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Posts de setembro 2010

Cadê o homem?

24 de setembro de 2010 7

As colunas não são mais publicadas aqui no blog, mas o Paulo Sant’Ana, onipresente que é, não ia abandonar a vida digital assim tão fácil. Na verdade, ele foi desta para uma melhor: saiu daqui do blog e entrou para o Youtube.

 No www.eisohomem.com.br coube uma boa amostra dos 71 anos do “homem que nunca inventa histórias, mas cria muitas a sua volta”, como a vez em que apareceu de cueca na frente da direção da CBF, ou aquela outra ocasião em que apresentou o Jornal do Almoço de vestido – o melhor é que quem narra estas e outras histórias no site não é o Paulo, nem o Pablo, muito menos o Pablito: quem relembra a biografia do colunista são seus colegas de casa e profissão. 

 Dizem que quem conta um conto sempre aumenta um ponto. Vejamos então quantos pontos a mais existem nas versões criadas por Cristina Ranzolin, Moacyr Scliar, Túlio Milman e outros tantos, neste site que tem um pouco de fatos, um pouco de lendas e muito de Paulo Sant’Ana.

Colunas ZH

14 de setembro de 2010 49

O fim do fumódromo

07 de setembro de 2010 32

Há boatos insistentes de que vão acabar com o fumódromo de Zero Hora. Estes boatos só se cotejam com outro: o de que vão apenas mudar o local do fumódromo.

Seja o que decidirem os burocratas, que só decidem, enquanto nós, frequentadores assíduos do fumódromo, só pensamos, se optarem por acabar com o fumódromo, vai perder o nosso jornal.

Porque, mesmo não tendo nada contra os não fumantes, só ali no fumódromo há circulação de ideias no jornal.

Ali no fumódromo, brotam as ideias mais altas e mais profundas.

Os fumodreiros detestam o óbvio, dedicam-se apenas a criar. Não me espanta que os burocratas, atendendo aos boatos sinistros, estejam a lucubrar a destruição do fumódromo.

Os burocratas só sabem destruir.

*

Esses dias, um estudante de Jornalismo me entregou um texto seu para que o examinasse e desse uma opinião.

Três dias depois, mandei-lhe a minha opinião: “Achei o texto insosso, falta-lhe nicotina e alcatrão. Ponha uma fumaça neste texto”.

*

Há jornalistas aqui de ZH, poucos mas significativos, que, quando estão sem assunto ou se entregam ao enfado em suas mesas, correm até o fumódromo, mesmo alguns não fumantes.

Vão ao fumódromo em busca de ânimo e de coragem, à procura de um bálsamo que os emerja da tristeza ou da depressão.

E lá readquirem as forças para a luta da vida, sabem que só no fumódromo medra a carqueja e viceja o alecrim.

*

Podem acabar com o fumódromo de ZH. Seria o mesmo crime acabar com o Coliseu em Roma, os jardins suspensos na Babilônia ou a Times Square em Nova York.

Acabem com o fumódromo, mas fiquem desde já com o remorso de que estão acabando com o centro nevrálgico do jornal.

Sem fumódromo, Zero Hora será um jornal sem alma como centenas de outros que há por aí.

Vamos, burocratas, o poder pertence a vós, pegai este bisturi e cortai nossas singularíssimas pessoas de fumantes.

Antes, no que até concordamos, não podíamos fumar no recinto da Redação. Agora, já não querem permitir que fumemos num anexo restrito e distante, lá pelos longes da Rádio Gaúcha.

*

Não vão poder fumar mais lá o Kadão, a Maria Isabel Hammes, a Priscila, o Moisés Mendes, eu, o Guerrinha, o Márcio Câmara.

Ou seja, os artistas da palavra, da escrita e da diagramação vão ser escorraçados.

E os não fumantes que vão para a cercania do fumódromo, como David Coimbra, o Boró, o professor Ruy, o Glênio Reis, Lasier Martins, em busca de papo e inspiração, vão viver de quê?

Vamos, estamos à espera da vossa cirurgia. Estamos prontos à vossa vivisecção. Desferi os golpes da navalha contra nossos corpos inocentes! Metralhai-nos!

Não vai faltar lugar, embora se desconfie de que logo vá faltar, em que possamos fumar, longe daqui, na calçada da Ipiranga inicialmente, depois no meio do Arroio Dilúvio, mais tarde nos espantem a toque de caixa para o talvegue do Rio Guaíba.

Vão nos escorraçando, mas vai ficar uma cicatriz na vossa consciência: nós vamos cair em nome do que amamos.

E o que amamos não rejeitamos.

* Texto publicado hoje na página 47 de Zero Hora

Irrite o chato

06 de setembro de 2010 16

Se você quiser irritar um chato, finja que não o está escutando. O chato passa, então, para o terreno em que ele é mestre, o da repetição.

Continue fingindo que não está ouvindo o que o chato diz, o chato entra, então, em exasperação.

Se você for tenaz e se mantiver firme no fingimento, o chato se entrega e vai embora.

Há chato que diz: “Impressionante! É o terceiro surdo que encontro hoje. É muito azar. Mas vamos em busca do próximo”.

Encontro célebre entre mim e um chato, anteontem:

CHATO – Tu poderias me conceder 30 minutos do teu tempo, Sant’Ana?

EU – 30 minutos?

CHATO – É que eu tenho muitos assuntos para tratar contigo.

EU – O problema é a diversificação.

CHATO – Eu poderia abordar um só assunto, mas com profundidade.

EU – Não dá para reduzir a explanação do teu assunto para 15 minutos?

CHATO – Só se eu fizer um resumozinho.

O chato acabou me ocupando por 15 minutos, contados no relógio. Quando terminou o tempo, ele não tinha nem chegado ao âmago. Eu o interrompi e disse que não havia remédio, tinha de ir embora, estavam esgotados os 15 minutos.

E o chato desolado: “Mas não tem prorrogação?”.

O que melhor constrói a constância é a paciência. O que melhor constrói a ternura é a humildade. E o que melhor constrói a confiança é a experiência.

Já o que melhor constrói a coragem é a honradez. O que melhor constrói a inteligência é a clareza. E, por outra parte, o que melhor constrói a clareza é a simplicidade.

O que melhor constrói o ódio é a vingança. E o que melhor constrói a inconsciência é o esquecimento.

Já a amizade, o que melhor a constrói é a cumplicidade.

O que melhor constrói a desconfiança é a inconfidencialidade.

O que de mais doce e mais amargo ao mesmo tempo há na lembrança é a saudade.

O que ilumina a verdade é a lucidez.

O que se embute na perversidade é a mentira.

O que melhor constrói a adversidade é o erro na escolha.

O que melhor constrói a vibração é o entusiasmo.

O que melhor constrói a grandeza é a renúncia.

O que melhor constrói a pequeneza é a ardilosidade.

E o que melhor constrói a rudeza é o mau humor.

O que de mais característico há na chatice é a repetição.

O que melhor destrói a ansiedade é o cigarro.

Assim como o que mais destrói os alvéolos e os brônquios é o cigarro.

E de que adianta espantar a ansiedade se vão se destruindo os pulmões?

O que melhor constrói a malvadeza é a implacabilidade.

E, como se sabe, o que melhor constrói a eternidade é o amor.

*Texto publicado em ZH desta segunda

Pegadinhas

04 de setembro de 2010 3

As relações que tenho com os garçons são, na maioria das vezes, cordiais.

Aconteceu-me, no entanto, outro dia num café da Rua Florêncio Ygartua um fato interessante.

Sentei-me com um amigo à espera do garçom para pedir dois cafezinhos. Era intenso o movimento no estabelecimento.

Foi se passando o tempo e o garçom não vinha atender-nos. Já eram 15 minutos de espera na mesa, e nada do garçom.

Até que, no 18º minuto, chegou o garçom atrasado. Achei um desaforo e resolvi o seguinte, dirigindo-me a ele: “Acontece o seguinte, faz 18 minutos que estamos esperando que o senhor nos traga o troco”.

Por incrível que pareça, o garçom caiu na pegadinha e trouxe o troco.

Mas não é mesmo repleto de travessuras o cotidiano?

Sobre pegadinhas com os garçons, nunca me esqueço do dia em que me sentei num banco de uma lancheria no Rio de Janeiro e resolvi fazer uma brincadeira com o garçom.

Os cariocas têm a fama de serem os maiores gozadores do Brasil.

Vai daí que fiz o pedido ao garçom: “O senhor me traga um sanduíche de carne de elefante, por favor”.

O garçom saiu correndo no rumo da cozinha. Eu fiquei esperando o resultado da brincadeira.

Dali a 10 minutos, o garçom veio comunicar-me: “Infelizmente, senhor, não foi possível fazer o sanduíche de carne de elefante porque faltou pão”.

Sempre fui interessado por Direito Penal. Aguçou-me sempre o intelecto a ciência de responsabilização dos agentes criminosos pelo inquérito, depois pelo processo.

E sempre me apiedei dos julgadores, ou juízes ou jurados, que são obrigados a decidir sobre a liberdade dos réus, não podendo falhar nessa tarefa delicadíssima.

Eis que esses dias, modéstia à parte, ainda preocupado com o espinhoso mister dos que têm de julgar os réus como culpados ou inocentes, construí um pensamento que pode vir a modificar o método de julgar acusados de crime: “Não é necessário ter a certeza completa da culpabilidade de um réu para condená-lo, basta apenas não ter qualquer dúvida sobre a sua não inocência”.

Os entendidos em Direito Penal e os perspicazes em geral vão distinguir bem essa diferença.

Não é difícil falar sobre este Paixão Côrtes que foi eleito na última semana o novo patrono da Feira do Livro de Porto Alegre.

Há poucas pessoas que possuem a aura de Paixão Côrtes, a gente lida com ele como se fosse uma lenda, como se não mais existisse.

Mas ele é uma teimosa e sublime lenda viva.

Aquele seu bigode de piaçava, seu jeito bonachão de amigo para todas as horas, a voz grave de sonoridade solene; enfim, toda a sua personalidade se junta à autoridade do pesquisador e do folclorista, além de ter sido o fundador, junto com outros poucos companheiros, do movimento nativista gaúcho.

Ele é a única pessoa em nosso meio que é personagem estatuária viva, foi modelo da estátua do Laçador.

Isto é o que ele é, achei finalmente a palavra para defini-lo: um modelo.

Modelo para tantas e tantas gerações, passadas, presentes e futuras.

*Texto publicado em Zero Hora neste domingo

Massa, pizza e risoto

04 de setembro de 2010 1

Pensara erradamente que a massa fosse o prato mais consumido e mais famoso da Itália.

Não era.

Fiquei sabendo em Turim, em 1990, quando lá me hospedei por 40 dias, durante a Copa do Mundo da Itália, que se rivalizam com a massa, em preferência dos italianos, a pizza e o risoto, acreditem.

Nos restaurantes de Turim, cataloguei 180 espécies de risoto. Mais que a massa, o arroz pode ser misturado a todos os tipos de alimentos vegetais e animais, era risoto de todos os tipos e para todos os gostos. E, como a região de Piemonte, onde está Turim, é a originária do risoto, então lá eles só comem risoto, noite e dia, muito mais que pizza e massa.

Aliás, o arroz pode ser misturado a tudo, repito, só nunca vi arroz misturado com massa. Massa com feijão, como quase todos os dias; arroz com feijão, como quase todos os dias.

Só nunca comi arroz misturado com massa.

*

Pois bem, interessante é que, quando se fala em pizza, logo se sabe que ela vem da Itália, dizem alguns audaciosos que não foi só a massa que Marco Polo, em suas viagens pelo Oriente, trouxe para a Itália. Trouxe também a pizza.

Nunca ouvi dizer que Marco Polo trouxe da China para a Itália o risoto, deve ter sido inventado pelos italianos mesmo.

O fato é que o risoto, a massa e a pizza são, parelhos em consumo, os três maiores pratos italianos.

Embora o alimento mais consumido no mundo seja o arroz, a massa, nos últimos anos, vem lhe seguindo as pegadas, devendo superar o arroz em volume de consumo.

*

Gosto de massa, tanto que é o único alimento que consigo comer no almoço e na janta do mesmo dia.

E gosto tanto de arroz, que o como uma vez por dia, na janta ou no almoço.

O mesmo não posso dizer da pizza, não é do meu gosto. Eu sou uma pessoa muito comodista e acho que não gosto de pizza porque tenho dificuldade para cortá-la em fatias.

É com certeza esse o motivo de minha ojeriza pela pizza, tanto que tanto a massa quanto o arroz não preciso cortá-los. Ou seja, não preciso de faca para comer massa e arroz. Já para a pizza, preciso dela.

Embora existam pessoas absurdas que cortam com a faca o espaguete e o talharim, o que é um sacrilégio: incrivelmente, massa cortada com faca perde o seu gosto original e se transforma num alimento vulgar.

*

Cerca de 90% dos restaurantes italianos não fornecem colher para os clientes comerem espaguete. Quando acontece esta estupidez comigo, a vontade que tenho é de retirar-me do estabelecimento sem comer.

Eu só como espaguete e até talharim com uma colher. Desenvolvi há decênios a técnica dos italianos de comer espaguete: vou enrolando o espaguete no garfo, de forma que a massa vai serpenteando em torno dos dentes do garfo, diminuindo a extensão dos seus fios.

Esqueci de dizer que esta operação é muito mais fácil quando se tem a colher, a que se encosta nos quatro dentes do garfo, manobra perfeita para a facilidade de comer o espaguete, mas incrivelmente fica a massa assim mais gostosa.

*

Já para o arroz, pode-se comê-lo de qualquer jeito, com garfo ou com colher.

Embora eu nunca tenha experimentado a delícia do arroz de leite comendo-o com garfo.

Pesquisas perversas

03 de setembro de 2010 28

Eu não tenho dúvida de que as pesquisas influem em todos os resultados de eleições.

Sei por mim: em todas as eleições passadas, votei sempre movido pelas pesquisas. Não tenho vergonha de declarar que já votei contra a minha preferência, contra a minha consciência, influenciado pelas pesquisas.

*

Em suma, o que quero dizer é que não deveriam existir as pesquisas, elas viciam as eleições.

Pela pesquisa, fica-se conhecendo o resultado de uma eleição antes de as urnas serem apuradas.

Ou seja, a pesquisa dá vitória e determina derrota para determinados candidatos e ainda por cima anuncia antes da eleição que ele será eleito!

Pode existir maior absurdo, mais estúpido vício eleitoral do que a pesquisa?

*

Sinceramente, pensei que o grau de aperfeiçoamento da democracia brasileira já tivesse sido atingido pela sabedoria em proibir as pesquisas.

Vejo aí os promotores e juízes eleitorais empenhados em coibir os crimes eleitorais e com as mãos amarradas para coibir o maior de todos os crimes eleitorais: as pesquisas.

Antes das pesquisas, todos os eleitores ansiavam pelo dia da apuração dos votos para saber quem tinha ganho a eleição.

Agora, não. Todos querem saber como foi a pesquisa. Ou seja, a pesquisa substituiu a eleição. A pesquisa substitui o voto, além de modificá-lo.

Pode existir maior crime?

*

Aí, vem um campeão da idiotice e me contesta: “Mas as pesquisas são exatas”.

Ora, burrice extrema, o tiro que matou Abraham Lincoln não foi também exato? O prego que pregou Jesus na cruz não foi também exato?

Nem por isso deixaram de se constituir em dois dos maiores crimes da humanidade.

*

Se a pesquisa substituiu a eleição, é gravíssimo que da eleição participem mesários, promotores e juizes eleitorais, todos eles juramentados, enquanto os coletadores de opiniões nas pesquisas e os tabuladores de seus resultados não têm qualquer fé pública.

Qualquer um pode abrir um instituto de pesquisa e sair a pesquisar tendências eleitorais, bastando para isso um reles registro de sua pesquisa na Justiça Eleitoral, sem que lhe sejam requeridas competência e legitimidade.

*

Ficou tão distorcido pelas pesquisas o resultado das eleições, que a data do pleito passou a ser menos importante que a datas de divulgação das pesquisas.

Antes se dizia: “Dia 3 de outubro vai ter eleição”.

Agora se diz loucamente: “Domingo tem pesquisa no jornal”.

É uma catástrofe.

E ninguém se levanta contra esse desastre para o sistema de representação e esse atentado à democracia.

Se eu, que tenho curso universitário e sou um sujeito razoavelmente informado, confesso que mudo meu voto de acordo com o resultado das pesquisas, imaginem o que acontece com 80% do eleitorado brasileiro, que se constitui de analfabetos funcionais!

As barrigudas

02 de setembro de 2010 6

Gosto muito desta história que conto agora.

Um amigo disse para o outro: “Se eu não estiver em casa e bater na porta um grande amigo meu, minha mulher não está autorizada a fazê-lo entrar”.

O outro respondeu: “Estás redondamente enganado. Se não estiveres em casa e bater lá um grande amigo teu, deves autorizar a que tua mulher o deixe entrar. Pois, se ele não puder entrar, então é porque não tens em casa uma verdadeira mulher e não te bateu à porta um verdadeiro amigo”.

*

Esta esplêndida e espetacular história que vou contar a seguir tem muito a ver com o drama da saúde pública entre nós, quando há mais doentes que leitos nos hospitais.

Estava o caboclo a entregar-se aos preparativos da pescaria. Muniu-se de caniço, anzol e iscas e atirou sua canoa na lagoa.

Ficou ali com aquela esperançosa e aborrecida paciência dos pescadores que aguardam o peixe mordiscar a isca.

*

Passaram-se uns 30 minutos até que o anzol e a linha sacudiram-se e dentro de alguns segundos o pescador puxou o peixe de dentro da lagoa.

Era uma piava gorda como ele nunca vira tão gorda, que mal saltou dentro da canoa se dirigiu aos berros para o pescador:

– Não me mate, senhor, estou barriguda. Talvez o senhor não saiba o que é barriguda, pois lhe explico melhor – dizia aos gritos a piava – estou grávida de centenas de piavinhas que estão no meu ventre, vão nascer daqui a um ou dois dias. Não me mate, me devolva para a lagoa, quero salvar não a minha vida, mas as dos meus filhotes.

O pescador apiedou-se da piava barriguda, desencravou o anzol da bochecha do peixe e devolveu-o à liberdade da lagoa.

*

Passaram-se largos minutos e o pescador continuava à espera de pesca mais bem-sucedida, quando outro peixe mordeu a isca.

O pescador içou-o para a canoa e ouviu do peixe o mesmo apelo daquele primeiro:

– Não me mate. Deixe eu viver, estou barriguda. Na minha barriga estão centenas de filhotinhos quase prontos para nascer. Tenha pena de mim e deles.

O pescador não teve dúvidas e devolveu a piava viva para as águas da lagoa.

*

E assim se passaram várias horas, o pescador içou várias piavas para a canoa e todas diziam que estavam barrigudas. Ele as devolvia para a lagoa sem qualquer remorso.

Depois da oitava piava pescada, o pescador pescou a nona. Não era um peixe gordo, era magro, normal.

E o pescador disse ao peixe: “Não vais me falar que também és barriguda?!”.

E a piava respondeu: “Não sou barriguda. Milhares de vidas de peixes dependem de mim aqui neste lugar, o senhor tem a obrigação de me devolver para a água porque eu sou a parteira desta lagoa”.

*

Esta história recém contada é emblemática para a saúde pública brasileira e gaúcha: não sobreviverão as parturientes se não houver maternidades. Os governos têm de construir hospitais, pois, os doentes, as doenças já estão encarregadas de multiplicá-los.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora

O fio dental

01 de setembro de 2010 11

Pensara que a maior invenção do homem fosse o crédito. Pelo crédito, adquire-se determinado bem ou serviço antes mesmo de tê-los merecido, isto é, ganho para comprá-los. Compra, e vai só depois ganhar dinheiro para pagá-lo.

Mas, depois, fui ver que a televisão era talvez o maior invento do homem, por ela a gente pode ver em casa, sentado ou deitado, o que está acontecendo no mundo inteiro, desde uma sessão importante na ONU até um jogo de futebol disputado naquele exato instante em outro continente.

O crédito e a televisão foram com certeza duas grandes invenções humanas.

Depois, pensei melhor e fui ver que a tramela ou taramela é uma extraordinária invenção do homem.

Pela tramela o homem conseguiu o engenho utilíssimo de fechar as portas e as janelas que antes se abriam e causavam enormes incômodos.

Até chegar à anestesia e ao Viagra, quiçá também os maiores inventos da humanidade, a anestesia porque acaba com a dor e o Viagra porque recupera a juventude dos seres humanos masculinos, o homem palmilhou caminhos gigantescos de inventividade: inventou o prego, depois o parafuso, a porca, o martelo, a bigorna, a corda e a caçamba, o sapato, a meia, o rádio, o telefone, o mimeógrafo, a printer, o futebol e o piquenique.

Grandes invenções!

Esses dias me debrucei particularmente sobre outra grande invenção: o sonífero. Por ela, o homem deu um golpe mortal num dos seus maiores males, a insônia.

Com um sonífero, por exemplo, o homem pode atravessar o oceano numa viagem de avião que dura 12 horas em apenas 10 minutos, o tempo que demora o sonífero para agir sobre seu corpo e adormecê-lo até a chegada ao destino.

Evidentemente que toquei sem intenção noutro grande momento das invenções: a aviação, pela qual o homem se igualou aos pássaros, vencendo grandes ou pequenas distâncias sem tocar com os pés no chão.

E quer uma invenção mais estupefaciente do que o telefone celular? Se o telefone com fio já era uma grande invenção, imaginem o celular, quando duas pessoas podem se comunicar, por exemplo, estando elas no meio do campo – ou do mar – a milhares de quilômetros de distância. Que invenção o celular!

Mas, entre todas as grandes invenções humanas, fico a cismar, está sem dúvida, o fio dental.

É que o homem inventou o palito para palitar os dentes, com o fim de limpá-los e não cariá-los.

Só que o palito se revelou desde logo ineficiente: há espaços entre dentes em que o palito não consegue penetrar.

Pois não é que um gajo, um dia, bolou o fio dental para palitar os dentes sem palito!

Tão imaginosa foi esta fórmula de passar o fio dental entre o desfiladeiro de dois dentes, que se chama também de fio dental aquela tirinha abençoada de pano que, na praia ou na piscina, intermedeia sutilmente os dois territórios sublimes das nádegas colaterais femininas.

* Texto publicado hoje na página 63 de Zero Hora