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A Esquina do Pecado

26 de junho de 2010 4

Devem estar os leitores cônscios de que ultimamente devoram-me recordações da infância, da adolescência e da juventude.

Esses dias, fui até ali, à esquina das ruas Barão do Triunfo com 20 de Setembro, na Azenha, fiquei a meditar sozinho debaixo do poste em que nos reuníamos todas as noites, os jovens camaradas, para conversar.

Foi ao mesmo tempo feliz e sofrida a recordação. Parecia que eu estava cercado pelo mesmo alarido das conversas e dos gritos, das brincadeiras, das ursadas, da roda que ia crescendo debaixo do cinamomo.

*

Faz 50 anos isto, lembro-me que uma das nossas grandes caçoadas era gozar com o Pacífico, uma rapazinho loiro metido a cantor.

Ficávamos horas incentivando o Pacífico a cantar, ele que não cantava nada, mas era uma delícia ficar com ar sério a ouvi-lo, como se fosse um grande intérprete.

A Esquina do Pecado, como chamávamos aquele templo de humanidades que nos entretinha todos os dias, regurgitava de gente todas as noites.

A esquina tinha um pendor musical. Ali na Barão do Triunfo morava um mulatinho simpático que cantava na Rádio Farroupilha, o Valdir do Carmo. Ele era, assim, o mais ilustre participante da nossa roda, tínhamos orgulho de ter um cantor profissional, um artista, entre nós.

*

Como é que entre as minhas recordações da Azenha deixei escapar os churrasquinhos que o Peleja – que saudade, Peleja – fazia na beira da calçada, os cuidados com que ele assava a carne para nós?

E como é que não dei valor para a figura inesquecível do Coró, o barbeiro, também cantor de boa voz, com seu permanente bom humor? O Coró, Ivon Bernardes, cortando cabelos na barbearia do seu pai, Arduíno Bernardes, conseguiu mais tarde a façanha de se formar em Direito e antes de morrer foi advogado por largo tempo.

*

Como é que deixei passar nas minhas recordações o João Pirilo? Concunhado do Dilamar Machado, que era da nossa turma e morava na frente do Bar do Paizinho, ali mesmo na Rua Barão do Triunfo, onde havia e funcionava incrivelmente uma ferraria que ainda ferrava cavalos.

Como é que fui esquecer a figura célebre do Nilo Abel Piazza, que trabalhava em necropsias no Instituto Médico Legal? Todas as pessoas que necropsiavam cadáveres se atiravam à bebida, e nós caçoávamos do Nilo, que, delirantemente, queria se candidatar a vereador.

E nós todos, numa galhofa, fundamos na casa do Nilo um comitê e fazíamos a encenação de que iríamos trabalhar na sua eleição (utópica) e nos reuníamos na casa dele para tratar dos planos para o pleito.

*

Lembro-me que na ocasião compus um hino para a candidatura do Nilo, que nós cantávamos de pé, em torno da mesa de reuniões, com solenidade. Tudo gozação:

Nilo Abel Piazza
Já é vencedor
Nilo Abel Piazza
Já é vereador
Nilo Abel Piazza
Nele todos vamos votar
Pela Azenha e Barão
De todo o coração
Ele irá batalhar.

*

Como fui me esquecer do Antônio Carlos Sena e seus bonecos do Teatro Infantil de Marionetes, que sua mãe confeccionava com devotamento? Do Aníbal Damasceno, do Marco Aurélio Garcia, hoje importante assessor para política internacional do Lula.

Era a nossa esquina, hoje tesouro da nossa memória. Recordar é viver, talvez porque recordar seja sofrer, eis que não se pode mais, terrivelmente, voltar no tempo.

Comentários (4)

  • antonio cesar rodrigues silveira diz: 27 de junho de 2010

    Caro Santana,moro na 20 de setembro quase esquina com a Barão a uns 30 anos, e lamento te informar que o que sobrou de “romantismo” daquela época,deve ter ficado mesmo só na lembrança. Hoje naquela esquina tem a marquise do B.Brasil que abriga muitos “sem tetos e sem cachaça”,fazendo suas necessidades(fisiologicas e sexuais) ali mesmo,onde dormem.
    Por ser um cruzamento e defronte o Banco,todo mundo acha que se largar seus despachos de galinha,milho e cachaça ali,vai ficar rico sem ter que trabalhar.(os milhos servem para aumentar a população de pombos na região,disseminando doenças,as galinhas acabam se tornando alimento dos cães que as destroçam e espalham as penas,e a cachaça aquece a noite dos moradores de rua que ali habitam). Durante o dia aquela esquina é infestada pelos azuizinhos(os que cobram e os que multam),os guardadores de carros(sempre chapados)os aplicadores de golpe do bilhete(sim eles ainda existem e atuam muito por ali)os vendedores de bugigangas(que fazem xixi atras das arvores ainda do teu tempo). A noite,pode-se “puxar um fuminho basico” que não dá nada,a não ser o alarme do Banco que dispara seguidamente e ninguem vem ver o que acontece. Santana,eu tambem tive minha esquina na juventude (que saudades),e assim como tu e eu muitos outros tambem a tiveram,infelizmente os “tempos modernos”decretaram seu fim. Hoje esquina a noite é para ser assaltado,traficar drogas e batida de carros. Um saudoso abraço.

  • Diogo diz: 27 de junho de 2010

    Se liga. Não está vendo o que o pastor picareta tá fazendo com o Grêmio. A torcida tem que se unir. Por ter discutido com Silas Mithuê não teve mais vez e o mesmo vai acontecer com o Mário. Se não é da igreja ou jogou no Avai tá fora. Está na hora de um basta no Silas e no Meira os dois já eram. Fora pastor picareta.

  • Gustavo diz: 28 de junho de 2010

    A para…tenho 24 anos e curti muito minha infancia e adolescencia na rua da barão ( com a getulio vargas)..e ainda se encontramos para curtir um bom papo, zoação, outras coisas mais…(claro que menos agora pois trabalhamos e estudamos)e não são 3 ou 4..são de 15 a 20…claro que hoje está muito perigoso, mas a gente integrava muita gente ao nosso grupo, e sempre pudemos curtir a rua a vontade. Tanto que criamos um grupo grande dentro do menino deus, aonde todos os jovens se conhecem, se respeitam. Qualquer lado que eu vá, desde de o parque marinha até a azenha, sempre vou encontrar algum amigo ou conhecido. Não falo só pela barão, mas todo o menino deus é bem unido nesse sentido. Por isso pretendo passar minha vida toda no Menino Deus. Abraços!

  • Marilia Costa Cardoso diz: 29 de junho de 2010

    Paulo, nasci e vivi neste bairro, na Gen Caldwell quase esquina com a Érico,( na época Arlindo), era um pouco Menino Deus, um pouco Azenha., por isso lembro bem estes encontros de vocês,passávamos por ali, todas lindinhas em nossos uniformes de normalistas , mas acho que éramos consideradas uma “piás”…Como num sonho vi a imagem do barbeiro, Sr Dorneles a padaria do Biá ,a famosa feira livre da Barão, as tardes de matiné do Cinema Oasis e as do Castelo… Estudei no Cruzeiro do Sul e lembro bem do Sena e seus bonecos , o Damascena , o Heitor , o Marco Aurélio e a Loja da Fany na parada de bonde da Azenha.. Na volta da escola, descíamos uma parada antes,na Casa Catraca, para passar pela Rua Rosseti, e olhar os lindos rapazes desta rua. Hoje moro e luto pela revitalização da Independência, e o triste é que tudo o que o que o Antônio Cesar falou acontece também aqui, no nosso bairro, desleixo, descaso , sujeiras, badernas…. Obrigada Paulo por lembrar que já houve bairros simples, mas onde a ordem era o respeito. ( no meu blog está um relato dos encontros da Caldwell-Reviver independencia)

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