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Posts de agosto 2010

As minhas mãos

31 de agosto de 2010 13

Para que vos quero, para que me servis, minhas mãos, se já não posso tocar convosco nem mais uma ilusão ou sonho?

Tristes mãos minhas, que não mais acariciam nem possuem mais a coragem de colher uma flor!

Mãos já incapazes de empunhar uma bandeira, sequer de afagar um cão.

Para que servis, minhas mãos, que antes tantas obras forjastes? Hoje mal que tremulamente ofereceis uma esmola.

Ainda bem que nunca se tingiram de sangue nem jamais se entregaram ao ócio. O que no entanto exijo de vós, mãos minhas, é que desmascareis os hipócritas e surreis os impostores.

* * *

Tanto estou a desconfiar de vós, minhas mãos enfastiadas, que temo que estejais dispostas eventualmente a dar tapinhas nas costas dos poderosos iníquos.

Para que servis hoje, minhas mãos decagonais, senão para arroubos de lascívia?

Temo até que deixastes, minhas mãos, de ser esperançosas nos vossos acenos de adeus.

Mãos caídas, impotentes já para esplêndidos gestos de aceite ou de recusa.

* * *

Vós vos finastes, minhas mãos. Talvez até para os abraços sinceros. Nunca mais vos atrevestes à poesia dos empurrões e das mãos dadas nas rodas de ciranda do colégio infantil.

Se só me servis para escrever, é escassa vossa serventia: eu precisaria de vós, minhas mãos, mais do que para ideias, precisaria para grandes atitudes. Como a de, por exemplo, enfrentar o poder nas mãos dos maus.

Mãos arrasadas perto do que fostes, decepcionantes perto do que prometíeis.

Olho para minhas mãos e não acredito que elas existam, como se me restasse ser uma Vênus de Milo.

* * *

Fito minhas mãos e vejo que nada mais cresce nelas, exceto minhas unhas.

Reagi, mãos minhas! Talvez ainda hoje haja tempo para grandes obras.

Atirai para longe – depressa que o tempo é curto – este destino de desencantos e amargores.

Talvez ainda haja ensejo, minhas mãos, para mudar o que pode ser transformado.

Livrai-vos, minhas mãos, dos entraves das vossas luvas, que vos tiram a força, o jeito e a impetuosidade, além de tornarem vossos dedos insensíveis.

Cruzai os teus dedos e que este enlace de oração vos leve novamente a produzir carinho e cuidados nas crianças e no ideal, além de estapear as desonras.

Mãos em que um dia depositei toda minha esperança e fé, voltai depressa a ser desprendidas, corajosas e realizadoras.

Livrai-vos dessa paralisia e dessas impurezas e tentai como antes, mais uma vez, vos agarrar à cauda luminosa do cometa do otimismo.

*Texto publicado em ZH desta terça-feira

São Paulo

30 de agosto de 2010 21

Depois de me submeter a uma cirurgia plástica excelentemente sucedida, pelas mãos mágicas do médico Renato Viera, estou voltando hoje a escrever nesta coluna.

Antes da cirurgia, fui a São Paulo visitar meus netos e seus pais. E, lá estando durante quatro dias, pude observar mais profundamente o milagre brasileiro que representa São Paulo.

*

Em primeiro lugar, existe lá o engarrafamento no trânsito que existe aqui.

Porém, o engarrafamento de lá é atenuado por uma medida espetacular tomada pelas autoridades: é permitido aos táxis, com passageiros, trafegar nos corredores de ônibus. Que maravilha!

Essa medida tinha sido cogitada em Porto Alegre, parece que está em estudos. Pois eu quero encorajar a EPTC daqui a adotar imediatamente a medida entre nós.

É quase redentora a medida. Não só alivia o trânsito nas faixas normais como também desafoga os passageiros dos táxis, que assim vão em frente sem os empecilhos do engarrafamento.

Sensacional a medida.

*

Mas ainda falta algo a dizer sobre a medida: em determinados horários, de fluxo mais moderado, é permitido a todos os veículos, absolutamente todos, trafegarem nos corredores de ônibus.

Ou seja, com criatividade, São Paulo vai lutando contra o engarrafamento, pelo que é imperioso que aqui obedeçamos a esta lição.

*

Mas tenho mais e muito para contar de São Paulo, cidade que só fui conhecer agora, pelo que me entrego a este embasbacamento caipira.

Vocês, meus leitores, não acreditam no que vi em São Paulo! Já falei aqui da dificuldade cada vez mais crescente de se estacionar em Porto Alegre.

Pois São Paulo demonstra aí também grande criatividade. Acontece que não é só nos restaurantes que os clientes entregam seus carros na portaria para manobristas.

Lá em São Paulo, todas as lojas térreas das grandes avenidas e das ruas menores usam manobristas. Quem vai às lojas fica descansado: pode sair de casa tranquilo, que não terá problema para estacionar. Na porta dos estabelecimentos, seu carro será entregue a um manobrista que o levará não sei para onde, eles sabem…

Mas não é esta uma grande ideia para revitalizar o comércio fora dos shoppings? E não é uma grande ideia para as lojas que não estão nos shoppings atualmente?

Luminosa ideia!

*

Vi um shopping novo, o Cidade Jardim, que penso não exista nada igual no mundo: todo o shopping é coberto por uma floresta de galhos e folhagens, um shopping ecológico.

E incrível: você marca hora num cinema desse shopping e assiste ao filme acomodado em poltrona de primeira classe de avião!

Devemos nos orgulhar de São Paulo, vi lá coisas do arco-da- velha. Em muitos itens, São Paulo bate de goleada a Nova York que eu conheci bastante.

Que cidade!

* Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora

Oito de ouros

28 de agosto de 2010 2

Por Alexandre Bach, interino

De todos os meus mestres no jornalismo, sugo o máximo para criar minha definição do que é notícia. Os conceitos que já colhi, e ainda colho, são muitos, mas o que mais gosto foi um que li: jornalismo é contar uma boa história de forma envolvente.

Penso muito nisso, principalmente nesse tempo atual, quando a internet nos obriga erradamente a discutir mais a forma do que o conteúdo. Seja no passado, seja hoje, seja daqui a 300 anos, jornalismo é contar uma boa história. O que vai mudar é como a gente vai passá-la adiante.

Tento alertar a nova geração disso, que as pessoas não existem na internet. As histórias delas se refletem lá, são discutidas no mundo digital, mas ocorrem nas nossas ruas, nas nossas casas, entre nossos amigos. Tudo na vida real. É a vida real a matéria-prima que precisamos remexer para cavar as boas histórias. Mas não é uma tarefa difícil: bastar estar com os olhos voltados para o mundo, pois, quando menos se espera, 33 homens ficam soterrados entre galerias de uma mina, no meio de um deserto, abaixo de 700 metros de areia. Estão enterrados vivos no Chile.

Isso é uma boa história.

Primeiro, fiquei feliz quando os primeiros sinais de vida brotaram do fundo da terra. Eles estão vivos e bem, como informou o bilhete escrito à mão em tinta vermelha num pedaço de papel. Segundo, fiquei surpreso com o primeiro pedido. Queriam escovas de dentes. Quem vai lembrar da higiene bucal numa situação dessas? Terceiro, fiquei estarrecido com a primeira manifestação do grupo: unidos, os mineiros cantaram o hino do Chile. Quem vai pensar na pátria numa hora dessas?

Costurar todos esses detalhes intrigantes de uma jornada forçada ao centro da terra vai render uma boa história. Tanto quanto a dos sobreviventes dos Andes, o grupo de 16 rapazes uruguaios que em 1972 sobreviveu a 71 dias na neve andina comendo carne dos próprios colegas mortos no acidente aéreo que os isolou lá.

Do árido deserto chileno, além de uma grande história jornalística, vai nascer uma inigualável lição de vida. Já avisados, os mineiros se disseram conformados com o fato de o resgate demorar quatro meses para chegar. Provavelmente, vão passar o Natal entre a poeira e a escuridão do subsolo desértico, e não no calor de suas famílias. E quando o Ano-Novo chegar, vão renascer das entranhas da terra, depois de uma gestação em um útero sufocante, mas forrado de esperança.

Os mineiros chilenos vão nos legar a importância da perseverança. Lembrei de um momento que vivi, dia desses, num desses eventos promocionais. Um mágico que fazia parte da alegria toda se aproximou e me pediu que separasse uma carta do baralho. Peguei um oito de ouros. Assinei na face com uma caneta preta.

Pois o mágico fez o oito sumir duas vezes e aparecer no meio do baralho. Por fim, a carta surgiu no bolso interno de seu casaco, dentro de uma carteira que estava dentro de outra carteira. Não me perguntem como.

Mandei fazer um quadro do oito de ouros e tenho aqui na minha sala, ao alcance dos olhos e do coração. Serviu como uma lição para mim, e certamente é a mesma que embala a vontade de viver dos mineiros chilenos neste momento. Na vida, a gente consegue tudo. Basta usar as mágicas certas.

*

Aviso aos navegantes: nosso mágico maior volta amanhã.

* Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora

Ela se chama Tieta

28 de agosto de 2010 1

Por Moisés Mendes, interino

Andei lendo que a irracionalidade está na moda de novo. Atitudes aparentemente não sensatas, não comandadas pelo que seria a razão, movem a inventividade, a ciência, as artes, as relações humanas. É uma conversa antiga, dessas que vão e voltam. Eu convivi por muito tempo com uma tentação irracional por culpa das minhas origens fronteiriças. Lembrei disso agora que está começando a Expointer.

Queria um dia chegar a um leilão, de boina, jaqueta campeira uruguaia e calça frisada, me abancar e comprar uma égua crioula. Não qualquer uma, mas a estrela do remate. Seria minha loucura da maturidade. Disputaria um animal lance a lance com vários pretendentes. Dou mais 3 mil, dou mais 5 mil e dou mais 10 mil. Até ouvir o leiloeiro bradar: o comprador da égua Tieta da Santa Angélica é o senhor Alejandro Castiglione Martinez de Reyles, do Uruguai.

Usaria pseudônimo. Don Alejandro seria parte da fantasia. Não me interessa que saibam quem eu sou. Me interessaria captar os olhares de admiração. Ouvir os aplausos que fecham os grandes negócios. Só me identificaria na hora de pagar. E pagaria com cheque, para ter o prazer de preencher por extenso, lentamente: noventa e oito mil e seiscentos reais. Como não detenho ações da Vale ou da Petrobras, minha irracionalidade tem limites.

Dia desses, conversei sobre isso com o Décio Guerreiro de Lemos. Décio faz remates desde guri, quando ajudava o pai, seu Fidelcino, primeiro leiloeiro lá de Vacaria. Faz leilão, bate martelo, e também faz pista. Fica ali na volta dos compradores pegando os lances. Pois o Décio me disse que essa compra no impulso está cada vez mais rara. Chamavam de compra no uísque com pagamento na mineral. Compravam na euforia e pagavam na ressaca.

E me contou que o comprador de gado vai na razão, é calculista. O comprador de cavalo segue a emoção, se apaixona pelo bicho. Dá um tchan. O Décio me presenteou com um calendário da Cabanha Santa Angélica e senti o tchan quando vi a foto da égua Tieta. Uma zaina colorada de cabeça empinada, arrogante. A Tieta é uma obra de arte. Tem três patas brancas. Só uma pata, a dianteira direita, é zaina. Parece ter sido pintada pelo Velázquez. Quantos garanhões já suspiraram por Tieta?

*

Eu, dono de Tieta. Então pensei nos aplausos, e o Décio me alertou. Nem sempre é assim. Me disse que certa vez o fazendeiro Geraldo Bordon comprou tudo que havia à venda e foi vaiado. Esculhambou com a brincadeira. Um remate, como se dizia antigamente, é um ritual. O Décio, que o chefe dele, o Marcelo Silva, chama de Gordinho, vira adrenalina pura num leilão. Sente-se um ator. Aquilo é o meu palco, me disse. E ficou com cara de guri chorão quando falou do seu Fidelcino.

A prosa boa, com Tieta ali nos olhando, quase mexeu com minha irracionalidade. Mas não me animei a perguntar quanto custaria a égua. Estou com o calendário em casa, ao lado do computador. A página com a foto da zaina é do mês de junho de 2011. Os outros meses que esperem. O tempo é coisa para gente racional demais.

*

Pelos mails que recebi, não querem a volta do Ronaldinho para o Grêmio. Está bem assim. Fiquemos com o que temos. Até o sofrimento vicia.

*

Ao fazer e refazer a lista dos parceiros do tempo de Livramento ontem, deixei de fora, numa barbeiragem, o nome de Wolmer Jardim. Era o primeiro da lista. Tua cidade adotiva pede socorro, compadre.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

Por que uma cidade fica feia?

27 de agosto de 2010 6

Por Moisés Mendes, interino

O argentino Lescano tinha uns 70 anos e comia ovos cozidos enquanto fazia caricaturas no meu tempo de Livramento. Levava um vidro com salmoura para o jornal, enfiava uma colher e ia devorando uma dúzia de ovos enquanto caricaturava alguém para as páginas de A Plateia. Nanquim no papel, traço vigoroso, limpo, esse traço clássico dos desenhistas platinos.

Lescano saía tarde da noite do jornal e ia jogar no cassino de Rivera, de terno de linho branco surrado, sempre silencioso, lento, com o olhar na calçada. Levava o vidro vazio sob o braço. Voltava no dia seguinte, o vidro cheio de ovos cozidos, os bolsos vazios.

Lembrei do Lescano, do Santamaría, João David, Basile, João Afonso, Gringo Alvim, do Martín Correa e do Pintinho quando estive em Livramento há pouco.

O mestre Basile morreu. Santamaría, Martín e Alvim eu sei por onde andam. Lescano estaria hoje com uns 105 anos. Teria durado tanto comendo ovos cozidos todos os dias? Ninguém soube me dizer, nem o Duda Pinto, que sabe tudo da cidade.

Claro que a Livramento por onde Lescano circulava, como se carregasse o caixão de Perón e toda a melancolia argentina dos anos 70 naquele vidro com ovos, não existe mais. Mas a cidade vista hoje por quem chega de fora é um desses mistérios que acionam uma pergunta incômoda: por que um lugar se degrada e se desfigura? Será por que os atrativos do freeshop de Rivera relegaram Livramento à condição de extensão do Uruguai?

Como deixaram a linha de fronteira que divide as cidades ser tomada pelos ambulantes, que fizeram sumir entre as barracas os galgos da praça dos cachorros? Que desatenção encascurrou casas e edifícios bonitos e transformou o belo Palácio Moyses Vianna da prefeitura num ambiente assustador? Que mecanismo paralisou Livramento?

Alguém disse, há muito tempo, que Livramento é a mais carioca das cidades gaúchas. É uma boa definição para um lugar em que a convivência de brasileiros e uruguaios resulta num tipo único, cordial, alegre, boêmio, festeiro. O santanense é o mais suave dos fronteiriços. Por que a cidade dessa figura faceira perdeu a graça?

*

Enrique Peñalosa, o ex-prefeito que civilizou Bogotá com ciclovias e espaços públicos de convivência, diz que as cidades não são bonitas e agradáveis por que são ricas. Quem for a São Lourenço, na zona sul, terá um exemplo do que Peñalosa pensa. A minúscula São Lourenço é uma cidade agradável, limpa, com prédios pintados, e não é rica. Percebe-se que cuidam de São Lourenço há muito tempo.

E o que se passa com Livramento? Pode ter sucumbido a uma crise de autoestima? O comércio do freeshop, que aos poucos também degrada Rivera, transformou a fronteira aberta entre as cidades gêmeas num cenário de invasores. Compra-se tudo e com voracidade, de azeitona à TV de LCD, do lado de lá. Livramento é só o ponto de passagem. O real forte e a classe média em expansão podem ser parte de uma explicação, ou podem também ser apenas uma desculpa.

*

Ronaldinho foi ovacionado pela torcida no Nou Camp, na quarta-feira, no jogo do Milan com o Barcelona. Um dia isso se repetirá no Olímpico, quando Ronaldinho voltará para ficar. Renato, Ronaldinho, Arena. Será a ressurreição da imortalidade.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora

Maluf vem aí

26 de agosto de 2010 9

Por Moisés Mendes, interino

Nada é mais comovente na política do que o esforço de Paulo Maluf para ser reconhecido como honesto. Agora mesmo, Maluf foi pego pela Lei da Ficha Limpa. Segundo o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, não pode concorrer à reeleição a deputado federal. Maluf vai recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral e, diz nossa intuição, vai ganhar.

O TRE não impediu a candidatura de Maluf por desvios de recursos de viadutos, mas porque comprou frangos superfaturados quando era prefeito de São Paulo. Maluf sempre gostou de compras superfaturadas. Fuscas para a Seleção de 70, pregos, cimento, merenda, abóbora, ovos, mandioca, tijolos.

Quase tudo que Maluf compra tinha rolo. Toda obra grandiosa resultava em desvios. Mais de R$ 300 milhões desaparecidos da construção de túneis e avenidas foram parar em contas de Maluf no Exterior. Maluf já esteve preso por alguns dias, foi solto e nunca recambiaram o dinheiro que levou para fora do país. Maluf flana porque tem advogado e tem voto.

Fui à página da Câmara na internet e busquei dados sobre Maluf. Há um link para projetos apresentados. Talvez eu não saiba procurar direito, mas não achei nada de relevante. Maluf é relator de um monte de projetos. Encontrei um pelo menos curioso. Ele relatou uma proposta do deputado Pompeo de Mattos que torna obrigatória a instalação de câmeras de filmagem nos shopping centers e similares.

Maluf relatou o projeto como integrante (acredite) da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. O deputado deu, claro, parecer favorável. Afinal, as câmeras evitarão furtos em shoppings. Está escrito no relatório que o projeto é acolhido por sua “constitucionalidade, juridicidade e boa técnica legislativa”.

Não diz ali se o projeto já foi votado em plenário. Mas se sabe que os shoppings, com ou sem lei, estão cheios de câmeras. Imagine que a preocupação com o patrimônio e a segurança dos shoppings foi parar nas mãos de Maluf. E os humoristas, coitados, impedidos por lei, não têm o direito de nos fazer rir com uma façanha dessas.

A legislação que impede a ridicularização dos políticos com trucagens e montagens de imagens e áudios na TV é de 1997 e provocou agora uma resolução do Tribunal Superior Eleitoral. O TSE foi duro na interpretação da lei. Proibiu que alguém faça qualquer piada com políticos na TV – por exemplo, com essa história das câmeras nos shoppings. Eu queria ver o Casseta monitorando o Maluf olhando frangos de feltro numa loja de decoração.

O humorista Helio De La Peña, do Casseta, andou se queixando. Disse que a lei dá a entender que os humoristas vinham fazendo bullying com os pobres dos políticos. Indefesos, foram protegidos por uma lei de 1997 que eles mesmos fizeram. Por isso, os programas de TV estão sem graça nesta eleição. Se o Maluf pode rir da gente e a gente não pode tirar sarro do Maluf, vamos rir de quem? Sorria, pelo menos, porque você está sendo filmado graças a uma lei relatada por Maluf, o guardião dos shoppings.

*

Correu tudo bem com a cirurgia do Sant’Ana, que volta logo com o rosto remoçado. Aguardem o retorno de Pablo. Agora, só falta a cirurgia geral no Grêmio. Aceita-se todo tipo de sangue.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

Saudade do Enéas

25 de agosto de 2010 5

Por Moisés Mendes, interino

Sou um crédulo. Durante muito tempo, temi que o mundo rico se apoderasse do nosso nióbio. O nióbio seria o nosso pré-sal dos anos 90. O Enéas Carneiro alertava e eu acreditava: estão levando o nosso nióbio. Levariam também o nosso titânio. Enéas esclarecia que o titânio é um metal decisivo para o isolamento de caldeiras e também para a dessalinização da água do mar. Sem titânio, poderíamos ser condenados a beber água salobra em pouco tempo. Na infância, bebi muita água salobra em Rosário e Alegrete. Não gostaria de beber de novo.

E ainda tinha o nosso quartzo, que é da melhor qualidade. Sem quartzo, dizia o Enéas, não se constrói microcomputador. Eu acreditava nas advertências do Enéas como acreditei no Bug do Milênio em 2000. Enéas era o nosso Antônio Conselheiro. O mundo estava acabando, o sertão ia virar mar, sequestrariam todo o nosso nióbio, esgotariam nosso quartzo.

Faz falta uma figura como Enéas nesta campanha. Imagino o que Enéas faria hoje com o pré-sal. Mandaria lacrar todos os poços. Enéas não era pouca coisa. Era médico, dava conferências, tinha reputação. Surgiu na eleição de 1989, a primeira depois da ditadura, ao lado de Lula, Collor, Ulysses, Brizola, Covas. Que timaço. Não era um cacareco, mas alguém a ser levado em conta. Em 1994, fez mais votos do que o Brizola.

Uma campanha sem um Enéas é uma campanha cartesiana, de fala ensaiada. Falta uma fala solo. Não há cabelos, nem dentes, nem vírgulas fora de lugar numa campanha assim. É uma campanha profissional demais, dirigida demais, cinematográfica, cuidadosa, previsível. Enéas tinha ginga, era barbudo e careca. Olhava para a câmera como esses artistas amadores olham pra gente no YouTube. Tinha o poder de síntese do Twitter. Dizia em oito segundos o que o grande Ulysses levava 10 minutos para dizer.

Sinto saudade do Enéas porque ele fazia o contraponto ao que seria sério com a mesma simulação de seriedade, a mesma capacidade de assertiva, de convencimento e de horrorizar. Enéas foi um Jânio que não deu certo. Sem um Enéas, sem um Jânio e até sem um Collor, fomos abandonados ao excesso de seriedade.

Enéas não era um Tiririca, um candidato esdrúxulo que debocha da própria candidatura com a cumplicidade de eleitores anarquistas. Era mais complexo, declaradamente reacionário, militarista, moralista. Com esses candidatos que andam por aí, não tenho medo de nada. Nem do alerta de que uma revolução temporona está por chegar. Temo apenas que não estejam cuidando direito do nosso nióbio.

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Sobre o canto antecipado dos sabiás por causa do calorão: dizem que os sabiás já cantavam no invernão de julho pros lados do Beira-Rio. E que os tico-ticos têm sido vistos cantando como quero-quero na volta do Olímpico. O tempo e a Libertadores enlouqueceram os bichos.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora

Benemerência de gremista

24 de agosto de 2010 43

Por Moisés Mendes, Interino

Um paulista que morou em Porto Alegre nos anos 90 teve uma ideia paulista para acabar com a rivalidade exacerbada de gremistas e colorados. Paulistas têm ideias e projetos para tudo, inclusive para como sobreviver no mar em caso de queda de avião. Aprendi uma vez com um deles, durante um voo, que é só nadar durante o dia e boiar durante a noite.

Pois este outro paulista que se incomodava com o confronto azul e vermelho dizia:

– Lá, temos o Curíntia, o Palmeira, o São Paulo, a Portuguesa, tudo se dilui. Essa guerra de vocês não tem sentido.

A ideia era esta: fortalecer os times do Interior, trazer o Cruzeiro de Porto Alegre de volta para a Primeirona, fazer uma vaquinha e comprar o Maradona para o São José e pedir paz a gremistas e colorados. Tudo muito fácil. Eliminava-se aquilo que ele considerava o mais primitivo confronto de torcidas brasileiras.

Imagine esse paulista agora em Porto Alegre, depois da conquista da Libertadores pelo Inter. Aquele anúncio em que o Grêmio, primeiro Bi da Libertadores, saúda o segundo seria execrado. O paulista imaginaria algo num tom diplomático, ou quem sabe cumprimentos de porta em porta, em que os gremistas sairiam pela cidade a felicitar os colorados. Um Gre-Nal viraria o 15 de Jaú contra o 13 da Paraíba.

O paulista foi embora sem realizar seu sonho e sem entender que nem tudo é tão exacerbado. Há coisas que até hoje ele não deve saber. Que, durante os anos de sofrimento dos colorados, gremistas torceram em silêncio por filhos, netos, irmãos, sobrinhos, afilhados e vizinhos vermelhos. Que por mais de década e meia uma geração inteira teve a compreensão e o apoio de familiares e amigos gremistas, condoídos com a penúria do adversário.

Eu fui um deles – não um dos consolados, mas um dos benemerentes. Era doído ver parentes em permanente estado de sofrimento. Nós, gremistas, torcíamos pela felicidade de pessoas do entorno familiar ou de vizinhança com a grandeza dos inimigos leais, o desprendimento dos superiores, a generosidade dos vitoriosos. Torcíamos pela felicidade dos próximos e pela recuperação do principal adversário. Quantos netos colorados choraram no colo de avôs gremistas, que chegaram ao ponto de torcer para o Inter naquela final contra o Barcelona.

Essa geração consolada por tanto tempo é agora um contingente de adultos vitoriosos. Mas os gremistas não pedem compensações para a compreensão que tiveram com os colorados. Fomos magnânimos. O paulista que pretendia acabar com nossas rivalidades desconhecia esses afetos. O falado anúncio da semana passada faz parte dessa gangorra e poderia desencadear uma sequência interminável de comparações que só os gaúchos entendem.

O Sant’Ana, primeiro cronista esportivo gaúcho a abrir a preferência clubística (o segundo foi o Ibsen, o terceiro foi o Guerrinha, e o Kenny chegou em quarto), opera hoje as bolsas dos olhos. É uma correção clínica e estética. Vai ficar mais bonito e enxergar melhor. Pena que melhore a visão exatamente num momento em que não há nada pra se ver nesse time do Grêmio.

Os sabiás já estão cantando. O colega Olyr Zavaschi assegura ter ouvido os primeiros cantos no sábado, na zona sul, onde eu moro. Eu e o Mário Marcos, que mora no Menino Deus, disputamos o segundo e o terceiro lugares. Ouvimos os cantos na madrugada de ontem. Não sabemos se o sabiá é o mesmo. Se até os sabiás estão se refestelando antes da primavera, por que só o Grêmio não desencanta?

As traças e o avatar

23 de agosto de 2010 6

Por Moisés Mendes, interino

Dia desses fui fazer uma pesquisa em jornais do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa. Sabia que ali encontraria o que não achei no Google. Como o prédio está em obras, entrei pelos fundos. Passei por linotipos, impressoras, prensas, equipamentos de rádio, retratos de comunicadores. Ouvi a voz de Brizola ao longe. Num espaço com poltronas, um áudio reproduzia a fala do líder da Legalidade de 61.

Brizola dizia: “Peço a vossa atenção para a comunicação que vou fazer. Muiiiita atenção. Atenção, povo de Porto Alegre, povo do Rio Grande do Sul. Atenção, Brasil. Atenção, meus patrícios, democratas e independentes, atenção para essas minhas palavras”.

A conclamação de Brizola me acompanhou até o elevador. Me senti melancólico. Fui pesquisar no Jornal do Brasil de 1991, poucos dias antes do anúncio de que o JB em papel deixaria de circular. A cada caderno da coleção mensal que pedia, a mesa ia se enchendo de traças. Andavam, paravam, se faziam de mortas. Uma família de traças devorava a coluna de João Saldanha num canto do jornal. A memória alimentava os bichinhos. O que Saldanha será capaz de fazer no metabolismo de uma traça?

Saí de novo pelos fundos, o Brizola continuava discursando, e pensei se algum adolescente seria capaz de identificar uma daquelas máquinas. Os equipamentos de hoje, o iPad, o iPod, o smartphone, o kindle irão um dia parar em museus? Que estranhamento provocarão em um guri daqui a uns 30 anos?

Uma semana depois, fui conversar sobre jornalismo com alunos do Ensino Médio do Instituto Estadual de Educação Pedro Schneider, de São Leopoldo. Era a Semana da Comunicação do Pedrinho. Juntaram numa sala 50 gurias de 16 e 17 anos do curso de magistério. Muitas chupavam pirulitos. Temi pelo pior. Como conseguiria falar por uma hora com aquelas adolescentes? O que seria de mim quando o pirulito acabasse?

Fui indo. Dizia pra mim mesmo: interação, esse é o segredo. E fui. Falamos de jornal, de texto, de leitura, até que chegamos ao mundo delas, o mundo virtual. Descobri que poucas ainda usam o Orkut. É antigo. Que muitas não curtem o Twitter, é coisa de gente mais velha. Que não usam mais o icq, só o msn. E que quase todas se comunicam pelo facebook. Quis saber se alguma delas teve um avatar na internet. Avatar? Só uma sabia o que era. A menina explicou para as colegas do que se tratava e ouviu uma murmurar: mas que bobagem.

O pirulito terminou e a conversa rolou por mais de uma hora. Remocei com a vivacidade daquelas adolescentes. Voltei para o jornal e fui investigar no Google quando ocorreu o pico do avatar, que chamavam de second life. Foi em 2007. Todo mundo tinha uma segunda vida paralela, com fazendas, amigos ricos. O seu duplo na internet faria o que você não fazia ou não tinha na vida real. Os avatares do Grêmio venciam o Ceará de goleada. Celebridades, empresas e universidades tinham avatares. O Sala de Redação também. O Kenny Braga não discutia só com o Sant’Ana. Debatia furiosamente até com o avatar dele na internet. O avatar vencia.

Se fosse hoje, cada candidato gostaria que seu avatar fosse o Lula. Vanessa Nunes, repórter digital de ZH, criou sua avatar, a Van Latynina. O mundo seria dos avatares. Pois os duplos virtuais morreram de repente. Em abril do ano passado, Vanessa referia-se a Van Latynina como “a falecida”. As gurias do Instituto Pedrinho são de uma geração que não sabe que Van Latynina existiu. E isso que a avatar da Vanessa brilhou há apenas três anos em ZH. Durou um ano e pouco.

Pensei na utilidade desse dilema, entre as traças que ruminam o João Saldanha de 30 anos atrás e a vida de zumbi dos avatares abandonados na net, que nem as traças podem consumir. O mundo virtual, aos saltos, transformou um fenômeno recente num fóssil virtual.

Dia desses, tomando café, notei que uma traça saía pela manga do casaco. Andou pela toalha e ficou quietinha, como se me mirasse. Tenho certeza de que era do Hipólito e que implorava por um texto do João Saldanha. Está ou deve estar onde a deixei, numa prateleira onde guardo o livro Uma Graça de Traça, da traça Biblió, do Carlos Urbim.

E aí você se pergunta: nós, da geração do papel, somos muito sensíveis? Então entre aqui (http://secondlife.com/whatis/?lang=en-US) e veja o que era o tal de second life. Nem o Kenny Braga aguentou.

* Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora

O segredo do amor

21 de agosto de 2010 11

Falemos de amor. Deixemos de lado as questões graves e profundas que nos cercam e mergulhemos nesta ânsia infindável de felicidade que domina o homem sobre a Terra.

Em realidade, a vida não é mais que a busca da felicidade. E, trágica ou sublimemente, o homem só se faz feliz pelo amor. A única forma de ser feliz é amar. A tristeza não é outra coisa que a ausência do amor. A depressão é quase sempre detonada pela absoluta impossibilidade de acesso ao amor. O amor é o único veículo que encaminha para a realização.

Pode ser o amor sexual, entendido assim como o de uma mulher para um homem ou o inverso ou o recíproco. Pode ser o amor a uma causa, o amor ao próximo, o amor até a um objeto, a um conjunto de coisas materiais ou afetivas, o amor ao próximo, que incendeia as almas e os espíritos dos religiosos e dos samaritanos, aqueles que atingem a suprema felicidade da existência ao doarem-se generosamente aos seus semelhantes.

O tipo de amor sobre o qual eu gostaria de discorrer hoje é aquele sentimento romântico de um homem sobre uma mulher ou o contrário. Aquele amor que em última análise importa mais do que tudo porque é dele que emana a sobrevivência da espécie humana. Aquele amor que leva à animalidade, mas no caminho é adornado belamente por uma pureza de sentimento, por um querer bem, por uma eleição magnífica, por uma escolha fulgurante, por um encontro, um achado casual ou procurado, mas sempre secretamente esperado dentro da aptidão que os seres vivos devem sempre manter para amar, se quiserem ser felizes.

O que eu queria dizer é que não há nada mais delicioso no amor que mantê-lo sob segredo, sem que o alvo dele conheça o seu crepitar. Em suma, não há nada mais entusiástico no amor do que o desejo. Goethe, um dos maiores pensadores da raça humana, tocou nisso magistralmente: “Vou ébrio do desejo ao prazer. E no prazer, ah que saudade do desejo!”.

O namoro, o flerte, a amizade dissimulada e o amor cercando essas escaramuças, mantido em segredo. O instante mais ardentemente saboroso do amor é quando se está perto da pessoa amada, quando se a vê ou com ela a gente se encontra todos os dias, ela está bem próxima de nós, conversa conosco, convive conosco, mas desconhece que a amamos. Talvez o tempero mais picante dessa relação de cuidados e estudos mútuos seja que ela desconfie de que nós a amamos. Que um e outro suspeitem que se amam. Este é o momento eterno e infinito do amor.

Eu sempre achei que o amor começa a terminar quando ele é declarado. A sentença de morte do amor é “eu te amo”. Esta revelação é sinistra, ela carrega em seu conteúdo a destruição do amor.

Se se pudesse – e não se pode – levar o amor em segredo ou em suspeita por todo o tempo, jamais se perderia o amor, jamais o fastio ou as outras todas nuanças que tornam o amor finito se deflagrariam. Tanto que o que leva o desejo a tornar-se exercício do amor é o medo da perda. Quando na verdade a perda é originada somente pelo amor concreto e exercitado.

Em toda a minha vida, os únicos grandes registros de saudade, dignos de serem recordados como momentos da mais plena felicidade, foram aqueles em que eu sabia que amava e o objeto do meu amor desconhecia essa circunstância. Ou, então, quando eu desconfiava profundamente de que estava sendo amado, sem que no entanto jamais eu pudesse me debruçar nessa certeza.

Como era estupendo saber que se amava, sem deixar que ninguém soubesse, nem a amada, do que se sentia. Fingindo. E é incomparavelmente grande o deleite de imaginar-se que aquela a quem se ama finge apenas que não nos ama.

Só enquanto isso, é grande e infindável o amor. Quando ele se decifra, morre.

*Texto publicado em Zero Hora deste domingo

O ponto G

21 de agosto de 2010 7

Desde criança, aprendi ou me ensinaram que a mulher tem um “ponto fraco’’. Ou seja, há uma zona erógena de alta sensibilidade no corpo feminino, tendo entrado na minha cabeça que caberia ao homem descobri-la se quisesse realizar-se sexualmente. Como se sabe, o homem só se realiza sexualmente se satisfizer inteiramente a sua parceira na cama.

Isso nunca saiu da minha cabeça e não sai da cabeça de nenhum homem. Recentemente, a ciência revelou a existência do ponto “G’’, uma zona periférica ou interna do corpo da mulher que ativa todas as suas energias de prazer, sendo indispensável essa descoberta para que haja a realização dela durante o sexo. Se tocar no ponto, é uma loucura.

Para dizer a verdade, eu acho tudo isso uma cretinice. Porque através dos anos muitas mulheres fizeram comigo o que fazem com todos os homens: “Descobre tu o meu ponto fraco. Não vou revelar-te. Esse é um segredo que guardo a quatro chaves. Cabe a ti a descoberta do tesouro. Se o fizeres, me conquistas’’. É mais ou menos assim que grande parte das mulheres se pronuncia ou se comporta silenciosamente.

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Em primeiro lugar, a denominação “ponto fraco’’ é inteiramente errada. Tinha que ser “ponto forte’’. Ponto fraco quer dizer que, caso seja descoberto ou tocado pelo homem, fará com que a mulher se renda. Ora, o amor não é um combate, em que um vence e outro é derrotado. Se por acaso esse ponto fraco ou “G’’ existe mesmo, a mulher não tinha nada que ocultá-lo. Parece até que ela se vitoria quando o homem não descobre o tal local erótico, tendo interesse profundo em não declará-lo ao seu parceiro. Como se a descoberta dessa chave primal do prazer fosse prejudicá-la, dando a entender que ela não quer entregar-se para qualquer um, que só o grande descobridor é que terá o direito de possuí-la inteiramente.

Se a mulher foi fazer sexo com um homem, é lógico e evidente que ela procura prazer. Por que então dificultá-lo, escondendo aquela área miraculosa que fará com que ela exploda para a total satisfação?

O que há em verdade, confirmadíssimo pelos sexólogos, é uma complicação no organismo de muitas mulheres que dificulta o conhecimento do orgasmo, às vezes até causada por inabilidade do homem. Há depoimentos e estatísticas colhidas junto ao mundo feminino que demonstram que muitas mulheres nunca tiveram orgasmo. Ou então só foram conhecê-lo depois de longos exercícios sexuais, após muitos anos. Outras, incrivelmente, têm o orgasmo e pensam que não têm. E uma grande parte não tem e acha que tem.

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Vai você, como homem, dormir com um barulho desses. Uma vez fiquei cinco anos tentando descobrir o ponto fraco de uma mulher. Uma imbecilidade minha e, acima de tudo, dela. Por que essa mulher não me abriu desde logo o jogo, dizendo onde se localizava o tal ponto fraco? Por que – e é aí que quero chegar – as mulheres não declaram de pronto a seus maridos ou parceiros qual o ponto de seu corpo que as deixa excitadíssima, facilitando assim para elas e para eles os jogos sexuais?

Que besteira e atraso é este de ficar escondendo o jogo? Se é um bafo na orelha, uma mordiscada, um beijo na axila, um leve puxão nos cabelos, por que não declará-lo francamente ao seu homem, desvendando desde já o caminho para o Éden? Não é burrice querer que o sujeito descubra por moto próprio, perdendo tanto tempo e às vezes até malbaratando um grande amor ou um enorme prazer?

Em realidade, o tal ponto fraco ou “G’’ é uma grande fraude. Nem as mulheres o conhecem. Desconfiam apenas que o têm e, com receio de não o possuírem e estarem incapacitadas temporária ou definitivamente para o prazer, transferem aos homens a epopeia de descobri-lo.

Se você for homem, não embarque nessa. Se for mulher, abra o jogo imediatamente sobre seu ponto “G’’ para seu parceiro. Ou, caso não conheça esse ponto, abra o jogo da mesma forma e esforcem-se os dois para descobri-lo.

Fica mais fácil, mais prometedor, mais transparente e, acima de tudo, mais inteligente assim.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora

Os homens errados

20 de agosto de 2010 4

É a mais importante frase, o mais fundamental pensamento que li sobre a revolução que está dominando as relações amorosas e conjugais, no que se refere às profundas modificações no comportamento da mulher na passagem de século.

A frase, que não é unicamente uma frase, mas uma ecoante lição, é de impressionante realidade. Foi vista no peito de uma mulher, na praia, escrita em sua camiseta: “Enquanto não encontro o homem certo, vou me divertindo com o errado”.

Sei de amigas minhas que delirarão com essa frase. Sei que essa frase vai agitar o raciocínio e os sentimentos de uma grande multidão de mulheres que porão os olhos nesta coluna e cultivarão esta frase como se fosse um ensinamento bíblico.

A frase, assim como está escrita, serve para muitas mulheres monógamas, as que se dedicam sexualmente a um homem só. Para as mulheres que costumam ter aventuras amorosas com mais de um homem, para fazer melhor sentido e ficar melhor assentada a elas esta frase, teria que ser mudada: “Enquanto não encontro o homem certo, vou me divertindo com os errados”. A frase, assim, ganha um outro impacto, embora ambas as frases sejam dilacerantes para a consciência do macho moderno.

Esta frase é a síntese do ponto principal da revolução do comportamento feminino que estamos presenciando: a grande mudança é que as mulheres começaram a descobrir aquilo que os homens sempre souberam exercitar: fazer sexo sem amor.

Esse era um privilégio dos homens, que submetem há séculos as mulheres à condição de objeto sexual. E, nesse sentido, nesse ritual que significava a liberdade sexual do homem, as mulheres iniciaram um processo de igualdade com os homens, significando essa metamorfose em suas vidas a conquista de muitas liberdades.

Em realidade, as mulheres em geral sempre se entregaram ao sexo pagando o tributo do amor ou da paixão, como me ensinou a psicanalista Maria Rita Kehl. E agora descobriram que não é mais preciso pagar esse preço para se realizar sexualmente ou ter uma vida sexual razoável: é bem possível obter esse prazer ou esse divertimento sem estar amando. Aí é que reside a superioridade feminina na revolução sexual a que estamos assistindo, que veio afinal dar mais segurança às mulheres e acabou por deixar perplexos os homens.

Enquanto não acham os homens certos, as mulheres vão se divertindo com os errados, esse é um comportamento feminino atual que passava despercebido até mesmo a algumas mulheres que o exercitavam. Elas o faziam inconscientemente, depois que lerem estas linhas vibrarão com a conscientização de seus atos.

Quando falei isso tudo o que escrevi acima a um amigo que está se separando de sua mulher, por vontade unilateral dela, ele me disse com tristeza as seguintes palavras: “Agora que estou deixando a mulher certa, passarei a me divertir com as erradas”.

* Texto publicado hoje na página 67 de Zero Hora

Não deu nem pra secar

19 de agosto de 2010 129

Parabéns aos torcedores

colorados, aos dirigentes

colorados, aos jogadores

colorados e aos jornalistas

e radialistas colorados que

se autoimpõem o dever

de não declararem por que

time torcem.

Todos estão de parabéns!!!

Festejem e assumam.

* Texto publicado hoje na página 71 de Zero Hora

Deus oculto no infinito

18 de agosto de 2010 60

Se um bandido quer bem a sua mãe, guarda ainda reservas no seu peito para querer bem a todas as suas vítimas.

À minha filha, que recentemente rompeu com seu namorado, dedico este poemeto:

É possível, minha filha,

Que venhas ainda a ser feliz:

Que outro namorado te queira

Como este não te quis.

Quando estiveres totalmente abandonado, quando te ladrarem todos os fantasmas do desespero, quando ninguém mais te estenda a mão e a vida para ti não passe de um pesadelo; quando te falharem todas as tentativas e deixarem de brotar no teu coração todas e quaisquer ilusões, pensa que existe um ímã, Deus, oculto no infinito, agarra-te na crença dele e deposita no seu seio toda a carga da tua última esperança.

Deus é justo, e, sendo justo Deus, ele não haverá de abandonar-te.

Há mais chance de Deus ajudar a quem cedo madruga do que a outro que se acorde ao meio-dia.

Este espaço da madrugada até a hora do almoço é suficiente para Deus agir e colocar todas as tuas coisas no lugar.

Eu nunca mais vou te esquecer, paz do meu amor.

Por mais que me excruciem todas as amarguras, por mais que eu vibre com todas as alegrias, eu nunca mais vou te esquecer.

Passarão os anos e o tempo decorrerá intérmino e nada fará com que eu te esqueça.

Teu nome e teu vulto estarão sempre colados ao pergaminho da minha pele, por onde eu for, seguindo os meus mesmos caminhos, irá grudada a mim a tua figura, o teu olhar, as tuas palavras, o teu otimismo, nunca mais me separarei de ti, bênção amada, porto seguro, tempero da minha vida.

Como pudeste me significar tanto, quase não dá para crer.

Eu nunca mais vou te esquecer.

Eu tenho vários antídotos contra os chatos. Um deles é fingir que estou surdo de um ou de dois ouvidos e também que estou sem voz.

No caso da surdez, até que não preciso fingir muito, meu ouvido esquerdo não ouve mais nada.

Mas então o chato me aborda, se apodera de mim e faço com que ele sinta que estou surdo e sem voz.

O chato insiste em se comunicar comigo, mas aos poucos vai trombando com minha pseudodificuldade e logo desanima. E se manda.

A isso se chama um método eficaz de matar o chato no cansaço.

Depois de longos anos sem férias nesta coluna, estou arranjando umas férias para rever minha filha, que não vejo há quatro anos, em São Paulo, para onde vou agora.

Na volta, submeto-me a uma operação com o cirurgião Renato Viera, uma reparação estético-funcional que pode melhorar o meu aspecto facial e guaribar o funcionamento das minhas pálpebras.

Ainda devo aproveitar a última coluna antes das férias, a de amanhã, para dar os parabéns para os colorados pela conquista do bi da Libertadores, título que nós, gremistas, já temos mas que agora os danados vermelhos vão igualar.

Ou seja, o Grêmio foi bi da Libertadores há 20 anos. Agora, chegam atrasados para a mesma façanha os colorados e ainda querem sentar na janela…

E lá vou eu…

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora

Chatos com grife

17 de agosto de 2010 11

Escrevi sobre os chatos anteontem, mas para mim o tema não se esgota.

O chato possui muito mais tempo do que a gente. Aliás, só não suportamos os chatos porque não temos tempo.

Se tivéssemos tempo, nós também seríamos chatos: toda pessoa que tem tempo e não se entrega por isto à solidão é uma chata.

Podem olhar: todas as pessoas que não usam relógio no pulso são chatas. Por isto é que se diz que o chato não tem noção do tempo. Eu, por exemplo, conheço um sujeito que sempre foi considerado o “chato do seu tempo”.

O chato parece que desfruta de mais de 24 horas por dia. Para chatear.

Outra coisa: o chato pode ser chato, mas ele é sempre polido. Ele sempre se apresenta cheio de mesuras para nos chatear.

Nunca se ouviu dizer que um chato foi grosseiro. Eles são até delicados demais, a menos que o finjam para nos engrupir com sua abordagem.

É que o chato precisa empregar delicadeza e jeito para puxar conversa conosco e exercitar sua chatice.

Se não tiver habilidade, será rechaçado pelos maus modos, o que o impedirá de nos chatear.

Sendo assim, não existe chato calado. Nem existe chato antipático. A única coisa antipática no comportamento de um chato é a sua chatice. Não fosse ela, o chato seria uma amizade sedutora.

Os chatos são tão visados que adquirem grife. Existe, por exemplo, o Chato do Barranco, também o Chato do Gambrinus, o Chato do Galeto do Marquês. O Chato do Pampulhinha, o Chato do Dado Bier.

No Panchos, por exemplo, o Chato do Panchos é sempre posto pelo dono do restaurante na pior mesa, aquela do canto, lá longe, para causar-lhe mais dificuldade nas abordagens com os outros clientes.

A pior coisa que pode acontecer a um restaurante é ter mais de um chato, em seguida ele se esvazia.

Um chato por restaurante é uma dose razoável.

O pior é quando o chato é o dono do restaurante. A primeira atitude do chato que é dono do restaurante é a de sentar à mesa do cliente, pedindo ou não licença.

Esses dias, me encontrei num restaurante com um cara que me chateou tão arduamente, que ameacei: “Se continuar me chateando, vou chamar o dono deste restaurante”.

E o chato: “Sou eu mesmo, estás falando com ele”.

Levantei e fui para outro restaurante, onde pelo menos o chato não era o dono.

Eu estou ficando chato de tanto colecionar chatos. Talvez eu detecte tão bem os chatos por pertencer à categoria deles.

Casaram-se esses dias o otorrinolaringologista Sady Selaimen da Costa e a fonoaudióloga Sílvia Dornelles, dois ases em suas profissões.

Sabem como é, se conhecem nas clínicas e nos hospitais, vão fazendo amizade, coleguismo, daí para o amor é um passo.

Foi assim que o Sady e a Sílvia se casaram este ano.

Sempre que me encontro com os dois, só eu falo, ele por se otorrino e ela fonoaudióloga, só escutam.

O casal comigo é todo ouvidos.

* Texto publicado hoje na página 55 de Zero Hora