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Posts de junho 2010

Bolão talhado pra Pablo

30 de junho de 2010 17

Cometeram ontem a tolice de convidar Pablo para participar de um bolão.

É um bolão muito inteligente e se refere ao próximo jogo do Brasil, contra a Holanda.

O bolão consiste no seguinte: escolhe-se um resultado, por exemplo, Brasil 1 x 0 Holanda, e faz-se um leilão deste escore. Aquele que der mais dinheiro por ele fica com esta aposta.

E por aí vai. Vão leiloando um a um os resultados prováveis, desde 1, 2, 3, 4 para o Brasil até 1, 2, 3, 4 favoráveis à Holanda.

E Pablo, sorrateiro, ficou ali à espera de que fossem leiloados os resultados que ele queria.

*

Até que Pablo viu serem ofertados 1 a 0 para o Brasil e 2 a 0 para o Brasil. E Pablo ficou a lutar no leilão com os lances para esses dois resultados. Insistiu Pablo em cobrir os lances para 1 a 0 e 2 a 0 para o Brasil.

Afinal, ninguém deu mais dinheiro do que Pablo por 1 a 0 e 2 a 0 para o Brasil, paguei R$ 400 de lance por Brasil 1 x 0 Holanda e R$ 200 de lance por Brasil 2 x 0 Holanda.

Todos os resultados foram vendidos, inclusive três estranhos: como não havia o escore de empate no bolão, foi criado o seguinte resultado: Holanda vence nos pênaltis. E outro resultado: Brasil vence nos pênaltis. Foram transformados em duas apostas, cada uma valeu R$ 50.

Finalmente, uma aposta mais foi leiloada: qualquer resultado exótico que não tinha sido leiloado. Assim, se der Brasil 5 x 1 Holanda, Brasil 6 x 0 Holanda, Holanda 5 x 0 Brasil, qualquer resultado que não tenha sido leiloado, vence esse apostador. Custou R$ 100 essa aposta.

*

Eu estou com o coração na mão, porque este bolão, criado pelo meu amigo Nílson Sibowsky, atingiu a seguinte quantia que será paga ao vencedor: R$ 4,5 mil.

Vocês podem imaginar como me sinto, na expectativa de ganhar este bolão, são grandes as minhas chances, tenho dois resultados muito prováveis.

Já começo a imaginar que o jogo permaneça empatado durante o primeiro tempo e, no segundo tempo, logo no início, o Brasil faça um gol.

Eu não caberei no meu nervosismo, torcendo para que a Holanda não faça gol e o Brasil também não faça, embora o 2 a 0 para o Brasil também me sirva. Mas é que com 2 a 0 e o jogo em andamento existe o perigo de 3 a 0.

*

Não sei por que já me considero vencedor deste bolão.

Em primeiro lugar, porque creio firmemente que o Brasil vai ganhar esta partida. O diabo é que ficarei sem o dinheiro do bolão se o Brasil vencer por 2 a 1, 3 a 1, 4 a 1, 3 a 2, 4 a 3.

Tem de ficar no 1 a 0 ou no 2 a 0 para eu vencer.

Vou vencer e os meus amigos terão uma lição, nunca se metam a fazer apostas comigo, não se atrevam a fazer bolão com Pablo.

Porque Pablo é igual a Paulo Maluf: nunca perdeu qualquer bolão de que participou.

*

Estão me martelando a cabeça quatro versos do meu poeta Augusto dos Anjos:

Bati nas pedras de um tormento rude

E a minha dor de hoje é tão intensa

Que eu penso que a alegria é uma doença

E a tristeza é a minha única saúde.

* Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora

Estúpido assassinato

29 de junho de 2010 12

Como todos os leitores de Zero Hora, comovi-me com a professora que foi assaltada e estava no seu carro. Foi morta com dois tiros.

Ela simplesmente fez menção de retirar o cinto de segurança e o ladrão fuzilou-a, sem roubar nada.

Que medo podia ter esse ladrão de uma simples mulher? É evidente que mulheres não andam armadas, como pôde o ladrão desconfiar de que ela iria puxar um revólver?

Qualquer assassinato é brutal, mas este da professora revolta.

É demasiada a violência e nos leva a imaginar medidas extraordinárias para conter esta onda de criminalidade, que, se fosse só constituída de roubos com prejuízos materiais às vítimas, ainda seria tolerável.

Mas mulheres e homens sendo assassinados estupidamente por malfeitores inexperientes é fato que nos leva a uma indignação raivosa.

*

Nunca foi tão fácil ganhar uma Copa do Mundo.

O Chile parecia ser um desses times que o Grêmio e o Internacional enfrentam no Gauchão.

A Holanda, próximo adversário do Brasil, é melhor que o Chile, mas não é muito melhor que o Chile.

Por sinal, Holanda e Argentina ganharam as quatro partidas que jogaram até agora nesta Copa.

Já o Brasil não ganhou uma das quatro, contra Portugal.

*

O Brasil parece ser o favorito para o título. O time de Dunga dá a impressão de que não joga bem como seria o ideal, mas é capaz de se superar conforme as dificuldades. Ou seja, vem jogando para o gasto.

A Argentina passa uma impressão contrária: joga bem, mas parece que a qualquer tempo pode se tornar um castelo de cartas.

Já a Alemanha, esta sim, como o Brasil, parece ser um adversário com que ninguém gostaria de se defrontar.

Esta é uma sorte brasileira, sem dúvida, não ter de enfrentar nem Argentina nem Alemanha antes da finalíssima.

*

O caminho para o título está pavimentado para o Brasil. Qualquer pessoa dirá que o Brasil é melhor do que a Holanda e o Uruguai, os dois compromissos que o Brasil terá antes da finalíssima.

Tudo indica que o Brasil irá até a finalíssima e lá se defrontará contra o vencedor de Argentina x Alemanha.

*

O certo é que a seleção campeã terá a letra a no seu nome. E também se pode dizer que a seleção campeã terá as letras a e r no seu nome, levando-se em consideração que Alemanha em inglês é escrita Germany.

*

Interessante, dois jogadores que eram considerados sensações desta Copa, Messi e Kaká, ainda não fizeram gol.

Mas os dois não estão jogando mal.

*

Fiz uma experiência ontem: vim de minha casa em meio ao primeiro tempo de Brasil x Chile: eu queria saber como era o trânsito enquanto o Brasil jogava.

Parecia que Porto Alegre tinha voltado ao século retrasado, um ou outro carro na rua, levei da minha casa até ZH menos da metade do tempo que gasto quando o trânsito está engarrafado.

Isso prova que a Copa do Mundo atrai a atenção de todos, até mesmo dos que não gostam de futebol.

Ah, se o trânsito fosse sempre assim!

* Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora

O olho eletrônico

28 de junho de 2010 22

Não se pode afirmar que, caso o árbitro tivesse assinalado o gol legítimo da Inglaterra, na bola que ultrapassou a linha fatal, ainda assim a Alemanha ganharia de goleada.

Não se pode afirmar que, se o juiz tivesse visto o gol, outra seria a emocionalidade e a intensidade volitiva dos dois times.

Eu poderia argumentar que, com o gol, anulado, a Inglaterra desanimou e deu chance para a Alemanha goleá-la.

*

Há anos prego ao deserto no Sala de Redação: insisto desde 2001 que a Fifa tem de determinar uma mudança na norma, permitindo que o olho eletrônico decida os lances polêmicos, cruciais, decisivos de uma partida, quando o olho humano não conseguir discernir a verdade.

Bastava que o árbitro paralisasse a partida, dirigindo-se à lateral do campo, onde um aparelho de televisão seria acionado e ele poderia consultá-lo sobre o lance discutido, decidindo assim e então com justiça.

*

O que não pode é uma partida de futebol decidir-se por um erro do árbitro, muitas vezes, mais que um erro, um lance em que o árbitro e o bandeira não possuem aparelho cognitivo que esclareça a jogada.

Por que então não usar o olho eletrônico que já é usado por vários esportes, entre eles o turfe, a natação, as corridas atléticas e o próprio tênis?

Só o futebol não cedeu a essa ânsia de justiça e correção, só o futebol incorre no erro de permitir que a realidade de um lance decisivo seja torcida por erro ou incapacidade de leitura da arbitragem.

*

Outro lance que teria de ser decidido pelo olho mecânico: o primeiro gol da Argentina contra o México, ontem, quando Tevez estava visivelmente impedido ao fazer o gol.

Como podem permitir tamanha iniquidade? Estava empatada a partida em zero a zero, decidindo uma etapa da Copa do Mundo, talvez o próprio resultado final da Copa, quando o juiz validou um gol ilegítimo da Argentina: nada pode ter influído mais no resultado que aquele gol ilegal!

*

O mais alarmante de tudo é que, no gol ilegítimo de Tevez, o árbitro correu até a lateral do campo para consultar o bandeirinha. Ou seja, o árbitro estava em dúvida. E o bandeirinha validou o gol escandaloso.

Nesta hora é que eu digo que o árbitro não tem de consultar o bandeirinha, e sim uma televisão. Para que sejam sanadas todas as dúvidas e as grandes injustiças sejam banidas do futebol.

*

Que coisa escandalosa! Todo o estádio viu que a bola do gol inglês não validado passou a linha fatal, foi o que disseram os jornalistas que estavam lá! Só não viram duas pessoas, o árbitro e o bandeirinha.

E o gol não foi concedido à Inglaterra, mexendo totalmente na voltagem emocional do jogo e até presumivelmente no resultado.

Há anos prego no Sala de Redação que o futebol extinga as injustiças, consultando o recurso eletrônico nos lances de grande dúvida e importância.

Um dia esta medida será tomada, mas até lá vão se somar as injustiças e os escândalos. Por insensibilidade da Fifa, que teima em não moralizar o futebol.

* Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora

A Esquina do Pecado

26 de junho de 2010 4

Devem estar os leitores cônscios de que ultimamente devoram-me recordações da infância, da adolescência e da juventude.

Esses dias, fui até ali, à esquina das ruas Barão do Triunfo com 20 de Setembro, na Azenha, fiquei a meditar sozinho debaixo do poste em que nos reuníamos todas as noites, os jovens camaradas, para conversar.

Foi ao mesmo tempo feliz e sofrida a recordação. Parecia que eu estava cercado pelo mesmo alarido das conversas e dos gritos, das brincadeiras, das ursadas, da roda que ia crescendo debaixo do cinamomo.

*

Faz 50 anos isto, lembro-me que uma das nossas grandes caçoadas era gozar com o Pacífico, uma rapazinho loiro metido a cantor.

Ficávamos horas incentivando o Pacífico a cantar, ele que não cantava nada, mas era uma delícia ficar com ar sério a ouvi-lo, como se fosse um grande intérprete.

A Esquina do Pecado, como chamávamos aquele templo de humanidades que nos entretinha todos os dias, regurgitava de gente todas as noites.

A esquina tinha um pendor musical. Ali na Barão do Triunfo morava um mulatinho simpático que cantava na Rádio Farroupilha, o Valdir do Carmo. Ele era, assim, o mais ilustre participante da nossa roda, tínhamos orgulho de ter um cantor profissional, um artista, entre nós.

*

Como é que entre as minhas recordações da Azenha deixei escapar os churrasquinhos que o Peleja – que saudade, Peleja – fazia na beira da calçada, os cuidados com que ele assava a carne para nós?

E como é que não dei valor para a figura inesquecível do Coró, o barbeiro, também cantor de boa voz, com seu permanente bom humor? O Coró, Ivon Bernardes, cortando cabelos na barbearia do seu pai, Arduíno Bernardes, conseguiu mais tarde a façanha de se formar em Direito e antes de morrer foi advogado por largo tempo.

*

Como é que deixei passar nas minhas recordações o João Pirilo? Concunhado do Dilamar Machado, que era da nossa turma e morava na frente do Bar do Paizinho, ali mesmo na Rua Barão do Triunfo, onde havia e funcionava incrivelmente uma ferraria que ainda ferrava cavalos.

Como é que fui esquecer a figura célebre do Nilo Abel Piazza, que trabalhava em necropsias no Instituto Médico Legal? Todas as pessoas que necropsiavam cadáveres se atiravam à bebida, e nós caçoávamos do Nilo, que, delirantemente, queria se candidatar a vereador.

E nós todos, numa galhofa, fundamos na casa do Nilo um comitê e fazíamos a encenação de que iríamos trabalhar na sua eleição (utópica) e nos reuníamos na casa dele para tratar dos planos para o pleito.

*

Lembro-me que na ocasião compus um hino para a candidatura do Nilo, que nós cantávamos de pé, em torno da mesa de reuniões, com solenidade. Tudo gozação:

Nilo Abel Piazza
Já é vencedor
Nilo Abel Piazza
Já é vereador
Nilo Abel Piazza
Nele todos vamos votar
Pela Azenha e Barão
De todo o coração
Ele irá batalhar.

*

Como fui me esquecer do Antônio Carlos Sena e seus bonecos do Teatro Infantil de Marionetes, que sua mãe confeccionava com devotamento? Do Aníbal Damasceno, do Marco Aurélio Garcia, hoje importante assessor para política internacional do Lula.

Era a nossa esquina, hoje tesouro da nossa memória. Recordar é viver, talvez porque recordar seja sofrer, eis que não se pode mais, terrivelmente, voltar no tempo.

Duas previsões

26 de junho de 2010 13

Sempre tive a mania das previsões. E, quando me tornei cronista, fiquei ainda mais tentado a fazer previsões, pelo simples fato de que não pode haver maior privilégio para os leitores do que conhecerem os fatos antes mesmo de eles acontecerem.

Então, eu não sei se os leitores notam, mas esta coluna esteve sempre crivada de previsões.

Uma delas passou talvez imperceptivelmente por todos. Eu a fiz faz uns 35 dias: afirmei aqui nesta coluna que Dilma Rousseff ganhará as eleições presidenciais.

Quando fiz essa previsão, não era fácil de fazê-la: nas pesquisas, José Serra estava à frente de Dilma quase 10 pontos.

Pois, na pesquisa Ibope de anteontem, apareceu Dilma com cinco pontos na frente de Serra, antevendo uma vitória da candidata petista que foi prevista por esta coluna.

*

As minhas previsões não são lunáticas ou lotéricas ou de chutes. Elas são baseadas em análise acurada e meticulosa da realidade. Vou montando razões e antirrazões, chego em seguida a uma conclusão.

No caso, previ que Dilma Rousseff seria a presidenta porque eu acredito ser impossível que Lula não transfira o seu imenso prestígio, atestado nas pesquisas, para a candidata que escolheu.

Há muita gente que diz que prestígio em eleição é intransferível. Mas, para mim, é tão imenso e amassante o prestígio de Lula, que inevitavelmente ele se transferirá para Dilma nas urnas.

*

A outra previsão que tenho a fazer aos meus leitores é arriscadíssima, mas há dias estou tentado a fazê-la: o Brasil será hexacampeão mundial.

Decidi ontem divulgar essa previsão, que está na minha cabeça há dias, quando foi designado o adversário do Brasil, agora, nas oitavas de final: o Chile.

Historicamente, de cada 10 jogos entre Brasil e Chile, o Brasil vence oito. Além disso, não bastasse a superioridade histórica e atual do Brasil, soube-se ontem que o Chile não contará com três jogadores para a partida contra o Brasil, em função de cartões de suspensão.

Mais ainda, de acordo com a tabela de jogos montada para esta Copa do Mundo, o Brasil só terá um sério e relativamente temível adversário até a finalíssima: a Holanda. O resto todo será barbadinha.

*

Evidentemente que cogito que a finalíssima deverá ser entre Brasil e Argentina, jogo dificílimo de prever o resultado.

Ainda assim, julgo que o Brasil se muniu de melhores recursos que a Argentina para esta Copa.

E aposto no Brasil para campeão.

*

Já previ de tudo nesta coluna. Acertei a maioria das previsões. Mas já tive também previsões erradas. No entanto, foram minoria.

Aí estão as minhas duas barbadas dos últimos 35 dias: Brasil campeão mundial e Dilma Rousseff eleita presidenta.

Previsões que foram fruto de demorados estudos sobre as circunstâncias da Copa e da eleição.

E eu tenho fé de acertar as duas. Mas faço previsão só para prever, não são frutos do meu desejo.

Quando previ, há 35 dias, que Dilma seria eleita, embora naquela época ela estivesse quase 10 pontos atrás de Serra, muitos eleitores me escreveram, chamando-me de petista.

Não tem nada de petista, quem conhece os assuntos e é cronista tem a obrigação de prever.

*Texto publicado na ZH deste sábado

A Mega Sena

25 de junho de 2010 17

Me comove o ser humano. Fico olhando para essas pessoas simples, modestas, humildes que me cercam no cotidiano, e me emociono com a existência delas.

Parecem resignadas a cumprir o seu destino, não têm consciência de por que foram jogadas no mundo, mas estão desempenhando com paciência e coragem o seu papel.

Não esboçam qualquer gesto ou grito de protesto, contentam-se com o muito pouco que a vida lhes proporciona, vivem entregues ao trabalho e ao transporte para suas casas, uma vida inteira sem atrativos, mas é a vida. Nada melhor do que ela foi inventado pelo Criador.

O que me comove é a capacidade de paciência que as pessoas têm para chegar a ser felizes.

A esperança. Essas pessoas de vida morna, vazia, sem sentido, só podem ser movidas pela esperança.

*

Primeiramente, foi um leitor que mandou reclamar das extrações da Mega Sena, que segundo ele vêm acumulando demais.

Depois, foi o segundo leitor com a mesma reclamação. O terceiro, o quarto, quando chegou no 20º resolvi responder: estou respondendo agora.

Se 20 leitores reclamam, é porque existem milhares que estão insatisfeitos.

*

Eles me reclamam que acumulam demais os prêmios da Mega Sena e pedem que eu dê um jeito de investigar para ver se não há manipulação das apostas, com o fim de, acumulando, atrair o interesse dos apostadores e fazê-los apostar mais ainda.

Estão completamente enganados. É preciso deixar bem claro que a Mega Sena foi instituída justamente para isso, para acumular.

A possibilidade de acertar na Mega Sena é de uma em 50 milhões. Portanto, teoricamente, para que haja um acertador na Mega Sena é necessário que sejam feitos 50 milhões de apostas.

Quando acumula, é porque até aquele momento foram feitos só 5 milhões, 10 milhões de apostas, não foram atingidos os 50 milhões.

E o jogo da Mega Sena foi feito exatamente para isso. Para acumular, para pagar prêmio maior e assim atrair um maior interesse dos apostadores.

*

Quem não gosta de concursos de loteria acumulados não deve jogar na Mega Sena. Jogue na Quina, por exemplo, que não acumula, que raramente acumula.

E por que a Quina não acumula? Porque é mais fácil acertar na Quina, as chances devem ser de uma para 100 mil. Aí, não acumula, são só cinco números que têm de ser acertados.

Na Mega Sena, são seis números. É muito mais difícil de acertar. Então acumula. É que a Mega Sena foi feita justamente com esse propósito, o de acumular, o de pagar mais aos acertadores e, é claro, no interesse da Caixa Federal, que se aposte mais e ela mais arrecade.

Este é o jogo. Podem ficar descansados, que não há manipulação nem falsidade nos concursos. É da natureza intrínseca da Mega Sena acumular.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

Bacia das almas

24 de junho de 2010 4

Num trabalho meticuloso do Henrique Erni Gräwer e do Moisés Mendes, foram compiladas as minhas crônicas mais íntimas e se realizou o livro Eis o Homem, da RBS Publicações, onde vazei minha dor e alegria supremas.

O livro foi um projeto de Pedro Haase Filho e editoração de Wildstudio Design.

E, no próximo dia 22, estarei concedendo os autógrafos na Livraria Cultura do Bourbon Country.

É o terceiro livro deste colunista, que teima em nunca escrever o último.

*

Nós, os sul-americanos, somos espoliados pela Europa, que nos pirateia os maiores craques, levando-os para jogar em seus clubes ricos.

Os grandes clubes da Itália, Espanha, Alemanha, França e muitos dos países árabes e asiáticos coam os nossos melhores craques e transportam essa nata do futebol americano para as lonjuras.

A Copa do Mundo tem, no entanto, este caráter reabilitador: torcedores do Chile, do Brasil, da Argentina, do Uruguai e do Paraguai, durante 30 dias e 64 jogos, reencontram-se na televisão com seus craques que foram por este curto período de tempo resgatados da pirataria e levados para jogar em suas seleções.

Já foram considerados os melhores jogadores do mundo Maradona, Ronaldo Nazário, Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Messi, autenticando o prestígio americano em formação de craques.

Pena que a Copa do Mundo dure tão pouco, mas é tão grande a qualidade dos jogadores sul-americanos, que os países daqui do Hemisfério Sul estão se candidatando seriamente a ingressar nas oitavas de final da Copa do Mundo.

A Copa do Mundo é a vingança dos espoliados. Pena que dure tão pouco.

Porque depois dela tudo fica novamente à feição dos piratas, que até os fins dos tempos praticarão a rapinagem dos nossos maiores craques.

Enquanto não se fizerem leis que reprimam esse sequestro infame do talento, sofreremos com a distância dos nossos maiores ídolos.

E ficamos destinados a assistir, depois da Copa do Mundo, ao nosso campeonato nacional de times emasculados, a nossa bacia das almas.

*

Que jogador esse Lionel Messi! Que jogador! Ele ainda não mostrou nesta Copa todo o seu talento, mas a gente nota em suas movimentações que ele tem o prodígio da genialidade.

Tão pequenino, tão frágil, mas com que naturalidade ele se embarafusta nas defesas contrárias, tem uma apurada visão espacial e sempre passa a bola com acuidade.

Além disso, da sua perna canhota são arremessados potentes e certeiros disparos, um deles foi encontrar-se com a trave no jogo contra a Grécia.

Messi faz-nos imaginar, ele que é o centro nervoso da equipe, que esta Copa do Mundo está talhada para ser da Argentina, e Messi parece ser destinado a ser o grande craque do certame: às vezes, as coisas não se dão assim no futebol, mas estas parecem ser, hoje, as alvíssaras.

Mas o Brasil é obstáculo sério para a Argentina chegar ao título. No entanto, não há sequer um só jogador brasileiro que chegue aos pés de Messi.

Que jogador!

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora

Golaço na segurança

23 de junho de 2010 13

O Guerrinha, nosso companheiro aqui da RBS, é vidrado em turfe. Lê todas as revistas sobre cavalos, acompanha as corridas em Rio e São Paulo e no resto do mundo.

O Guerrinha é um grande apostador do turfe e já foi locutor (e dos bons) de corridas de cavalos.

Esses dias, o Guerrinha estava dormindo em casa e tocou o telefone. Era o gerente do banco:

– Guerrinha, quero te avisar que o papagaio venceu.

E o Guerrinha, ainda lutando contra o sono:E quem foi que entrou em segundo?

*

Não se faz omelete sem ovos, assim como não se faz segurança pública sem policiais.

Por isso é que se deve saudar efusivamente a iniciativa da governadora Yeda Crusius de criar mais 3 mil vagas para soldado da Brigada Militar, depois que, recentemente, foram incorporados ao efetivo da força outros 3,5 mil aprovados em concurso, que já estão nas ruas.

*

Ao mesmo tempo, a governadora determinou que não sejam só os 157 primeiros colocados no concurso de delegado de polícia a serem chamados ao preparo da Escola de Polícia: numa guinada, vai mandar chamar 257 novos delegados aprovados em concurso.

Eles vão se somar a 605 inspetores e escrivães de polícia que estão cursando a Academia de Polícia e em breve já assumirão seus postos, ansiosamente esperados pelas delegacias do Interior e da Capital.

*

Nunca foram admitidos tantos policiais como ultimamente. A última grande leva de delegados foi realizada pelo governo Olívio Dutra, em 1999. Segundo Zero Hora, 147 então se formaram.

Sucessivos governos sucatearam a Polícia Civil, minguando seus quadros, de sorte que no ano passado o efetivo total era de pouco mais de 5 mil policiais, o mesmo número de 40 anos atrás, apesar do crescimento geométrico da criminalidade e sem acompanhar o acréscimo de população.

*

Não sei o que houve, só pode ter dado a louca na governadora para admitir tantos policiais. É tão inusitado, que parece estranho, embora se deva elogiar profundamente essa medida de tentar espalhar por todos os cantos do Estado cada vez mais policiais civis e militares.

*

Com estes novos 3 mil PMs que vêm aí, o déficit de pessoal na BM fica preenchido, déficit zero.

E, na Polícia Civil, é imperioso fazer crescer o quadro, as delegacias de polícia não têm dado conta dos inquéritos e de outros serviços por falta veemente de pessoal.

Espera-se, com esta ação, não que cessem as reclamações dos gaúchos quanto à falta de policiamento, mas que diminuam bastante as críticas.

Quanto mais policiais houver nas ruas e nas delegacias, quanto maior for o número de vagas nos presídios, melhor poderá se combater esta peste violenta da delinquência que se impregnou na pele do tecido social nos últimos anos como uma maldição.

* Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora

Dunga às turras

22 de junho de 2010 55

Tinha me esquecido de comentar o episódio acontecido na semana passada, na Câmara Federal.

Os deputados resolveram fazer um bolão, a dinheiro, que apontaria o vencedor sobre quem faria o primeiro gol do Brasil contra a Coreia do Norte.

Quem fez o gol foi Maicon e quem ganhou o bolão foi o deputado Paulo Maluf.

Não sei por que me lembrei do bolão aquele da Mega Sena em Novo Hamburgo.

Mas é claro que onde entra dinheiro sempre ganha o Maluf.

Alguém entraria em um bolão sabendo que o Paulo Maluf participa?

*

A entrevista coletiva com o treinador Dunga, após o jogo contra a Costa do Marfim, era para ser tranquila e serena. Afinal, o Brasil ganhou bem e praticamente garantiu a classificação.

Mas havia Dunga e o mau humor de Dunga. Incompreensivelmente, sem nenhuma razão aparente, Dunga resolveu encrencar-se com o repórter Alex Escobar, da Rede Globo.

Interpelou o repórter, perguntando-lhe se havia algum problema e logo a seguir pronunciou vários palavrões, entre eles merda e cagão.

Ninguém entendeu nada, Dunga estava se metendo a valentão.

*

É possível que haja alguém acima de Dunga apoiando-o nessa birra contra a imprensa. Não pode ser só da cabeça de Dunga essa má vontade com a imprensa.

A imprensa não é santinha, mas nada há, entre as palavras que ela pronuncia, de ofensivo para que Dunga fique assim armado contra a mídia, absolutamente de mau humor, agora partindo para a ofensa pessoal em atrito que ele provoca e tem origem desconhecida.

Será que Ricardo Teixeira apoia Dunga nessas tropelias? O certo seria o dirigente chamar o treinador a no mínimo adverti-lo para o comportamento estranho e agressivo que teve na entrevista coletiva.

Saindo assim impune de uma agressão verbal, diante dos microfones e das câmeras de televisão do mundo inteiro, Dunga fica estimulado a essa conduta agressiva e mal-humorada para o futuro, nada indicando que esse clima de animosidade que parece ser criado por ele se extinga.

Não creio que Dunga deseje isso, mas a impressão que ele deixou domingo foi de que é um homem perigoso.

*

Evidentemente que, com milhares de jornalistas brasileiros escrevendo e falando nos seus espaços de jornal, rádio e televisão, hão de acontecer críticas ao treinador da Seleção, aos seus critérios ou até ao seu modo de ser. É inevitável que isso o ocorra.

O treinador, então, tem de encarar isto, que pode se chamar de pressão, de forma esportiva e cordial.

Mas não é só o Dunga, muitos dos nossos treinadores revelam uma impaciência, um mau humor e uma agressividade que desembocam sempre na entrevista coletiva.

Havia há pouco tempo um treinador do Internacional que, mal começava a entrevista coletiva, e todos os ouvintes já ficavam esperando que ele se estourasse, alguns ouvintes tinham até medo de que isso acontecesse.

Está virando costume entre nós mau humor de treinador com a imprensa e atritos nas entrevistas coletivas.

E uma prova de que os errados são esses treinadores é que muitos deles nunca tiveram ou têm atrito com a imprensa. E com certeza foram alvos de críticas.

É só uma questão de temperamento.

E temperamento turrão como o de Dunga não é compatível com cargo tão publicamente exposto como o de técnico do Brasil

* Texto publicado hoje na página 39 de Zero Hora

Brasil vira favorito

21 de junho de 2010 11

Agora, sim, uma grande atuação da Seleção Brasileira, contra a Costa do Marfim.

Não fosse escandalosamente ilegítimo o segundo gol de Luís Fabiano, que tocou duas vezes com o braço no acabamento da jogada, aquele gol entraria para a antologia das Copas.

Ainda se tolera que um árbitro não veja um toque de mão num gol.

Mas dois toques, como aconteceu, é demais. Ensombreceram os dois chapéus estupendos de Luís Fabiano.

E, para aumentar o escândalo, viu-se pela televisão o juiz, após o gol, perguntando ao Luís Fabiano se ele tinha tocado com o braço na bola. Parece anedota.

***

Mas o Brasil se credencia, junto com a Argentina e talvez a Holanda, como favorito da Copa.

Luís Fabiano é um grande craque, centroavante que chuta bem com os dois pés: fez o primeiro de direito, o segundo de esquerdo.

E Kaká parece ter voltado à velha forma.

O Brasil está cheirando a campeão, até a arbitragem começou a ajudar.

***

Pela Lei da Ficha Limpa, aprovada recentemente pelo Congresso e referendada pelo Tribunal Superior Eleitoral, não poderão ser candidatos, já nas próximas eleições, todos aqueles políticos que tenham tido ou venham a ter condenação penal por órgão colegiado da Justiça, mesmo que a sentença não seja definitiva, ou seja, não tenha transitado em julgado.

Tenho lido há um mês, e mais ainda agora, um contentamento na imprensa e na opinião pública pela aprovação desta lei.

Recomendo que moderem esse contentamento, pela simples razão de que esta lei é completa e inequivocamente inconstitucional. E foi aprovada a toque de caixa para aplacar a ira da opinião pública contra a corrupção.

***

É inconstitucional porque o artigo 5° da Constituição Brasileira diz em um dos seus incisos que “ninguém poderá ser considerado culpado antes de sentença penal condenatória que transite em julgado”.

Nunca vi um texto mais claro a respeito de uma lei, considerando-a inconstitucional, como neste caso.

Não vale a alegação de que esta Lei da Ficha Limpa é um apêndice da Lei das Inelegibilidades e precípua para a eleição, tendo sido já referendada pelo TSE.

Não vale porque, quando a Constituição diz que ninguém pode ser considerado culpado antes de sentença condenatória, está afirmando que considerar alguém inelegível por condenação é em outras palavras considerá-lo culpado.

***

Esta lei vai cair no Supremo Tribunal Federal. Por sinal, um membro do Supremo fez parte também do Pleno do TSE e seu voto foi contrário e vencido quando aquela Corte examinou e convalidou a lei.

Marco Aurélio Melo vai ser apenas um dos votos que derrubarão esta lei no Supremo.

Hão de perguntar: por que o Supremo vai examinar uma lei que já foi carimbada pelo TSE?

A resposta é que os políticos que se tornaram inelegíveis por esta lei procurarão socorro no Supremo.

E, pela clareza da incongruência, a maioria dos ministros do Supremo será obrigada a considerar elegíveis os apelantes.

Sou a favor do espírito desta lei, que visa à moralização da vida política, mas infelizmente ela é sem dúvida alguma inconstitucional.

Nunca vi maior inconstitucionalidade.

* Texto publicado hoje na página 39 de Zero Hora

Indiferença dominical

19 de junho de 2010 158

Vou fazer um desabafo, que não sei se interessa aos leitores. Mas eu guardo este segredo comigo há muito e agora estou disposto a revelá-lo.

Acontece que não torço pela Seleção Brasileira. Também não seco a Seleção Brasileira, só não torço por ela.

A Seleção Brasileira não me entusiasma como a vejo entusiasmar a tantos brasileiros.

Jamais faria um churrasco em minha casa para receber amigos e torcer pela Seleção Brasileira. Não seria um motivo forte para eu fazer um churrasco um jogo da Seleção Brasileira.

*

Neste domingo, vejo Brasil x Costa do Marfim com a mesma indiferença com que assisti nesta Copa a Argélia x Eslovênia. Assisto com interesse, como tenho assistido a São Paulo x Palmeiras, Flamengo x Fluminense, mas sem nenhum entusiasmo, sem torcer para nenhum dos times, nem que um deles seja a Seleção Brasileira.

Em suma, sou amante do futebol, gosto desde criança de assistir a esse esporte, mas torcer por time de futebol, aí é outra história, só torço mesmo pelo Grêmio.

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Influi sem dúvida nesta minha indiferença pela sorte da Seleção Brasileira o meu gremismo: sofro do mal da paixão única, penso até que a minha mente não tolera que eu torça pelo Brasil porque seria uma espécie de traição ao Grêmio, sei lá…

Que ninguém me acuse de ser impatriótico por isso. Amo o Brasil, conheço todos os seus hinos. Se o Brasil entrasse em guerra e me aceitassem, eu pegaria em armas para defender a pátria que aprendi a amar no grupo escolar da minha infância.

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Mas não sinto qualquer afinidade pela definição do grande Nelson Rodrigues para a Seleção Brasileira: a pátria de chuteiras.

Já trabalhei em muitas Copas, mas nunca torci pelo Brasil, pouco me importei que o Brasil as tivesse perdido ou ganho. Nunca derramaria uma lágrima por uma derrota do Brasil em Copa do Mundo, assim como nunca entrei em euforia, sequer alegria, quando ganhamos uma Copa.

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Eu tenho certeza de que na origem desta minha indiferença pela Seleção Brasileira está o fato de que, quando eu era jovem, a Seleção Brasileira nunca convocava jogadores gaúchos.

A Seleção Brasileira era, na minha juventude, uma panelinha entre Rio e São Paulo. Desprezava com prepotência o futebol gaúcho e não convocava os nossos jogadores.

Naquele tempo, por isso, eu sentia ódio da Seleção Brasileira. Hoje não sinto mais ódio, os gaúchos seguidamente jogam na Seleção, agora mesmo na seleção do Dunga tem dois gaúchos: Maicom e Michel Bastos. Até o treinador da Seleção Brasileira hoje é gaúcho, o Dunga.

Então, não sinto mais ódio, mas não torço. Não torço. Não consigo torcer.

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Vocês podem não acreditar, mas eu assisto a Brasil x Costa do Marfim com a mesma voltagem de emoção com que assistiria a Alemanha x Argentina, um grande jogo, que me atrai intensamente porque sou aficionado pelo futebol. Mas um jogo que não me toca no coração. Nada tenho com ele, assim como tenho tudo em qualquer jogo do Grêmio, onde, aí, sim, a paixão me faz rir ou chorar. Eu fico doente quando o Grêmio perde, eufórico quando o Grêmio ganha.

Eu sempre achei uma lástima o Grêmio não disputar a Copa do Mundo.

E, para finalizar: muitos gaúchos já me disseram que sentem isso exatamente que eu sinto pela Seleção Brasileira.

* Texto publicado hoje na página 39 de Zero Hora dominical.

Fraude nos concursos

19 de junho de 2010 16

Oconcurso público, a forma mais justa, honesta, proporcional e adequada de ingresso no serviço público e de acesso ao êxito profissional, acaba de ser manchado por uma quadrilha que fraudava os testes e acaba de ser desbaratada pela Polícia Federal.

A quadrilha vazou e vendeu provas para 53 candidatos ao concurso de agente da Polícia Federal e 26 candidatos no exame da OAB, mais, imaginem, 41 candidatos ao concurso da Receita Federal em 1994.

Há, ainda, indícios de fraude nos concursos da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

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A quadrilha conseguia os cadernos das provas aliciando pessoas que tinham acesso a eles; contratava como professores de cursos pessoas que já sabiam as perguntas da prova da OAB; usava pontos eletrônicos para passar respostas; e contratava pessoas para fazer as provas no lugar dos candidatos.

Sofisticadíssima e organizadíssima ação. Porém, dos 53 concorrentes que compraram as provas para o concurso de agente da Polícia Federal, apenas seis atingiram a última fase, tendo sido imediatamente excluídos do concurso.

Os 26 aprovados acusados de comprar as provas para o exame da OAB deveriam ser ouvidos a partir de quinta-feira pela Polícia Federal.

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A quadrilha cobrava R$ 50 mil por cada prova vazada na OAB e, em dólares, US$ 93 mil por cada prova da Polícia Federal, além de, pasmem, US$ 279 mil para a prova do concurso de auditor da Receita, um dos mais cobiçados cargos do serviço público.

Diplomas e outros documentos falsos custavam R$ 30 mil, a quadrilha já estava pretendendo vazar a prova para delegado da Polícia Federal, com a cobrança de US$ 100 mil por cada pretendente.

Os 41 aprovados por intermédio de fraude no concurso da Receita Federal em 1994 foram excluídos por indícios de irregularidade na época, mas entraram com ação na Justiça Federal de São Paulo e foram reincorporados e indenizados em cerca de R$ 3 milhões, que seriam repartidos com o grupo.

Entre os beneficiários, estão a ex-mulher, a nora, o filho e amigos do filho do dono de uma universidade de São Paulo, apontado como líder da quadrilha.

A Polícia Federal não divulgou os nomes dos envolvidos e da instituição.

Ou seja, uma universidade de São Paulo comandava toda essa lamentável e escandalosa manobra.

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Eu só fico pensando nos 5 milhões de brasileiros que estudam para os concursos públicos.

E nos milhares que passam honestamente nos concursos públicos, são admitidos e de repente, sem o saberem, têm a seu lado colegas que fraudaram os concursos.

Como se leu acima, há muito tempo que isso vem acontecendo. Agora é que a Polícia Federal conseguiu desmascarar a quadrilha.

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Nada de mais desanimador que essa notícia. O concurso público é a mais democrática forma de apuração do mérito das pessoas para integrar importantes funções do serviço público.

Essas provas, vendidas a muitos candidatos, tinham de ser mantidas em segredo maçom pelos organizadores dos concursos.

Como é que vazam? A Polícia Federal precisa exterminar esse bando e ajudar o serviço público a munir-se de recursos que possam vir a tornar os concursos sem nenhuma chance de vulnerabilidade.

É muito triste e grave isso.

* Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora

Guerra civil

18 de junho de 2010 4

Fiz aniversário terça-feira passada e bondosos leitores, ouvintes e telespectadores me enviaram suas gentis mensagens de congratulações.

Da governadora Yeda Crusius ao prefeito José Fortunati, passando por vários vereadores e deputados, todos me mandaram carinhos.

Além de meus amigos e de meus colegas, para quem a data não passou despercebida.

Agradeço o gracioso presente do Hospital Mãe de Deus e o brinde do Totosinho, do Maurício Sirotsky Neto, constante de brigadeiros e branquinhos em copinhos que foram devorados pelo pessoal aqui dos editoriais, uma delícia como nunca comi igual, nem no Uruguai.

É bom aniversariar. A gente se sente útil para o convívio.

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Vi ontem a foto, publicada no Diário Gaúcho de hoje, do arrombamento na Ótica Pupila, na Avenida Presidente Getúlio Vargas, em Alvorada.

A parede da joalheria é grossa. Pois, mesmo assim, os ladrões a abriram com trabalho estafante e deixaram um rombo nos tijolos e cimento, por onde podiam passar mais que dois homens.

Tocou o alarma na casa do dono da ótica, ele levou oito minutos para chegar ao local, mas os ladrões já tinham fugido com joias, relógios e óculos.

É a segunda vez que a loja é arrombada em meio ano.

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Por sinal, há alguns moradores de Alvorada que se sentem atingidos quando a imprensa noticia assaltos naquela cidade, acham que se pretende falar mal da cidade.

Não quero atingir ninguém, meu propósito ao comentar roubos que se cometem nas ruas é o de, por alguma forma, colaborar para que diminuam ou desapareçam os atentados contra a propriedade.

Mas é que chama a atenção que nessa avenida de Alvorada, onde se situa a ótica arrombada, na mesma Avenida Presidente Getúlio Vargas, a principal artéria da cidade, os assaltos se verifiquem com assiduidade diária.

Os dois quilômetros que vão da Parada 45 até a Parada 52, são crivados de casas de comércio: todas elas já foram assaltadas e, no caso da Lotérica Dudu, a loja foi assaltada quatro vezes em apenas 30 dias.

O comandante da unidade da Brigada Militar que cobre Alvorada, o 24º BPM, coronel Édson Estivalet Bilhalva, promete ampliar a rede de segurança pública no local, mas é fato inquestionável que, se uma mesma loja é assaltada quatro vezes em um mês e nos dois lados dela, por um quilômetro a cada lado, há assaltos diários no comércio, está falhando o policiamento.

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Vários comerciantes da Avenida Presidente Getúlio Vargas, em Alvorada, ouvidos anteontem pela Rádio Gaúcha, disseram comoventemente que cogitam de abandonar suas lojas e encerrar os seus negócios:

– Não tenho condições de ficar trabalhando para pagar mercadoria roubada. Em 10 anos, adquiri um bom crédito, mas agora não posso mais quitar os boletos – disse o dono da ótica.

O dono da lotérica afirma: “Meu prejuízo já soma R$ 100 mil. Já registrei várias ocorrências mas não surtem efeito. Tenho de repor boa parte com recursos próprios”.

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Nada de mais grave quando comerciantes ameaçam fechar suas portas por causa da falta de segurança, de assaltos sucessivos.

Quando a malfeitoria começa assim a atingir o metabolismo social, afetando-o gravemente, ferindo os direitos civis, não há dúvida de que vivemos uma espécie de guerra civil.

Ainda mais caracterizada pela impotência dos órgãos de segurança em dominar a ânsia e os métodos da criminalidade.

Quatro assaltos em 30 dias na mesma loja, desculpem, mas é o fim da picada.

*Texto publicado na página 47 de ZH

700 mortos no RS!

17 de junho de 2010 11

Uma professora foi assaltada dentro da sala de aula, na Escola Ernesto Tocchetto, no Jardim Floresta, aqui em Porto Alegre.

O companheiro Humberto Trezzi, aqui de ZH, diz que nunca viu nada igual no mundo, uma professora sendo assaltada dentro de uma sala de aula.

Mas todos os recordes de ineditismo estão sendo quebrados. Já assaltaram padre na sacristia, médico no consultório, sentinela no quartel, mãe de santo no terreiro, ninguém escapa.

Vendo bem, uma escola é um lugar talhado para assaltar: lá só existem alunos desarmados, no seu interior não há policiais, a chance de escapar é enorme.

Neste caso, o menino de 15 anos, o assaltante, fez-se passar por aluno da escola, na verdade ele já tinha estudado lá, sacou de um revólver de dentro da bermuda e deu voz de assalto à professora.

Para se ter uma ideia da penúria das professoras, ela só tinha R$ 10 na sua bolsa e entregou-os ao ladrão. Que crise!

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Como já tinha escrito, a Copa do Mundo anestesiou-nos de tal forma, que passou despercebido o número de mortos no trânsito gaúcho em 2010: não estamos ainda na metade do ano e já morreram mais de 700 pessoas nas ruas, avenidas e estradas do RS.

Não são pessoas doentes que morrem. Como os assassinados em geral, são pessoas saudáveis, úteis, normais.

Tudo pela imprudência dos motoristas e dos pedestres. Que não acreditam que possa acontecer com eles o pior.

Mas a verdade é que, quando se empunha um volante, tudo pode acontecer. O carro é uma arma perigosa e é também um alvo de grande risco no trânsito louco que nos envolve.

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Um dos aspectos que cercam a psicologia de quem empunha o volante é que o motorista não se compenetra de que está dirigindo um bólido que em frações de segundo pode descontrolar-se ou até mesmo ser atingido por outro veículo.

Então, o motorista usa o volante como um divertimento, um prazer, sem atentar para sua responsabilidade.

Como tem dirigido já há algum tempo sem acidentes, pensa que isso vai acontecer sempre. No entanto, se se for fazer a conta, um motorista, em quatro horas de direção diária, corre cerca de 2 mil chances teóricas de se acidentar, sempre que cruza por outro veículo, sempre que ultrapassa, sempre, dependendo da sua habilidade e dependendo das habilidades dos outros.

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Afinal, por que é que rico tem motorista? Pela simples razão de que se sente muito mais protegido no trânsito fora da direção do que manobrando o volante.

Só que a quase totalidade dos motoristas não entrega o volante para um motorista profissional. E o que temos então é uma multidão de motoristas amadores, despreparados para as armadilhas do nosso trânsito, verdadeiros curiosos na arte de dirigir.

Tanto que, quando uma pessoa de recursos vê a idade de seu filho se aproximar dos 18 anos, já faz a promessa de que dará um carro para ele, sem indagar se ele terá preparo para dirigir. Vai dar o carro, é decisão tomada, e dá o carro. Depois, ele que se arranje no trânsito.

São muito preocupantes estes mais de 700 mortos no trânsito gaúcho em menos de um ano.

São mais de quatro mortes por dia. Pensando bem, em todo o território gaúcho, com as centenas de estradas e milhares de ruas e avenidas sendo ocupadas por veículos com motoristas despreparados, será que não são até poucos os mortos em acidentes?

*Texto publicado na página 55 de ZH desta quinta-feira

Retranca estraga o futebol

16 de junho de 2010 23

Assistindo a esses jogos de futebol todos, estou cada vez mais convicto de que se deve mudar o critério de pontuação nas disputas.

A minha ideia é de que para a vitória de um time sejam designados dois pontos para ele e, tanto para a derrota quanto para o empate, zero ponto.

Pela minha ideia, em uma partida só vai ganhar pontos (2) o time que obtiver a vitória.

Empatando, o time será castigado tanto quanto se for derrotado, não marcará ponto nenhum.

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Esta minha ideia visa a que se extirpe do futebol um grande mal de que ele está sendo vitimado: o das equipes que entram em campo somente com um objetivo, o de não perder.

O futebol é um exercício coletivo que consiste basicamente em atacar e defender. Premiando com um ponto quem empata, está se estimulando que os times empatem e que se renuncie ao requisito ofensivo.

A minha ideia também visa a que não ocorra o que aconteceu ontem em Brasil x Coreia: só um time vise à vitória, o outro simplesmente se disponha de maneira defensiva, sonhando com o ponto de empate. Isso descaracteriza o futebol, evita a riqueza e a atração desse esporte, que é a busca alternada do gol por ambas as equipes.

Empate, zero ponto. Só com vitória, o time ganhará dois pontos. Já pensaram como ficará atraente o futebol, eliminando para sempre o cancro da retranca?

Por sinal, quando se deixou de atribuir dois pontos à equipe vitoriosa e passou-se o prêmio para três pontos, essa modificação já tinha o fim de exorcizar a retranca, restando a diferença entre três pontos por vitória e um por empate como mais larga.

Pois com zero ponto para o empate, acabará para sempre essa distorção esdrúxula de um time entrar em campo só para defender-se, estratégia que, por sinal, é exclusiva do futebol, entre todos os esportes: em nenhum outro esporte, entre todos, alguém entra em cancha só para empatar.

Tem de acabar isso também no futebol.

Ele assim se tornará um espetáculo muito mais atraente e lógico.

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O time da Coreia do Norte é mais fechado que o regime do seu ditador, Kim Jong-Il.

O problema foi o gol da Coreia do Norte, autoria do Yun Nam, se ele não tivesse sido feito, hoje os nossos jornais estariam classificando de satisfatória a vitória brasileira.

Não foi, portanto, um problema o gol de Yun Nam, foi uma solução: com ele, o Brasil fica advertido de que não é uma grande seleção, que não conta com jogadores brilhantes e que vai ter de fazer muita força para se tornar hexa.

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Resta agora só saber se o Brasil se dará bem nesta Copa contra adversários que não jogarão retrancados, terá mais espaço para atacar? Ou soçobrará na defesa, que afinal tomou um gol ontem de um time retrancado?

O Brasil saiu de campo ontem debaixo de uma dúvida: é só aquilo que joga? Se for só aquilo e caso não seja auxiliado pela arbitragem, não traz o título.

Tudo indica que Costa do Marfim e Portugal sejam melhores que a Coreia do Norte. E, diante desse time que é o pior do grupo, a Coreia do Norte, o Brasil teria conseguido ontem a vitória rala e inexpressiva de apenas 2 a 1.

Barbas de molho, seu Dunga!

* Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora