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Posts de março 2010

Suicídio coletivo

31 de março de 2010 6

Confesso que fiquei favoravelmente surpreendido com a repercussão sobre o falecimento do jornalista Armando Nogueira.

Não pensei que a morte de um jornalista pudesse ainda emocionar um país inteiro. Mas emocionou. De todas as partes, chegavam mensagens de condolências, repletas de admiração pela obra do grande cronista.

O que mais sobressaía, no meu sentir, na atividade de Armando Nogueira era o seu texto, belo, limpo, firme, poético, lírico, filosófico.

Dava gosto lê-lo, sempre acudiam o seu texto as metáforas, as comparações com ironias suaves, as intercalações de imagens que ele conectava com rara maestria.

Quando morre um jornalista e é assim tão reconhecido, engrandece-se a profissão do jornalismo como algo inseparável do meio social, como imprescindível ao trânsito de ideias e ao convívio entre as pessoas.

Justas homenagens. E nem sequer a gente percebia que Armando Nogueira era um dos grandes da literatura esportiva que ainda restavam entre nós.

Justas homenagens.

Quando espocaram anteontem os dois atentados terroristas no metrô de Moscou, matando 38 pessoas, minha lembrança logo acorreu ao local do primeiro atentado, a estação de metrô Lubyanka, no centro da capital russa.

Por ali fiquei horas a ver, em 1973, o entra e sai de uma multidão incalculável nos porões do metrô, gente que não acabava mais e que ia surgindo ou desaparecendo nas ondas das escadas rolantes, moles humanas engolfadas para dentro e para fora dos trens, gente e mais gente procurando o seu destino, o fantástico metrô de Moscou.

Naquelas levas de pessoas que emergiam dos túneis ou desciam para eles, fixou-se o meu olhar aturdido, recém saído da adolescência provinciana e jogado perplexo para o epicentro do metabolismo de uma megalópole.

Lá embaixo, na plataforma dos trens, a imponência das estátuas de mármore do Báltico a celebrizar os heróis nacionais, uma higiene perfeita entre os caminhos e de segundos em segundos os trens chegando ou partindo, gente embarcando e desembarcando. Levei umas oito horas a observar aquele constante farfalhar da multidão no metrô petrificante de Moscou.

Agora fiquei a imaginar o estrago que fizeram as duas explosões terroristas no metrô de Moscou.

O que pode levar duas mulheres chechenas a se enrolarem em colchas de bombas e detonarem seus explosivos contra aquelas multidões indefesas de russos?

Qual é a lógica intrigante do terrorismo? Que desespero de impotência leva esses terroristas a sacrificarem suas próprias vidas e a vida dos outros para firmar um protesto político carregado de fanatismo?

Por trás disso, deve se esconder uma poderosa opressão.

*

É muito séria e profunda a campanha Crack, Nem Pensar, lançada anteontem em sua segunda etapa pela RBS.

Essa droga ameaça fazer ruir os alicerces da sociedade por ser uma droga barata e de livre acesso a todos.

Esta campanha da RBS é dirigida em favor da saúde, contra a morte e se constitui em um grito de alerta para o povo e as autoridades sobre o perigo do triunfo dessa droga sobre a organização social.

Algo precisa ser feito para fazer cessar o perigoso espalhamento do crack nas nossas comunidades.

E a RBS se lança à campanha para orientar o público e condenar a droga, devendo o alcance da medida sensibilizar os usuários, os familiares deles e até mesmo os traficantes para a conscientização de que estamos diante da ameaça de um suicídio coletivo.

Dourado, o homofóbico

30 de março de 2010 50

Como imperceptivelmente me torno, em razão de ser um cronista diário, um adivinhador, um antecipador de decisões, um opiniático, vou hoje fazer outra previsão, depois de ter adiantado como seria o júri dos Nardoni.

Acontece que hoje é dia de grande (no sentido de extensa) poesia de Pedro Bial no anúncio daquele que será consagrado logo mais à noite o campeão do Big Brother 10.

De um lado, um dos três finalistas é o Cadu, um bebezão brutamontes que não acrescentou nada, absolutamente nada, ao programa durante todo o transcorrer.

Mostrou em todo o BBB a única coisa que tinha, um físico extraordinário, um tórax avantajado que deve ser do agrado das mulheres, mas nenhuma ternura, nenhuma inteligência, nenhuma sensibilidade. Deve ter sido escolhido pelo programa por seu tórax, como se fosse uma competição de halterofilismo.

Por isso não vai ganhar.

No centro dos três finalistas, figura a extasiada Fernanda. Outra que, além da beleza dos seus olhos e do encanto do conjunto lábios, dentes e sorriso aliados a um nariz bem feito, emoldurados por uns olhos azuis tentadores, nada tinha para oferecer ao respeitável público.

Nada mais. Nenhuma palavra, nenhum pensamento, nenhum raciocínio, nenhuma participação em qualquer diálogo mais interessante, nem que fosse pelo bom humor ou pela descontração.

Cadu e Fernanda foram as mais altas expressões de mediocridade da história de todos os Big Brother, os programas se arrastavam e não vinha deles qualquer manifestação ao mundo das ideias nem mesmo das ideias mundanas.

Talvez por isso tenham chegado à final. Não se conhecem os motivos por que o público brasileiro escolhe os finalistas do Big Brother, um profundo mistério. Desta vez escolheu o Cadu e a Fernanda como finalistas, os dois certinhos, os dois água com sal, os dois maria vai com as outras, os dois um zero à esquerda.

Não vai ganhar por isso a Fernanda.

Vai ganhar o Dourado. Nunca foi tão fácil pôr R$ 1,5 milhão no bolso. Bastou espalhar a notícia de que era homofóbico (aversão por homossexuais), discutir asperamente com três ou quatro participantes quando ainda eram muitos os participantes. Sabichão, não discutiu quando eram poucos, tinha medo de ser indicado por um deles para o paredão. Medo infundado, o público já tinha definido desde quase o início do programa que ele seria o vencedor, acabou voltando invicto de cinco paredões, o que mostra o quanto era odiado pelos outros participantes.

Até que cansaram e não o mandaram mais.

Vai pôr 1 milhão e meio no bolso o Dourado. Nunca foi tão fácil ganhar tanto dinheiro.

Bastou arrotar e escarrar a torto e a direito no programa, mostrando que os que estão dentro da casa não têm muita noção de que são vistos durante as 24 horas do dia no peiperviu. Se o tivessem, ele não arrotaria e cuspiria tanto para todos os lados durante as tardes e noites inteiras.

Vai ganhar o grosso, o sem ternura, o que mais se esforçou para fingir que era meigo, sem nunca ter sido convincente.

Mas ganhou o que se definiu, os outros todos ficaram sempre em cima do muro, querendo agradar aos colegas e ao público.

E o Dourado pelo menos teve a audácia de se atritar fortemente e longamente por três ou quatro vezes, levando as brigas à frente com intrepidez.

Vai ganhar o Dourado.

Mas tinha que ter ganho o Michel.

Ou o Dicésar.

Pelo menos, estes últimos dois pensavam alguma coisa.

Ecos do crime

29 de março de 2010 26

Não me sai da cabeça o crime cometido por Alexandre e Anna Carolina sobre a menina Isabella.

O motivo central do crime, embora enevoado por sombras de dúvida, parece ter sido o ciúme. Ciúme da madrasta pela mãe da criança, ciúme do pai por não ter a guarda da filha. Parece meio intrincada essa teia, mas ela tem nexo.

Aí, sobreveio a irritação da madrasta contra qualquer coisa que a menina tenha dito ou feito, no caso, dentro da garagem. E a primeira agressão da madrasta sobre a menina.

A menina deve ter subido o elevador gritando, chorando, xingando. Isso pode ter levado a madrasta à exasperação.

Daí até a esganadura da menina dentro do apartamento, foi um passo.

***

O que me parece incompreensível é a atitude de Alexandre enquanto Anna Carolina esganava Isabella.

Por que ele não interveio e não defendeu a sua filha diante da fúria homicida da madrasta é algo que foge à compreensão de qualquer um.

Ele só pode ter-se associado ao ânimo agressivo da madrasta contra Isabella, permitindo a esganadura.

Ou será que não se associou e, quando viu, a menina já tinha sido asfixiada? E então resolveu aderir à madrasta e, para não complicá-la, resolveu atirar a menina pela janela.

Mas como é que um pai permitiu isso tudo contra sua filha, fruto de seu sangue? Como é que, em nome do amor que tinha por Anna Carolina, abandonou completamente Isabella à sanha homicida de Anna Carolina?

Esse emaranhado de sensações é muito obscuro no caso.

***

O ato da esganadura, segundo a perícia, demorou cerca de três minutos. Tempo suficiente para Alexandre intervir e não permitir que Anna Carolina levasse à frente seu propósito destruidor.

Onde estava Alexandre nesses três minutos? Não me entra na cabeça que um pai assista passivamente a sua filha sendo morta por sua mulher sem ir em seu socorro. Não me passa pela cabeça.

Será que havia irritação de Alexandre com Isabella que chegasse ao ponto de o pai se associar à mãe na intenção homicida?

Ou será que Alexandre encontrava-se no quarto com seu filho menor quando a madrasta esganava Isabella? E, chegado do quarto, deparou com a filha inanimada e discutiu com Anna Carolina, recriminando seu ato?

***

Porque é exatamente nesses instante que um vizinho ouviu espocar uma discussão veemente e em altos brados vinda do apartamento de Alexandre.

Será que Alexandre disse a Anna: “Olha o que fizeste com minha filha”. E discutiram.

E Alexandre pode ter pensado, naqueles segundos de aflição, que sua presença no apartamento naquele momento já o comprometia com o crime e resolveu, no desespero, tentar fazer desaparecer os vestígios da esganadura, atirando Isabella pela janela?

***

Como duas vidas de dois jovens, Alexandre e Anna Carolina, sem contar, é claro, a vida de Isabella, podem ser destruídas assim em instantes de irritação, irascibilidade, exasperação? Como podem explodir de repente no íntimo das pessoas impulsos de destruição e agressividade?

O quanto estão sofrendo neste instante Alexandre e Anna Carolina no fundo da cadeia. O quanto está sofrendo a mãe de Isabella, tudo por apenas um rompante de prepotência contra uma criança?

Esse crime martela ainda a minha cabeça.

E durante muito tempo não vai deixar de martelar.

Um final já esperado

27 de março de 2010 9

Quando o juiz se preparou para ler a sentença, por volta de 0h30min de sábado, um silêncio profundo tomou conta da sala do júri. Lado a lado, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, tensos, com os nervos retesados, começaram a ouvir a relativamente longa introdução, até que chegou o momento de serem declarados culpados por vários crimes, com a apenação: 31 anos e um mês de prisão para Alexandre e 26 anos e oito meses de prisão para Anna Carolina.

Alexandre apenas tirou os óculos e mergulhou em profunda meditação. Anna Carolina ficou encostada à parede, compungida.

O advogado de defesa, Roberto Podval, ouviu a sentença, caminhou alguns passos até os réus e anunciou a eles que iria recorrer da sentença.

Cumpri um dever profissional e de consciência de permanecer acordado até as 3h de sábado, para esperar pela sentença e divulgá-la em apenas uma frase na coluna de sábado, na edição que circulou na Capital, e agora por inteiro nesta coluna de domingo. Não poderia, depois de ter escrito cinco colunas consecutivas sobre o julgamento desde segunda-feira passada até sexta-feira, deixar de escrever em cima da hora do resultado final do júri.

Não foi divulgada a contagem de votos do veredicto, mas acredito que foi de 4 a 0, pois a nova lei do júri não exige a contagem final dos votos dos jurados. Quando chega a quatro, o juiz cessa a contagem e considera o julgamento encerrado.

Suponho que os primeiros quatro votos pronunciados tenham sido condenatórios.

O fato é que os jurados, em sua maioria, aceitaram todos os elementos básicos da acusação e suas qualificadoras.

Os jurados, visivelmente, recusaram a totalidade dos argumentos da defesa.

Uma multidão esperava até a última hora o resultado do julgamento, na rua, em frente ao Fórum de Santana.

Quando o resultado do julgamento foi anunciado, a multidão prorrompeu em palmas e foram ouvidos e vistos fogos de artifício detonados do seio da multidão.

Segundo o advogado de defesa, a opinião pública paulista e brasileira tinha condenado antecipadamente os réus, não era preciso julgamento. Também foi dito, erradamente, que a imprensa tinha condenado antecipadamente os réus.

E, agora, os jurados também condenaram.

A sentença, assim, tem todas as características de ser definitiva, apesar de que foi anunciado que a defesa já tinha recorrido da sentença.

Talvez seja muito difícil que o Tribunal de Justiça de São Paulo venha a reformar a sentença.

Explicou-se que a condenação foi por crime hediondo, pelo que não poderá haver progressão do regime (passagem dos réus para cumprimento da pena em regime semiaberto), antes de decorridos 12 anos da sentença.

O que quer dizer que foi uma das mais severas penas a que foram condenados réus brasileiros em todos os tempos. Severíssima sentença. Não houve contemplação.

A pena mais grave coube a Alexandre, maior do que a de Anna Carolina, pelo fato de ele ter cometido o crime contra um descendente, sua filha.

Encerra-se assim, talvez definitivamente, um dos casos mais palpitantes da Justiça Criminal brasileira e paralelamente da crônica policial no Brasil.

O sentimento emergente do julgamento pela opinião pública é de que se tinha feito justiça.

Embora, é claro, entre a opinião pública existam pessoas, raras no meu sentir, que julgam os Nardoni inocentes.

Defesa admite derrota

27 de março de 2010 4

O advogado de defesa Roberto Podval, no julgamento da morte da menina Isabella Nardoni, citou uma frase do médium Chico Xavier: “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”.

Como esta coluna antecipou ontem, a defesa baseou sua estratégia somente em lançar dúvidas sobre o processo e sobre as perícias.

Dúvidas e mais dúvidas por parte da defesa, certezas sobre certezas da parte da acusação, um duelo desigual, que levou o advogado de defesa a declarar aos jornalistas na entrevista coletiva: “Não tenho falsas expectativas ou esperanças. Entrei num júri perdido”.

O próprio advogado de defesa entende que é muito difícil que Alexandre e Anna Carolina venham a ser absolvidos.

E se deitou a defesa a lançar dúvidas: segundo o advogado, quando as investigações afirmam que os vizinhos ouviram barulhos no edifício, não levam em conta que tenha sido uma porta de incêndio batendo e alguém fugindo, ao invés da queda da menina no jardim.

“Dá para retirar alguma conclusão categórica?”, clamou ele aos jurados. “O que tem a ver a porta batendo?”, gritou.

“O que o senhor está sugerindo?”, rebateu o promotor.

E a acusação só vinha com certezas: o descontrole de Anna Jatobá, as marcas da rede da sacada na camiseta de Alexandre, o tempo que os réus levariam da garagem ao apartamento.

O advogado de defesa retaliou, dizendo que a mãe de Isabella também tinha ciúme da madrasta. E atacou: “O que fizeram com Anna Jatobá ontem aqui no júri foi maldade, não foi o que fizemos com a mãe. Disseram que ela era megera, louca, ciumenta. E chamaram os réus de mentirosos. A menina queria ficar na casa dela (Jatobá). Ela iria asfixiar a menina que cuidava? E o pai era o grande vilão da história? Só porque eles brigaram? Todo casal briga”, argumentou o defensor.

Falando muito baixo para que só os jurados ouvissem, o advogado de defesa disse que o próprio promotor admitiu, durante o interrogatório de Alexandre Nardoni no processo, ter participado de reunião em que a polícia teria proposto ao pai de Isabella que assumisse a culpa sozinho por homicídio culposo (quando não há intenção de matar), livrando a madrasta.

Ao ouvir isso, o promotor Cembranelli gritou: “Isto é uma canalhice sem precedentes. Os jurados sabem muito bem que não é o delegado quem classifica que tipo de homicídio é. O Dr. Ricardo (Martins, outro membro da defesa do casal) estava lá e pode afirmar que nada disso aconteceu. Hoje, ele fugiu aqui da bancada para não ter de assumir a verdade”, asseverou o promotor.

Ainda acrescentou o promotor: “Isso nunca aconteceu. Na época, ninguém fez e disse nada. E agora vem o réu, que não presta compromisso com nada, falar isso!”.

Toda a carga argumentativa da acusação, no tempo normal e na réplica, concentrou-se num ponto: Alexandre Nardoni estava no apartamento quando Isabella foi jogada no jardim.

O espaço de tempo que mediou o lançamento da menina pela sacada e a chegada de Alexandre ao jardim para ver o corpo foi de apenas um minuto e vinte segundos. Segundo a acusação, ele não poderia estar em algum outro lugar que não fosse o apartamento.

E o mais importante detalhe para solucionar a dúvida de todo o Brasil sobre o resultado deste júri foi a admissão do advogado de defesa de que o caso para ele está perdido, vem aí a condenação.

Até a hora em que escrevo, uma absolvição seria uma surpresa bombástica.

Em tempo: é 0h30min deste sábado e se anuncia a condenação do casal Nardoni. Não podia ser outro o resultado.

É duro ser jurado

26 de março de 2010 16

Conversávamos eu, a Maria Isabel Hammes e o Moisés Mendes, meus colegas de Zero Hora, sobre o assassinato da menina Isabella, quando a Maria Isabel me disse:

– Tu não queres saber o que penso sobre este crime, não é?

Pensei comigo que ela inocentava os réus, mas disso tive certeza quando ela afirmou:

– Se eu fosse jurada, absolveria os dois.

É, tem gente que absolve, o mundo não é só feito dos que condenam neste caso dos Nardoni.

Maria Isabel foi mais veemente quando eu disse a ela que as perícias indicavam claramente ser o casal o autor do crime:

– Que perícias, nada. As perícias dizem só que “pode ser isso”, “pode ser aquilo”, não são taxativas. O que estão fazendo com esse pobre casal é uma injustiça.

Perguntada se leu nos jornais sobre o crime, Maria Isabel afirmou que leu tudo em Zero Hora sobre o crime.

Chega-se então à conclusão de que duas cabeças podem pensar diferente. Eu, que acompanho esse caso há dois anos, lendo os principais jornais brasileiros sobre o fato, acredito piamente que Alexandre e Anna Carolina são culpados, já minha colega de jornal Maria Isabel pensa o contrário.

Por isso é que é interessante que os jurados sejam sete. É um campo mais vasto para a discordância.

Entre dar minha opinião aqui no jornal de que os dois réus são culpados e pronunciar um voto no Conselho de Sentença sobre a culpabilidade de um réu, vai um abismo de distância.

Votar para que uma pessoa vá para a cadeia é uma responsabilidade muito grande: por isso é que existe o adágio de que, caso haja dúvida, o voto tem de ser favorável ao réu.

Diante disso, no julgamento de Alexandre e Anna Carolina, o dever que se impõe aos advogados de defesa é suscitar dúvidas no espírito dos jurados. Qualquer pessoa que tiver dúvida inocenta o réu.

Escolher alguém como culpado implica ter a absoluta certeza de que é culpado, não pode pairar qualquer dúvida sobre isso. Se pairar a mínima dúvida, tem de inocentar.

Da mesma forma, a tarefa transcendental da acusação nesse julgamento é incutir no espírito dos jurados que é indiscutível, irreparável a culpabilidade do casal de réus.

A acusação terá de convencer os jurados de que não havia ninguém mais naquele apartamento, que a menina já tinha sido agredida antes mesmo de entrar no apartamento, que houve uma esganadura intempestiva da menina por Anna Carolina e que para apagar os vestígios dessa agressão quase fatal Isabella foi atirada pela sacada.

E principalmente provar que, da garagem até o apartamento, a menina esteve sempre sob a guarda de Alexandre e Anna Carolina. Eles, portanto, eram os únicos responsáveis pela integridade dela.

Mas comentar aqui na coluna o caso, o que sinto ser meu dever, é uma coisa. Outra coisa é pronunciar um voto condenando.

Tanto quem condena quanto quem absolve corre o risco do remorso.

Eu não queria estar na pele dos sete jurados.

Júri privado

25 de março de 2010 14

Se eu já estou cansado com o júri do casal acusado de matar a menina Isabella Nardoni, imaginem os que estão participando desta extensa e penosa audiência pública que vai durar 50, 60 horas de interrogatórios, debates, exposições.

É preciso muito preparo físico e psicológico para suportar essa travessia estafante.

Hoje deverá acontecer o ponto culminante do júri, com o depoimento dos réus. Poderá se constituir na maior arma para a ampla defesa, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá sendo interrogados pelo juiz, pelo promotor, pelo advogado de defesa.

Os depoimentos dos réus se constituirão em arma afiada da defesa, se eles forem convincentes em seus argumentos, mas em contrapartida se elevarão em arsenal para a acusação se o réus não forem incisivos ou se entrarem em contradições.

Se o Tribunal do Júri é uma instituição que visa a que os réus sejam julgados pela comunidade, para que seja examinada a conduta dos réus mediante a acusação, sob a ótica da sociedade, que tem lá nos sete jurados os seus representantes para julgar os acusados, não se compreende que num julgamento palpitante como este sobre a morte da menina Isabella não se permita que o rádio e a televisão transmitam todos os detalhes de tão intrigante evento.

Por que se sonega à opinião pública o julgamento, se em última instância o júri se diferencia do julgamento singular (em que um juiz julga o acusado e aplica-lhe a sentença) justamente em que é à opinião pública que pertence o julgamento do fato? Por que não se libera para a opinião pública, a detentora do poder de julgar os réus através dos sete jurados que a representam, a transmissão por televisão e por rádio?

Deveria ser uma transmissão sem tecnicalidades sensacionalistas, sem veemência dos apresentadores, mas uma sessão que se baseasse na cobertura completa dos trabalhos pelas intervenções de todos os atores envolvidos na liça, assim como acontece com as transmissões de julgamentos do Supremo Tribunal Federal e outros pretórios.

Fico eu aqui como, acho, ficam todos os milhões de brasileiros, querendo saber do andamento do julgamento e me é negado o acesso à palavra dos réus, do juiz, da acusação e da defesa.

Não tem sentido esta censura. E perde o sentido, com a proibição de transmissão para o público, a expressão júri popular.

Popular é um júri em que todo o povo toma conhecimento de todos os seus detalhes, tintim por tintim.

Que júri popular é este que reserva direito somente a 70 pessoas de assistir a ele, quando toda a nação está interessada em seu desenvolvimento.

Os que combatem o júri como instituição classificam-no de espetáculo teatral.

Mas se o júri é teatro, se o júri não se dirige somente ao cérebro mas à alma, ao coração, se no júri se desenrolam não só as ideias mas também as emoções, por que impedir-se ao público que assista a ele e possa também fazer um juízo mais autorizado do que este que fará baseado somente na informações jornalísticas dos raros repórteres credenciados para o evento?

Se é uma audiência pública, toda a curiosidade do público tem de ser satisfeita.

Assim, reservado para uma meia dúzia de pessoas, sempre restará ao grande público que pretendia assistir ao espetáculo uma dúvida sobre se se fez ou não justiça.

Sei por mim. Se eu queria assistir a este júri tanto quanto a uma Copa do Mundo, é porque milhões de pessoas estão frustradas com a não transmissão.

Imprensa não condena

24 de março de 2010 32

Queixam-se os advogados do casal Nardoni e algumas poucas vozes de que a imprensa já condenou os seus constituintes, que já é certo que haverá uma condenação, que há uma evidente parcialidade nas manifestações da mídia.

Mas o que queriam que a imprensa fizesse diante de tantas evidências contra os dois acusados?

O que a imprensa tem feito é singelo: apenas o cotejo entre as provas colhidas pela polícia, a maioria ou quase totalidade técnicas, e as alegações dos dois acusados e manifestações da defesa.

E existe um abismo entre as provas apresentadas e as razões da defesa. As alegações dos dois réus e as teses da defesa não cabem num plano mínimo de razoabilidade. Tanto a tese de que poderia haver um ladrão no apartamento quanto a de que aconteceu um acidente doméstico soam como absurdas diante do quadro geral de investigações.

Então, o que queriam que a imprensa fizesse? Que não cotejasse as presunções sérias da perícia com as razões destituídas de fundamento vindas da defesa.

Há pouco tempo, houve aqui o assassinato do secretário da Saúde Eliseu Santos.

Quando a polícia divulgou que restara grande quantidade de sangue no local do crime e que, feito o cotejo, o sangue era de um homem que tinha sido atendido num hospital minutos depois do crime, tendo sofrido um ou dois disparos, a imprensa, é lógico, passou a dizer que tinha sido descoberto um dos assaltantes, que as investigações resultaram exitosas.

Como é que a imprensa vai negar as evidências? Isso não quer dizer, como no caso Nardoni, que a imprensa esteja tomando partido e condenando os réus antes do julgamento.

Quer dizer, isso sim, que a imprensa analisa o quadro geral das apurações e emite a sua opinião sobre qual a verossimilhança mais aproximada da verdade, se as das razões da defesa ou as das razões da acusação.

A imprensa nada mais faz que espelhar o que se colheu até agora sobre o crime.

Evidente que, em um caso como esse, a imaginação das pessoas ganha asas. Como é o caso de uma razoável ficção sobre o caso Nardoni que me mandou um leitor:

Sant’Ana. Lê com atenção minha interpretação do caso: crianças, depois de certo horário noturno, quando já deveriam estar dormindo, ‘viram’ o fio, ficam irritadiças, gritam, choram, esperneiam.

O casal voltava de um shopping. Já no carro, a menina ‘enchendo o saco’, o sono ‘pegando’, a irritada madrasta lhe dá um bofetão. Sangra.

À subida ao apartamento, o pai leva ela no colo e deixa-a no sofá da sala enquanto se dirige ao quarto das crianças para arrumar a cama.

Ato contínuo, enquanto o pai está no quarto, a madrasta entra na sala, e ainda irritada com Isabella, a esgana (estrangula, esgoela), fazendo-a desmaiar – pressão na carótida!

Agora o grand finale: o pai, apavorado, acha que a criança morreu. O casal discute. O pai telefona pro avô. Conversam e decidem (pai, avô e advogados) a simulação da tragédia. E o pai joga Isabella pela janela pensando que já estava morta.

Conclusão: Anna Jatobá se excedeu nos meios. Não tinha intenção de matar. E nem matou. Isabella apenas desmaiara.

O pai também não matou(!) a filha. Pensara que já estava morta.

Apavorado, apenas promovera a simulação.

Mas Isabella morre de fato ao cair no solo. Mas o pai não desejava essa morte, pois imaginara a filha já morta.

Resumo: uma tragédia. Não houve dolo. Houve excessos e a concorrência trágica.

(as.) Astor Wartchow, advogado – OAB-RS 25837”.

Condenação irrecusável

23 de março de 2010 11

Começou ontem em São Paulo o julgamento de Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni pelo assassinato da menina Isabella Nardoni, com cinco anos de idade.

Foram escolhidos sete jurados, quatro mulheres e três homens.

Teoricamente, embora aquele homicídio comova a todos, há de sensibilizar ainda mais as mulheres, pela vocação maternal. Não é de todo pouco provável que quatro mulheres no júri ajudem a acusação.

É tão abundante o acervo probatório contra os dois réus, que a defesa prepara dois argumentos exóticos para refutá-lo: 1) uma terceira pessoa, no caso um ladrão que teria entrado na casa, esganou a menina e atirou-a pela janela; 2) foi um acidente doméstico.

É de rir. O ladrão que não apareceu e que não roubou nada! Não foi visto pelo casal!

E que motivo e interesse teria o ladrão para atirar a menina do sexto andar?

E que diabo de ladrão é esse que aproveitou três minutos, se tanto, entre o momento em que a menina deixou a garagem e subiu sozinha para o apartamento, para esganar a garota, ir até a cozinha buscar uma faca e uma tesoura, cortar a rede e atirar Isabella pela janela?

E que motivo e interesse teria esse ladrão para limpar o rosto ensanguentado da vítima com uma fralda. Depois, lavar o chão e os objetos?

Que motivo?

E poucos minutos iam decorrer em toda essa ação, até que os réus chegassem?

O segundo argumento da defesa é mais risível do que o primeiro: acidente doméstico.

Mas que equipamento foi esse que havia no apartamento que esganou a menina? E como pode ter sido um acidente doméstico, se a rede de proteção da sacada estava rasgada por uma tesoura e por uma faca, de acordo com a perícia?

Esses dois argumentos caem por terra quando se sabe também que a custódia da menina pertencia ao casal de réus. A presunção é de que eles sempre estiveram ao lado da menina, não se distanciaram dela por nenhum motivo alegado, como iriam permitir esse grande hiato no tempo que proporcionou o ataque de um ladrão ou a ocorrência de um acidente doméstico?

E a que atribuir a frieza de Alexandre Nardoni, que desceu do sexto andar, depois que a menina foi atirada, viu o corpo de Isabella no chão, não se aproximou para socorrê-la e ficou tratando de outros detalhes? E a perícia diz que a menina ainda estava viva quando Alexandre viu seu corpo pela primeira vez, estendido no chão.

São tantos os indícios contra os acusados, são tantas as provas contra os acusados, os dois se viram tão submetidos a circunstâncias radicalmente desfavoráveis para si, os flagrantes dos instantes posteriores ao evento criminoso e os indícios inequívocos da polícia técnica transbordam tanto dos autos contra Anna Carolina e Alexandre, que, mesmo que fossem inocentes, teriam de ser condenados, em face do manancial probatório arrecadado.

Um julgamento histórico

22 de março de 2010 12

Começa hoje no Fórum de Santana, em São Paulo, um dos mais palpitantes julgamentos de homicídio da história criminal brasileira.

Sentarão no banco dos réus Anna Carolina Jatobá e Alexandre Nardoni, madrasta e pai, respectivamente, da menina de cinco anos Isabela Nardoni, que foi assassinada no apartamento do casal de réus em 29 de março de 2008.

*

O Instituto de Criminalística revelou que Isabela estava inconsciente e ainda viva quando foi jogada do sexto andar do Residencial London.

Para a polícia, a madrasta de Isabela, Ana Carolina Jatobá, espancou a menina e esganou-a. A menina desmaiou.

O pai, Alexandre Nardoni, jogou a filha pela janela do sexto andar. Depois disso, o casal de réus combinou a versão de que um ladrão invadiu o apartamento e matou Isabela. Mas a polícia descartou a versão de que havia uma terceira pessoa adulta no apartamento.

*

O rosto da menina, sujo de sangue, foi limpo com uma fralda e uma toalha, antes de ela ser jogada pela sacada.

A fralda e a toalha foram lavadas, mas a polícia encontrou nelas manchas de sangue, que constatou, eram de Isabela.

Reside aí um dos pontos mais fortes da acusação, no sentir deste colunista: que interesse teria um ladrão em lavar o rosto da menina. Óbvio que esse interesse era exclusivo do casal de réus, para fazer desaparecer vestígios.

*

Como deve ter sofrido a menina Isabela! O processo de esganadura da menina, dentro do apartamento, durou cerca de três minutos. E a menina restou ainda viva por mais alguns minutos. Segundo peritos, se ela então tivesse sido socorrida, poderia ter chance de sobreviver.

E, impressionantemente, depois de ter sido jogada com vida do sexto andar no pátio do edifício, Isabela ainda respirava. Morreu logo em seguida de politraumatismo e asfixia.

*

A defesa reclama que o casal já foi condenado pela opinião pública.

Não é só a opinião pública que condena o casal, a Justiça também: tanto que Anna Carolina e Alexandre estão presos preventivamente desde que ocorreu a morte, dois anos portanto.

Eles teriam todas as condições de serem libertados, não poderiam permanecer presos sem condenação.

No entanto, a coleção de provas indiciárias é tão forte, tão vária e tão eloquente que a Justiça considerou ser um acinte a libertação do casal acusado. E já começou a apenar antes da condenação.

*

Setenta e sete pessoas assistirão ao julgamento a partir das 13h de hoje. Vinte serão jornalistas e os restantes convidados e parentes dos envolvidos.

A principal presença na assistência será a da mãe de Isabela, Ana Carolina Oliveira, que estará frente a frente com os réus durante todo o tempo, detalhe que enriquecerá de emoção o julgamento.

O julgamento deverá durar quatro dias.

*

Se alguém puder me dizer como consigo folhas de mamão papaia ou extrato de mamão, me prestaria um grande favor, para ajudar numa desesperada cura de câncer desenganado de uma pessoa, alentada por reportagem do Caderno Vida, de sábado passado em ZH. Obrigado.

* Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora

Um sequestro improvisado

20 de março de 2010 11

A Polícia Civil, como já escreveu o repórter Humberto Trezzi, está em estado de graça: resolveu totalmente o sequestro do jovem Fernando Júlio Estima, praticado na noite da última quarta-feira no Balneário Cassino, em Rio Grande.

Para a elucidação completa do sequestro, as delegacias de polícia de Rio Grande contaram com o apoio da Brigada Militar e com o reforço do delegado Juliano Ferreira, da Delegacia de Furtos e Roubos de Porto Alegre, e do delegado Ranolfo Vieira Junior, diretor do Departamento Estadual de Investigações, que seguiram às pressas para Rio Grande, tão pronto consumado o crime.

Foi um sequestro com resgate pago
, tudo monitorado pela polícia. Um notebook, joias e R$ 30 mil, entregues e deixados em um local da praia do Cassino pelo pai do jovem sequestrado, ao mesmo tempo em que o jovem Fernando Júlio Estima era deixado na praia, amarrado e vendado, a dois quilômetros do local da entrega do dinheiro.

Como a polícia tinha conhecimento dos dois locais, não foi tão difícil a prisão do sequestrador que de moto fugiu com o dinheiro pago pelo resgate, mas foi capturado e denunciou todo o bando de seis sequestradores. De R$ 200 mil, o preço do resgate havia sido reduzido para R$ 60 mil.

O sequestro foi improvisado pelos sequestradores. Eles inicialmente roubaram a casa do pai do garoto sequestrado, mas, como encontraram nela R$ 30 mil, cresceram o olho e resolveram sequestrar o jovem. Foi quando caíram do cavalo, metidos num metiê a que não estavam acostumados e ainda por cima enredados numa outra ação policial elogiável e exitosa.

O que impressiona no caso é a pressa de que foram tomados os sequestradores quando aprisionaram Fernando.

Levaram-no para a casa do sogro e da sogra do mentor do sequestro, onde se encontrava também uma namorada deste.

Lá aprisionaram o sequestrado, que ficou sob os cuidados também da sogra, do sogro e da namorada do chefe da quadrilha.

Ou seja, estes últimos três tiveram a notícia de que participariam do sequestro de surpresa. Mas, pelo que noticiou Zero Hora, aderiram ao plano e agora estão também presos e enredados no crime por terem colaborado para a execução do cativeiro do sequestrado.

Chama a atenção o improviso da ação dos ladrões e sequestradores. Inicialmente, no roubo da casa do pai do sequestrado, onde este se encontrava, usaram para o assalto um revólver de brinquedo e um facão.

Depois, o também improviso da escolha do cativeiro.

Imaginem um sequestrador escolher de repente como local para o cativeiro a casa de seu sogro, sua sogra e namorada. E, pasmem, o sogro, a sogra e a namorada do mentor do sequestro aceitarem a guarda do sequestrado e colaborarem automaticamente para o crime, tomando para si a custódia do sequestrado e envolvendo-se na coautoria de um crime para o qual não estavam preparados.

É nesta situação que estamos. O crime está tão espalhado, que de repente quaisquer pessoas sentem-se artesanalmente atraídas para ele. Neste caso, com um revólver de brinquedo e aproveitando-se tão somente do telefone celular do sequestrado para fazer os contatos extorsivos.

Felizmente, tudo foi resolvido. Não se perdeu nenhum tostão, a vida do sequestrado foi resguardada e resta somente a vida estragada dos seis autores do sequestro.

* Texto publicado hoje na página 39 de Zero Hora

As Damas de Branco

20 de março de 2010 7

Estranho: de uns dias para cá, está desfilando pelas ruas de Havana, Cuba, um grupo de mães e mulheres de presos políticos cubanos, protestando contra o regime de Fidel e Raúl Castro e contra a prisão de seus parentes. Já foi para o quarto dia de protestos, apesar de que o grupo, denominado Damas de Branco, vem sendo fortemente repudiado nas ruas por partidários do governo. O grupo promete que vai continuar com as manifestações.

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“Estamos pedindo a liberdade de nossos homens de maneira pacífica e vamos continuar até que eles sejam libertados ou que o regime cubano nos mate e derrame nosso sangue pelas ruas de Havana”, afirmou à imprensa internacional Bertha Soler, integrante do grupo.

“Queremos que o mundo inteiro veja que este é um governo ditador”, declarou Bertha, que é casada com Ángel Maya Acosta, preso desde 2003 e condenado a 20 anos de prisão por “atentar contra a independência e a integridade territorial do Estado”.

Ela diz que “conversei por telefone com meu marido e ele me disse que não era para ter medo, que devemos continuar protestando”.

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Nas primeiras horas de anteontem, cerca de 30 integrantes das Damas de Branco reuniram-se para assistir a uma missa na Igreja de la Merced, em Havana Velha. De lá, saíram em marcha silenciosa, carregando flores e vestidas de branco, debaixo de insultos de 800 partidários de Fidel Castro, que as cercavam.

Policiais à paisana formaram um cordão de proteção em torno das mulheres para evitar o confronto entre os dois grupos, diferentemente do que acontecera dias atrás, quando as mulheres foram arrastadas pelos cabelos e obrigadas a entrar em ônibus do governo.

Desta vez, as forças de segurança não interferiram na manifestação.

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Esses fatos, no entender deste colunista, mostram que está havendo uma quase imperceptível abertura em Cuba. A última imagem que se tinha de confronto entre a resistência ao regime e as forças de segurança deu-se durante o que se chamou de “primavera negra”, dia 18 de março de 2003, resultando na prisão e condenação pesada de 75 dissidentes.

Agora, não. A polícia permite as manifestações das Damas de Branco e coloca até mesmo agentes de segurança para proteger a passeata delas pelas ruas de Havana.

Essas manifestações, além disso, têm cobertura da imprensa internacional, que manda fotos sobre os comícios para todos os cantos do mundo.

No meu ver, há um leve aroma de abertura na ditadura cubana, talvez determinada pela sucessão no poder, desde que Raúl Castro substituiu seu irmão na cúpula governamental.

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A Anistia Internacional está pedindo ao governo cubano que não persiga as Damas de Branco e trate de libertar aqueles que estão presos há anos e sentenciados em julgamentos “por acusações que, com frequência, não têm nenhum fundamento”.

Torça-se para que Cuba se democratize, que solte os seus presos de consciência, mancha escura dos regimes ditatoriais, e ao mesmo tempo se decrete um fim ao odioso bloqueio econômico de que é vítima há várias décadas a ilha de Fidel.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

Um clamor geral!

19 de março de 2010 18

Chegamos a um ponto de total saturamento na segurança pública nos casos de assaltos.

Recebo veementes reclamações das pessoas sobre as condições de segurança na Grande Porto Alegre e no Interior.

As pessoas relatam a este colunista, com preciosidade de detalhes, os assaltos de que foram vítimas, a maioria delas quando estavam dirigindo seus carros.

“Na segunda-feira, 8 de março, às 20h, enquanto dirigia meu automóvel, fui surpreendido com uma ação que jamais pensei pudesse acontecer em Porto Alegre, quiçá no Rio de Janeiro. Trafegava nas imediações do Bourbon Country, quando um Ford Ka fechou o meu carro, em pleno trânsito e com as pessoas em volta assistindo. Desceram quatro homens armados e, todos com capuz, cercaram meu carro, estrategicamente nas laterais do meu carro, e ordenaram que eu saísse, exigiram dinheiro e me levaram R$ 3 mil, notebook, celular, pasta com documentos, enfim…

E o mais impressionante é que os quatro assaltantes tinham sotaque paulistano. A coisa está tão fácil aqui, que bandidos estão vindo de todas as regiões do Brasil para assaltar, como se não bastassem os daqui… (ass.) Cláudio Ávila (claudioavila@terra.com.br, fone 51 8179-5363)”.

Num só dia, as manchetes de jornal: “Ladrões atiram e matam advogada para roubar seu carro em Novo Hamburgo”. “Homem é vítima de dois assaltos diferentes em apenas 10 minutos e ainda tem tempo, a seguir, para presenciar uma mulher baleada em outro assalto, no Bairro Rubem Berta”, “Bandidos atiram e matam jovem dentro de creche com cem alunos em sala de aula”, “Garoto de 15 anos tortura menino de cinco anos”.

E por aí vão os casos de banditismo e ladroagem nas ruas, alguns à luz do dia.

E é preciso que se tenha em conta que esses são os casos que vêm parar nos jornais, ou seja, os que importam assassinatos ou ferimentos nas vítimas.

A grande, a maior parte dos assaltos não é divulgada na imprensa.

Estamos entregues à sanha dos assassinos e dos ladrões.

E empilham-se diante da minha mesa as queixas candentes da população, exigindo providências das autoridades.

Isto é uma guerra civil. Declarada. A insegurança perpassa todos os cantos. Há centenas de quadrilhas de ladrões de carros e há outros milhares de ladrões que assaltam com outros fins, espalhados, soltos pelas ruas, fazendo vítimas, triunfando, impunes.

Mas chegou a um ponto em que se levanta um clamor popular contra essas ações criminosas, a sociedade emite um brado de protesto e de socorro, não admite mais que prossiga esse estado de coisas.

Além de urgente aumento do efetivo policial, que se sente exaurido diante do aumento geométrico dos ladrões e assassinos, algo precisa ser feito pelos contingentes policiais existentes atualmente.

A Brigada Militar terá de mudar a estratégia simplista de só atender a chamados, depois que os crimes são cometidos.

Os efetivos policiais fardados têm o dever de evitar o crime, fazem parte de um policiamento ostensivo que tem de sair para as ruas e “adivinhar” o que vai suceder ou então coagir e intimidar os bandidos por sua presença e ação constantes nas ruas.

Assim só, não dá para continuar: a maioria das ações da Brigada Militar se desenvolve após a perpetração dos crimes (assaltos), quando teria de se alastrar obrigatoriamente para evitar o comportamento criminoso, antecipar-se por sua presença ostensiva à ação dos bandidos, principalmente pela intimidação diante do policiamento fardado, o que não está ocorrendo.

A principal e quase essencial função do policiamento ostensivo é o caráter preventivo da sua atuação.

Aqui entre nós, está distorcida essa missão: o policiamento ostensivo só age depois que ocorrem os crimes.

De novo, numa repetição enfadonha, estão faltando policiais fardados nas ruas.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora

E a vaga?

18 de março de 2010 5

No caso da morte sem assistência médica da paciente Juracy Benedet, relatado ontem nesta coluna, chama a atenção que havia vaga em Passo Fundo para o internamento dela.

Mas ela estava em Gravataí, no seio da Região Metropolitana.

Ou seja, inverteu-se a lógica: o que mais acontece é o contrário, o paciente ser do Interior e não haver vaga lá, então ele pede que Porto Alegre o socorra com uma vaga.

Como pode não haver vaga em Porto Alegre, cidade que recebe por seus hospitais 50% dos recursos destinados a todo o Estado?

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O senhor Joba de Oliveira Castro, telefone 3376-9447, me escreve, dizendo que não tem procuração do governo ou do Sistema Único de Saúde para defendê-los, mas que também não tolera injustiça. Pede que antes se faça uma investigação para depois acusar quem de direito for.

Diz também que o repórter que escreveu a este jornalista não referiu um fato importante: a Central de Leitos indicou e reservou dois leitos para a paciente em tela, um em Passo Fundo e outro num outro município.

E mais disse: que a família alegou que a paciente não podia fazer a viagem, pois corria risco de morrer durante a viagem (a família alega que possuía laudo médico desaconselhando que a paciente viajasse por uma distância maior que 150 quilômetros).

E que então o SUS colocou à disposição da paciente e da sua família uma ambulância, tipo UTI, para que fosse a doente transportada até Passo Fundo, onde havia leito característico para seu caso. E que a família não aceitou a viagem.

E a paciente veio a morrer sem assistência.

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Escreveu-me também o médico Dênis Dib, regulador da Central de Leitos: “Como diariamente faço, li tua coluna esta manhã, antes de ir para a Central de Leitos de UTI, onde trabalho como médico regulador.

Ali, diariamente tentamos resolver casos como o da dona Juracy, que descreveste na tua coluna de hoje.

Nossa maior dificuldade são os casos de neurocirurgia e traumatologia, pois poucos hospitais têm qualificação para esses casos.

Isto gera uma grande angústia entre todos os colegas que trabalham 24 horas por dia, 365 dias por ano, nesta central, por sinal criada no governo Yeda… tão malfalado…

Temos autoridade para pagar transporte em UTI móvel, caso os municípios não disponham, temos autoridade para comprar leitos particulares, especialmente para gestantes, e os compramos diariamente, com o dinheiro público de nossos impostos.

Mas o caso de dona Juracy, que foi cadastrada na Central de Leitos do Estado no dia 4 de março, às15h58min, era muito grave e o colocamos em prioridade máxima. Foi oferecido à família da paciente leito em UTI com neurocirurgião, em Passo Fundo, no dia 5 de março, um dia depois do AVC.

A doutora Fátima, do hospital de Gravataí, onde a paciente se encontrava internada, aceitou o leito, mas a família da paciente disse que só aceitaria transferência para hospital mais próximo. Com essa postura, o caso passou para a Central de Leitos, inclusive com ordem judicial para internação. Infelizmente, não foi conseguida vaga em hospital mais próximo. Pergunta-se: se tivesse a paciente ido para Passo Fundo, em hospital de alta complexidade, o desfecho não poderia ter sido outro? Saúde e paz!” (estava assinado).

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As explicações são satisfatórias. Compreende-se inclusive o drama que vivem os operadores do SUS e da Central de Leitos.

Mas a questão central e fundamental permanece inalterada: como é que Porto Alegre, com seus hospitais de excelência, não tem vaga para neurocirurgia? Não tem explicação.

Até quando vão faltar vagas para doentes à morte?

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora

De partir o coração!

17 de março de 2010 22

Eu sei que muita gente morre por falta de atendimento hospitalar. Eu sei que muita gente sofre agruras inenarráveis por falta de atendimento hospitalar.

As autoridades se desdobram para conseguir leitos para todas as pessoas. Eu exageraria, no entanto, se dissesse que nos faltam milhares de leitos hospitalares?

Não exageraria, milhares de pessoas morrem por falta de atendimento hospitalar. Centenas, se quiserem, mas, se somadas a outras centenas, são milhares.

O repórter Maurício Gonçalves, da RBS TV, escreveu-me compungido por um desses casos, dos quais, sempre que tomo conhecimento, sinto-me como se fosse parente de uma das vítimas.

Ele me conta que a feirante Juracy Benedet, com 60 anos, teve um AVC no dia 4 de março corrente.

Foi internada então no Hospital Dom João Becker, em Gravataí. Só que naquele hospital não existe neurocirurgião, atendimento de que ela necessitava.

Ela ficou esperando a morte naquele hospital, à procura de uma vaga onde se pudesse prestar-lhe o atendimento necessário.

Não se diga que seus familiares ficaram inertes. Sem vaga em nenhum hospital, com a morte se aproximando, enfrentaram uma cruzada contra o tempo. Um advogado conseguiu três liminares com ordens para internamento imediato de dona Juracy num hospital competente. As três ordens judiciais foram ignoradas.

Dona Juracy continuava a morrer abandonada.

Até que veio a morrer, com total falta de recursos no último sábado, dia 13 de março.

O repórter me escreveu, certamente porque sabe que tradicionalmente me ocupo com falta de atendimento de saúde: “Fui designado para cobrir o caso desse drama para o Jornal do Almoço, rumei para Gravataí. Depois de 15 anos como jornalista, é em momentos como esse que dá vontade de largar tudo. Me sinto um derrotado. Porque a gente mostra, vive mostrando, mostra de novo o drama da falta de atendimento de saúde, mês após mês, e nada muda. Gente morrendo por falta de leito! É surreal demais!”.

Já que não há vagas nos presídios para os criminosos, o mínimo requisito para que nos considerássemos uma sociedade civilizada, com parco sentido de organização, é que tivéssemos leitos nos hospitais para toda pessoa paciente de doença grave. No mínimo isso.

Mas nem isso nós temos. Como é que se pode compreender um meio social em que quem adoece não recebe atendimento em hospital? Como?

Este caso da morte da dona Juracy abandonada pelos meios de atendimento de saúde é raro no seguinte sentido: a imprensa tomou conhecimento dele.

Na grande parte dos casos, milhares de pessoas morrem ou vão definhando de posto de saúde em posto de saúde, sem o devido atendimento hospitalar, sem que a sociedade tome conhecimento desses fatos escabrosos.

Eu não entendo como possam funcionar o Executivo, o Legislativo e o Judiciário de uma sociedade que nega atendimento médico para seus integrantes. Não tem sentido erguerem-se as instituições se não se dá hospital para doente grave. Não tem sentido.

Até quando vamos encenar eleições sobre eleições, governos sucedendo uns aos outros, se não há lugar nos hospitais para os doentes?

Até quando?

É o fim da picada.