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Posts de fevereiro 2011

A inveja provinciana

28 de fevereiro de 2011 0

O leitor Vimar Viecili, de Ijuí, pediu para reler uma crônica antiga minha:

“Sou leitor diário das suas colunas. Obrigado pela postura e lisura na colocação das coisas cotidianas de nossas vidas. Estou atrás de uma crônica que você fez, alguns anos atrás, e que me marcou muito, guardei o recorte do jornal por alguns anos e emprestei a alguém e não retornou mais e também não lembro para quem foi. O assunto, sob o título “a inveja provinciana” tratava do ditado de que “Santo de Casa não faz milagre”.
Obrigado, um grande abraço e muuuuuita saúuude.
Vilmar Viecili – Ijui-RS”
Abaixo, reproduzo “A Inveja Provinciana”, publicada em 17/11/2005

A inveja provinciana

Volto à coluna depois de um dia de descanso. E volto para afirmar peremptoriamente que é fácil admirar e elogiar quem não mora em nossa cidade.

Negamos calhordamente elogios a quem está próximo de nós, imaginando que competimos com ele.

Por isso é que se diz que santo de casa não faz milagre.

Esse fenômeno explica por que Elis Regina foi sempre menos apreciada no Rio Grande do Sul do que no resto do Brasil.

E também por que chegamos à audácia de afirmar uma bobagem estupenda: a de que Ronaldinho Gaúcho está jogando muito mais no Barcelona do que jogava no Grêmio. Quem não viu que o Ronaldinho Gaúcho que jogava no Grêmio era já naquele tempo o melhor jogador do mundo é cego. Repito, cego.

Como cegos e insensíveis eram todos os porto-alegrenses que cruzavam nas ruas aqui da Capital com Lupicínio Rodrigues e não sabiam que eram vizinhos ou conterrâneos de um gênio.

Lupicínio Rodrigues e Elis Regina foram se consagrar no Rio de Janeiro e São Paulo, aqui na sua terra não arranjavam nem para a pipoca.

Pelo mesmo fenômeno de rejeição pela proximidade é que Vincent van Gogh nunca teve o reconhecimento na Holanda, só foi usufruir algum destaque, assim mesmo social, porque foi fracassado na iniciativa comercial (só vendeu um quadro durante toda a sua vida), quando se mudou para Paris e andou vagando por Londres.

Foi tão grande a abjeção à arte de Van Gogh em seu meio social original que ele se desiludiu e foi estudar teologia, tornando-se temporariamente pastor.

É bem verdade que tanto Van Gogh quanto Lupicínio e Elis tinham sobre a cabeça a maldição de terem nascido na província.

Mas é exatamente isso que determina a inveja: ela é caracteristicamente provinciana, nasce nos corações dos homens pequenos e insignificantes.

É que na província todos os seus habitantes fazem um pacto entre si, ali ninguém será notável, todos têm de ser medíocres, ai de quem tentar se destacar entre eles: sofrerá desprezo e lhe serão negados selvagemente todos os elogios.

Entre os medíocres, fora da inveja não há salvação. Os medíocres só são notados quando invejam. E sempre invejam numa associação. Sozinhos, sua inveja não tem nenhuma eficácia.

O único invejoso solitário que se conhece foi Salieri, o medíocre que tentou disputar beleza com Mozart.

Mozart acabou célebre pelo seu gênio. E acho que foi muito bom que o mundo da música tivesse celebrado Salieri pela sua inveja.

Eu até me atreveria a dizer que o compositor Salieri foi um gênio da inveja, na música era um reles.

Os invejosos mereciam todos virar estátua. A única maneira que eles encontram para tentar rivalizar com os invejados é a inveja.

Os invejosos se reúnem em assembléia espúria e saem na calada da noite para incendiar as raras casas onde possa ter nascido ou ter morado um gênio.

Herodes mandou matar todas as crianças recém-nascidas de seu reino porque pensava que entre elas havia uma que haveria de sucederlhe em vida.

São assim todos os Herodes e Salieris da vida, eles não se conformam em serem segundos e tentam matar os primeiros.

Desconhecem que o reconhecimento póstero de seus invejados se dará exatamente porque foram objetos daquela inveja.

Não há ninguém que tenha êxito que não tenha sido invejado.

E não há nenhum invejoso que não tenha sido arremessado ao seu mórbido mister pelo fracasso.

Colapso na Saúde

28 de fevereiro de 2011 1

Chama atenção o caso dos dois médicos e um atendente do Hospital São Lucas, da PUCRS, que foram agredidos a socos por um paciente.

A demora nas filas e as falhas nos serviços começam a recair novamente sobre os funcionários das casas de saúde, que não têm culpa por essa precariedade. A responsabilidade é dos administradores.

Há muito tempo saliento que a Saúde está mal de Saúde no Rio Grande do Sul. E, agora, essa frustração é descontada em quem tem contato direto com pacientes.

É possível que haja uma reflexão, porque antes os protestos eram surdos. Milhares de pessoas aguardavam sua vez, suportando filas intermináveis. Já hoje, o problema transborda para as agressões.

O adeus a um imortal

28 de fevereiro de 2011 0

Estamos dividindo nossa atenção e reconhecimento a dois fatos atuais no Rio Grande do Sul: o falecimento do escritor Moacyr Scliar e do ex-senador Octávio Cardoso, marido da atual senadora Ana Amélia Lemos.

Foram duas pessoas que tocaram os brasileiros.

Esse Moacyr, imortal da Academia de Letras, era querido por todos. Era impressionante sua vocação para elogiar o trabalho de todos que encontrava na RBS. E mais: mostrava precisão para isso, falando sobre o trabalho de repórteres, comentaristas e outros comunicadores com detalhes.

Que colega perdemos.



Uma revolução no patrocínio do futebol brasileiro

24 de fevereiro de 2011 2

Os times brasileiros integrantes do Clube dos 13 se enfrentavam dentro de campo. Fora, na hora de pegar o dinheiro da televisão, estavam irmanados.

Agora, Corinthians, Curitiba, Flamengo, Botafogo, Vasco e Fluminense romperam com a União dos Grandes Clubes do Futebol Brasileiro e querem negociar em separado com as emissoras de TV. Para ganhar mais, obviamente.

Grêmio e Internacional recebem R$ 20 milhões anuais pelo acordo atual. Com essa rebelião, têm a possibilidade de angariar entre R$ 40 milhões e R$ 50 milhões.

Resistência e sangue

23 de fevereiro de 2011 0

Há muito não via um ditador resistir tanto como Muamar Kadafi. Ao mesmo tempo, o povo se mostra cada vez mais disposto a se revoltar.

Até mesmo alguns quartéis queriam se integrar aos manifestantes. Em resposta, Kadafi mandou bombardeá-los.

Enquanto ele resiste, sangue continua a ser derramado.


Os motoboys

23 de fevereiro de 2011 0

A campanha chamando atenção para os acidentes de trânsito envolvendo motoboys pede que nós, clientes, tenhamos paciência para esperar que o pedido seja entregue.

As mortes em atividade desses profissionais é um sério problema. Como são pagos por entrega, querem faturar mais. Consequentemente, aceitam várias solicitações e trafegam com cada vez mais velocidade nas estradas.



Um trago de olvido

22 de fevereiro de 2011 0

Só agrava a imensa culpa minha por fumar o fato de eu não beber. É que eu sinto inveja de alguns amigos meus que todas as tardes correm para um bar e deitam-se a beber seu uísque ou seu chopinho.

Eles, chegada a tardinha, se tornam impacientes no serviço, não vêem a hora de seguir para o bar.

Beber é um excelente estratagema para espantar o tédio. Talvez fumar também o seja, mas este encontro diário dos meus amigos com seus companheiros de drinques soa-lhes como um ideal existencial.

É de ver-se o contentamento estampado nos rostos das pessoas que bebem. Elas vão dormir à noite já com a deliciosa expectativa de que poderão beber novamente amanhã.

A vida tem solução para quem bebe, é o que fico cismando enquanto os invejo.

O homem que bebe é um ser gregário. Podem ver, todos os que bebem têm roda garantida em algum lugar. Acabam se encontrando por algum encantado fatalismo e formam confraria. Raros são os espécimes, como meu pai o era, que bebem sozinhos e em casa.

Beber tem de ser em lugar público. Se for lugar privado, em turma. Logo, beber é um ato agressivo à solidão.

Não é o caso de fumar, que é uma ação introspectiva, individual, reflexiva. Beber é uma forma de encontrar-se com os outros.

Já fumar é esconder-se, encaramujar-se, defrontar-se consigo próprio, emaranhar-se na teia dos problemas íntimos.

Beber é deixar de pensar, é recordar, é fugir do mundo.

Fumar é enfrentar o mundo e encarar de frente o ataque das aflições.

Eu às vezes me arrependo de não ter adquirido nunca o gosto pela bebida. É verdade que não gostaria de fumar e beber ao mesmo tempo, dizem os especialistas que esta associação é trágica para a saúde e para a sobrevivência.

Mas eu gostaria mais de só beber do que desta situação em que me encontro, em que o cigarro não vence minha melancolia, acho até que, pelo contrário, a aprofunda

Enquanto que a bebida está ligada umbilicalmente à alegria, tanto que é componente indispensável de todas as festas.

A bebida é nitidamente instigadora do diálogo, da conversa, do bom humor. Porque a bebida implica claramente o esquecimento, enquanto que o cigarro faz acentuar a realidade.

A bebida é uma fuga, o cigarro é uma contrição. Pela bebida, driblase o destino, já com o cigarro a gente bate de frente com ele.

Em ambos os casos, tanto a bebida quanto o cigarro são recursos para satanizar a tristeza, só que a bebida é uma retirada estratégica, enquanto o cigarro é uma contracarga, uma forma de arremeter sobre o inimigo ameaçador e parcialmente vitorioso.

Pela bebida, perdem-se os reflexos, pelo cigarro, eles são mais ainda excitados.

Quem bebe, debanda das circunstâncias adversas, quem fuma, não podendo desertar, trata de adquirir consciência mais nítida do perigo.

E eu queria só beber em vez de só fumar, porque desconfio que os períodos de trégua seriam longos e reconfortantes.

(Crônica publicada em 11/01/2003)

Eliminado um terreno para a rapinagem

21 de fevereiro de 2011 18

Pela primeira vez na história do futebol mundial, um time é extinguido em face do resultado de um jogo. O Inter B perdeu a partida nos pênaltis contra o Cruzeiro e foi eliminado.

Elogio a decisão, pois o time B era um campo fértil para a rapinagem de empresários do clube.

O valor que será poupado é de R$ 1,7 milhão, como estima a edição de hoje de Zero Hora, caso dispensem 30 jogadores. Fora que haverá demissão de massagistas e médicos e o corte de outros serviços.

Com essa medida, o Internacional contraria os interesses dos empresários, estancando um dos furúnculos do futebol atual.

E tenho que dizer isto: quando é que vão extinguir o time A para eu me sentir satisfeito?

Enigma

21 de fevereiro de 2011 1

Um dos maiores enigmas do futebol que nunca consegui decifrar está presente no jogo de ontem entre o Grêmio e o Ypiranga. Afinal, quando um time dá uma goleada é por sua qualidade ou por falhas do adversário?

O Grêmio atuou com um conjunto afinadíssimo. Fiquei simplesmente maravilhado. No entanto, saí do estádio com o pé atrás: será que a folgada vitória de 5 a 0 foi conquistada pela fragilidade do Ypiranga?

Quando penso nisso, me sinto desencorajado a acreditar que o Grêmio é tudo aquilo que apresentou ontem: todos os jogadores em excelente desempenho.


Vitória difícil

18 de fevereiro de 2011 16

Assisti ontem ao jogo do Grêmio sozinho no estádio Olímpico. Nos primeiros 25 minutos, pensei que o Tricolor não teria condições de ganhar a partida. Conquistou a vitória de 3 a 0 com dificuldade. O número de gols não é parâmetro para medir o desempenho do Grêmio.

Vamos ver se o time melhora, porque ainda não convenceu que está pronto para a Libertadores. Ainda não tem uma equipe que possa se apresentar como candidata ao título da competição.


Saudades do colorado delirante

17 de fevereiro de 2011 5

Se Sérgio Jockymann, que faleceu ontem por insuficiência renal, estivesse vivo, teria tido um tema vasto para comentar tanto no jornal como na televisão. Colorado que era, o jornalista certamente falaria sobre o empate de ontem aos 49 minutos do segundo tempo entre o Internacional e o Emelec.

Sempre foi um homem com texto afiado e um dramaturgo talentoso. Lembro que convivi com ele no Jornal do Almoço e nos debicávamos devido às nossas paixões pelo Grêmio e Inter.

É bom relembrar esse excelente escritor um dia depois de sua morte, afinal, sempre que um grande cronista morre, ele precisar ser lembrado por seus póstumos.

No dia 13 de maio de 2009, apresentei aos leitores o quadro de saúde de Jockymann. Abaixo, reproduzo a coluna.


Outra solidariedade

Confesso que hesitei em escrever o que vem a seguir. Depois, como andei esses dias fazendo um exame de consciência nesta coluna, sabem como é, aquela dúvida que assalta a gente se não poderíamos ter feito mais pelos outros do que fizemos ou nada fizemos, deixei de relutar e vou em frente.

Acontece que o escritor Sergio Faraco andou pedindo por um site da Associação dos Escritores Gaúchos auxílio ao jornalista Sérgio Jockymann.

Jockymann apresenta hoje um quadro de insuficiência renal e cardíaca, agravado por outras doenças oportunistas e terá de se submeter em casa a um oneroso e penoso tratamento de hemodiálise.

Além disso, há pouco perdeu um filho, com câncer.

São tais as dificuldades de Jockymann, entre as quais as financeiras, que esses dias ele disse a um amigo que “lhe faltam centavos”.

Eu quis retirar este apelo do âmbito restrito dos escritores e trazê-lo para os leitores de Jockymann. Ele foi durante muito tempo o mais destacado colunista de jornal do RS, quem tem mais de 55 anos leu-o com assiduidade na segunda página da Folha da Tarde.

E a essas pessoas é que eu estou apelando para que, na medida das possibilidades, o ajudem.

A conta dos auxílios bancários que forem a ele dirigidos é a seguinte: Banco 104, Caixa Econômica Federal; agência 2883; conta de poupança 013027 76-5(*); correntista Sérgio Jockymann; CPF 002 487 890/15.

Se o depósito for feito diretamente na Caixa Econômica Federal, o número da conta passa a ser: grupo 013; conta 2776-5.

Ontem já consegui junto a um chefe meu aqui na RBS uma ajuda ao grande colunista.

Hoje estou estendendo o pedido aos que o leram em todos os tempos e sabem da imensa colaboração que ele deu à cultura gaúcha.


Casas separadas

16 de fevereiro de 2011 0

Cena 1

O marido chega em casa esfuziante e fala para a mulher: “Querida, comprei um apartamento!”

A mulher responde entusiasmada: “Que ótimo para nós, meu amor!”

O marido: “Tens razão, será ótimo para nós, exatamente porque irás morar nele sozinha”.

A mulher, perplexa: “Como?”

O marido: “Resolvi seguir o conselho do Paulo Sant’Ana, a melhor maneira de perenizar um casamento é o casal morar em casas separadas”.

A mulher: “Tu estás me dizendo que vais continuar morando aqui neste inferno do nosso atual apartamento?”

O marido: “Quando te mudares para o outro apartamento, este aqui vai se transformar no mesmo dia num paraíso. Da mesma forma, como vais morar sozinha no outro apartamento, lá será outro paraíso”.

Cena 2

O mesmo marido e a mesma mulher. O marido retorna à iniciativa: “Querida, quero te informar que o apartamento que comprei para ti é um JK”.

A mulher: “Mas como? Se este apartamento onde moramos hoje já é pequeno para nós, como vais me enfiar agora numa quitinete. Isto é desumano”.

O marido: “Enganas-te redondamente: sem mim, o teu JK será para ti um salão de festas. Esqueces que o espaço que ocupo junto à tua vida é gigantesco, eu vivo grudado na tua pele durante todo o nosso cotidiano, tu podes até não perceber, mas tolho todos os teus movimentos e te privo completamente de tua liberdade de dia e de noite, perpetuamente. Vais ver que tua quitinete, sem mim, se tornará para ti numa imensa planície arquitetônica, terás de comprar uma moto para tripulá-la dentro de teu JK, vais ver que teu novo apartamento será de uma amplidão melíflua, um lugar sem limites territoriais, sentimentais e sexuais. Terás a liberdade tão sonhada por todo e qualquer ser humano, poderás convidar todos os dias para visitar-te a quem bem entenderes, não será como este apartamento em que moramos hoje, quando em realidade tu topas todos os dias, sem qualquer falha, somente comigo, teu colossal obstáculo. Lá no teu novo lar tu poderás escolher entre assistires, por teus convites e escolhas, o desfile da raça humana. Ou então, o que é também recompensador, poderás te recolher a uma deliciosa solidão, sensação maravilhosa que nunca conseguiste aqui: repito que tenho sido para ti o que tens sido para mim, me tiras da solidão sem me fazer companhia e eu, por outro lado, te privo da minha companhia por não te tirar da solidão. Foi a idéia mais genial que tive em minha vida, ou melhor, foi a idéia mais genial do Paulo Sant’Ana, a quem eu estou imitando vergonhosa e sublimemente. Vai, querida! Vai em busca da felicidade, ao mesmo tempo em que me retribuirás com a bemaventurança!”

E a mulher, finalizando: “Pensando bem, concordo. Mas logicamente tu terás de pagar a taxa de condomínio do meu JK”. E o marido: “Vejo que vais mudar de apartamento mas não mudarás nunca de mentalidade. Vou telefonar agora mesmo para a imobiliária e desfazer o negócio. Foi só um sonho. Prefiro pagar só uma taxa de condomínio, a deste nosso atual apartamento, à felicidade perpétua. Nunca o nosso permanente infortúnio vai custar tão pouco: a reles economia de R$ 100 mensais”.

(Crônica publicada em 30/12/2005)

Só pode ser amor

15 de fevereiro de 2011 3

Não sei onde estava e do que me possuíra quando escrevi a coluna abaixo, publicada em maio de 2009. Quero compartilhar ela mais uma vez com vocês, leitores:

Eu já devia ter pressentido que era amor quando curtia magnífico prazer somente em olhá-la de longe. Eu já devia saber que era amor quando vibrava com seus êxitos e me entristecia com seus embaraços. Eu tinha que ter percebido que era amor quando me sentia invulnerável à solidão se me aproximasse dela a um raio de 20 metros. Só podia ser amor aquele estremecimento que me percorria todo o corpo quando ouvia sua voz se dirigindo para os outros. E quando, num ambiente repleto de pessoas, eu passava a não distinguir as feições de todos, vendo-os apenas como vultos expletivos, realçando-se como esplendorosamente icônica sua figura arrebatadora, já naquele tempo eu não devia ter duvidado de que era amor.

Já era fortemente suspeito que durante as minhas tristezas elas desaparecessem como por um milagre se eu usasse como antídoto a simples lembrança do seu meigo sorriso. E que, quando diante da visão dela por apenas um segundo, durante o resto do dia os meus passos e gestos se impregnassem de alegre coragem de viver. Ou como naquele dia em que topei abruptamente com ela no estacionamento e fiquei tão ruborizado, que parecia estar focado pelo facho de luz emanado da palavra de um profeta.

Não podia ser outra coisa aquela constante palpitação, aquela ruidosa esperança, aquele contentamento ansioso nas manhãs e o meu pulsante e taquicárdico coração vibrando ante a obsequiosa visão de sua esplendente silhueta vespertina.

Só podia ser amor a minha alma assim tão cheia de cuidados para preservar o meu segredo, o medo de que minha palavra ou o meu escrito, num escorregão, violassem o esplêndido sigilo do sentimento abrasador que me dominava.

Só podia ser amor que, depois de ela ter surgido luminosa na escarpa da caverna da minha solidão, eu deixasse de me entregar ao exercício fastidioso da comparação. Ninguém ou nada mais se equivalia ou se assemelhava a ela, mãe, irmã, parceira, namorada, companheira. Cheguei loucamente a pensar que a única cidadela capaz de manter íntegro aquele meu frágil amor inconfessável era mantê-lo em segredo, imune ao conhecimento dos outros e até mesmo incrivelmente dela.

Dar a conhecê-lo arrastaria ao tremendo risco de fazê-lo soçobrar ali adiante, presa fácil do fastio da convivência ou de uma resposta contundentemente adversa.

Ah, silencioso amor cheio de delícias e ilusões. Precavido amor que não se declara com medo da quebra do cristal. Ah, amor que quanto mais distante mais crescente, quanto mais errante mais certeiro, quanto mais secreto mais ditoso, quanto mais expectante mais real, quanto menos empírico mais ideal, quanto menos dela mais meu, quanto mais irrealizado mais duradouro, quanto mais prometido mais honrado. Quanto menos compartilhado, mais definitivo. Amor por eleição, tão alto, tão profundo, tão desinteressado, que não importa sequer o que faça dele e do seu mandato a sua eleita.

Nem que o malbarate por não pressenti-lo.

Pitacos

14 de fevereiro de 2011 9
DO INTER

Em entrevista coletiva ontem, Celso Roth pareceu fazer uma afirmação direcionada a Tinga:

– Não posso ser injusto com o grupo.  Quem não render, sai. Quando o Inter faz contratações pontuais, quem entrar precisa dar retorno. A cobrança é simples.

Depois, ele tentou remendar, porque percebeu a severidade da explanação.

Assim como meus colegas do Sala de Redação, me pergunto: a frase do técnico serviria para o próprio Roth?

DO GRÊMIO


Concordo com diversas opiniões de que tirar André Lima da área é um crime. Mas acho o mesmo de uma possível retirada de Borges.

Meu palpite: substituir um dos dois por Clementino.

Reservas para decidir o Gauchão

14 de fevereiro de 2011 1

O Grêmio perdeu para o Novo Hamburgo por dois a zero ontem… mas a atuação de Carlos Alberto, que estreou no domingo, não foi má.

Renato disse que o Grêmio perdeu na hora que tinha de perder. Antes, venceu todas as partidas. Já o Internacional derrotou o Pelotas e avança para a Semifinal do Campeonato Gaúcho.

Agora, ficamos atentos ao comportamento da dupla Gre-Nal. Já que está metida na Libertadores, terá que usar reservas nessa fase decisiva do Gauchão.

O Grêmio foi o campeão no ano passado. Vamos ver o que vai acontecer.