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Posts do dia 20 março 2010

Um sequestro improvisado

20 de março de 2010 11

A Polícia Civil, como já escreveu o repórter Humberto Trezzi, está em estado de graça: resolveu totalmente o sequestro do jovem Fernando Júlio Estima, praticado na noite da última quarta-feira no Balneário Cassino, em Rio Grande.

Para a elucidação completa do sequestro, as delegacias de polícia de Rio Grande contaram com o apoio da Brigada Militar e com o reforço do delegado Juliano Ferreira, da Delegacia de Furtos e Roubos de Porto Alegre, e do delegado Ranolfo Vieira Junior, diretor do Departamento Estadual de Investigações, que seguiram às pressas para Rio Grande, tão pronto consumado o crime.

Foi um sequestro com resgate pago
, tudo monitorado pela polícia. Um notebook, joias e R$ 30 mil, entregues e deixados em um local da praia do Cassino pelo pai do jovem sequestrado, ao mesmo tempo em que o jovem Fernando Júlio Estima era deixado na praia, amarrado e vendado, a dois quilômetros do local da entrega do dinheiro.

Como a polícia tinha conhecimento dos dois locais, não foi tão difícil a prisão do sequestrador que de moto fugiu com o dinheiro pago pelo resgate, mas foi capturado e denunciou todo o bando de seis sequestradores. De R$ 200 mil, o preço do resgate havia sido reduzido para R$ 60 mil.

O sequestro foi improvisado pelos sequestradores. Eles inicialmente roubaram a casa do pai do garoto sequestrado, mas, como encontraram nela R$ 30 mil, cresceram o olho e resolveram sequestrar o jovem. Foi quando caíram do cavalo, metidos num metiê a que não estavam acostumados e ainda por cima enredados numa outra ação policial elogiável e exitosa.

O que impressiona no caso é a pressa de que foram tomados os sequestradores quando aprisionaram Fernando.

Levaram-no para a casa do sogro e da sogra do mentor do sequestro, onde se encontrava também uma namorada deste.

Lá aprisionaram o sequestrado, que ficou sob os cuidados também da sogra, do sogro e da namorada do chefe da quadrilha.

Ou seja, estes últimos três tiveram a notícia de que participariam do sequestro de surpresa. Mas, pelo que noticiou Zero Hora, aderiram ao plano e agora estão também presos e enredados no crime por terem colaborado para a execução do cativeiro do sequestrado.

Chama a atenção o improviso da ação dos ladrões e sequestradores. Inicialmente, no roubo da casa do pai do sequestrado, onde este se encontrava, usaram para o assalto um revólver de brinquedo e um facão.

Depois, o também improviso da escolha do cativeiro.

Imaginem um sequestrador escolher de repente como local para o cativeiro a casa de seu sogro, sua sogra e namorada. E, pasmem, o sogro, a sogra e a namorada do mentor do sequestro aceitarem a guarda do sequestrado e colaborarem automaticamente para o crime, tomando para si a custódia do sequestrado e envolvendo-se na coautoria de um crime para o qual não estavam preparados.

É nesta situação que estamos. O crime está tão espalhado, que de repente quaisquer pessoas sentem-se artesanalmente atraídas para ele. Neste caso, com um revólver de brinquedo e aproveitando-se tão somente do telefone celular do sequestrado para fazer os contatos extorsivos.

Felizmente, tudo foi resolvido. Não se perdeu nenhum tostão, a vida do sequestrado foi resguardada e resta somente a vida estragada dos seis autores do sequestro.

* Texto publicado hoje na página 39 de Zero Hora

As Damas de Branco

20 de março de 2010 7

Estranho: de uns dias para cá, está desfilando pelas ruas de Havana, Cuba, um grupo de mães e mulheres de presos políticos cubanos, protestando contra o regime de Fidel e Raúl Castro e contra a prisão de seus parentes. Já foi para o quarto dia de protestos, apesar de que o grupo, denominado Damas de Branco, vem sendo fortemente repudiado nas ruas por partidários do governo. O grupo promete que vai continuar com as manifestações.

*

“Estamos pedindo a liberdade de nossos homens de maneira pacífica e vamos continuar até que eles sejam libertados ou que o regime cubano nos mate e derrame nosso sangue pelas ruas de Havana”, afirmou à imprensa internacional Bertha Soler, integrante do grupo.

“Queremos que o mundo inteiro veja que este é um governo ditador”, declarou Bertha, que é casada com Ángel Maya Acosta, preso desde 2003 e condenado a 20 anos de prisão por “atentar contra a independência e a integridade territorial do Estado”.

Ela diz que “conversei por telefone com meu marido e ele me disse que não era para ter medo, que devemos continuar protestando”.

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Nas primeiras horas de anteontem, cerca de 30 integrantes das Damas de Branco reuniram-se para assistir a uma missa na Igreja de la Merced, em Havana Velha. De lá, saíram em marcha silenciosa, carregando flores e vestidas de branco, debaixo de insultos de 800 partidários de Fidel Castro, que as cercavam.

Policiais à paisana formaram um cordão de proteção em torno das mulheres para evitar o confronto entre os dois grupos, diferentemente do que acontecera dias atrás, quando as mulheres foram arrastadas pelos cabelos e obrigadas a entrar em ônibus do governo.

Desta vez, as forças de segurança não interferiram na manifestação.

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Esses fatos, no entender deste colunista, mostram que está havendo uma quase imperceptível abertura em Cuba. A última imagem que se tinha de confronto entre a resistência ao regime e as forças de segurança deu-se durante o que se chamou de “primavera negra”, dia 18 de março de 2003, resultando na prisão e condenação pesada de 75 dissidentes.

Agora, não. A polícia permite as manifestações das Damas de Branco e coloca até mesmo agentes de segurança para proteger a passeata delas pelas ruas de Havana.

Essas manifestações, além disso, têm cobertura da imprensa internacional, que manda fotos sobre os comícios para todos os cantos do mundo.

No meu ver, há um leve aroma de abertura na ditadura cubana, talvez determinada pela sucessão no poder, desde que Raúl Castro substituiu seu irmão na cúpula governamental.

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A Anistia Internacional está pedindo ao governo cubano que não persiga as Damas de Branco e trate de libertar aqueles que estão presos há anos e sentenciados em julgamentos “por acusações que, com frequência, não têm nenhum fundamento”.

Torça-se para que Cuba se democratize, que solte os seus presos de consciência, mancha escura dos regimes ditatoriais, e ao mesmo tempo se decrete um fim ao odioso bloqueio econômico de que é vítima há várias décadas a ilha de Fidel.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora