números, se não tivessem dado, os papéis iriam para o lixo, ninguém se importaria com isso, tudo bem, vem aí outro sorteio e vamos jogar nele.

2) Foi azarada esta aposta porque o dono da agência lotérica não teve como pagar os acertos, é muito dinheiro, o proprietário da agência entrou em desgraça, seja por sua falta de idoneidade, seja por seu azar.

3) E foi azarada ainda a aposta porque agora o proprietário da agência está declarando que tinha uma quota do bolão, ele também foi prejudicado ao não poder cobrar R$ 1,3 milhão pelo suposto acerto.

Nunca vi tanto azar em dezenas paradoxalmente sorteadas.

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Mas a discussão no fumódromo e em toda a parte está enfezada num ponto: a Caixa Econômica Federal tem ou não tem responsabilidade solidária com o dono da agência no caso dos bolões?

Cá para nós, se as agências são credenciadas pela Caixa para recolherem as apostas, justo seria que a Caixa inspecionasse as agências e verificasse da idoneidade dos bolões.

Se um apostador vai fazer uma aposta em bolão numa agência credenciada pela Caixa, é sinal de que ele confia na Caixa.

Ninguém quer que a Caixa pague por aposta que não foi feita, mas todos têm o direito de exigir que a Caixa se interesse pela conduta das lotéricas no caso dos bolões, que ela averigue se os bolões estão sendo feitos corretamente e estão sendo recolhidas as suas apostas para o terminal da Caixa.

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Quem está apostando num bolão não o está fazendo numa espelunca qualquer, está realizando a aposta numa agência lotérica credenciada pela Caixa, há nitidamente uma relação de confiança entre o apostador e a Caixa. Então, a Caixa tem ou não tem responsabilidade solidária sobre a aposta?

Então a Caixa que proíba os seus agentes lotéricos credenciados que façam bolões, mas se eles os fazem, é evidente que a Caixa, ao permitir que eles os façam, está transmitindo ao agente lotérico um múnus de confiança.

E se há esta confiança, a Caixa é solidária na responsabilidade.

Porque não foi num botequim que os apostadores ergueram o seu bolão, foi numa agência lotérica submetida ao controle e à fiscalização da Caixa. Logo, a Caixa vai encontrar dificuldade para eximir-se de responsabilidade nesta ação que vai parar na Justiça.

O assunto é encrencado, o problema está criado, mas só há duas saídas para a Caixa: ou ela administra os bolões, disciplinando-os junto às agências ou ela proíbe os bolões.

E não é difícil para a Caixa proibir os bolões, basta que ela descredencie as agências lotéricas que os realizem.

Assim como está é que não pode ficar. Dá margem aos espertalhões, que sugam a economia popular com seus truques de bancar jogos que tinham de ir para o terminal e não vão.

Para mim, os bolões ficam por isso com seus dias contados junto às lotéricas.

Eles vão continuar a ser feitos, mas não pela agências. Por terceiros interessados saídos da população. Neste caso, sim, a Caixa não teria responsabilidade.

Mas com bolão feito em agência, tem responsabilidade.

E, se tem responsabilidade, pode vir a ter de pagar os R$ 53 milhões aqueles.

*Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

Prosseguem os bolões?

24 de fevereiro de 2010 14

E agora como é que fica? Foi tão grande a repercussão do caso da Mega Sena de Novo Hamburgo que é de se indagar se prosseguem os bolões.

Quando seria tão simples resolver o caso. Bastava que a cada recibo de aposta em bolão fosse juntada uma fotocópia do comprovante da aposta oficial.

Ou seja, o jogo teria de ser feito antes da venda das cautelas dos bolões. Os adquirentes teriam a certeza, pelo comprovante da aposta feita, que estavam concorrendo de verdade.

Assim como está ninguém tem certeza de nada. E se o agente lotérico for desonesto e resolver bancar o jogo, sem recolher a aposta para os cofres da Caixa? Basta contar com a sorte o desonesto, ele tem quase certeza que ninguém acertará. E se por acaso o apostador acertar uma quadra, o agente lotérico manda pagar o valor irrisório, mesmo sem ter feito o jogo, para manter o cliente e não dar encrenca com a Caixa.

Mas entre as razões levantadas pelo agente lotérico de Novo Hamburgo há uma de dar risadas: “Pode ter sido um erro da tipografia”.

Que é que tem a ver um provável erro tipográfico com o que aconteceu? Nada.

O fato é que a aposta não foi feita.
E nada justifica que a aposta não tenha sido feita. Quando vende o bolão, o agente lotérico tem a obrigação moral e profissional de fazer o jogo.

E não foi feito o jogo. Justo agora que se especule abundantemente sobre desonestidade.

Ontem tive cuidado de ressaltar que muitos agentes lotéricos procedem corretamente com seus bolões.

Um deles me mandou ontem a seguinte mensagem:

“Senhor Paulo Sant’Ana.

Na qualidade de seu assíduo ouvinte e leitor, e como empresário lotérico, proprietário da Agência Fortuna, no centro de Porto Alegre, casa com 81 anos de atividades ininterruptas, venho tecer alguns comentários sobre a questão bolões em casas lotéricas.

1. É histórica a relação de confiança entre apostadores e lotéricas. Lembro, inclusive, que o senhor possuía assinatura de bilhete da Loteria Federal conosco à época de sua vereança em nosso município.

2. Pela nossa longa existência, muitos clientes/amigos mantêm suas assinatura de bilhetes e participam de nossos bolões (grupos que são formados para prêmios atrativos). Conforme orientação jurídica, temos um contrato de adesão para cada quota/participante e os jogos à disposição por até 90 dias após o sorteio. Isso tudo passa por muita conferência: são 81 anos a zelar. Assumimos o risco de encalhes e pagamos impostos sobre eventual lucro: tudo para segurança nossa e de nossos clientes.

3. A rede de casas lotéricas presta grande serviço à coletividade seja no recebimento de contas, no pagamento de benefícios do governo federal ou até fomentando os sonhos das pessoas de melhorarem de vida. Lutamos a duras penas para mantermos nossos negócios, muitas vezes com risco da própria vida ao assumirmos responsabilidade sobre dinheiro que não é nosso e que diariamente precisamos prestar contas. Vivemos de credibilidade.

4. Não é justo que por um problema que foge do normal do dia a dia de milhares de empresários, todos possamos vir a perder esse item importante de arrecadação. É um item que alavanca as vendas da loterias oficiais e cuja falta trará problemas de equilíbrio para muitos.

5. Entendo que a CAIXA nada tenha a ver com isso (ela é responsável pelo processamento dos jogos passados no seu equipamento), afinal é um contrato de confiança entre uma empresa lotérica e seus clientes, no nosso caso firmado com um contrato de adesão (referido anteriormente).

Coloco-me à sua disposição para quaisquer questionamentos que o senhor julgar oportuno e despeço-me com um fraternal abraço.

(ass.)Gennarino R. Laitano, Agência Fortuna, Rua Uruguai, 246, Centro, Poa.”

*Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora

O conto do bolão

23 de fevereiro de 2010 49

Não pode ter nada pior do que isto: você acertar na Mega Sena, ir até a agência que lhe garante que lá foi feita aposta e lá não existe comprovante de nada, o gerente se explica sem explicar nada, uma tragédia.

Tal foi a sorte de 40 apostadores de Novo Hamburgo que marcaram entre as oito dezenas constantes de seu bolão as seis premiadas com R$ 52 milhões sábado passado.

Cada um dos “felizardos” teria direito a R$ 1,3 milhão. Mas quando foram ver o resultado ficaram assombrados: a Caixa Econômica Federal divulgou que não houve nenhum acertador.

Mas como não houve acertador, se nas cópias que lhes foram dadas pela agência lotérica estavam as seis dezenas ganhadoras?

Evidentemente que o jogo não tinha sido feito. Ou a agência lotérica havia embolsado o total gasto pelos 40 apostadores ou houve algum erro de digitação. Mas, se houve erro de digitação, então o proprietário da agência tem de apresentar o comprovante de que o jogo foi feito com outros números que não sejam aqueles premiados.

Esta história está muito mal contada.
Ontem, dezenas de pessoas me falaram que têm a convicção que muitas agências lotéricas arrecadam apostas em bolão e não fazem o jogo, bancando-o: como é muito difícil acertar, estas agências se locupletam com arrecadações que não importam em qualquer aposta. Isto era o que se acreditava ontem no seio do povo.

Estes bolões movimentam uma fortuna no país. É hora de a Caixa Econômica proibi-los ou discipliná-los. Tem muita gente ganhando dinheiro com esse estelionato.

Se é verdade que a Caixa Econômica Federal não pode responsabilizar-se por apostas que não são feitas, também o é que quem administra estes bolões são agentes credenciados pela Caixa.

Ou seja, o público tem confiança nessas lotéricas credenciadas e aposta em bolões.

O certo seria que cada talão de bolão fosse acompanhado por uma fotocópia do comprovante oficial da aposta. Mas isso não é feito e nenhum apostador tem qualquer garantia de que o jogo foi feito: a manobra só é desmascarada quando acontece o que ocorreu agora: saem os números constantes do bolão e jogo nenhum foi feito. Só neste caso é que os apostadores vão reclamar, é lógico.

Mas e nos milhões de vezes que os apostadores não acertam nas dezenas sorteadas, quem é que garante que o jogo foi feito? Isso dá margem a uma tremenda maracutaia.

Mas a Caixa Federal se excusa de qualquer responsabilidade, é crível, pois só pode pagar prêmio por aposta que for feita.

No entanto, como os bolões são organizados por agências lotéricas credenciadas pela Caixa, cumpre que ela discipline a organização dos bolões ou então distribua por todo o país instruções proibitivas da realização desses bolões, o que não pode é essa arrecadação bilionária ficar à mercê de algumas pessoas que podem ser inescrupulosas e estarem a se locupletar com o expediente inidôneo.

Cobrar por aposta não feita é roubo.
É assalto à economia popular. Como não há maneira de se fiscalizar se as apostas dos bolões foram realmente realizadas, é preciso tornar ilícita a realização desses bolões, sob pena não só de se repetir o que ocorreu em Novo Hamburgo como também de se canalizarem para mãos desonestas fortunas colossais através de um estelionato tanto deplorável quanto permanente.

Esse tipo de ocorrência acaba prejudicando as agencias lotéricas honestas que organizam seus bolões e fazem realmente as apostas correspendentes a eles.

Confira meu comentário no Gaúcha Hoje:

*Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

Carne de gato

22 de fevereiro de 2010 20

Em terremotos e outras situações extremas, admite-se que as pessoas comam ratos. Há até, como naquela célebre queda de avião nos Andes, notícias de pessoas que, arriscando morrer de fome, devoram carne humana.

Da minha parte, nunca fui dado a comer alimentos exóticos. Já me serviram escargô em culinária sofisticada, mas não pude engolir um grama da comida. Acho que meu preconceito era menos com o alimento do que com o nome popular que eu conhecia: lesma.

“Deus me livre de comer lesma”, pensei.

O máximo que me permiti foi certa vez comer rã assada ali no Recreio Avenida, um dos grandes restaurantes da Cidade, na antiga Avenida Eduardo, hoje Presidente Roosevelt, nos anos 50 e 60.

E olhem que gostei muito da carne de rã, que me pareceu mais saborosa que a de galinha.

Mas agora um apresentador de televisão escandalizou a Itália, país em que a cozinha costuma consumir com insistência coelhos, lebres, codornas, bois e cordeiros.

O apresentador Beppe Bigazzi, em seu programa de culinária na televisão, aconselhou os italianos a comer carne de gato, que ele já teria experimentado várias vezes.

As entidades de defesa dos animais reagiram violentamente: “Bigazzi é um cretino, na latitude em que vivemos, simplesmente não comemos os nossos melhores amigos.”

Ué, como é que na França os cavalos são vendidos nos açougues!

A arte popular de versos brasileira se ocupa em várias obras do sacrifício de gatos para alimentação e outros fins.

Há um samba do saudoso Jorge Veiga que diz assim:

Me convidaram pra fazer um samba

Lá no Morro da Arrelia

Me apresentaram pra o dono da casa

Era um tal de Malaquia

Ele me disse em sua homenagem

Eu já mandei preparar o prato

Eu fiquei indignado

Quando me disseram que comi carne de gato.

Malandro não dá mancada

Vou pôr minhas mãos à obra

Vou convidá-lo para uma peixada

Vai ser carne de cobra.

Mas a utilidade mais proverbial do gato na poesia popular brasileira não é como alimento:

Aquele gato

Que não me deixava dormir

Aquele gato

Agora nos faz sorrir

Às vezes saía bem da minha pedrada

Pulava e dava risada

Vivia zombando de mim

Aquele gato não é mais gato

Hoje é tamborim.

Você, meu leitor ou leitora, seria capaz de comer carne de gato? Pois é, mas o Anonymus Gourmet da Itália está aconselhando seus telespectadores a comer carne de gato.

E dá os detalhes: o cadáver do gato tem de ficar três dias de molho em água corrente da torneira: até a carne ficar bem branquinha e virar numa iguaria, afirma ele.

*Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora

Turismo da eutanásia

20 de fevereiro de 2010 19

Como sou interessado por eutanásia, sempre que surge no mundo uma ocorrência relacionada com ela, fico atento.

Agora um caso espetacular vem reacender o incessante debate sobre a eutanásia: na Inglaterra, um jornalista confessou que matou seu ex-companheiro sexual, vítima de aids, porque ele não suportava mais as dores da doença.

Por isso é que se chama a eutanásia de “morte piedosa”. Neste caso, o que impressiona é que o jornalista que asfixiou seu parceiro sexual não era suspeito do homicídio, resolveu confessar a eutanásia num programa de televisão e foi imediatamente preso.

Ray Gosling, de 70 anos, declarou que seu companheiro havia traçado consigo um pacto: se as dores da aids se tornassem terríveis e insuportáveis, ele o mataria por asfixia. E foi o que fez.

“Os médicos haviam dito que ele enfrentaria dores terríveis e que eles nada poderiam fazer. Peguei o travesseiro e o asfixiei até a morte”, relatou Gosling.

Ele prometeu que não diria o nome de seu ex-companheiro nem quando a morte ocorreu, cabe agora à polícia elucidar o caso.

Uma outra declaração de impacto do autor da morte: “Quando se ama alguém, é duro ver a pessoa sofrer”. E não revelou nenhum remorso pela eutanásia.

Na Inglaterra, a eutanásia não é permitida e a pena de prisão por sua autoria é de 14 anos.

Por isso mesmo é que existe uma corrida de pacientes ingleses e seus familiares para a Suíça, onde a eutanásia é permitida e os familiares dos pacientes não são condenados quando instam pela morte provocada em clínicas especializadas.

Só em 2009, 120 britânicos procuraram a Clínica Dignitas, em Zurich, Suíça, especializada em mortes assistidas, o que vem sendo chamado de “turismo de eutanásia”.

Não me envergonho em dizer que sou a favor da eutanásia.

Comove-me até o desespero assistir ao sofrimento de alguém condenado a morrer, sem qualquer chance de sobrevivência, às vezes jungido a tormentos cruciais durante anos seguidos, apenas porque a lei impede que se abrevie por meios artificiais a sua existência.

E como se vê neste caso narrado acima, a lei que impede a morte piedosa é apenas uma questão de territorialidade, um país admite a eutanásia, outro a criminaliza.

Então no caso de que o paciente, impedido de cometer suicídio pela sua imobilidade, consente que o matem (ou até mesmo implora por isso), aí sou mais ainda a favor.

Não sei como o Brasil ainda não admite a eutanásia nesses casos.

“Medicare” em latim não quer dizer curar, quer dizer “tirar a dor”. E quando se torna impossível curar, urge tirar a dor.

Como pode então a medicina permitir a dor em casos de permanente aflição e nos quais não há mais qualquer possibilidade de sobrevivência do paciente? Como pode?

Não tenho dúvida, embora o debate seja instigante, que a eutanásia consiste numa atitude cristã.

Não há nada mais cristão que a piedade.

Outra Mega Sena!

20 de fevereiro de 2010 8

Corre hoje uma Mega Sena ao redor dos R$ 60 milhões. Fui a duas agências lotéricas ontem e elas estavam abarrotadas de gente.

Esta confiança que as multidões têm de ganhar o grande prêmio é uma das provas de que este jogo é honesto, seguidamente surgem hipóteses não embasadas de que o jogo não é sério, mas se dissolvem na poeira da crendice popular.

*

A Mega Sena serve, quanto menos, para alimentar o sonho. É a única maneira que uma pessoa tem para melhorar a sua vida, teoricamente.

Que outro jeito se daria para comprar um apartamento que ocupa todo um andar, uma grande cabana num condomínio de praia, carros finos de último tipo para toda a família e viajar pelo mundo sem ter de contar tostões nas estadias?

Que outro jeito há para dar a cada um dos parentes um apartamento novo, ficar bem com todo mundo da família e ainda por cima descolar algum para um amigo qualquer? Que outro jeito?

As 50 milhões de apostas da Mega Sena de hoje carregam a esperança de cada um dos seus apostadores, que se acotovelam nas filas.

Tanto que vão se passando os anos e as pessoas, envoltas em suas dificuldades, nutrem no entanto um consolo:

– Não faz mal, um dia eu ganho a Mega Sena.

*

A única experiência que tenho em grande prêmio deu-se não comigo, mas com meu amigo José Antônio Ribeiro, o Gaguinho, já falecido, mas que ganhou há uns 20 anos o primeiro prêmio da Quina.

Ele morava em Florianópolis, tinha sido demitido de seu emprego, sentou-se na cadeira de balanço da sala e ficou vendo televisão.

Dali a pouco deram no vídeo e no som o resultado da Quina.

Ele pensou: “Espera aí, mas estes são os meus números!” E saiu a procurar nervosamente, possuído de intensa emoção, a cartela premiada.

Achou-a, conferiu e estavam ali realmente os cinco números mágicos da sorte, ele ficara milionário. Para um desempregado, nada mais empolgante.

*

Eu fiquei tão contente e emocionado que peguei o Gaguinho e fui dando ideias a ele de como aplicar o dinheiro. Ele ouviu atentamente todos os meus conselhos, e não seguiu nenhum. A gente tem a mania de meter-se na vida dos outros quando eles são bem-sucedidos. É uma forma de sonhar também, ganhar na sorte grande é um sonho para milhões, que só é atingido por raros sortudos.

A exemplo do que também se crê, o Gaguinho atrapalhou-se todo para empregar a fortuna que ganhara. Comprou uma casa numa praia paradisíaca de Florianópolis e realizou o seu grande sonho que era adquirir uma grande, possante camioneta.

E logo o dinheiro do Gaguinho evaporou-se, mas ele foi feliz durante uns dois anos, até que morreu.

Tenho saudade imensa do Gaguinho e espiritualmente fui ganhador junto com ele daquela bolada.

*

Ali estão as filas dos apostadores da Mega Sena. Eu tenho a impressão que os governos estimulam estes grandes prêmios para mexer com o imaginário popular e não deixar que as pessoas se tornem perigosas ao não nutrirem qualquer esperança de melhora social.

O fato é que, até a hora do sorteio, todos nos tornamos virtualmente felizes, na espera de que sejamos premiados. Vai se ver o resultado e se nota que desta vez não fomos nós que ganhamos. O felizardo foi um outro qualquer, anônimo, desconhecido, o grande prêmio parece-nos distante e impossível.

Mas daqui a duas ou três semanas estamos outras vezes nas filas imensas, apostando na Mega Sena.

Para manter-se vivo é preciso também manter acesa a chama da esperança.

*Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora

Fato rigorosamente igual

19 de fevereiro de 2010 17

Cada caso é um caso. Esta sentença é muito usada em medicina, mas serve para qualquer situação da vida.

Serve, por exemplo, para o caso do ex-marido, em Tenente Portela, que anteontem sequestrou sua mulher na casa dela, ameaçava matá-la e suicidar-se, a polícia foi chamada, contemporizou com o tomador da refém durante 11 horas, ao cabo de que o homem matou a mulher a tiros e suicidou-se.

Tudo igualzinho ao cárcere privado acontecido no fim de semana passado em Canoas, menos o desfecho: o homem invadiu a casa da ex-mulher, capturou-a, submeteu-a a cárcere privado, veio a polícia e cercou a residência, iniciando-se as negociações.

*

Como é que deu certo o caso de Canoas e redundou em tragédia o caso de Tenente Portela?

É muita simplificação declarar-se que os policiais militares de Canoas foram eficientes e os de Tenente Portela não souberam conduzir o caso para evitar a tragédia.

Cada caso é um caso. Ainda anteontem esta coluna advertia para o fato de que os psiquiatras criminais afirmam que os tomadores passionais de reféns se tornam imprevisíveis. Eles ficam tomados por uma alucinação, por uma vertigem de destruição do ser amado, tornando estas operações de resgate imponderáveis.

*

Os casos se sucedem com as mesmas características: diante do irremediável, a mulher não quer mais viver com o ex-marido, eles partem para a violência, tentando inicialmente uma reconciliação, mas logo em seguida revelando forte inclinação para matar a ex-mulher e suicidar-se.

Por aqui, em Canoas, cumpriu-se o elogio das forças policiais, que lideradas por oficiais negociadores, conseguiram, depois de 70 horas, que o autor do cárcere privado se entregasse e entregasse a refém sã e salva.

Já em Tenente Portela, o sequestro durou menos de 70 horas, somente 11 horas, mas certamente a polícia desenvolveu esforços para que o captor se entregasse, com a vida da refém preservada.

Se houve maior habilidade na negociação em Canoas do que em Tenente Portela, isto fica no terreno das hipóteses.

O fato é que, dependendo muitas vezes da sorte, estes homens tresloucados se constituem em séria ameaça e não raro se instala, nas mesmíssimas condições de ex-marido abandonado e ex-mulher irredutível, esta ocorrência policial delicadíssima.

*

O que não resta dúvida é a intenção dos ex-maridos de matarem as ex-mulheres e depois suicidarem-se. Eles firmam pé nessa intenção, resta à polícia, quando ainda chega a tempo, tentar dissuadi-los dessa intenção, tentar enganá-los, tentar pelo cansaço vencê-los no propósito.

São tragédias corriqueiras, e o homem é sempre acusado: nunca se viu que uma ex-mulher tenha tomado o ex-marido como refém e ameaçado matá-lo e suicidar-se.

Que ímpeto plenipotenciário e megalomaníaco leva os indivíduos masculinos à repetição exaustiva desses casos?

E sempre a rondar as tragédias, aconteceu em Canoas e ocorreu em Tenente Portela, os filhos menores a comporem o cenário de drama e aflição.

Parece que há um gene masculino mais frágil ao abandono e ao desprezo.

Mas esses fatos vão continuar pontuando a crônica policial, espantosamente iguais em seus pormenores.

*Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora

Deu a lógica

18 de fevereiro de 2010 3

Não foi difícil prever que a Unidos da Tijuca (título desta coluna ontem) seria a campeã do Carnaval carioca.

Quando se soube que a Tijuca se houvera bem em evolução, em fantasia, em enredo, em mestre-sala e porta-bandeira, em bateria, ficou-se sabendo que ela fora bem em tudo, ninguém poderia superá-la, nem a Grande Rio em modernidade, nem a Beija Flor, a Mangueira e a Vila Isabel em tradicionalidade.

*

Mas encharcando todos os espíritos de admiração estivera a comissão de frente da Tijuca: algo de beleza inenarrável. Beleza de ópera, de teatro, de ribalta, de circo, a magia do ilusionismo invadindo a avenida.

A impressão forte foi a da comissão de frente. Mas a pontuação de 299,9, apenas um décimo de desconto por parte de 50 jurados, demonstrou que a Unidos da Tijuca foi um sucesso inteiro, total, avassalador.

Mas existe sempre o perigo do que vai pelas cabeças dos jurados. E, por isso, no início da apuração, a Imperatriz Leopoldinense e a Mangueira saltaram na frente da Tijuca. Mais tarde, a apuração foi se ajeitando, os 10 sobre 10 foram sendo computados para a Tijuca. A Grande Rio, outra que impressionou, foi se acomodando no segundo lugar e encerrou-se a apuração consagrando a Tijuca.

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Não tinha sido só a unanimidade do público, a quase unanimidade da imprensa a vaticinar a vitória da Tijuca. Faltava ainda a enigmática e imprevisível vontade dos jurados. E ela veio de forma arrasadora, de maneira folgada a Tijuca empolgou o júri e arrebatou a vitória indiscutível.

Não poderia ter sido outro o resultado. Em toda a parte que se fosse, ouvia-se no seio do povo a admiração pela proeza da comissão de frente da Tijuca. Era só do que se falava.

Aquela troca rápida e mágica dos vestidos das seis bailarinas, cinco trocas de roupa embasbacantes, seja debaixo da passagem do manto, seja dentro dos sacos, ali na frente do público e a desafiar a tecnologia da televisão a desvendar-lhe o segredo, foram instantes de estupenda beleza, nunca mais serão esquecidos como o maior show jamais proporcionado em todos os tempos no Carnaval brasileiro.

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E tinha de ser no Rio de Janeiro. Se fosse em São Paulo, não teria a mesma legitimidade. Falta ao extraordinário Carnaval de São Paulo aquela originalidade, aquela autenticidade que sobra ao Rio de Janeiro como berço do Carnaval.

Paulo Barros, o carnavalesco da Tijuca, sucede, assim, a Joãozinho Trinta como o grande arquiteto modernista do carnaval de desfiles, sem dúvida que ele descobriu o “segredo” da planificação carnavalesca e nos próximos anos despontará como o grande revolucionário da avenida, a principal atração de tantas e tão grandes atrações que se espalham pela geografia do carnaval brasileiro.

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Quem como eu já estava um pouco cansado da mesmice ficou empolgado com o desfile da Tijuca. A mesmice ficou cristalizada no desfile das outras Escolas, com exceção da Grande Rio.

Valeu. Jamais sairá da memória de todos aquela comissão de frente. E como nos outros itens todos a Tijuca foi melhor que as outras, jamais sairá da memória de todos que a Escola do Morro do Borel, despretensiosa e carregando tantos anos sem vitória, iria arrebatar o país inteiro com um espetáculo ímpar de mágica beleza.

Salve, Unidos da Tijuca!

*Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

Unidos da Tijuca

17 de fevereiro de 2010 4

Estava eu assistindo ontem à empolgante apuração do grupo principal do Carnaval porto-alegrense, quando liderou quase até o fim a Restinga, quase empatada com a Vila do IAPI, a campeã Imperatriz Dona Leopoldina curtindo um terceirinho à espera de que o sol despontasse, e fiquei imaginando as emoções que cercarão hoje à tarde a apuração do Carnaval carioca.

Que emocionante título da Imperatriz Dona Leopoldina aqui em Porto Alegre! Quando todas as vozes davam a Restinga como provável vencedora, a escola da Zona Norte foi somando devagar os seus pontinhos e acabou vencendo o Carnaval com diferença de dois décimos.

Deve estar alegre o Vinicius Brito, nosso colunista de Carnaval aqui em Zero Hora, filho do Cláudio Brito. O Vinicius é um dos compositores do samba-enredo da Imperatriz Dona Leopoldina, escola que lutou com grandes dificuldades para chegar a esta inédita vitória contra as grandes e tradicionais escolas do Carnaval porto-alegrense: teve sua quadra inteiramente destruída por temporal no passado, mesmo assim reergueu-se e foi para a glória.

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Será emocionante a apuração do Carnaval carioca hoje à tarde? De minha parte, como todo mundo, sou torcedor da Unidos da Tijuca, muito pelo desempenho da sua prodigiosa comissão de frente, mas acontece que toda a escola foi marcada pelo luxo e pela criatividade.

Salgueiro, Vila Isabel e a sempre Mangueira podem vir a surpreender, mas seria uma injustiça a Unidos da Tijuca não vir a ser campeã.

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Estonteante a comissão de frente da Tijuca. Por mais que tentem me explicar como puderam fazer as seis bailarinas, em dois, no máximo três segundos, trocar de roupas por cinco vezes, não entendo como conseguiram executar o truque na avenida, muito mais difícil do que num palco!

A gente se beliscava vendo aquilo, as cores dos vestidos serem mudadas diante dos nossos olhos, numa mágica estupenda.

E no momento em que, não mais com a passagem do manto envolvente nem a retirada dos corpos das dançarinas de dentro dos sacos, mas sob o espargimento de confetes, elas ressurgem automaticamente com outros vestidos, de outra cor, o público foi ao delírio, muito maior do que aquela vez em que um astronauta voou na Sapucaí.

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Os realizadores desse fantástico ilusionismo candidatam-se desde já para serem os realizadores do espetáculo inaugural da Olimpíada de 2016, no Maracanã. Se eles repetirem o que fizeram na Sapucaí, o Brasil encantará o mundo.

Só por aquilo, qualquer seja a campeã hoje declarada do Carnaval carioca, deixará triste todos os novos amantes da Unidos da Tijuca, nós que ficamos estupefatos com sua comissão de frente, mas que também reconhecemos que a escola esteve bem em todos os outros itens, sempre superior a seus concorrentes, se ela não chegar ao título.

Sem nunca ter sido torcedor da Tijuca, eu, como todos os brasileiros que a vimos na Sapucaí, estou à espera de bradar um grito de vitória hoje à tarde e elevar uma taça de champanha à criatividade, ao engenho, à arte, à ousadia da inesquecível e lendária comissão de frente da Unidos da Tijuca no Carnaval de 2010.

*Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora

Ciúme tresloucado

16 de fevereiro de 2010 6

Um dos mais longos cárceres privados com acompanhamento da polícia estava se desenrolando ontem à tarde, no horário em que escrevo, no bairro Guajuviras, em Canoas.

Eram decorridas 65 horas de cativeiro da mulher do autor do delito, não sei se houve desfecho horas depois, mas impressiona vivamente a resistência do sequestrador.

Da mulher não, que deve estar com os nervos em frangalhos, mas ela não tem a obrigação de resistir à ação da polícia, encargo recaído sobre o ex-marido, que é obrigado a vigiar a casa para impedir a invasão policial.

O dramático cárcere privado era acompanhado ontem por toda a imprensa nacional.

Segundo foi noticiado, o sequestrador da ex-mulher ergueu barricadas diante da porta e das janelas da casa, com isso se acautelando de uma ação policial que até ontem não acontecera.

Como em tudo na vida, aguarda-se o resultado. Se for feliz, sobrevivendo o sequestrador e a ex-mulher, todos dirão que a ação da polícia foi correta.

Se não for feliz o desfecho, não faltarão vozes para dizer que a polícia errou em contemporizar com o criminoso, que devia ter invadido a casa etc.

Pois eu quero dar minha opinião antes do desfecho: esteve certa a polícia em não desligar a água e a luz da casa onde está o casal e também em fornecer comida para eles, aguardando que pelo cansaço o sequestrador se entregasse vivo com sua cativa.

Existem dois motivos concorrentes para aprovar a ação policial: o primeiro é filosófico, compete à polícia, assim como à medicina, salvar vidas e não destruí-las.

É preciso que se tenha em mente que o perigo que corria a mulher, enquanto se desenrolava o drama do não desfecho, era virtual, não iminente, embora o homem estivesse armado e já fizera disparo contra um cunhado que fugiu.

Tudo então tinha de fazer a polícia para preservar as duas vidas que estavam sob sua custódia, contando com o tempo para levar o sequestrador à exaustão.

O que impressiona é que por quase 72 horas, aparentemente, o sequestrador não dormiu: diziam que, por ser vigilante, estava acostumado a longas horas de vigília. Mesmo assim, três dias sem dormir está além das forças humanas, a menos de que tenha cochilado esparsamente, depois que se assegurou que a tática da polícia era a contemporização.

O segundo motivo por que cabia à polícia esperar o desenvolvimento dos fatos na esperança de uma negociação favorável é que afirmam os psiquiatras criminais que os sequestradores passionais são imprevisíveis. A qualquer momento o homem poderia resistir violentamente à invasão ou a uma ameaça ou à possibilidade dela, matando a mulher e talvez suicidando-se, mesmo diante somente da hipótese de que seria atacado. Uma delicadeza.

Cabia à polícia, então, o que ela fez: convencer o sequestrador de que não era intenção das forças policiais invadir a casa, incutindo-lhe a confiança de que a casa não seria atacada.

Estou, pois, como esteve toda a opinião pública até a hora em que escrevo, torcendo para que tudo termine bem nesta interminável série de agressões de homens a mulheres que os abandonaram.

Não há dia que o noticiário policial passe sem o registro desses casos.

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Não há outra coisa que fazer senão declarar a Unidos da Tijuca campeã do carnaval do Rio de Janeiro depois do seu inesquecível desfile da Comissão de Frente.

*Texto publicado hoje na página 39 de Zero Hora

Um chope pra distrair

15 de fevereiro de 2010 5

O calor é amigo do chope. É impossível viver-se com temperatura superior a 30 graus sem tomar um chope.

E eu imagino o que devem estar faturando por aqui as cervejarias com este calor escaldante que está fazendo.

Porque este calor está nos equiparando ao Rio de Janeiro. A cidade do Rio de Janeiro já tem praia. Porto Alegre por exemplo, que não tem praia de mar, vê seus habitantes sairem correndo para o Litoral.

Tanto que em fevereiros passados o trânsito em Porto Alegre tinha muito mais carros do que tem neste fevereiro que estamos vivendo.

Ontem, lógico que também por causa dos feriados de Carnaval, a cidade ficou vazia, tenho a impressão de que só eu fiquei por aqui, a debandada foi geral.

*

Seguidamente vejo pessoas se indagando se gostam mais do verão ou do inverno. Pelo que noto, os que adoram o verão o fazem para fugir dele para as praias. Interessante, gostam de uma estação para fugir dela.

Voltando ao chope, fulcro desta coluna, em São Paulo cada habitante consome 68 litros de chope por ano. No Rio de Janeiro, quase dobra o consumo, os cariocas bebem 105 litros de chope por ano, por pessoa.

No Rio de Janeiro, aquela cidade fantástica, tudo que é prazer é mais exagerado. Bebem mais chope que os paulistas, comem feijoada mais que nos outros Estados brasileiros, não há restaurante carioca que não venda feijoada durante o ano inteiro.

Com tanta feijoada sendo assim devorada, é lógico que o consumo de chope no Rio tem de ser o recordista.

Quem mais bebe chope e cerveja no mundo são os alemães, seguidos dos austríacos e holandeses.

Mas eu duvido que bebam mais que os cariocas, pelo simples fato de que o calor impera no Rio de Janeiro durante todo o ano, enquanto a Europa é um dos continentes do frio.

Só que os alemães gostam tanto de chope que eles o bebem até mesmo quando o inverno está rigoroso. Essa é a diferença entre eles e nós.

*

Já li que a cerveja é a bebida mais consumida em todo o mundo. Será que ela é mais consumida que a Coca-Cola?

O fato é que o chope tem um poder refrescante extraordinário, parece que em um minuto todo o corpo fica inundado por um frescor incomparável, a impressão que se tem é que todas as artérias são dominadas pelas propriedades refrescantes do chope gelado.

Não há bar em que se vá, no Litoral, nas cidades, em que não seja dominante nas mesas o chope bem gelado.

O famoso boteco Bracarense, no Rio de Janeiro, Leblon, lendário pelo seu bolinho de bacalhau, vende 16 mil litros de chope por mês, não há quem sente em suas mesas e não peça chope, é um sacrilégio solicitar um refrigerante, quem o fizer está sujeito a uma vaia.

O Belmonte, no Flamengo, um boteco de apenas 100 metros quadrados de extensão, não fica atrás, vende 15 mil litros de chope por mês. O chope é uma religião no Rio de Janeiro.

*

E com este calor de 40 graus que nos ronda aqui no Sul equiparamo-nos ao Rio de Janeiro em consumo de chope. Só por estes dias, mas nunca se bebeu tanto chope no Rio Grande do Sul, em toda a história, como neste verão.

E como sou filho de Deus e tenho os meus direitos, termino esta coluna ansioso por sair correndo daqui e ir tomar o meu chopinho, que não é meu hábito, mas com este clima passou a ser meu dever.

Chope com bolinho de batata.

Nós perdemos a graça

13 de fevereiro de 2010 8

Um amigo da minha idade me chamou a um canto e disse: “Pablo, no nosso tempo a noite era linda. Não faltavam lugares onde se pudesse ouvir uma seresta ou um bom samba, os bandolins, os banjos, os violões, e os cavaquinhos encantavam os nossos encontros, havia uma poesia superior nos versos e uma encantadora harmonia nas melodias. Aquilo sim é que era tempo, aquilo sim é que era noite, hoje não existe mais isto. Não existe mais graça na noite”.

Olhei-o demoradamente e disse-lhe que estava completamente enganado, não era a noite que tinha perdido a graça, nós é que perdemos a graça.

Observando bem, as pessoas se divertem a valer na noite de hoje. Quando que um evento musical iria atrair dezenas de milhares de pessoas como faz hoje o Planeta Atlântida? Quando? Nada havia naquele tempo que se comparasse ao Planeta Atlântida.

E, olhando bem na cidade, você vai observar que existem centenas de boquinhas onde se faz música de qualidade, onde se dança, onde se namora, onde se bebe e se come com alento.

Não foi a noite que mudou, nós é que mudamos.

Verdade que o carnaval mudou. Não existem mais nas cidades os bailes do Dinamite e do Panamirim.

Não existem mais na cidade os bailes de carnaval da Cabana do Turquinho.

Não existem mais na cidade os bailes do Mil e Uma Noites em Assunção. Não existem mais na cidade os bailes de carnaval do Clube do Professor Gaúcho, em Ipanema. Nem existem mais os bailes de carnaval da Sogipa e do União.

Não existem mais na cidade os espetaculares bailes de carnaval do Teresópolis Tênis Clube, que faziam a existência da gente se dividir entre o baile deste ano e, findo ele, a expectativa pelo baile do ano que vem.

A diferença talvez só seja a dos bailes de carnaval, mas é uma baita diferença.

É grande a diferença, mas é só no Carnaval. Aqueles bailes de carnaval de antigamente eram os locais em que se praticava a alegria, a verdadeira alegria, a legítima felicidade, dos sons, das cores, das fantasias, das marchinhas e dos sambas, a vida estuante de sorrisos, dos cantos, as vozes, os flertes, os encontros, os romances, as manhãs extenuadas das saídas dos bailes, a consciência do dever cumprido e a sensação de que no ano que vem haveria tudo de se repetir maravilhosamente.

Guardo ainda bem guardada a serpentina

Que ela jogou

Ela era uma linda colombina

E eu um pobre pierrô!

Guardei a serpentina

Que ela me atirou

Brinquei com a colombina

Até as sete da manhã

Chorei quando ela disse

Vou me embora, até amanhã,

Pierrô, até amanhã!

***

Isso não existe mais, existia naquele tempo. No mais tudo é igual ou hoje é superior a antigamente.

Tudo tem seu tempo certo.

As algemas

13 de fevereiro de 2010 9

Vejam este caso do governador de Brasília José Roberto Arruda, pediu licenciamento do cargo por ter sido preso pelo Superior Tribunal de Justiça.

Foi decretada a sua prisão e ele não poderia fugir. Mas tinha de ser materializada a prisão, a Polícia Federal tinha de efetuá-la.

Ele pronto correu a telefonar para o diretor-geral da Polícia Federal e negociar a forma como iria para a prisão, sem as surpresas de ter de ser apanhado pela polícia e levado até a prisão.

Negociou da seguinte forma: ele se entregaria no prédio da Polícia Federal e se livraria da suprema humilhação: as algemas.

Tudo, menos as algemas, pensou Arruda. E assim foi feito.

Este homem estava disposto a tudo que o destino aprouvera. Foi destituído do cargo de governador, estava numa hora investido da função eletiva, despachando no palácio, em poucos segundos a sua vida mudaria para uma tragédia: tinha sido decretada a sua prisão.

Ele teria de suportar esta queda vertiginosa da existência de maneira estoica: de governador para detento, tudo se passou de forma rápida, um turbilhão de pesadelos passou por sua cabeça.

Mas teria de enfrentar a vida, a prisão, o processo, a execração.

Dispôs-se a tudo isso, só não se dispôs a uma coisa: as algemas.

Tudo, menos as algemas.

Foi tão grande, meses atrás, a polêmica sobre o uso de algemas em presos importantes, houve reação de alguns presos, houve justificativas candentes da Polícia Federal para usar as algemas, que chego a uma conclusão: a pena máxima em matéria penal entre nós não são os 30 anos de prisão, o teto de punição para cada cidadão. A pena máxima, segundo concluí, são as algemas.

As algemas com fotos nos jornais e imagens na televisão são o castigo mais temido pelos presos ilustres.

Daí que o governador Arruda negociou com a Polícia Federal não lhe fossem aplicadas algemas, o próprio presidente Lula se empenhou elogiavelmente no sentido de que Arruda não fosse humilhado pelas algemas.

As algemas carregam um tal grau de opróbio que muitas vezes se vê na televisão ou em fotografias de jornais os presos sendo conduzidos para a prisão, algemados, mas com um pano qualquer ou um papel sobre as algemas para esconder aquele equipamento policial dos olhos dos outros. E isso às vezes é cometido por presos não ilustres, por bandidos quaisquer, que incrivelmente pensam que só são destituídos de dignidade se forem vistos algemados.

Tanto é verdade isso que a definição de algema no dicionário deveria ser somente a de instrumento de ferro com que se prendem os braços pelos pulsos. Ou então como grilheta ou cadeia.

Mas não, está lá no dicionário o sentido figurado da palavra algema: coação, coerção, agressão.

O dicionário considera até como agressão as algemas, daí que os presos suportam todo e qualquer tratamento, querem apenas evitar as algemas.

Daí que o ex-governador Arruda está pronto para enfrentar todo um drama para responder às acusações de que é alvo, mas deve estar pelo menos minimamente consolado porque não foram publicadas fotos suas na prisão ou a caminho dela, mas principalmente porque ele não foi visto algemado.

*Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora