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O cronista fingidor

30 de julho de 2010 5

Grande sacada publicitária da Unimed: “O melhor plano de saúde é viver. O segundo é Unimed”.

Torço para que minha querida Golden Cross reaja com a mesma criatividade.

*

Incrível, no Nordeste, um comandante da Polícia Militar exigiu, para fazer policiamento em um estádio de futebol, que dessem à própria polícia garantia de vida.

*

E não me sai da cabeça a sentença pronunciada por um famoso oncologista britânico: “Todas as pessoas morrem de câncer, a não ser que uma outra doença as mate primeiro”.

*

Recebo e transcrevo como exercício que faço para saber o que me move quando escrevo: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente’. Se até na poesia de Fernando Pessoa um poeta pode fingir, mais fingidor ainda pode ser o cronista; esse que convive com o imediatismo do dia a dia – no cronista, o poeta e o analista se fundem na fugaz interpretação dos fatos.

Existem cronistas cuja cultura faz com que o seu cotidiano sinta-se perfeitamente amarrado à história. Cada acontecimento é o resultado das conhecidas influências sociais e políticas do passado e do presente. Outros, apenas vivem o pico do momento colhendo as emoções disponíveis e as devolvendo em forma de palavras.

Coerência! Difícil encontrá-la no cronista. Nessa necessidade de escrever todo dia sobre qualquer coisa, com ou sem emoção, ele faz a poesia dos fatos que mudam e, assim, também ele vai mudando o foco da sua lente de espiador da vida.

Paulo Sant’Ana, ao escrever suas crônicas usando do ufanismo de Pablo, é capaz de fingir uma vaidade que não sente. Intimamente, jamais conseguiria se desfazer da sua essência de boêmio e de poeta popular; de seus companheiros fraternos, reais ou imaginados, dos diálogos casuais, e das suas longas noites de canções.

Concordo quando Pablo diz que suas melhores crônicas foram escritas com emoção. Lembro de uma, publicada há muitos anos, onde em frente ao espelho enxergava em si a imagem do próprio pai. Eis ali o homem numa tradução de imensa sensibilidade.

O cronista está descaradamente blefando quando diz que é contra a Copa do Mundo no Brasil. Como poderia ser contra o esporte que o trouxe ao encontro primeiro da multidão de gremistas, e depois ao reconhecimento de milhares de pessoas de todas as bandeiras? Como ninguém ele quer essa Copa, mas judia do seu desejo e assim derrama palavras capazes de cooptar admiração, mas também de instigar a uma nova conscientização através duma espécie de provocação socrática.

Suscetível, como tantos outros, a essa provocação filosófica, diria que é uma fingida coerência pensar em trocar o dinheiro da Copa do Mundo pela segurança pública e construção de hospitais e estradas. Se isso fosse verdade, onde estão então tais benefícios se em exatos 60 anos nenhuma Copa do Mundo foi sediada em nosso país, cadê o dinheiro dessas décadas de economia?

Na realidade, o Brasil não é um país pobre, pois se trata da oitava economia do mundo. O que existe por aqui é uma brutal má distribuição de renda. Um pouco mais de organização social pode bancar a Copa, as Olimpíadas, e uma imensa infraestrutura nacional.

Ao contrário do gol do Pelé, ao escrever cerca de mil crônicas, ainda temos muito caminho a percorrer, e muito a apreender até quiçá chegarmos próximos à emoção do espelho e das 13.000 crônicas do mais lido cronista gaúcho. A um mero aprendiz do feitiço das palavras não cabe contestar sua técnica bem-sucedida. Resta saudá-lo pelo mais novo livro, e igualmente desejar votos de muita boa sorte e otimismo ao Mano Menezes na Copa do Mundo do Brasil e da nossa geração. (ass.)

Vilnei Maria Ribeiro de Moraes, engenheiro civil (vilneimaria@bol.com.br).”

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

Comentários (5)

  • Eunice diz: 30 de julho de 2010

    Parabéns Vilnei, muito bem colocado teu texto, cadê os hospitais, a segurança, a educação de todas essas decadas q n sediamos uma copa?
    Se durante todo este tempo n tivemos, vamos agora nos privar de viver a emoção de uma copa do mundo em casa. Isto não é justo!!!!!!!!!

  • Paulo Fernando Villas-Bôas M. diz: 30 de julho de 2010

    Prezado Santana, analisando sua coluna e os comentários paralelos relacionados à organização do maior torneio mundial de futebol profissional do planeta, é de minha opinião que devemos priorizar o que é importante para nós brasileiros, os quais, segundo inúmeras opiniões, vivemos desorganizadamente em uma oitava economia. O índice que mede, atualmente, de forma mais fiel a situação global de uma nação ou região é o IDH. Assim, de nada adianta teimarmos em afirmar que o Brasil é oitava economia mundial e, consequentemente, respaldados nesta verdade, insistirmos em realizar eventos de primeiro mundo se, nosso IDH comparativamente a outras nações que já sediaram eventos desta natureza, é bastante inferior – (infelizmente, a escolha do pais sede, em muitas ocasiões não contempla aspectos técnico-econômicos, mas sim, políticos!!!) – Além do mais, em termos econômicos, nosso pais apresenta uma economia bastante díspar, abrangendo estados e/ou regiões economicamente bastante diferenciadas em relação a outras. Estados como SP, RS, SC, MG e PR certamente teriam melhores condições estruturais de abrigar o evento, considerando diversos aspectos, como por exemplo a “maior” facilidade de assistirmos um jogo no Beira-Rio numa terça-feira e duas horas depois estarmos acomodados em um hotel vislumbrando o Cristo Redendor, contrariamente ao restante do continente Brasil, onde há uma carência de infra-estrutura básica muito superior àquelas regiões. Naturalmente, estes estados teriam de se reorganizar de forma satisfatória, modernizando seus diversos parques, gerando uma matriz condizente com a amplitude do evento. Não se pode nivelar uma realidade encontrada em Manaus, uma das sedes da próxima copa, com uma cidade como Curitiba, por exemplo, igualmente outra sede. Sem preciosismos, falando claramente, o impacto gerado para organizar uma copa em Curitiba, é muito menor do que em Cuiabá, por exemplo. Assim, sob esta ótica, desprezando os aspectos políticos, sou favorável a realização da copa do mundo restritamente na região sul-sudeste, cuja problemática regional é, soberbamente menor do que a encontrada nas regiões NE, CO e N. Seria discriminação? No meu entender, não. Apenas e tão somente seriam adotados critérios técnicos, não políticos. Ademais, até o presente momento, todas as copas foram realizadas em paises expressivamente pequenos e/ou sempre envolveram cidades importantes (quase sempre, capitais e cidades maiores), cuja infra-estrutura básica permitisse o mínimo de confiabilidade no tocante ao seu perfeito desenvolvimento. Exemplificando de forma grosseira, quando as olímpiadas ocorreram na ex-União Soviética, maior pais em extensão do globo, todas as competições foram sediadas em Moscou. Certamente, quando tivermos competições desta importância na China ou Rússia, os jogos estarão centralizados em suas capitais ou capitais de regiões suficientemente estruturadas e desenvolvidas. Saudações..

  • Carlos Santos diz: 30 de julho de 2010

    O GOVERNO é o maior promotor da má distribuíção de renda.
    Analisem bem e costatarão.
    Então é exatamente o que o povo quer, pois mais de 80% aprovam.

  • carlitos nietzshe diz: 30 de julho de 2010

    Vou responder para onde foram os recursos nos 60 anos sem Copa no Brasil. Para um dos tantos RALOS que existem e que servem para desviar as receitas da União e dos Estados. Alguns deles, com o advento da Copa, serão simplesmente alijados temporariamente para que a Copa possa ser “viabilizada”.

  • maria lucia martins e silva diz: 30 de julho de 2010

    Vilnei: que belas palavras!!!! roubaste o espaço do Santana, li e até me veio lágrimas nos olhos… parabéns, pela sacada que tens deste nosso querido poeta fingidor…

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