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Posts de maio 2010

A morte sob o tapete

31 de maio de 2010 5

Divulga-se que de 2002 para cá cerca de 45 mil brasileiros sofreram amputação de pernas, pés e dedos, originada em diabetes sem diagnóstico.

Funciona assim: os pacientes não sabem que têm diabetes, quando acorrem aos hospitais com feridas, não podem mais evitar a amputação de seus membros, em fase adiantada de necrose.

Essa é uma das faces trágicas da pobreza e omissão do serviço de saúde pública brasileiro.

Não só o diabetes apresenta este quadro, também a tuberculose e a dengue, que em grande parte das vezes só têm revelado seu diagnóstico tardiamente, depois que as lesões se tornam irreversíveis.

***

Tal é a sorte da população brasileira abandonada pelo sistema de saúde.

Entidades dedicadas à prevenção e combate de doenças afirmam que o número de 45 mil amputações entre 2002 e 2010 é subavaliado: se só no Rio de Janeiro, apenas em 2009, houve quase mil amputações, como pode em todo o país, em oito anos, ser de apenas 45 mil o número de amputados?

Dizem essas entidades que o número real de amputados no Brasil é de 40 mil por ano.

***

A exemplo da tuberculose, da hanseníase e da dengue, a omissão do sistema de saúde em diagnosticar diabetes, com os pacientes só conhecendo que têm as doenças quando suas lesões se tornam irreversíveis, atira milhões de pessoas à desgraça.

Este fato revela que em matéria de saúde pública o Brasil vive no tempo das cavernas.

E não só por falta de recursos, muitas vezes o SUS gasta mais com moléstia diagnosticada tardiamente do que teria gasto se houvesse prevenção.

***

Eu desabo no mais profundo desânimo quando venho a saber que 40 mil brasileiros têm suas pernas, pés e dedos amputados por simplesmente não saberem que eram portadores de diabetes.

São 45 mil pessoas amputadas por ano. 45 mil que se tornam inúteis e deficientes, marginalizando-se no meio social.

Isso é um holocausto, uma hecatombe.

O nosso sistema de saúde é dominado pela hipocrisia, ele sabe que as pessoas morrem aos milhões sem assistência médica, ele conhece que outros milhões restam mutilados por diagnóstico tardio ou pela fila angustiante da cirurgia, vai fazendo o que pode, mas esconde debaixo do tapete uma mancha escabrosa de morte e de dor em milhões de brasileiros desassistidos.

***

O SUS gasta muito dinheiro e ainda assim presta relevantes serviços ao país. Mas carece de uma carga maior, muito maior de recursos.

Nem o governo Fernando Henrique, nem o governo Lula tiveram coragem para enfrentar a questão da Saúde e se notabilizaram em deixar como rastro de seus mandatos a chaga escabrosa de milhões de mortos, mutilados, aleijados, amputados, na fila das cirurgias e das consultas ou nas sombras do não diagnóstico.

Só se poderia regenerar esta vergonhosa omissão se quem suceder a Lula decretar como questão prioritária nacional a Saúde.

Como isso, a julgar pela pré-campanha à Presidência, não vai acontecer, continuaremos mergulhados num mar de choro e ranger de dentes.

A saúde no Brasil é presidida pela morte.

* Texto publicado hoje na página 48 de Zero Hora

Trânsito megalomaníaco

29 de maio de 2010 17

Não me sai da cabeça o relato do jovem que tirou a fotografia do velocímetro de seu carro, em plena freeway, marcando 195 km/h, e jactava-se perante seus amigos dessa façanha.

Uma semana depois, sexta-feira, esse jovem morreu estraçalhado por um choque na direção do seu carro.

*

A autoestima hipertrofiada, ou seja, a megalomania, está sempre por trás dos desvios do comportamento humano.

Esse jovem que mostrava a todos a velocidade desumana que conseguiu atingir na freeway esperava encontrar nos outros a admiração originada em sua jactância.

Ele se considerava, ao trafegar a 195 km/h, um deus, um avatar, um ser acima dos outros todos, um batedor de recordes transgressivos que o colocavam também acima da lei e de qualquer preceito ou regramento de bom senso.

*

A megalomania, que, repito, preside grande parte dos transtornos psíquicos, consiste no extremo prazer em sentir-se superior aos outros.

Para esse jovem, a freeway foi construída para ele exercitar essa superioridade exibicionista.

Mas o interessante é que não bastava para ele a consciência de que era superior aos outros: ele tinha que obter dos outros a confissão da superioridade dele.

É inseparável da megalomania o reconhecimento alheio: “Todos precisam saber que eu sou o maior, o imbatível, o inigualável”.

*

“Venham agora todos vocês, sentem no banco da frente do meu carro e no banco de trás e vejam do que sou capaz no volante. Convido-os para a febricitante aventura de mim no volante, não há quem se equipare a mim nas ruas, nas avenidas, nas estradas, nem sei como eu mesmo, com tão poucos anos de direção, consigo ser tão hábil e tão rápido nas minhas manobras e impulsos.”

E convida a todos, em horas e dias diferentes, a entrar no seu carro e ver como os outros motoristas do trânsito não passam de babacas coadjuvantes de sua louca aventura.

Pior é que alguns que embarcam em seu carro vão também de encontro à morte.

*

O megalômano do trânsito é tão megalômano, que ele nem pensa na morte.

Ele acha que é tão eficiente na sua ousadia do volante que se torna capaz de evitar todo e qualquer acidente.

O megalomaníaco do trânsito entende que ele dominou em definitivo a matéria e só podem morrer no trânsito as pessoas que não têm a sua versatilidade malabarista no volante.

Mas não basta para ele saber que é exímio no volante: é preciso, antes de tudo, que todos reconheçam que ele é um ás incomparável no volante.

Só depois ele vai dormir tranquilo, sem lhe passar nem de leve pela mente que pode a qualquer momento morrer em um acidente.

E, na semana seguinte, numa manobra arriscadíssima, ele perde a vida no trânsito, como aconteceu sexta-feira com o jovem da fotografia do velocímetro.

*

Um dia, os megalomaníacos do trânsito escapam com vida de suas loucuras. No outro dia, escapam também.

Quanto mais escapam, mais ousados se tornam no trânsito.

Mas qualquer criança sabe que um dia não escaparão.

Em breve.

E se um só desses megalômanos do trânsito estiver me lendo e com isso o meu texto vier a salvar a sua vida, um só, já me basta.

Suicídio e homicídio

29 de maio de 2010 11

Policiais, jornalistas, autoridades de trânsito restaram perplexos anteontem e ontem: em apenas três acidentes, sete jovens masculinos perderam a vida em menos de oito horas.

Nos três episódios, havia a marca do excesso de velocidade, das manobras arriscadas e uma suspeita em alguns deles de consumo de álcool.

Todos homens, todos jovens.

*

Um acidente em Picada Café, outro em Três de Maio e o terceiro nas proximidades do centro de Porto Alegre, confluência da Cristóvão Colombo com Alberto Bins.

E sete famílias choram agora as mortes de seus filhos, irmãos, tios, inexplicavelmente separados deles pelo delírio da velocidade no volante.

Um traço comum dos três acidentes que vitimaram os sete jovens é que eles se verificaram à noite.

Acidente à noite sempre presume álcool, saída de festa, excesso de velocidade por ausência de engarrafamentos. As ruas, avenidas e estradas passam a ter pouco movimento e o cenário para a aventura das diabruras no volante e o pé no fundo do acelerador se torna propício às tragédias.

*

Surgiu ontem à noite a informação de que um desses três jovens que dirigiam os três carros trágicos de ontem e anteontem, na semana passada, havia ele mesmo tirado uma foto do velocímetro de seu próprio carro, que marcava naquele instante 195 km/h de velocidade.

E mostrava a seus amigos no dia seguinte a foto da sua façanha: imprimindo 195 km/h em plena freeway.

Jactando-se em sua turma de sua velocidade emocionante e macabra.

Ontem, morreu espatifado no acidente.

*

Esses jovens, como milhares que há por aí, não usam o automóvel para trafegar: usam-no para exibir-se, usam-no para a delirante aventura da velocidade, parecem cegos ao bom senso, movem-se apenas pela delícia de superarem, pelas manobras arriscadas e pela compulsão saborosa de baterem todos os recordes de velocidade, os outros motoristas do trânsito.

Se dirigissem sós os seus carros fúnebres, não era nada, é certo que acabariam morrendo, como tantos outros vão acabar.

Mas é que eles se juntam com outros jovens que pegam carona em seus carros e são assim colhidos pela morte.

Usam os carros como brinquedos, como jogos, sem se importarem que esses mesmos carros são armas potentes e hábeis para a destruição da vida humana.

*

Na repressão a esse tipo de direção perigosa em veículos, o Direito e a Justiça esbarram num sério obstáculo: a falta de intenção dos motoristas em causar as mortes.

Eles apenas assumem o risco de causar as mortes dirigindo perigosamente. Mas não queriam o resultado das mortes, deveriam apenas presumi-lo. Assim, as penas se tornam mais brandas, eles não são considerados assassinos, e sim irresponsáveis.

Na verdade, são suicidas em busca de prazer e de aventuras de risco.

Mas se tornam sob certo aspecto homicidas quando convidam outros jovens para entrar em seus carros e servir de plateia para seus atos tresloucados. Ou quando se chocam com outros carros com tripulantes dentro. Ou quando atropelam inocentes e indefesos pedestres.

Em tudo isso, dói assistir à dor profunda e permanente de seus parentes pósteros, que sob certo aspecto já imaginavam que tudo um dia iria acabar em catástrofe.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

Crianças torturadas

28 de maio de 2010 6

Acordei ontem sobressaltado por três notícias que esperaram eu sair da letargia para sobressaltarem o meu espírito.

As três notícias, além disso, estragaram o meu dia, recém no seu início.

A primeira dizia que um menino tinha sido atropelado defronte à sua escola pelo mesmo ônibus que o deixara naquele instante no colégio.

A segunda dizia que outro menino tinha tido o rosto incendiado por álcool em chamas. O churrasqueiro acusado do crime alegou acidente: estava lançando álcool para iniciar o fogo do churrasco e uma lufada de vento jogou o líquido em chamas sobre o rosto do menino.

Mas o menino disse que o churrasqueiro fez aquilo de propósito.

O menino restou com o rosto desfigurado.

*

Não bastava isso e vinha logo em seguida o exocet fatal para o meu equilíbrio emocional, o Macedo ia lendo a notícia na rádio e eu do outro lado da linha desabava: um homem, pai ou padrasto, havia dado duas facadas no seu filho ou enteado. Depois disso, o homem tentou se suicidar com a faca, sem sucesso. E o bebê tinha sido internado em estado gravíssimo num hospital

Tudo isso aqui entre nós, no nosso meio gaúcho.

*

Ando, sinceramente, apalermado com a onda de violência que se desfere contra as crianças.

Para mal dos pecados, aquela procuradora que foi adotar uma menina de dois anos, com a única finalidade de torturar diariamente a criança, encheu todas as medidas.

Ela está presa porque foi suficientemente provado que submetia, todos os dias e todas as horas, a menina de dois anos à sua extrema truculência: o rosto da menina apresentava olhos crivados de hematomas, quase não podia fechá-los, sabe-se lá que tipo sofisticado de tortura a procuradora, que queria ser mãe adotiva da criança, aplicava na menina.]

*

Uma procuradora, uma mulher que já tinha sido promotora, cometer essa selvageria! Como pode a violência se tornar assim tão injustificável, tão intraduzível?

O desesperante nesta crônica de violências e torturas que assaltam nosso meio é que os praticantes dessa barbárie são pessoas comuns e até respeitáveis, que de repente dão vazão ao gene de destruição que compõe as suas mentes e desatam em crueldades inenarráveis.

Ou são pessoas que convivem conosco, na nossa cidade, na nossa rua, na nossa casa e num repente se mostram como monstros repelentes de violência inexplicável.

*

E vêm aumentando os atos de violência contra as crianças. Cresceram em 11% no período de abril de 2009 até o mês passado.

E isto são só as agressões contra crianças que se noticiam. Porque a maioria delas não chega ao conhecimento da imprensa, fica escondida, oculta no meio familiar, o que aprofunda ainda mais o desastre: as crianças indefesas permanecem anos inteiros à mercê de seus carrascos.

*

A mãe do bebê de três meses de idade que foi esfaqueado pelo seu padrasto chegou em casa a tempo de ver a barbárie: “Quando vi, ele estava enterrando a faca na barriga da minha filha”.

Mas o que é isto? Chego à conclusão de que o hospício é mesmo o quartel-general dos loucos, as outras unidades estão espalhadas entre nós.

De ciúme de sua mulher, não a matou. Mas esfaqueou duas vezes a filha dela, por vingança.

Por que não se matou só a si próprio esse infeliz?

Quando é que vão parar as violências contra as crianças e os animais?

Nunca. Porque a loucura não cessa nunca.

É muito mais que ser patife e canalha esfaquear um bebê de três meses.

Maylson, um jogador imprescindível

27 de maio de 2010 11

Uma vitória finalmente! O 3 a 0 sobre o Avaí foi bom, mas falta muito ainda para o Grêmio alcançar os líderes.

Da goleada, uma afirmação: o jovem Maylson, que jamais deveria ter sido vetado por Silas.

Confira em vídeo meu comentário no JA:

Ódio aos aposentados

27 de maio de 2010 14

Segundo se noticia, o governo federal se recusa a conceder reajuste de 7,7% aos aposentados do INSS que ganham acima do salário mínimo, aprovado pela Câmara e pelo Senado.

No entanto, este mesmo governo concedeu anteontem aumento de salários para 32 mil funcionários federais, sob a forma eufêmica de vantagens que vão custar aos cofres públicos R$ 800 milhões.

Não há dúvida de que o que existe é ódio aos aposentados.

Eles são considerados escória pelo governo.

*

Um ingrediente infalível na dinâmica brasileira é a bitributação.

Um entre vários exemplos: o sujeito gasta uma fortuna para formar-se em Direito. Forma-se, e a Ordem dos Advogados declara que ele ainda não está formado, tem de fazer o exame da Ordem.

E aí aumenta o preço da inscrição ao exame de R$ 130 para R$ 200.

Em todos os setores, vão descarnando o nosso povo.

*

Há um mistério que ronda a suposta reforma tributária: todos são a favor dela, a sociedade, os trabalhadores, os empresários, os governantes.

Mas, na hora de aprová-la, não se consegue aprová-la.

Será que só quem lucra com a alta tributação é que tem poder de fogo para aprovar e/ou rejeitar a reforma?

*

Mais uma vez sofreu atraso o projeto para o trem-bala entre São Paulo e Rio de Janeiro, por desentendimento na licitação.

O trem vai ser rápido, mas não existe nada mais lento que o seu projeto.

*

Por que será que, onde se precisa de polícia, só há ladrão? E onde não existe ladrão tem sempre bastante polícia?

*

Como fumante inveterado e abjeto, protesto: nos lugares em que há televisão e freezer, é proibido fumar; no fumódromo, não há televisão e freezer.

Não é uma discriminação?

*

No debate da Confederação Nacional da Indústria, entre os três presidenciáveis, mais uma vez a candidata do Partido Verde, Marina Silva, empolgou a plateia.

Ela suscitou entre alguns empresários lágrimas na plateia.

E pronunciou sob gargalhadas a sua frase padrão: “No primeiro turno, a gente vota em quem gosta; no segundo, a gente se desvia do pior”.

*

O perigo dessa inversão de mão que a EPTC cogita para as artérias da Capital, no sentido de combater o engarrafamento, está em que numa esquina um azulzinho inverta a mão e na esquina seguinte outro azulzinho multe por trafegar contra a mão.

*

Um componente decisivo nas partidas de futebol não é encarado com relevância pelos comentaristas esportivos: a sorte.

E, no entanto, a sorte decide 60% dos jogos de futebol.

Justamente por isso é que o futebol atrai multidões: é um jogo.

*

Está tudo trocado.

O goleiro Victor do Grêmio declarou: “Eu não preciso de psicólogo”.

Absolutamente certo. Eu é que andei precisando de goleiro.

*

Mas foi um alívio a vitória gremista de ontem contra o Avaí. O rebaixamento andava rondando.

O drama da saúde dos sem-voz

26 de maio de 2010 10

Eu não descanso enquanto não se solucionar o problema da saúde pública entre nós.

Os governantes têm de se render à ideia de que é o nosso maior e mais dramático problema.

E a grande multidão de pessoas que apodrecem nas filas não tem voz. Por isso é que de alguma forma quero emprestar proveito social ao espaço que disponho em Zero Hora.

Para se ter uma ideia do que o povo sofre com o abandono a que foi relegado em saúde, leiam o relato de dois leitores.

Primeiro, o do médico sanitarista e ex-secretário da Saúde de Porto Alegre Lúcio Barcelos:

***

“Prezado Sant’Ana, meus parabéns pela tua coluna de hoje. Estou de pleno acordo com a caracterização de ‘vergonhosa’ que dás para as ‘filas’ das cirurgias eletivas. É patético, mas um cidadão, para conseguir uma simples cirurgia de varizes, que deveria ser para o dia seguinte, fica numa ‘fila’ de espera de dois, três ou até quatro anos. O que dizer de uma cirurgia de alta complexidade, de um exame laboratorial mais complexo, ou das filas reais, do cotidiano das pessoas que se amontoam na frente das unidades de saúde em plena madrugada para conseguir uma simples consulta com um clínico geral. Não é preciso dizer que são pessoas pobres, em geral idosas ou mulheres com crianças de colo. É um desrespeito absoluto com os direitos mais elementares de qualquer cidadão.

Agora, se me permites complementar teu raciocínio, acho que devemos nos perguntar por que existe essa escassez de profissionais, equipamentos e leitos. Certamente não é por falta de recursos financeiros: juntos, a União, os governos estaduais e municipais, nos primeiros quatro meses e 24 dias deste ano da graça de 2010, já arrecadaram a fabulosa quantia de R$ 472 bilhões em impostos. É isso mesmo! R$ 472 bilhões em impostos pagos pela população que trabalha. E vem me dizer que não pode resolver o problema das filas reais ou virtuais da saúde pública?”.

***

“Caro Sant’Ana. Finalmente alguém fala pelo povo. A fila do SUS só é sentida pelo pobre. Sou médico psiquiatra e trabalho em Alvorada, quis escrever porque não é apenas para a cirurgia que há filas. Vou usar um pequeno exemplo: uma pessoa com dor de cabeça que quer consultar pelo SUS, primeiro, para conseguir uma simples consulta com um clínico geral, e não apenas com a enfermeira, que muitas vezes é a única a ver o paciente, ele terá que chegar ao posto às 5h da manhã para tentar ser atendido no mesmo dia, e a consulta não será antes das 14h. Se o sujeito precisar de um neurologista porque sua dor de cabeça preocupou o médico clínico (ou seja, pode ser um caso grave), ele esperará mais de um ano pela consulta. E se o neurologista (um ano depois) quiser uma tomografia para ver como está a cabeça do sujeito, ele esperará mais um ano. Ou seja, o que é realizado em um mês no máximo em um país de Primeiro Mundo (clínico geral, especialista, exames), no Brasil o cidadão (pobre) terá que esperar dois anos no mínimo. Este é apenas um exemplo para te mostrar que a cirurgia eletiva é apenas uma parte da situação triste em que se encontra a saúde do brasileiro que não tem convênio. Fico estupefato quando vejo o Brasil emprestando milhões à Grécia e nosso presidente dizendo que nosso país já é rico o suficiente para dar. É bom que todos saibam como anda a saúde do Brasil antes que cheguem as eleições. Parabéns! (as.) Dr. Leonardo Broilo CRM 22746”.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

Voltei pra meu lugar

25 de maio de 2010 14

Perdoem-me, mas tenho coisas que são muito caras para mim: uma delas é o Jornal do Almoço.

E o que o Raul Ferreira e meus colegas me prepararam ontem no Jornal do Almoço foi uma volta triunfal, algo que me comoveu.

Independentemente de ter-me tocado até a extrema emoção, o fato de eu ter ontem retornado ao Jornal do Almoço, depois de uma parada para tratamento de saúde que durou seis meses, deu-me a sensação de dignidade pessoal.

Consegui, depois de intensas consultas com médicos, fisioterapeuta e fonoaudióloga, voltar à plenitude das minhas atividades profissionais.

Já tinha voltado para o Gaúcha Hoje e para o Sala de Redação. Da coluna, nunca me afastei.

Agora, estou completo e nem consigo definir a minha indizível alegria.

*

Na minha volta, ontem, tiveram a sensibilidade de me colocar cantando com Julio Iglesias, Elza Soares, Jamelão e outros intérpretes, que maravilha!

E, depois, à tarde, por toda parte em que eu passava na cidade, as pessoas me saudando e dizendo que tinham assistido ao programa.

Que audiência tem o Jornal do Almoço! Como é que eu poderia ficar fora? Jamais, ainda mais que em 2012 completo 40 anos neste programa. Quarenta anos. Quem viver verá.

*

É, mas hoje tem mais. Recebo, logo mais à noite, no Grêmio Náutico União, o título de colunista de jornal mais lembrado, durante 20 anos consecutivos. Há 20 anos eu vou lá no Top of Mind da revista Amanhã receber este prêmio de alta significação para mim porque é concedido através de pesquisa popular.

E, para minha surpresa, fui agraciado em um segundo item: colunista social mais lembrado. Pode? Pois pode: a pesquisa trata do nome que vem à cabeça das pessoas interrogadas.

Noite feliz.

*

Citei aqui que o presidente do Conselho Deliberativo da Associação dos Oficiais da Brigada Militar é agora candidato à presidência da entidade.

Pois me lembraram que há três outros candidatos ao mesmo posto, os quais por justiça cito: os coronéis da reserva Pércio Brasil Álvares, Sílvio Ferreira e Júlio César Rocha.

Desejo a todos uma feliz eleição.

Eu voltei, voltei ao JA

24 de maio de 2010 32

Depois de me afastar por problemas de saúde, o meu retorno ao Jornal do Almoço não poderia ser mais emocionante: cantando e recebendo o carinho dos meus colegas Cristina Ranzolin, Daniela Ungaretti e Lasier Martins.

Agora, estarei com eles e todos vocês no JA às segundas e quintas.

Muito obrigado por me deixarem fazer parte de suas vidas!

Assistam ao meu retorno ao programa:

A vergonhosa fila do SUS

24 de maio de 2010 24

Se há uma ideia que não sai da minha cabeça, que insiste em martelar o meu elenco neuronial, é a da fila de cirurgias no SUS.

Eu não posso entender como um governante consegue levar à frente o seu governo, com tantas frentes a atacar, se não olha para a transcendental fila de cirurgias do SUS.

Eu não entendo como podem os três principais candidatos à Presidência da República engalfinhar-se em debates, entrevistas, encontros e não deixarem tudo de lado para encarar somente um assunto: a fila de cirurgias do SUS.

Em meu delírio sanitarista, penso que os governos tinham de abandonar todas as suas metas e fixar-se somente em uma: acabar com a fila de cirurgias do SUS.

***

Para mim não existe governo se não se concentrar em razões humanitárias.

E a razão humanitária mais urgente no Brasil é a fila de dezenas de milhares de pessoas que esperam por cirurgias eletivas no SUS.

Não pode um governo revestir-se de dignidade se milhares de seus súditos estão a definhar em filas de cirurgias e consultas no SUS.

O mínimo de civilização em um país exige que, se uma pessoa está inabilitada por falta de uma cirurgia, seja ela imediatamente encaminhada para esse procedimento, num prazo que não pode exceder a 45 dias.

***

Não é possível que a vida ou a integridade física de uma pessoa fique à espera de uma cirurgia por três ou quatro anos.

Quantos milhares, na espera pela hora da sua cirurgia, ficam aleijados, mutilados, com seus órgãos e funções destruídos – morrem, enfim, na fila da espera de cirurgia pelo SUS?

***

O jornal O Globo fez uma pesquisa em sete capitais brasileiras, Rio de Janeiro, São Paulo, Fortaleza, Belo Horizonte, Curitiba, Brasília e Salvador – portanto com a ausência de Porto Alegre, onde a fila de cirurgias do SUS é angustiante –, e constatou que 171 mil brasileiros aguardam desesperadamente a chance de se operar na fila do SUS.

Se Porto Alegre constasse do levantamento, subiria para mais de 200 mil os que vivem a agonia de espera nas filas de cirurgias.

Sem falar nas outras 19 capitais.

***

Como pode? Em muitos casos, em muitas capitais, os governos transferem para os hospitais a regulação sobre a fila das cirurgias. E esses hospitais vão administrando as filas, furando-as, de acordo com seus interesses.

E o pobre doente que está na fila, impedido muitas vezes de trabalhar ou de se locomover pessoalmente e aderir ao metabolismo social, fica sem saber a quantas anda a sua inscrição na fila, numa aflição que beira o desespero e cedo ingressa na fatalidade.

***

O problema da fila tem origem na raiz da saúde pública: como a quantidade de equipamentos, leitos e profissionais é escassa, os hospitais se dedicam prioritariamente aos casos de urgência e emergência. E dá-lhe o doente a esperar, abandonado em seu lar, ao chamado de angústia sem fim, que às vezes demora cinco anos, quando a saúde do doente já se estraçalhou e vem a apresentar complicações afins com a original ou novos problemas de saúde.

***

Não deveria haver eleições se há fila de cirurgias. O país tinha de parar, antes de fazer eleições, para extinguir a fila do SUS, porque continuar a funcionar um país que organiza uma fila da morte é um dos maiores despautérios que se conhece.

Esta fila não pode continuar oculta nos bolsões de indiferença dos governos e dos hospitais.

Esta fila tem de ser publicada, apregoada, insistida em sua repercussão, para que o Brasil, de uma vez por todas, de vergonha, acabe com ela.

O mistério do sono

22 de maio de 2010 11

Um amigo desabafa comigo e diz que o único prazer que lhe resta é dormir.

Como pode ser bom dormir, penso com os meus botões, se quando se está dormindo nada se sente?

Que prazer é esse de alhear-se do mundo, mergulhar num sono que pode ser considerado uma morte passageira, uma fuga da vida?

Eu não tenho dúvida, aliás, de que os que procuram refugiar-se no sono estão fugindo de alguma coisa que só pode ser a vida.

Uma pessoa normal, que não esteja depressiva, só pode gostar do sono antes e depois de dormir.

Antes, como caminho, perspectiva e solução para o descanso. Depois, como dever de repouso cumprido.

*

Mas os depressivos detestam estar acordados, a vigília prolonga-lhes a aflição, o pesadelo de terem-se de encontrar com suas dificuldades.

O supremo ideal do depressivo é dormir e deixar para trás todas as suas preocupações. É só um adiamento.

*

Por sinal, vendo as crianças dormirem com aquela letargia, ocorre-me imaginar que as crianças dormem assim tão profunda e insistentemente porque não têm o que pensar, estão distantes de temer o futuro e não possuem ainda um passado para lamentar ou comemorar.

Por esse raciocínio, a vigília é própria dos que pensam no futuro e no passado, dos que têm do que se ocupar mentalmente.

E o sono, por conseguinte, é uma condição de paz e de tranquilidade.

*

Em estado de insônia ou fadiga, o homem se pune com as censuras que faz a si próprio, enquanto que, se adormecer, ele acalma a sua culpa.

O sono nada mais é, portanto, que um grande alívio.

Ao contrário, a vigília é um castigo. Manter-se acordado muitas vezes é autoinfligir-se uma condenação aflitiva, uma maneira de permanecer purgando as vicissitudes e as adversidades.

Nem dá para imaginar como seria a vida sem o sono, enfrentar o duro combate da existência sem nenhum intervalo provocaria uma existência cruciante. Ou a morte.

*

Do sono até a morte, o passo é pequeno. A natureza pode ter criado o sono para treinar as pessoas para a morte.

Quando não é crivado por sonhos, o sono é o nada, é o ingresso num vazio total de existência, um não ser, uma antivida, um armistício.

E, no entanto, o sono, por imposição natural, é um espaço de repouso físico e de folga para a consciência.

Como também o sono faz parte da vida, um homem de 60 anos terá passado 20 anos de sua vida dormindo. Parece, assim, um desperdício, mas a natureza deve ter tido razões sábias para obrigar o homem a dormir e para deixá-lo arrasado quando não consegue dormir.

*

E o que será que vem a ser um sono agitado ou a insônia, senão que a pessoa está se recusando a mergulhar no sono porque tem tantas coisas boas ou más para fazer na vida, que não poderia, assim, diante de tantos compromissos, ficar perdendo tempo a dormir.

Sobre o parentesco da morte com o sono, a melhor metáfora para mim é do compositor e jornalista Antônio Maria, que deixou para seu companheiro de quarto um recado escrito, antes de ir dormir: “Se eu estiver dormindo, deixa-me dormir. Se eu estiver morto, me acorda”.

Mulheres na liderança

22 de maio de 2010 4

As mulheres tomaram conta completamente do mercado de trabalho.

Quando entrei em Zero Hora, 1971, 1972, havia só duas mulheres na Redação, a Gemma Generalli e a Núbia Silveira.

Hoje, a Redação está completamente tomada pelas mulheres, o setor administrativo também, no bar atendem mais mulheres do que homens, das dezenas de pessoas que prestam serviços de higiene e de limpeza, 90% são mulheres. Como 90% dos advogados da RBS são mulheres.

É mulher por tudo quanto é lado.

A taxa de desemprego no Brasil anda ao redor de 12%. Podem crer que todos os desempregados são homens. As mulheres tomam conta de todas as vagas.

Os dois lugares em que há mais mulheres no Rio Grande do Sul são a PUC e a RBS.

*

Frase de Jorge Fossati, treinador do Internacional, um minuto depois da classificação do Internacional contra o Estudiantes, dirigida à torcida colorada: “Espero que daqui a 10 anos vocês saibam reconhecer isso”.

É muito difícil guardar durante 10 anos a memória de uma derrota.

*

Não escapam entre as vítimas de assaltos nem os cadeirantes. O cadeirante que foi assaltado na Zona Sul na quarta-feira trazia a sua cadeira de rodas no banco de trás do carro que dirigia. “Mãos ao alto”, lá estava o cadeirante em poder dos três assaltantes, todos eles menores de idade.

Foram gentis os assaltantes: armaram a cadeira de rodas e colocaram o assaltante nela, deixando-o à beira da rua. E, quando o cadeirante pediu a eles a sua carteira de motorista, foi atendido.

Um tratamento excepcionalmente gentil a um deficiente. Levaram o carro dele, mas o crivaram de gentilezas.

Minutos depois, os três adolescentes foram apreendidos e o carro recuperado.

*

Não vai faltar o dia em que assaltarão o cadeirante na cadeira e roubarão a cadeira de rodas. Em breve, muito breve…

*

No Rio de Janeiro, esses dias, assaltaram uma mulher e levaram grande quantidade de dinheiro que ela tinha na carteira, dentro de uma delegacia…

*

O Dr. Luiz Gonçalves Pinto, cadeirante, manda reclamar dos imensos obstáculos físicos para deficientes, começando pelas vagas destinadas aos portadores de deficiência nos espaços de estacionamento, na maioria das vezes ocupadas por não deficientes.

Diz ele que a prefeitura de Porto Alegre tem um gabinete de acessibilidade, mas ele não tem poder de fiscalização.

Além disso, diz o deficiente, quem tem defeito físico depara com escadas e degraus inacessíveis na via pública, lixo nas calçadas, falta de banheiros adaptados.

Pede que tornem a cidade mais acessível aos deficientes físicos, que amam nossa Capital, mas sentem-se amassados por ela.

*

O coronel José Carlos Riccardi Guimarães, presidente do Conselho Deliberativo da Associação dos Oficiais da Brigada Militar, lança-se à eleição para a presidência da entidade, tendo como plataforma política de sua chapa, entre outros itens, o fortalecimento da carreira de nível superior, do capitão ao coronel, consolidando-a entre as demais carreiras jurídicas, e resgate salarial dos oficiais da Brigada Militar por meio do subsídio.

Diálogo cifrado

21 de maio de 2010 17

Não sei direito o que diziam as duas garotas no fumódromo ontem, mas o fato é que se comunicavam e fruíam com gozo intelectual o seu diálogo:

– Quanto tempo!

– Pois é.

– Tudo bem?

– Levando.

– Ainda assim?

– Tolerando.

– Como estás?

– Antropomórfica.

– Tanto assim?

– Peristáltica.

– Não creio…

– Sorumbática.

– Deveras?

– Entresilhada.

– Pena.

– Dessexuada.

– Pobre!

– Atabalhoada.

– Enfim…

– E tu?

– Cenreira?

– E o sexo?

– Virei comborça.

– Consentida?

– Anuente.

– Cigarro?

– Antitabagista.

– Casamento?

– Antimatrimonialista.

– Política?

– Anarquista.

– Como?

– Antilogista.

– Ah.

– Teu Grêmio?

– Caótico.

– Já meu…

– Inter?

– Sublime.

– Fui.

– Vamos.

*

Muitos leitores reclamaram que não escrevi nada ontem sobre a derrota do Grêmio contra o Santos. Mas o jogo terminou perto da meia-noite, impossível tecnicamente escrever algo num jornal que está baixando, numa coluna que não é de esporte.

Mas achei o Borges inútil, o Jonas medíocre e o Silas sofrível por não ter escalado nunca o Mailson.

As fonoaudiólogas

20 de maio de 2010 16

Estou passando por uma experiência excitante: a fonoaudióloga Isabela Menegotto, do Mãe de Deus Center, está adaptando à minha orelha esquerda um aparelho auditivo que está fazendo com que eu volte a ouvir todos os sons que já não me eram mais familiares, depois de tantas perdas auditivas ocasionadas por tumores e cirurgias.

Inicialmente, tive um choque de realidade: há muito tempo eu não escutava mais pela minha orelha esquerda, para me readaptar à audição total estou tendo pequenos embaraços, mas sinto-me num mundo maravilhoso de sonho ao recuperar os sons a que não estava mais acostumado.

Quanto som perdido! Quanta vida perdida. Agora estou aqui nesta sala onde escrevo ouvindo todos os sons que me cercam, aproveitando todas as palavras que os outros pronunciam, parece que ingressei num plano de realidade que me era há muito tempo desconhecido, sinto que minha vida pode se tornar agora muito mais útil e agradável.

Que bela invenção este aparelho auditivo.

*

Como diz outra fonoaudióloga, também Isabela, mas Gomes de sobrenome, é comum encontrar nas ruas pessoas usando óculos, mas não é isso o que acontece na deficiência auditiva. Apenas 40% das pessoas com perda auditiva reconhecem que ouvem mal.

A falta de informação e o preconceito fazem com que a maioria dos deficientes auditivos demore, em média seis meses, para tomar uma providência.

Ao sentir alguma dificuldade para ouvir, a pessoa deve consultar um especialista, que irá avaliar a causa, o tipo e grau da perda auditiva.

A partir do resultado dos testes, como o de audiometria, será indicado o tratamento mais adequado.

Muitas vezes o uso do aparelho auditivo resolve o problema.

*

Eu sempre pensei que houvesse demérito estético em usar aparelho auditivo. Mas atualmente existem aparelhos modernos, pequenos e quase imperceptíveis, como este que a Isabela Menegotto está testando na minha orelha.

Ao contrário do que pensei, este aparelho da minha orelha esquerda está me ajudando e, na marcha que vai, acabará solucionando o meu problema de forma esplêndida.

Por que não fazer uso dessa tecnologia e ouvir melhor, sentindo-se mais confiante para conversar com os familiares, amigos e colegas de trabalho?

O aparelho auditivo, dizem as fonoaudiólogas especializadas, contribui para melhorar a autoestima, proporcionando bem-estar, liberdade, alegria de viver e qualidade de vida.

*

Esse minúsculo aparelho que uso agora em minha orelha esquerda é discretíssimo. Mas ele está realizando o milagre de me trazer de volta para um mundo que não imaginava que iria assim redescobrir.

Eu mesmo posso, com toques sutis, regular o volume de som que quero ouvir, escolher se quero usá-lo, com um mínimo toque digital, para ouvir música, televisão ou para as relações normais.

Estou impressionado de que como pode caber tanta tecnologia num aparelhinho tão pequeno, ainda mais que vi a fotografia das trompas que Beethoven usava para ouvir e passei a me considerar um privilegiado ao conseguir recuperar o sentido da audição em uma das minhas duas orelhas sem qualquer agressão à minha aparência, como naquelas enormes geringonças ostensivas que o grande compositor alemão usava.

Como pode, por sinal, o maior gênio da música clássica universal ter sido surdo? Dá para entender?

Marina Silva empolgou

19 de maio de 2010 24

Teve grande repercussão afirmativa a entrevista de Marina Silva, a candidata à Presidência da República pelo Partido Verde, no Painel RBS.

Muitas pessoas que ouviram Marina Silva vieram me dizer que ficaram encantadas com suas ideias, posicionamento, visão dos problemas brasileiros e excelência de suas decisões.

O comentarista Kenny Braga usou o Sala de Redação para dizer que não tem propensão a ficar assistindo a qualquer programa de televisão por mais de 15 minutos, mas que, no entanto, ficou uma hora e meia diante da TVCOM, maravilhado com a entrevista de Marina Silva.

Chegou o Kenny a dizer que ficou extasiado com as respostas de Marina Silva para as interrogações dos nossos entrevistadores.

O Moisés Mendes, nosso companheiro de Zero Hora, declarou-me ontem que Marina Silva transmite credibilidade e sinceridade.

*

Quem viu Marina Silva ficou cativado por ela. Mas, então, por que é que não vão votar nela? Por que é que ela não aparece nas pesquisas como tendo a mínima chance de eleição?

Eu pensei que a exposição dos candidatos à mídia, às entrevistas, aos debates, tinha a finalidade de conduzir o eleitorado a uma escolha.

Mas não, Marina Silva apaixonou politicamente a todos que a ouviram. Ontem, as pessoas me procuravam para dizer que ela fora espetacular em suas análises, mas tenho certeza de que nenhuma dessas pessoas impressionadas com a atuação da candidata na entrevista vai votar nela.

*

Mas que mistério é este que uma campanha de extraordinário sucesso de uma candidata em todas as suas aparições públicas não a conduz para o topo das pesquisas eleitorais?

De que adianta a campanha, então, se os ecos dela não se traduzem em votos?

Mas que mistério é este?

*

O pré-candidato do Partido Verde, de Marina Silva, ao governo do Estado, Montserrat Martins, me diz que “desde os anos 60 se criou na nossa cultura essa ideia plebiscitária entre situação e oposição, argumento que foi um grande obstáculo ao crescimento do próprio PT, hoje no poder, mas que na época era acusado de dividir a oposição”.

E junta-se o Montserrat Martins ao Jorge Uequed, cabos eleitorais de Marina Silva entre nós, para destacar a importância da questão ambiental, para o abandono do transporte ferroviário de cargas e passageiros no Rio Grande do Sul, para o fracasso do programa Pró-Guaíba, sonhando os dois em que esses problemas venham a ser encaminhados e solucionados por Marina.

E terminam assim: “Enfim, Sant’Ana, o país e o Estado perderão uma grande oportunidade se retrocederem ao bipartidarismo nestas eleições de 2010. E os gaúchos, que já mostraram que são capazes de surpreender nas urnas nas duas últimas eleições, podem dar um exemplo ao país votando em Marina, por que não?”.

*

Então, eu fico me perguntando como Marina Silva não conseguiu prosperar dentro do PT, que era o seu berço, a sua origem. Por que será que ela não conseguiu seduzir Lula?

E fica a grande indagação: se Dilma ou Serra não puderem vencer no primeiro turno, no segundo turno se dará o grande protagonismo de Marina Silva, que pode levar à Presidência da República o candidato entre os dois que ela apoiar?

E quem ela iria apoiar? Se o candidato que ela apoiar vencer, a tornará primeira-ministra.