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Posts de abril 2010

A ideia da morte

30 de abril de 2010 31

Intriga-me a morte. Será possível que isto tudo acabe?

É possível não, é certo que isto tudo acabará para nós.

Dizem que o único ser vivo que tem certeza da morte é o homem, daí que ele mergulhe no tédio e seja tão inquieto.

Um dia haverá em que a morte nos chamará.

Para que alguém morra, basta que nasça, a vida já começa com o anúncio da morte.

Então, o homem passa fingindo que está vivendo. Em realidade, ele está sendo alvo da única ameaça que se cumpre inexoravelmente: a morte.

Ela é certa, tão certa como o sol nascerá amanhã, depois virá a noite, no dia seguinte será de novo sucedida novamente por outro sol.

*

O homem teme e evita a morte incansavelmente.

Será que o homem teme a morte somente porque ela significa o fim?

Ou o homem teme a morte porque não sabe o que acontecerá consigo logo depois da morte?

Está bem, o homem está vivendo, não cogita da morte, apenas cisma com ela à distância.

Mas é muito difícil entender que um dia fatalmente a morte virá.

E tudo o que se fez, tudo o que se realizou, filhos, mulher, netos, carreira, tudo também morrerá. Porque em realidade, quando uma pessoa morre, tudo em seu redor morreu para ela. É o fim de tudo e de todos. Que encrenca! A maior de todas as encrencas.

*

Existe um fascínio pela morte: é que ninguém sabe quando morrerá. Se houvesse um prazo delimitado, marcado, para morrer, imagino em que terror se transformaria a vida.

O homem sabe que vai morrer, ele só não sabe é quando vai morrer. Por isso, muitas vezes, ele disfarça, faz de conta que nunca vai morrer, tenta driblar a morte com a indiferença.

*

Mas como ficar indiferente a um ato que vai terminar com tudo?

Como vai se ignorar que algum dia todos os tijolos que cimentamos na vida ruirão por terra pela morte?

Ali, por exemplo, está um velho, ao meu lado, na minha frente. Descubro só agora por que ele não sorri, por que vive engolfado pela tristeza. Tem bom salário, tem boa família, leva uma vida prazerosa.

E, no entanto, não sorri. Está na cara que não sorri porque sabe que vai morrer, que está diminuindo o prazo para sua morte, todos os dias diminui o prazo.

Em realidade, o homem está condenado à morte. Existe para ele, em última análise, uma pena de morte.

E vai ser executado. Um inocente morrerá. Pelo único pecado de ter nascido.

*

A morte é certa. Não poderá detê-la nenhuma resistência.

O certo seria que o homem se resignasse com a morte e se preparasse para recebê-la. Mas haverá algum homem tão sábio e distinguido que receba a morte como um bálsamo ou uma libertação?

Acho que não há ou quase não há.

Em princípio, o homem odeia a morte.

Mesmo quando já não sabe mais o que fazer com a vida

Vantagens do pessimismo

29 de abril de 2010 3

O pessimismo, como já afirmei, é uma doença. Por ela, o paciente acha que tudo de ruim pode lhe acontecer, não confiando nunca que fatos favoráveis a si vão ocorrer.

Uma derivação mais grave do pessimismo é a hipocondria, trata-se da crença do paciente de que ele está ou logo em seguida vai ficar doente, alguma coisa de ruim vai acontecer com seu organismo.

*

Pensando melhor, vi que há vantagens em ser pessimista ou hipocondríaco.

Como sempre prevê delirantemente que alguma coisa ruim vai lhe acontecer – ou já está acontecendo – e como essas coisas na maioria das vezes não acontecem, todos os dias o pessimista obtém uma vitória, não lhe ocorreu o que de ruim tinha previsto. Ele tem, portanto, diariamente, com o que festejar.

É verdade que a preocupação com seu futuro não cessa. Mas pelo menos ele passou mais um dia livre da sua nefasta previsão.

*

Já com o hipocondríaco se dá algo não muito diferente: todas as semanas ou todos os meses ele vai ao médico para submeter-se a exames. Vai convicto de que encontrará alguma doença em seu corpo.

E, na maioria das vezes – ou sempre –, ele não tem doença alguma. Não é também uma forma de triunfo e de alegria? Pois, todas as vezes que os exames são negativos, de certa forma ele conseguiu uma vitória sobre a sua convicção, não tem doença alguma, sai do médico com justo motivo para festejar.

A não ser que os meus leitores entendam que é uma imensa frustração para o hipocondríaco que o médico não tenha achado doença nenhuma em seus exames. Mas, se isso acontecer, ele não é hipocondríaco, ele é louco mesmo, pirou e não tem mais salvação.

*

Pegue-se, por exemplo, um otimista e um pessimista com vidas absolutamente idênticas, em tudo, o que aconteceu para um aconteceu para outro.

Como nada de ruim ocorreu para nenhum deles, o otimista não lucrará nada por ter dado certo sua previsão.

Enquanto que o pessimista terá todos os motivos para saudar efusivamente que nada de ruim lhe aconteceu. Afinal, ele tinha certeza de que iria acontecer. O pessimista, portanto, é o único que lucra quando suas previsões não deram certo.

O triste para os pessimistas e para os hipocondríacos é que nunca cessam suas previsões catastróficas. Eles escapam de serem atingidos hoje, satisfazem-se com isso, mas já começam imediatamente a nutrir medos de que amanhã serão vítimas de uma tragédia ou de uma doença maligna.

Além disso, quando algo de ruim acontece com o pessimista, ele se orgulha de tê-lo previsto.

Enquanto que o otimista que é atingido por algo ruim tem todos os motivos para decepcionar-se amargamente com seu otimismo.

*

Recebo um profundo elogio ao SUS e ao Instituto de Cardiologia: “Prezado Sant’Ana: Hoje, quando assistimos diariamente nos jornais e na televisão à precariedade de nossos hospitais, principalmente os atendimentos pelo SUS, quero fazer um registro para enaltecer o Hospital de Cardiologia, pois tive meu irmão, ex-juiz de futebol Orion Sater de Melo, internado por quase um mês naquela instituição, onde passou por um procedimento cirúrgico e pude constatar o ótimo atendimento prestado a todos os que lá procuram auxílio, desde o setor de emergência, CTI, até nos quartos de internação existe um serviço muito sério e responsável, tanto executado pelos médicos quanto por todas as outras pessoas que lá trabalham. Parabéns aos diretores responsáveis por aquela instituição que é exemplo e referência para todo o Brasil. E olha que estamos falando de atendimento pelo SUS, não há como não elogiar este serviço magnífico que nos presta o Instituto de Cardiologia, Paulo Sant’Ana. Isto com certeza merece registro, pois nem tudo está perdido na saúde pública. Este hospital orgulha a nós, gaúchos. (as.) Odilon Sater de Melo (odilon.melo@hotmail.com)”.

Cara de palhaço

27 de abril de 2010 76

Canso de me perquirir sobre por que razão tenho de pagar preços mais altos do que os outros.

Nos últimos anos, estou cansado de saber que a cesta básica mais cara do Brasil é a daqui onde moramos. Ninguém paga mais do que nós, gaúchos, pela cesta básica em todo o Brasil. Por quê? Quem é que me decifra, sem tergiversações, este enigma?

*

Da mesma forma, por que os imóveis aqui em Porto Alegre são os mais caros de todo o Brasil, ninguém decifra.

O meu azar é que moro exatamente aqui. Se a cesta básica daqui é a mais cara do Brasil, por lógica todos os alimentos que ingerimos aqui são os mais caros do Brasil.

E se os imóveis daqui são os mais caros do Brasil, então os aluguéis e as taxas de condomínio seguem o mesmo ritmo.

E, por azar, eu moro aqui. Por que será?

Há séculos pergunto e não encontro resposta definitiva, a não ser algumas hesitantes.

E, por azar, eu e meus leitores moramos aqui.

*

Agora mesmo o leitor Guilherme Sarda (guilhermesarda@hotmail.com)manda me dizer que todos os postos de gasolina de Florianópolis cobram em torno de R$ 2,29 pelo preço da gasolina comum. E me manda as notas comprovantes desse preço.

Aqui em Porto Alegre, o preço é de R$ 2,59 por litro. Por que a gasolina custa 30 centavos de real mais caro em Porto Alegre do que em Florianópolis? Pergunta-se e ninguém responde?

Não há razão lógica e sólida para essa diferença.

E, no entanto, um tanque de gasolina, vejam só, custa R$ 18 a mais aqui em Porto Alegre do que em Santa Catarina. Um assalto!

E, em algumas cidades do interior gaúcho, um tanque custa quase R$ 30 a mais que em Santa Catarina.

R$ 30 a mais por tanque, isto é uma fortuna!

*

E os donos de postos de gasolina de Santa Catarina já têm lucro com aquele preço menor que cobram por lá.

O que está acontecendo afinal, a não ser esta cara de otário espoliado que faço sempre que entro nessa comparação?

*

O leitor Hélio Hettwer (augusto.hettwer@terra.com.br) manda me dizer que o pedágio na BR-101, em Porto Belo, Santa Catarina, custa R$ 1,10. E ele pergunta: “Que palhaçada é esta de nos cobrarem nas praças de pedágios do Rio Grande do Sul cinco vezes mais que lá? Os pedágios daqui custam no mínimo R$ 6 e lá saem por R$ 1,10. Que palhaçada é esta?”.

Exatamente. Nós, gaúchos, somos uns palhaços.

*

Evidentemente que essa diferença nos preços dos combustíveis daqui para SC influi tremendamente no desenvolvimento do nosso Estado.

E eu moro aqui, os meus leitores moram aqui. São todos eles, todos nós, vítimas dessa espoliação.

Não é um azar nosso?

Por que será que estoura sempre em nós?

Gigantesca vitória

26 de abril de 2010 46

Há muito tempo, o Grêmio não obtinha uma vitória tão retumbante e singular como a de ontem.

O Internacional era o grande favorito, vinha de classificação maiúscula na Libertadores, enquanto o Grêmio se debatia na frustração de não ter se classificado para a finalíssima do segundo turno.

Todo o favoritismo do Internacional caiu na partida. O Grêmio foi muito melhor que o adversário na maioria das ações. A vitória já poderia ter vindo aos 14 minutos do primeiro tempo, quando Borges só tinha Abbondanzieri.

Apesar de Jonas ter chutado duas vezes na trave, a maior oportunidade do gol no Gre-Nal foi esta, perdida pelo Borges. Foi de lascar!

*

Grande vitória, inesperada vitória. O jogo estava em 0 a 0 e, se terminasse assim, eu estava preparado para escrever vastos e rasgados elogios ao treinador Silas, que armou uma muralha à frente da área gremista e nunca perdeu a chance de contra-atacar – ou simplesmente atacar. Foi estupenda a atuação de todos os jogadores do Grêmio, inclusive o menino Neuton, estreante da lateral esquerda, sobre quem recaiu grande responsabilidade, tendo se saído airosamente.

Silas é o grande herói desta vitória.

Não é fácil dominar o Internacional no Beira-Rio. Pois o Grêmio dominou e tomou conta do gramado no segundo tempo.

*

Havia uma grande e inteligente faixa diante da torcida colorada no estádio: “Bem-vindos ao inferno!”.

Sabe-se que o Beira-Rio é um inferno, mesmo, para os adversários quando está lotado.

Pois o Grêmio suportou esse inferno, enfrentou as labaredas, saltou sobre elas e acabou obtendo a maior vitória gremista dos últimos tempos, porque conquistada na casa do maior rival, porque o jogo era decisivo, porque desde 1993 o Grêmio não ganhava no Beira-Rio em Gre-Nais do Gauchão, porque os 2 a 0 permitem que o Grêmio ganhe o título mesmo que possa vir a perder por diferença de um gol no Gre-Nal do Olímpico.

E porque, principalmente, Guiñazu levou o terceiro cartão amarelo e não joga o segundo Gre-Nal.

Na Gaúcha, um torcedor do Grêmio flauteou no fim do jogo: “Se o inferno é aqui, eu quero voltar aqui mais vezes”.

*

Brava torcida gremista que foi ao Beira-Rio e acreditou na vitória. Esses quase 2 mil gremistas são a joia da coroa do clube das três cores.

Eles enfrentaram 40 mil torcedores do Internacional e enfrentaram principalmente um favoritismo colorado que era admitido até pelos gremistas, ou seja, é uma façanha ainda maior comparecer fisicamente àquele inferno.

Se para quem é gremista já foi difícil e nervoso assistir ao jogo pela televisão, imaginem o que sofreram os quase 2 mil gremistas que foram ao Beira-Rio.

Eles são a essência do clube, eles são os heróis, parabenizo a cada um deles pelo feito, um abraço de solidariedade e admiração a cada um deles.

A grande vitória de ontem pertence a esse bravo punhado de torcedores.

*Texto publicado hoje na página 39 de Zero Hora

Feliz ou infeliz

24 de abril de 2010 22

O tema hoje é o que mais almejam os seres humanos: a felicidade.

Já escrevi certa vez que os filósofos erram quando dizem que o supremo dever do homem é a busca da felicidade.

Mas, se os próprios filósofos declaram que a felicidade, por ser efêmera, não existe, como pode ser dever do homem procurar o que não existe?

Então, eu corrigi os filósofos: por revés, o dever do homem na Terra é buscar ser menos infeliz.

*

Aí que entra o célebre verso do Ataulfo Alves, o grande sambista: “Eu era feliz e não sabia”. Esse verso é uma adaptação do dito de filósofos, que sempre perquiriram que o homem muitas vezes não sabe que é feliz.

Eu iria mais adiante: o homem só é feliz quando não sabe que é feliz, o que no fim das contas nada significa.

E por outra parte pergunto: não é de todo pertinente que o homem também não saiba que é infeliz?

Eu, de minha parte, garanto que o homem só pode se sentir feliz quando, sem saber, ele é infeliz.

Ou de maneira mais radical: só um idiota pode se sentir feliz.

*

Só pode dizer que era feliz e não sabia quem venha posteriormente a ser tão infeliz que passe a invejar o estado anterior que ostentava.

“Eu era feliz e não sabia” quer dizer que não gozou da felicidade por desconhecer que com ela tratava.

E só agora, que é infeliz, tem consciência de que aquele estado que vivia era o de felicidade.

Ora, quem é feliz e não sabe que é feliz, por lógica, não é feliz.

Em suma, para ser feliz é preciso sentir-se que é feliz.

*

Já aquele que é infeliz e não sabe, por lógica, é feliz. É uma espécie de loucura delirante, a pessoa sofre e não sabe que sofre, por consequência não sente a dor e o infortúnio quando estes batem à sua porta, invadem seu domicílio e a submetem.

Ou seja, os que são infelizes e o desconhecem ou são muito fortes, ou estão loucos.

Pode-se dizer que são felizes.

*

É que no meio desses estados existem outros mil, como, por exemplo, o dos que são felizes tão somente por estarem sempre esperando a felicidade. É a felicidade da esperança, a felicidade dos crentes que têm a certeza de que Deus virá para chamá-los para o reino dos céus.

A única felicidade para eles consiste em esperar a felicidade. Isso é o que se chama de sonho.

O sonho é o lenitivo para o sofrimento, sofre-se, mas mergulhando no sonho o sofrimento passa a não doer, passa a não existir, sobrepujado pela esperança.

*

Além disso, o estado de felicidade é sempre cotejado com a felicidade ou a infelicidade alheia.

É impossível ser feliz se moram ao nosso lado ou convivem conosco pessoas que consideramos felizes.

A felicidade alheia, muitas vezes, é a causa única da nossa infelicidade.

Muitas vezes é impossível para nós encarar com naturalidade a felicidade alheia. Ela nos agride e não raro nos torna infelizes.

Por todas essas barafundas, não há nada mais difícil, senão impossível, do que ser feliz.

Outra visão da praça

24 de abril de 2010 3

Recebo e dou trânsito imediato:

“Prezado Paulo Sant’Ana, sempre que compro minha Zero Hora, sou tomado por uma incrível sensação, eu simplesmente não consigo me atrever a começar minha degustação diária e matutina, que, embora não tenha me dado conta, é um vício, sem antes dar uma olhada em sua coluna.

Sabe aquele ato involuntário? É simples, desço de meu ônibus na estação rodoviária, me dirijo até a banca de jornais e compro Zero Hora. Aí é que vem o mistério, instintivamente eu viro a Zero Hora e começo a ler pela sua coluna. Sabe, cheguei a ficar incomodado com isso, mas fazer o quê? Bom, voltemos aonde eu queria realmente chegar: hoje, lendo sua coluna, chego a uma conclusão incrível: como a discussão sobre meio ambiente mexe com as pessoas.

Pablo, me desculpe a ousadia, mas é mais fácil você ter notado, pois tem a vantagem de ser mais experiente, veja com quanta paixão e com quanto empenho os defensores do meio ambiente se atiram à tarefa árdua de proteger, de conscientizar e de tentar a qualquer custo fazer valer a sua vontade e o seu pensamento.

Agora, com toda a franqueza, não sou um capitalista que acha a proteção ao meio ambiente um absurdo e que tudo que visa ao progresso e com isso ganho, lucro, tem mais valor, de jeito nenhum, tenho a mais completa noção da necessidade de um ecossistema bem equilibrado.

Agora, Pablo, veja comigo os últimos acontecimentos. A prefeitura resolve restaurar uma praça, no centro da cidade, uma praça onde temos diversas pessoas exercendo suas atividades, artesãos, engraxates, entre outros, acredito que para estas pessoas também haverá melhorias em seus trabalhos, pois com a revitalização vamos poder passar pela praça para ir ao banheiro, para olhar seus monumentos, para sentar e conversar em bancos aconchegantes e ambiente bem iluminado, com asseio ao nível de nossa cidade e de nossa população.

Ao invés disso, os defensores do meio ambiente saem em desesperada corrida antirreforma, pois acabará com as árvores e, com isso, estamos dando um péssimo exemplo a futuras gerações. Pois bem, caro Pablo, CANSEI. Sabe quando um contribuinte cansa? Pois é, enchi o … de tanta hipocrisia. Vamos começar pela praça. Até agora, deixar a praça ser dominada por drogados, prostitutas e por delinquentes não incomodava ninguém, aí não tem problema. Deixar a praça ser um esgoto a céu aberto não tem problema nenhum, pois isto não incomoda. Agora, bastou ameaçar retirar um galho de uma árvore qualquer, que o batalhão Meio Ambiente Já sai em disparada. Às vezes, me causa uma tremenda indignação.

Eu acompanhei de perto o projeto Portal do Estaleiro, e aí é que me refiro. Até o mato crescer e a ferrugem tomar conta do prédio do Estaleiro Só, ninguém estava preocupado. Anunciou-se que havia a possibilidade de que fossem construídos edifícios e, com isso, mudarmos uma paisagem que era, na minha opinião, uma das mais feias da orla, tá feita a destruição do planeta, a aniquilação da cidade e nunca mais iríamos tirar fotos do Guaíba. Me causa um tanto de espanto essas atitudes, pois as pessoas acham que ninguém nota, sabe por quê? O Greenpeace não existia antes, quando eles queimaram a Europa inteira e metade da Ásia, mais a América do Norte.

Sabe, isso me deixa completamente frustrado, pois não temos consciência do colonialismo, isto para mim é a mais completa prova de que ainda somos colônia, pois o pensamento ‘mundial’ é o que importa e não o bem da nossa nação.

Sabe há quantos anos passeio pela praça em questão? Há mais de 20 anos. Duvido, veja bem, duvido de alguém que goste daquela praça do jeito em que se encontra. Imagina se por acaso alguma dessas árvores que já estão quase que no final de suas vidas caísse em cima de uma pessoa, aí não iriam faltar críticas aos governantes. Por favor vamos ter coerência e parar com os ecochatos. Desculpe o incômodo. (as.) Marco Antônio Pereira Cardoso, corretor de seguros. (marco@multiplanos.com.br)”

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

Pequena Porto Alegre

23 de abril de 2010 14

Dá para acreditar que há 50 anos havia um bonde que circulava somente no Centro?

Pois havia. Era o bonde Duque, quase sempre gaiola, isto é, menor e sacolejante.

Ele transportava pessoas para seus destinos, mas grande parte dos passageiros adorava andar de bonde somente para passear.

*

Havia também o bonde Gasômetro, também circular, vinha pela Venâncio Aires, entrava na Osvaldo Aranha na direção do Centro, desaparecia lá pela Sete de Setembro e ia até o Gasômetro, onde existia a Casa de Correção.

O Duque e o Gasômetro eram duas linhas intestinas, as outras todas se dirigiam aos arrabaldes.

*

O bonde lotava mesmo quando se dirigia aos arrabaldes mais populosos. Os bondes lotados faziam a festa dos batedores de carteira, os únicos tipos de delinquentes que se notabilizavam. Não havia assaltantes, não havia roubos de carros, a cidade era tranquila e serena, todos trabalhavam para se recolher aos lares à noite e ouvir as novelas de rádio e escassas edições do Repórter Esso, muito mais especializado em notícias nacionais e internacionais. Não havendo crimes nem acidentes, o noticiário local era escasso.

Porto Alegre era então uma cidade provinciana.

*

Agora me lembrei de uma outra linha curta, era o República, que fazia a rua do mesmo nome, na Cidade Baixa, e ia até o Centro.

Depois tinha o Partenon, o Teresópolis, o Floresta, o Glória, o Independência, o Petrópolis, o Navegantes, o Menino Deus.

Engraçado é que, por ser a cidade pequena, havia o Partenon até a Rua Portuguesa, outro até a Luís de Camões. O Teresópolis até a Pedreira era o único que transcendia o fim da linha.

Petrópolis até João Abott, Petrópolis até Ivo Corseuil, Glória até Rua Nunes, a malha de bondes cobria por inteiro a superfície da cidade e isso fazia inexistir qualquer problema de transporte. Em menos de cinco minutos, um bonde sucedia ao outro e os passageiros ficavam satisfeitos com o serviço.

*

Foi um grande erro terem extinto os bondes. O que deveriam ter feito era alastrar as linhas e transformar os bondes em trens.

Isso não foi feito porque naquele tempo Viamão era como se fosse Uruguaiana, Gravataí era como se fosse Santa Maria, Guaíba era como se fosse Pelotas. Para nós, aqui da Capital, eram distantes municípios. Não havia, portanto, passageiros que sustentassem linha de trem até essas cidades.

Foi o erro: a substituição dos bondes pelos ônibus. Hoje é essa parafernália angustiante do transporte coletivo, os ônibus atravancando a cidade e os passageiros dos coletivos competindo com os carros em engarrafamentos.

*

Foi um erro extinguirem os bondes. Tanto sob o ponto de vista do transporte quanto da poesia. O pitoresco dos bondes enfeitava a cidade.

Em cinco, no máximo 10 minutos, chegava-se ao destino, os bondes varavam o Centro sem se constituírem em qualquer obstáculo para o trânsito.

Não havia incerteza. Em qualquer turno, era bater e valer, bastava se dirigir para a parada de bondes que em seguida um elétrico nos apanhava e nos largava lá onde nos bem aprouvesse.

Parecia que tínhamos tido sorte em nascer aqui em Porto Alegre. Depois, a cidade foi crescendo, foi se expadindo, criaram a figura da Grande Porto Alegre e hoje nos atordoamos.

Eu gostava mais da Pequena Porto Alegre.

Do sonho e do paraíso dos bondes.

O médico

22 de abril de 2010 9

O Guerrinha, nosso companheiro aqui da RBS como comentarista esportivo, conta que é uma tortura ir ao médico para cuidar da sua saúde. Ele fica diante do médico esperando pelo pior:

– O senhor fuma?

– Fumo.

– O senhor caminha?

– Não caminho.

– Já temos duas desvantagens. Por que o senhor não caminha?

– Porque tenho um carro.

– Mas tem de caminhar.

– Doutor, o senhor já passou ali na Avenida Ipiranga? O senhor, passando por ali, vai ver milhares de carros, em fila, nas duas pistas. Se eu for caminhar, vou chegar atrasado em todos os lugares a que tenho de ir. Todos aqueles carros vão passar na minha frente e eu vou chegar atrasado aos meus compromissos.

– Mas o senhor vai ter de caminhar nas horas vagas.

– Eu não tenho horas vagas.

– Eu vi aqui o exame da sua pressão arterial. Está tudo bem. Mas eu vou lhe encaminhar para o cardiologista.

– Mas se o senhor está dizendo que está tudo bem, para que me encaminhar para o cardiologista?

*

Então o Guerrinha se dirige até o cardiologista:

– Estou vendo aqui seus exames, parece que está tudo bem. Mas vou lhe encaminhar para uma esteira.

– Mas se está tudo bem, por que o senhor quer me encaminhar para uma esteira?

– É preciso verificar tudo.

– Mas, se está tudo bem e continuam procedendo a exames, está na cara que daqui a pouco vão encontrar alguma coisa.

– Mas esta é a nossa obrigação, checar tudo para que não reste nenhuma dúvida.

E assim vai o Guerrinha na romaria dos exames, tenso à espera dos resultados.

*

Com o Lauro Quadros dá-se diferente: ele é que solicita os exames periodicamente. No mínimo, de 30 em 30 dias comparece ao consultório do Dr. Sarmento Barata, o urologista proverbial de tantas gerações.

E o Lauro Quadros se submete paciente e dócil ao exame de toque retal do Dr. Barata. O Lauro ouviu dizer que todo homem, algum dia, depois dos 50 anos, terá câncer de próstata. Então, vai aos exames para perscrutar se chegou a sua vez.

O doutor Sarmento Barata diz ao Lauro que não há nada com a sua próstata. Mas dali a 30 dias o Lauro vai lá de novo para submeter-se ao dedo piedoso do Dr. Barata.

*

Não contente com isso, o Lauro marca todos os meses consulta com o proctologista.

De novo, o Lauro naquela posição incômoda, submetendo-se ao dedo e aos exames do proctologista João Mussnich.

Não deram nada os exames, mas o Lauro não descansa dentro dos 30 próximos dias.

Ele tem a convicção de que um dia o exame dará positivo.

*

E, assim, tantos outros pacientes, eu entre milhares. Nos últimos anos, me submeti a incontáveis biópsias, vou lá tirar o material, algumas colheitas são cruciantes, passam-se torturantes e aflitivos cinco dias à espera do resultado, que afinal é negativo. Enquanto isso, não se dorme à noite.

E isso me faz pensar que os pacientes sofrem tanto quando os resultados são positivos quanto quando são negativos.

Ir ao médico causa tanta apreensão quanto ir ao mecânico: se examinar bem, alguma coisa vai aparecer.

A Praça da Alfândega

21 de abril de 2010 5

A respeito das reformas na Praça da Alfândega, tema da minha coluna de ontem, a par de outras manifestações, recebi do órgão competente da prefeitura extensa resposta, que vem abaixo condensada:

“Prezado Sant’Ana. Buscando esclarecer questões levantadas pela senhora Marília Levacov, em 20/04/2010, que reflete a justa preocupação de parte da sua legião de leitores, todavia não plenamente informados sobre o projeto de recuperação da Praça da Alfândega, solicitamos espaço para explanação e esclarecimentos sobre o Projeto Monumenta e a intervenção na referida praça.

A implantação, em 2002, do Projeto Monumenta em Porto Alegre – atualmente presente em 26 cidades históricas no país – foi resultado do esforço conjunto entre a prefeitura municipal, o Ministério da Cultura, o Iphan, o BID a Unesco e a CEF, sendo voltado para a execução de obras visando à requalificação do Centro Histórico, fortalecendo o seu uso social, cultural e econômico.

O projeto de reurbanização da Praça da Alfândega não envolve apenas a restauração da imagem original, o que é impossível, mas a recuperação de suas características principais e garantir sua funcionalidade contemporânea, como um dos principais espaços públicos da cidade. Isto inclui a substituição de redes de infraestrutura, significativamente comprometidas, recuperação de pavimentos, de canteiros, monumentos, sanitários, do mobiliário urbano e reforço da iluminação pública.

Na reforma que em 1912 incorporou os prédios do Margs e do atual Memorial do Rio Grande do Sul, a praça foi concebida pelo arquiteto Theo Wiederspahn como um jardim, com vegetação baixa, emoldurado por jacarandás, valorizando a monumentalidade dos edifícios circundantes. De lá para cá, houve o crescimento e a adição de espécimes exóticos (como fícus e ligustros), que devido à falta de manutenção alcançaram porte que hoje encobre e compromete a vegetação original e o conjunto da praça. (Note-se que já em 1920 um grande número de paineiras foi derrubado no local pelos mesmos motivos.)

Assim, como já informou amplamente a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam), todas as árvores que estão sendo removidas serão substituídas por plantio de ipê-amarelo, uma vez que apresentavam más condições fitossanitárias, inclusive algumas com grandes áreas necrosadas em seus troncos, representando risco para os usuários do local. Além disso, serão plantadas mais 139 árvores em outros espaços do centro histórico, como compensação às remoções. Já em agosto do ano passado, foram transplantadas 10 palmeiras para outros locais, antes do início dos trabalhos de remodelação da praça. As remoções estão sendo acompanhadas pelas equipes técnicas da Smam, integradas por arquitetas e engenheiro agrônomo. Também será feito um trabalho de ajardinamento de toda a praça.

Na verdade, a praça foi sendo descaracterizada ao longo do tempo, com prejuízo às redes de abastecimento, drenagem e eletricidade, além de oferecer abrigo para centenas de ratos. As raízes da vegetação exótica de porte avançaram sobre calçamento e monumentos, com prejuízos evidentes. Suas copas encobriram tanto a luz do sol quanto os postes para iluminação, isso também propiciou ações de contravenção no local. Com isso, a praça desenvolveu-se para além das proporções do espaço, que é um jardim e não um parque urbano.

Logo, o trabalho de recuperação pressupõe, necessariamente, um plano de manejo vegetal, com transferências, podas, remoções, substituições e plantios. Com esse trabalho de saneamento, e com a inserção de um número significativamente maior de pontos de iluminação, a praça terá maiores condições de segurança, com insolação em alguns canteiros, como no recanto infantil, e melhores condições de utilização por toda a população. Com certeza, as mudanças proporcionarão mais conforto, segurança e a maior valorização do patrimônio do Centro Histórico, com o destaque merecido a todos os elementos que compõem a paisagem dessa área. (as.) Luiz Antônio Bolcato Custódio, coordenador da Memória Cultural, secretário Municipal da Cultura em exercício”.

Debate

20 de abril de 2010 13

Recebo e transcrevo, com o fim de dar trânsito ao debate:

“Prezado Paulo Sant’Ana, recorro a ti que tantos leitores tens e que tanto peso exerces sobre a consciência e a opinião pública no RS.

NA CONTRAMÃO DA HISTÓRIA: Projeto Monumenta destrói dezenas de árvores antigas da Praça da Alfândega.

O Projeto Monumenta, da prefeitura de Porto Alegre, desenvolvido pelo Ministério da Cultura, com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Unesco, visa supostamente a restituir (não sei com que vantagem) o visual da Praça da Alfândega ao seu original, do início do século 20, quando não se sabia ainda da importância das árvores no projeto urbano das cidades.

Para garantir essa discutível e dispensável ‘autenticidade’, o projeto cercou a praça (que sempre foi abandonada pela prefeitura) com um muro metálico de dois metros de altura e, assim escondida, dedicou-se a cortar sistematicamente mais de duas dezenas de árvores da praça, algumas centenárias.

O barulho execrável e ininterrupto das motosserras, por dias, e a saída regular de caminhões do espaço cercado e trancado, carregando troncos e mais troncos de largo diâmetro, assim como a vista de cima, dão uma ideia da insensata e escondida destruição que lá dentro acontece.

Moro ao lado da praça e bem acima. Vejo com angústia crescente as clareiras se somarem em grande velocidade, converso com os antigos frequentadores e transeuntes, artesãos e pequenos comerciantes ao redor, todos chocados e consternados com a velocidade e a extensão da destruição.

Todas as árvores (algumas com mais de 30 anos) de ambos os lados da Avenida Sepúlveda, entre o Margs e o Memorial, foram serradas e destruídas (sequer removidas a outro lugar). Dentro da praça, igualmente, os tocos dos troncos e os buracos atestam a destruição sem precedentes das árvores lá plantadas, na contramão da história do urbanismo, em incompatibilidade com a qualidade de vida e o paisagismo esclarecido do século 21, numa atitude burra, irresponsável e injustificável!!!

O Projeto Monumenta dá verbas para a ‘melhoria de praças e ruas’ e eu gostaria de saber, o público desta cidade, os frequentadores dessa praça têm o direito de saber em que esse massacre insensato de árvores cuja copa garante ar puro e sombra versus a sujeira, a poluição e o calor massacrante do centro, onde a palavra ‘melhoria’ está prevista? Que melhoria é essa que destrói em grande escala a própria coisa que torna a praça um bem aos seus frequentadores? Ou eles acham que as pessoas lá vão pelos postes de luz? Pelo calçamento?

Todas as cidades em locais mais instruídos dedicam-se a criar espaços verdes ou aumentar os existentes. Nossa prefeitura os destrói, agora sob a desculpa de que vai criar um ambiente mais autêntico. Mas, se formos exigir autenticidade mesmo, que inundem aquela área, que antes pertencia ao rio. Ou que refaçam o espaço como era na chegada dos açorianos. Por que achar que o arbitrário autêntico é aquele em que não havia uma gestão esclarecida do espaço da praça?

Por que a prefeitura não torna o centro mais humano e seguro fazendo coisas óbvias e sensatas, como exigir que a pavimentação das calçadas permita que idosos e crianças possam andar sem tombar diariamente nos milhões de buracos das calçadas (só para citar uma melhoria necessária e ignorada pela prefeitura que decide investir o dinheiro destinado à melhoria da praça nessa sanha destruidora imperdoável)???

Conclamo as pessoas de bem, a mídia, aqueles com espírito responsável, aqueles com ética, bom senso e espírito público, a protestarem e a interditarem esse projeto insano que destrói um bem público necessário na suposta desculpa de recriar a estética arcaica e desnecessária às custas do bem comum. Obrigado, (as.) Marília Levacov (marilia@levacov.eng.br)”.

O estrago de um só vulcão

19 de abril de 2010 3

Duvido que alguém decore as letras que compõem o nome deste vulcão da Islândia que paralisa a Europa neste instante: Eyjafjallajeokull.

Há dias estão fechados todos os aeroportos europeus e os prejuízos das companhias aéreas é calculado em assustadores US$ 200 milhões diários.

A nuvem negra que cobre toda a Europa é produzida por uma massa natural, fluída, ígnea (fogo) que se encontra com o gelo, pois incrivelmente este vulcão que despeja lama está situado dentro de uma geleira.

*

O espetáculo do vulcão despejando magma (lava) de dentro de uma geleira, que pode ser visto nas televisões todos os dias, é deslumbrante: o fogo emergindo de uma imensa taça de gelo.

Cientistas da Islândia que sobrevoaram a região afirmam que não há sinais de que a erupção, que aumentou sua atividade, venha a ser reduzida nos próximos dias.

Ninguém me responde a uma curiosidade que tenho: quantos vulcões há mais no mundo desaparecidos sob geleiras?

Esse vulcão que entrou agora em erupção era desconhecido de todo o mundo.

*

Este fato incrível, que já agora ameaça também os aeroportos da Ásia, além dos europeus já paralisados, traz-nos à mente uma ideia terrível: a da fragilidade da Terra. Se uma minúscula cratera é capaz de, perdida na ilha islandesa, provocar este imenso colapso de cinzas em todo o continente europeu, alastrando-se pela Ásia, o destrutivo poder telúrico que está escondido sob a superfície terrestre é assustador.

Bastariam que 30 vulcões destes entrassem em erupção e o equilíbrio do planeta periclitaria.

A impressão que este episódio me passa é de que a destruição da Terra pode se verificar em questão de minutos.

Como é frágil o planeta em que vivemos!

*

Depois do tolerância zero do fim dos anos 80, Nova York volta a se assombrar com a delinquência juvenil, simbolizada por uma onda de assaltos no último domingo de Páscoa, quando duas gangues protagonizaram um arrastão que deixou 44 presos e quatro baleados no Times Square.

Para quem não quer admitir que a delinquência tem ligação direta com a questão social, basta dizer que sociólogos norte-americanos atribuem como uma das principais causas da volta da criminalidade a Nova York o desemprego que se verifica atualmente em face da grande crise econômica que assolou recentemente os EUA e o mundo.

*

Alie-se a isso que a própria crise econômica obrigou a prefeitura de Nova York a reduzir recentemente o efetivo policial em milhares de membros.

Desemprego e redução das forças policiais redunda num explosivo coquetel que não é muito percebido aqui no Brasil.

Nós por aqui nos fixamos nas causas objetivas da falta de segurança nas ruas, sem atentarmos para o desemprego e a miséria, certamente vertentes dessa imensa mole humana que se dedica a assaltos, roubos e furtos que ocorrem atualmente no Brasil.

O crime deixa assim de ser uma questão meramente policial para pertencer ao estudo de suas causas sociais.

Quem não tem emprego, quem não consegue colocação no mundo econômico, fatalmente recorrerá à prática do crime para sobreviver. Por isso é que hordas se especializaram nos últimos anos no Brasil a tirar o seu sustento do tráfico de drogas.

E haja presídios para abrigar este imenso “operariado”.

*Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora

Um achado macabro

17 de abril de 2010 8

Há uma semana, explodiu um carro na Barra da Tijuca. Estava na direção do veículo o filho do banqueiro de jogo do bicho Rogério Andrade, um dos herdeiros das bancas de jogo do célebre Castor de Andrade.

Diogo Andrade, o filho do banqueiro, tinha 17 anos, e seu pai estava no banco de carona do carro explodido. O pai teve apenas o rosto ferido, mas o filho restou com o corpo completamente dilacerado.

Um crime de grande repercussão.

*

Na ocasião, a avenida onde houve a explosão teve seu trânsito interrompido para as providências da perícia no carro durante várias horas.

Depois da perícia, as ferragens do carro foram recolhidas para um depósito da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis.

Dias depois do atentado criminoso, no pátio da delegacia, foi encontrado nas ferragens do carro um pé inteiro, parte do corpo do jovem assassinado. Um pé inteiro escapou incrivelmente da atenção dos peritos.

*

O médico-legista George Sanguinetti classificou de inadmissível a falha dos peritos envolvidos no exame do local. Ele atuou em casos como o do assassinato de Paulo César Farias (tesoureiro de Fernando Collor) e da menina Isabella Nardoni. Para o legista, a descoberta de parte do corpo no veículo após a perícia indica que o trabalho foi superficial:

– É um erro grosseiro e revela que a perícia do local praticamente não foi feita. Num caso de explosão de uma bomba num veículo, a ciência forense define como conduta correta um exame minucioso nos restos do carro, no prazo de 24 horas. Estou chocado com o primarismo desse trabalho.

*

Luiz Carlos da Silva Neto, advogado do pai da vítima, também não poupou críticas à perícia: segundo ele, a família foi informada anteontem sobre a descoberta do pé. O advogado entrou com recurso no Tribunal de Justiça, solicitando permissão para abrir a sepultura do jovem e enterrar o restante do corpo.

O advogado diz que é um fato grave e que a perícia foi superficial, acrescentando:

– Se não conseguiram identificar ou encontrar parte de um corpo, o que dizer do material encontrado na confecção da bomba?

*

Na missa de sétimo dia do jovem assassinado, quinta-feira passada, seu pai, o banqueiro de bicho Rogério Andrade, compareceu custodiado por 40 seguranças, um deles portando um fuzil.

Só no Rio de Janeiro acontece isso. Garanto que vários dos 40 seguranças eram policiais.

*

Mesmo que os restos mortais do jovem explodido tivessem se espalhado pelo carro, é óbvio que os peritos tinham de realizar a reconstituição das várias partes do cadáver.

Como é que deixaram escapar um pé inteiro? Isto é surrealista.

E que perícia é essa que tem de examinar toda a extensão das ferragens do carro e não encontra entre elas um pé inteiro?

Não tem explicação. E o que parecia ter sido uma perícia normal de local do crime fica agora marcada por um achado macabro, nas ferragens do carro, uma semana depois de ele ter sido recolhido ao depósito.

Dá para acreditar?

Picharam o Cristo!

17 de abril de 2010 9

Em que país nós vivemos? Vivemos num dos países de mais baixo índice de civilização. Basta dizer que não há lugar nos hospitais para os doentes nem há vagas nos presídios para atacar uma criminalidade crescente e vitoriosa que se incrusta na pele de todos os filhos da nação. E a maioria das residências brasileiras não tem esgoto.

*

É um país de predadores. Os monumentos públicos, as estátuas, os equipamentos dos logradouros são todos destruídos ou pichados, as lâmpadas de iluminação pública são quebradas, os orelhões são depredados, nada que se erga para o bom funcionamento das cidades escapa à sanha dos depredadores e pichadores.

*

O hino triunfante dos vândalos acaba de ser entoado aos ouvidos da nação: foi pichada, incrivelmente, a estátua do Cristo Redentor.

Não se acredite, mas foi pichada largamente a estátua que é símbolo da Cidade Maravilhosa e do Brasil, santuário com romaria religiosa e escolhido como uma das sete maravilhas do mundo moderno, o Cristo Redentor.

Agora que o Cristo Redentor foi pichado, não há mais limites para a sanha dos predadores. Se o Cristo Redentor foi pichado, o que resta para os nossos edifícios, os nossos parques, a nossa casa? A depredação está liberada por todos os cantos do Brasil.

*

O Cristo Redentor amanheceu anteontem com inscrições largas por toda a sua superfície, principalmente nos braços, no peito e no rosto.

Aproveitando-se do fato de que o parque está fechado por causa da queda de 283 barreiras, os pichadores subiram nos andaimes que cercam toda a estátua e escreveram suas sandices: “Quando os gatos saem, os ratos fazem a festa”, “Reage Rio”, “Cadê a engenheira Patrícia?” e “Cadê Priscila Belfort?”. Inscrições de cunho de protesto que lembravam casos de violência e sem solução.

*

Não se compreende como puderam subir àquelas alturas, com visível risco de vida, e intentar as pichações.

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, irritado, determinou à Comlurb que ajude a empresa que faz a reforma da estátua a limpar as pichações. Paes garantiu que a prefeitura vai se empenhar em descobrir os culpados:

– Nós vamos reforçar a proteção ao Cristo. Esses marginais vão responder por seus atos, serão presos. Isso é caso de lesa-pátria.

*

É caso mesmo de lesa-pátria. É caso de atentado à civilização, é caso também de desídia do poder público, como pode um monumento de tal importância, símbolo nacional, ficar abandonado completamente da vigilância pública que tinha o dever de protegê-lo nas 24 horas de todos os dias.

Pois estava lá, indefeso, o Cristo contra seus predadores. Que deitaram e rolaram, durante várias horas, pichando o momumento.

*

Agora não há mais barreiras contra os vândalos, os predadores, os pichadores. Foi o supremo triunfo dos pichadores. Os autores da façanha ficaram célebres perante os seus seguidores e quadrilheiros, não há mais monumento, estátua, prédio, parque do país que esteja imune à fúria e à sujeira das pichações.

Picharam o Cristo Redentor. Uma façanha do alpinismo predatório. Uma audácia nunca vista. Uma zombaria às autoridades e uma ofensa ao povo brasileiro.

O país descarrila no mais assombroso abismo do seu nível civilizatório.

A desordem agora está definitivamente liberada.

Beber no bico

16 de abril de 2010 3

Eu ia dizer que tenho um vício, além do cigarro, qual seja o de tomar refrigerantes.

Bebo cerca de 10 refrigerantes por dia. Não é vício porque, ao contrário do cigarro, não me faz mal.

Mas essa disposição duradoura que tenho para repetir com frequência o ato de beber refrigerante se incorporou de tal forma à minha conduta, que levanto pela manhã e já está martelando em meu cérebro a vontade de tomar um refrigerante.

Ainda mais constante se torna esse hábito porque os fabricantes de refrigerante tiveram a ideia de nos proporcionar um líquido doce como o mel, que no entanto não contém açúcar.

Essa ânsia louca que tenho por ingerir açúcar, ou melhor, por saborear açúcar, é aplacada em seus efeitos devastadores pelos refrigerantes diet.

Se inventassem esse mesmo simulacro para o cigarro, eu estaria feito na vida, imaginem um cigarro sem nicotina e alcatrão que tivesse o mesmo gosto que este cigarro que fumo! Seria uma grande invenção.

Por isso é que avalio que o refrigerante doce sem açúcar é uma das maiores invenções da humanidade.

O que ninguém me explica é como, não sendo um vício, o refrigerante no entanto vicia.

Um hábito que vicia. Vou lhe dizer uma coisa, não vivo sem refrigerante, não como sem refrigerante. E, quando não como, no entanto estou tomando sempre um refrigerante.

O monumental volume de refrigerantes que é vendido me dá conta de que sou apenas um dos tantos milhões de viciados em refrigerantes.

Por sinal, esses dias li em Zero Hora que o Rio Grande do Sul é o Estado em que mais se bebe refrigerante no Brasil.

Que mania de beber o gaúcho tem, desde o chimarrão até a cachaça, agora também o refrigerante, o gaúcho está sempre bebendo.

Gasto tanto de gasolina e de cigarros quanto gasto de refrigerantes. Sou um grande pagador de impostos.

Agora que extinguiram a Coca Light, entrei em confusão. Ela era a minha preferida e, embora eu esteja na fase de indecisão quanto ao refrigerante que a sucederá na minha preferência, continuo bebendo a mesma quantidade: cerca de 10 por dia.

Bem geladinhos.

Como é doce este Sprite! E como é deliciosa esta Guaraná Antarctica Diet. E não existe diferença nenhuma entre a Coca-Cola normal e a Coca Zero, nenhuma.

As pessoas que tomam a Coca-Cola normal desconhecem que a Coca-Cola Zero é igual. Bastaria para elas, se não quisessem engordar, ficar tomando a Coca-Cola Zero durante 15 dias e se fixariam nela, não notariam a diferença.

Mas agora inventaram a H2O e a Aquarius, interessantes derivativos, com muitos consumidores. Já bebi. Gostei. Mas é que são embaladas em plástico e aí não calham como minha praia.

Por sinal, até contra a lata dos refrigerantes eu tenho preconceito: o bom mesmo dos refrigerantes é quando todos vinham nas garrafas.

Não existia maneira mais gostosa e eficaz de matar a sede do que beber refrigerante no bico.

Que saudade do bico!

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora

A responsabilidade do choque

15 de abril de 2010 11

Este rapaz que foi eletroplessado numa parada de ônibus da Avenida João Pessoa revela uma grave irresponsabilidade do poder público.

Não é possível que uma parada continue emitindo descargas elétricas por mais de um mês, várias pessoas fiquem reclamando à EPTC de que a parada esteja dando choque e finalmente um choque mata um rapaz.

Enquanto a EPTC, a CEEE e a Smov discutiam entre si de quem era a competência do problema, permanecia na parada a cadeira elétrica à espera de uma vítima.

É o fim da picada.

A CEEE jura que não recebeu nenhuma comunicação da EPTC de que a parada estava dando choque. A EPTC jura que fez três comunicações à CEEE de que a parada estava dando choque.

Tivesse a CEEE recebido as comunicações, teria agido? Tudo faz crer que não. Elas não se entendem sobre de quem é a competência do problema, isto é alarmante.

Morreu uma pessoa, vítima da omissão do poder público.

Há outras paradas de ônibus na cidade que estão dando choque. Houve várias reclamações de que a parada de ônibus da Avenida Protásio Alves, defronte ao Hospital de Clínicas, está dando choque. E ninguém toma providências.

Não cabe em qualquer plano de bom senso que uma parada de ônibus esteja dando choque, a população alerta, por reclamações, a EPTC, e não seja interditada radicalmente a parada de ônibus, não se permitindo que por qualquer forma as pessoas tenham acesso ao equipamento público.

A interdição tinha de ter sido total, até que daqui a alguns anos a CEEE, a EPTC e a Smov cheguem a um acordo sobre de quem é a responsabilidade sobre este trágico fato.

E a população de Porto Alegre como é que fica, depois que uma vida foi ceifada pela irresponsabilidade dos gestores públicos?

Como é que o público vai saber daqui por diante se a parada está dando choque ou não?

De uma coisa parece não haver dúvida: a EPTC tinha de ter interditado totalmente a parada de ônibus, além de manter plantão permanente, com o mínimo de um agente no local, até que a parada cessasse de dar choque, 24 horas por dia.

Não foi o que aconteceu. A descarga elétrica foi mantida lá por mais de 30 dias, como que se estivesse esperando a vez da primeira vítima.

Isso não tem explicação e esteve muito bem o apresentador Antônio Carlos Macedo no programa Chamada Geral ao rebater com veemência os argumentos frágeis do presidente da EPTC, que não sabia explicar como não foi feita interdição radical e definitiva do local que veio a servir de sepultura de um jovem indefeso.

O presidente da EPTC declara que, ao ser chamado ao local, o agente da empresa constatou que a voltagem do choque era de apenas 70 volts, o que não implicava risco!

Mas como? Quer dizer que um equipamento público instalado numa calçada de uma avenida de grande trânsito transmite choque elétrico de 70 volts e tudo fica por isto mesmo, durante mais de 30 dias? Mas não era um sinal de alerta que obrigava que toda a parada fosse imediata e radicalmente interditada?

Podia ter sido qualquer um porto-alegrense a vítima do choque. Pode vir a ser qualquer porto-alegrense, nos próximos dias, vítima de outro choque, em outra parada qualquer da cidade.

Enquanto isso, os órgãos responsáveis vão continuar o jogo de empurra fatal e bizarro de que fizeram parte nesta triste ocorrência: um atribuindo ao outro, lastimavelmente, a responsabilidade do choque.

E a opinião pública sem saber, aturdida, até agora, de quem é a responsabilidade do choque.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora