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Suicídio e homicídio

29 de maio de 2010 11

Policiais, jornalistas, autoridades de trânsito restaram perplexos anteontem e ontem: em apenas três acidentes, sete jovens masculinos perderam a vida em menos de oito horas.

Nos três episódios, havia a marca do excesso de velocidade, das manobras arriscadas e uma suspeita em alguns deles de consumo de álcool.

Todos homens, todos jovens.

*

Um acidente em Picada Café, outro em Três de Maio e o terceiro nas proximidades do centro de Porto Alegre, confluência da Cristóvão Colombo com Alberto Bins.

E sete famílias choram agora as mortes de seus filhos, irmãos, tios, inexplicavelmente separados deles pelo delírio da velocidade no volante.

Um traço comum dos três acidentes que vitimaram os sete jovens é que eles se verificaram à noite.

Acidente à noite sempre presume álcool, saída de festa, excesso de velocidade por ausência de engarrafamentos. As ruas, avenidas e estradas passam a ter pouco movimento e o cenário para a aventura das diabruras no volante e o pé no fundo do acelerador se torna propício às tragédias.

*

Surgiu ontem à noite a informação de que um desses três jovens que dirigiam os três carros trágicos de ontem e anteontem, na semana passada, havia ele mesmo tirado uma foto do velocímetro de seu próprio carro, que marcava naquele instante 195 km/h de velocidade.

E mostrava a seus amigos no dia seguinte a foto da sua façanha: imprimindo 195 km/h em plena freeway.

Jactando-se em sua turma de sua velocidade emocionante e macabra.

Ontem, morreu espatifado no acidente.

*

Esses jovens, como milhares que há por aí, não usam o automóvel para trafegar: usam-no para exibir-se, usam-no para a delirante aventura da velocidade, parecem cegos ao bom senso, movem-se apenas pela delícia de superarem, pelas manobras arriscadas e pela compulsão saborosa de baterem todos os recordes de velocidade, os outros motoristas do trânsito.

Se dirigissem sós os seus carros fúnebres, não era nada, é certo que acabariam morrendo, como tantos outros vão acabar.

Mas é que eles se juntam com outros jovens que pegam carona em seus carros e são assim colhidos pela morte.

Usam os carros como brinquedos, como jogos, sem se importarem que esses mesmos carros são armas potentes e hábeis para a destruição da vida humana.

*

Na repressão a esse tipo de direção perigosa em veículos, o Direito e a Justiça esbarram num sério obstáculo: a falta de intenção dos motoristas em causar as mortes.

Eles apenas assumem o risco de causar as mortes dirigindo perigosamente. Mas não queriam o resultado das mortes, deveriam apenas presumi-lo. Assim, as penas se tornam mais brandas, eles não são considerados assassinos, e sim irresponsáveis.

Na verdade, são suicidas em busca de prazer e de aventuras de risco.

Mas se tornam sob certo aspecto homicidas quando convidam outros jovens para entrar em seus carros e servir de plateia para seus atos tresloucados. Ou quando se chocam com outros carros com tripulantes dentro. Ou quando atropelam inocentes e indefesos pedestres.

Em tudo isso, dói assistir à dor profunda e permanente de seus parentes pósteros, que sob certo aspecto já imaginavam que tudo um dia iria acabar em catástrofe.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

Comentários (11)

  • José Édler Pahim diz: 29 de maio de 2010

    Tu que gostas de cantos, de poemas, de encantos, deverias lembrar aquela letra: “esses moços.. pobres moços…”; também já fomos jovens e fizemos das nossas não é, Caro Santana??? a juventude nos encanta e… faríamos tudo novamente; hoje, se temos condições de apreciá-la, é justamente por havermos vivido muito intensamente a delícia da irresponsabilidade. Um abraço, a coluna está ótima! parabéns, mas a beleza da tenra idade sempre encontrará uma explicação para essas incertezas, despreendimentos e, até mesmo, protestos contra àqueles que os reprimem de “cuecas”, quer sejam velhos frustrados ou os governantes corruptos, estes, principalmente.

  • Mauricio diz: 29 de maio de 2010

    Que bom que você reconheceu que não são apenas as motos assassinas,digo e repito,a moto não é totalmente perigosa assim como o carro também não é totalmente seguro,quem faz acontecer é o condutor.
    Pense nisso antes de falar mal da classe em duas rodas,pessoas que não tem respeito aos outros infelismente são encontradas em todas as profissões,inclusive na sua!

  • Carlos Santos diz: 29 de maio de 2010

    Aí está o resultado da passagem de grande parte da população da classe D de CONSUMO para a classe C de CONSUMO. sem terem melhorado seus índices de desenvolvimento social e humano, principalmente a EDUCAÇÃO.
    O governo queria fazer isso antes das eleições, praticamente sem ônus nenhum, bastando reduzir temporariamente alguns impostos e facilitando o credito.
    Mas sem melhorar os índices de desenvolvimento humanos e sociais.
    O resultado está aí, vendas recordes de automóveis, mais condutores mal-educados e faltam estradas, ruas e estacionamentos.
    Mas o governo da vez, atingiu seus objetivos com aprovações recordes, justamente antes das eleições.
    E vão eleger os mesmos. porque devido ao baixo capital humano preferem produtos que mesmo assim estão recheados de impostos, consumirão energia recheada de impostos e logo estarão obsoletos.

  • Vaner diz: 29 de maio de 2010

    Se fala muito em diminuir acidentes fatais, da necessidade de diminuir a velocidade, cobram dos motorista que bebem e dirijem depois, penso ser facil de resolver 50 % desses casos, porque os veiculos saem de fabrica podendo alcançar a velocidade de mais de 200 kms por hora se a velocidade maxima permitida é 110 kms por hora na auto estrada? será que nao é o caso de botar limitador de velocidade nos carros?

  • Paulo Alves diz: 29 de maio de 2010

    Prezado Sant’Ana
    Permita-me discordar da lei da qual voce fala. Aqui deveria ser como na America. O ponto nao eh se voce queria o nao queria matar. O ponto eh voce matou ou nao matou? Se voce conhece a lei e o risco e dele derivou a morte, voce matou e ponto final. Se tinha intencao ou nao nao eh o fulcro do problema. Essa retorica e rodeio proprios de nossa lingua e cultura eh que geram leis assim, e assim em nome da intensao ou nao, vamos permitindo mortes e mais mortes, e o que eh pior: muitas delas sem punicao.

  • Marcelo diz: 29 de maio de 2010

    Concordo plenamente contigo Sant’Ana.
    Mas enquanto pessoas como o Sr. Luiz Fernando Andrade (tio do Andrigo, uma das vítimas) ficarem “tapando o sol com a peneira” nada mudará.
    Estava lendo o depoimento dele na ZH e ele afirmou que a culpa do acidente que vitimou o seu sobrinho era da potência do carro que ele dirigia, e pior ainda, a existência destes carros potentes era a ganância do governo, em arrecadar impostos. De acordo com essa tese as pessoas se drogam, pois há drogas à venda, as pessoas ficam bêbadas, pois existem bares. Em síntese, as pessoas não são culpadas nunca, a culpa é do outro.
    Presto a minha condolência à família por estar passando por este momento de profunda dor, tenho certeza que todos nós queríamos ver a notícia que o Andrigo está bem e fazendo o bem, mas a realidade, infelizmente, é outra, por algum motivo ele cometeu um erro e este erro foi fatal.

  • Sávio Rufino diz: 29 de maio de 2010

    Prezado Paulo Santana, sou aqui de Santa Rosa, próximo a Três de Maio e Horizontina, local onde aconteceu um dos acidentes, atualmente trabalho em Horizontina me deslocando todo o dia de carro para trabalhar… Gostaria de fazer um pedido a você, quem sabe na sua coluna em ZH, no blog ou ao vivo… o estado das nossas rodovias aqui na região noroeste esta muito, mas muito ruim, no local onde aconteceu o acidente tem uma serie de buracos… geralmente todos os motoristas têm que andar no sentido contrário para desviar dos buracos… alem dos buracos existe a falta de sinalização… se tiver chovendo e totalmente um caos… não sei qual fato que gerou para ocorrer o acidente fatal… mas se nossas rodovias estivessem melhores com certeza já poderia ter salvado a vida de muitos cidadoes…

    se puder faça uma critica para as rodovias da região Noroeste do RS

  • “das colonia” diz: 29 de maio de 2010

    MEUS FILHOS JÁ PAGARAM TANTO “MICO’ POR QUE EU LEVO E BUSCO NAS FESTAS .
    NÃO IMPORTA A HORA E NEM AONDE.
    LENDO A TUA COLUNA DE HOJE EU CONCLUI
    ELES VÃO CONTINUAR PAGANDO “MICO’ MAS, VIVOS…

  • cesar diz: 29 de maio de 2010

    Texto do ano!
    para vender carro marketeiros associam potencia do veiculo e velocidade a sucesso com mulheres. Isso tem sua culpa!
    Na Australia, campanhas reduziram mortes em acidentes fazendo o oposto:associando isso a penis pequeno e dificuldades em satisfazer a parceira. O que é mais real.

  • DIANA diz: 30 de maio de 2010

    “(…) também já fomos jovens e fizemos das nossas não é, Caro Santana??? a juventude nos encanta e… faríamos tudo novamente; hoje, se temos condições de apreciá-la, é justamente por havermos vivido muito intensamente a delícia da irresponsabilidade.”

    “DELÍCIA” DE IRRESPONSABILIDADE QUE GERA MORTES, TRAGÉDIAS, SOFRIMENTOS E FAMÍLIAS ENLUTADAS PARA O RESTO DA VIDA. DEPOIS É MUITO FÁCIL COLOCAR A CULPA NO GOVERNO, NA INDÚSTRIA AUTOMOBILÍSTICA, NO ÁLCOOL… A JUVENTUDE, MUITAS VEZES, TRANSFORMA OS SERES HUMANOS EM BESTAS FERAS.

  • eduardo miotto diz: 30 de maio de 2010

    Por favor desconsidere o texto enviado anteriormente…. me passei no momento… errei no português…

    Reescrevendo…

    publiquem a partir daqui, por favor…

    O único ponto que sustento sobre essa tragédia anunciada:

    Colocar a culpa na potência dos veículos, como pretendeu o tio do jovem que perdeu a vida é totalmente descabível. O que falta é consciência!

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