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Posts de março 2011

A magia dos pés

31 de março de 2011 4

É imprescindível esmalte nas unhas do pé, das mãos nem tanto. São indispensáveis dedos simétricos, tanto nos pés quanto nas mãos.

O dedão do pé não pode ser exatamente um dedão redondo e largo, tem de guardar uma justa proporção geométrica com os outros quatro dedos, sem agredi-los pelo vulto.

É preferencial que o pé seja pequeno ou médio, embora se encontre sem muito grande freqüência pés grandes de harmonia estética e apelo afrodisíaco consideráveis.

O dedo limítrofe do dedão, sob pena de sacrilégio e veto inapelável, não poderá jamais exceder em comprimento ao dedão.

E os três dedos seguintes irão gradativa e discretamente diminuindo de comprimento na relação de um com o outro, até o quinto dedo, que terá de ter a graça desafiadora de uma cereja.

O corte das unhas dos pés tem de ser desenhado em linha convexa, isto é, com curva mais elevada no meio que nas bordas.

Fica fora de concurso o pé que contenha unhas cortadas em linha reta, do tipo para não encravar. Não há nada mais desanimador.

Há pés tão encantadores e espirituais, que o aperto de mãos deveria ser dado com eles.

Se os olhos são as janelas da alma, os pés são os portais do instinto.

Os pés são a credencial da sensualidade, as outras partes do corpo se constituem apenas em insígnias suplementares.

Os pés têm tal poder hipnótico, que, quando dotados de sedução irresistível, fazem emanar uma tal atração, que não resta outro recurso aos seus espectadores, mesmo que nenhuma palavra tenha sido ainda pronunciada, senão sucumbirem de paixão.

E esta paixão será mais duradoura que as outras paixões todas, porque os pés têm a capacidade incrível de envelhecer menos ou quase nada na relação com os outros redutos corporais.

A lascívia pelos pés é eterna.

As sandálias são os biquínis dos pés, porque os desnudam. Os sapatos são os véus dos pés, porque os ocultam sedutoramente.

Conheço maníacos de pés que se apaixonam por sapatos de salto alto, basta-lhes curtir o delírio lúbrico do imaginário concupiscente dos pés que os portam ou portaram.

O pecado ancestral da escultura e da pintura foi não ter dado relevo aos pés.

Só recentemente a moda vingouse desse cochilo monumental dos mestres das artes plásticas, criando graciosos modelos de calçados femininos, que realçam a importância e o destaque dos pés na sensualidade da mulher.

A julgar pelos novos anéis de dedos dos pés que estão sendo lançados aos magotes, os anéis e alianças de silicone para os dedos dos pés, as tatuagens de hena, as tornozeleiras que vão acabar tornando superadas as pulseiras, esses emergentes e luzidios adereços que irrompem vitoriosos nos pés femininos, em breve as jóias mais cintilantes e mais caras se transferirão dos pescoços, dos dedos da mão e dos pulsos femininos para os pés.

Isso só demonstra que nós, os ardorosos amantes dos pés, os fanáticos podófilos de todos os tempos, é que estávamos com a razão.

O mundo descobriu finalmente a nossa secreta e deliciosa usufruição.

E o nosso fetiche privativo virou finalmente uma mania universal.

(Crônica publicada em 22/12/2002)

A diferença entre POA e cidades-polo

30 de março de 2011 0

Existem centenas de ônibus e micro-ônibus que transportam doentes do Interior para Porto Alegre.

Não é de se estranhar, porque em todo o mundo há cidades-polo. O problema do Rio Grande do Sul é que a Capital se distanciou demais de outros polos como Passo Fundo e Pelotas. Isso porque metade dos recursos do S.U.S. são é destinada a Porto Alegre.



Foi um bravo

29 de março de 2011 3

A morte do ex-vice-presidente da República José Alencar me fez lembrar da sua trajetória. Foi um bravo. Durante oito anos ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi admiravelmente leal ao homem e ao governo.

Muitos já passaram por essa posição, mas é preciso ser talentoso para ser lembrado como vice. Vai deixar saudades.


José Alencar na abertura da 71ª Festa das Flores de Joinvile, em 2009:imagem 10

Sintomas persistentes

29 de março de 2011 0

Tem uma coisa que não entendo: nos outdoors e outras propagandas, os laboratórios anunciam seus remédios.


“Acaba com dor de cabeça”, “É um tiro fatal nos distúrbios hepáticos”, “Nunca mais você terá dores reumáticas”, “Tome e nunca mais sofrerá com hemorróidas” e outros tantos.


Só que no fim de todo anúncio de remédio vem a frase: “Se persistirem os sintomas”, consulte o médico.


Ora, se afirmam que vão acabar com a dor, como é que podem persistir os sintomas?


Sei que deve ser prescrição legal o conselho de consultar o médico nos anúncios de medicamentos.


Mas que todos os remédios anunciados se confessam como apenas primeira instância para tratar dos males para os quais são aconselhados, disso não resta dúvida. Os seus próprios anúncios declaram que a solução final é o médico.


Intrigam-me também esses anúncios porque, ao aconselhar os doentes a consultar com o médico caso preteie o olho da gateada, pergunto: e se, consultado o médico, persistirem ainda os sintomas?


Como é que o paciente faz? Outro médico ou macumba, benzedeira, entrega a alma para Deus?


“Tome Urodoxal e acabe com o seu mal” não é um anúncio confiável. Seria confiável se fosse: “Tome Urodoxal, que pode acabar com seu mal”. Ou então assim: “Infecção urinária? Tente Urodoxal”.


Mas afirmar que vai acabar com a dor e logo em seguida ressalvar que a dor pode não acabar, que caso isso aconteça devese procurar o médico, transmite a idéia de que o remédio não é lá essas coisas.


É o mesmo que um inseticida propagar que acaba com os mosquitos e no fim do outdoor vir a ressalva: “Se, depois de aplicado, aumentar o número de mosquitos em sua casa, compre um mosquiteiro”.


Quer dizer, o consumidor tem de ter tal fé no remédio anunciado, que não admita que ele não dê certo em nenhuma hipótese.


Mais correto seria assim: “Antes de ir ao médico, tome Tossil”. Ou por outra: “Não precisa ir ao médico, use Gripenil. Caso não dê certo, desculpe o nosso erro: era preciso ir ao médico”.


Mais honesto ainda seria o seguinte: “Se você tem dor de estômago, consulte o médico. Se persistirem os sintomas, use Estomagil”.


Ou seja, além de cumprir a prescrição legal de mandar consultar o médico, o remédio daria ainda uma de bacana: faria entender que é melhor do que o médico. Como quem diz assim: “Vá lá no médico e você vai concluir que o que resolve mesmo é Estomagil”.


Ou mais confiável ainda: “Em último caso, depois de cessarem todos os recursos, tome Estomagil”.


Eu sei que esses remédios anunciados são muitas vezes preciosos para as pessoas que não têm recursos para consultar um médico.


Então poderia surgir um anúncio assim: “Se a sua consulta e cirurgia no SUS vão demorar dois ou três anos para serem atendidas, para resignar-se, vá tomando Calmil”.


E pior foi o caso do doente que, depois de ler num outdoor que a solução para seus problemas nervosos era o remédio Neurastenol, aplicou o remédio por dois anos e não deu certo. Seguindo o conselho para consultar um médico se persistissem os sintomas, foi ao médico.


E o médico receitou-lhe Neurastenol.

(Crônica publicada em 02/06/2008)

Em direção ao hospital

23 de março de 2011 3

Na manhã desta quarta-feira vou me submeter a uma cirurgia. Ou melhor, a duas cirurgias. A intervenção cirúrgica é para a retirada de dois tumores: um na garganta e outro na face direita. Não estou dirigindo. Um motorista está me levando para um hospital das Capital. por isso, resolvi ligar para o Gaúcha Hoje e dar um esclarecimento aos meus leitores.

Ouça o meu comentário feito hoje no Gaúcha Hoje

Da inveja e do ciúme

18 de março de 2011 2

Em primeiro lugar, quero deixar bem claro que ninguém me inveja e se as pessoas conhecessem meu âmago não teriam nenhum motivo para me invejar e sim para nutrir por mim compaixão.


É que pretendo escrever uma crônica sobre inveja e ciúme e ficaria ridículo que parecesse que estou me declarando vítima desses dois sentimentos.


É que, mais do que todos imaginam, a inveja é inseparável da conduta humana.


Tomo por inveja aquela angústia e ardência moral de que somos tomados diante do sucesso dos outros.


Ora nossa inveja se manifesta por uma fingida indiferença, ora por clara agressividade.


O êxito de alguém nos aturde, tanto por termos a nítida sensação de estarmos sendo superados quanto pelo remorso de que não nos pertença aquele sucesso, que gostaríamos que fosse nosso.


A inveja, portanto, está, a exemplo de todos os sentimentos perversos, ligada à megalomania, que, como tantas vezes tenho escrito, é o centro atitudinal da vocação humana.


Nós gostamos tanto e tão exageradamente de nós mesmos, que por vezes nos tornamos cegos aos méritos dos outros.


Mas como somos obrigados a viver socialmente, se torna impossível reconhecer as vitórias alheias, só que, se estamos doentiamente possuídos de megalomania e de inveja, é-nos impossível dar o braço a torcer ao êxito de outrem, se ele significar sob certo aspecto uma supremacia sobre nós.


O sentimento da inveja é tão subreptício que quase sempre nós não temos consciência de que o praticamos.


Até mesmo porque a inveja na maioria das vezes não deixa rastros, ela vem e vai com extrema rapidez, nem nos apercebemos de que nos incendiou por instantes, embora o vírus dela permaneça incólume para outras investidas.


Vez por outra, a inveja se transmuta em ciúme, quando então nos vemos tomados por delirante revolta por estarmos superados por outrem junto a alguém que amamos ou que nos é imprescindível em qualquer circunstância, seja amorosa, seja profissional, seja por qualquer disputa.


O ciúme, como sempre asseverei, não é o medo de perder alguém. É o medo de perder alguém para outrem.


São dotados de grandeza ímpar e admirável os que não se deixam dominar pela inveja, os que vibram com o sucesso alheio, os que até o estimulam, os que se entregam ao exercício cotidiano de elogiar as façanhas dos outros, mesmo que muitas vezes elas os superem.


Essas pessoas – os que não invejam – são feitos de outra massa que não a humana, são gente superior e não há nada mais confortante do que tê-las como amigas, a nosso lado, saboreando a sua ideal humanidade e pureza.


São quase divinas as pessoas que não sentem inveja.


(Crônica publicada em 01/02/2006)

Meus secretos amigos

17 de março de 2011 3

Eis uma de minhas melhores colunas já publicadas:

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos! Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles… Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências…

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.

Essa mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles!

Eles não iriam acreditar! Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação dos meus amigos, mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não o declare e não os procure.

Às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles e me envergonho porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bemestar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamento sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer… Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos e, principalmente, os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus verdadeiros amigos!!!

A gente não faz amigos, reconhece-os!

Variações cartesianas

16 de março de 2011 0

É famosa a sentença de René Descartes, o também famoso filósofo e matemático francês: “Penso, logo existo”.

Pensei muito sobre este pensamento de Descartes e destrinchei-o em inúmeras variações durante a madrugada insone que tive ontem: Ei-las:

Penso, logo existo
(Descartes)

Existo logo que penso

Penso que existo, logo…

Penso logo que existo

Penso que logo existo

Logo que existo, penso

Penso que é lógico que existo

A lógica existe logo que penso

Penso lógico. Existo logo

Penso, logo hesito

Hesito logo que tenso

Penso que existo tenso

Penso, logo desisto

Tenso, penso, hesito, intenso

Penso que hesito, insisto tenso

Se tenso, insisto, hesito, penso

Se intenso, insisto que existo

Penso, logo hesito

Logo, penso, hesito, insisto

E tenso, inda que hesito, Encerro este quesito

(Crônica publicada em 07/01/2008)

É sempre, sempre assim

14 de março de 2011 0

Quando um orador, no início ou fim de seu discurso, pronuncia a frase “…eu não quero me espichar, mas…” , é absolutamente certo que ele vai se espichar.

Quando alguém o aborda com a frase “Eu não queria te chatear, mas…”, é absolutamente certo que essa pessoa vai em seguida chateálo ao extremo.

Quando uma mulher diz dramaticamente para um homem “…eu não posso, eu não devo, eu não vou te amar…”, é absolutamente certo que esta mulher já está amando aquele homem.

O poeta mexicano Amado Nervo (1870-1919), segundo os melhores críticos literários do século passado, teve sua obra na altura exata das de García Lorca, Rubén Dario e Pablo Neruda, dentro da literatura hispânica.

Só para dar uma idéia de seu vulto, como todos os grandes intelectuais da sua época, amava Paris. E em Paris tornou-se grande amigo de Rubén Dario, de Verlaine, de Moreas e de Oscar Wilde, além de todos os literatos destacados de todo o mundo que gravitavam em torno da capital francesa.

Seus poemas estenderam sua celebridade em todos os países de língua espanhola.

Entre tantas jóias da poesia de Amado Nervo, cujos poemas principais se alçam aos píncaros da literatura americana, escolhi um deles para brindar os meus leitores neste domingo.

Emocionei-me quando o ouvi no Sala de Redação, lido pelo Kenny Braga.

A tradução, fidelíssima a considero depois de ter buscado e lido o original em espanhol, é de Aurélio Buarque de Hollanda, o autor do Aurelião. Eis o poema monumental:

 

Em Paz

Já bem perto do ocaso, eu te bendigo, ó Vida,

porque nunca me deste esperança mentida,


nem trabalhos injustos, nem pena imerecida.


Porque vejo, ao final de tão rude jornada,


que a minha sorte foi por mim mesmo traçada;


que, se extraí os doces méis ou o fel das cousas,


foi porque as adocei ou as fiz amargosas:


quando eu plantei roseiras, eu colhi sempre rosas.


Decerto, aos meus ardores, vai suceder o inverno:


mas tu não me disseste que maio fosse eterno!


Longas achei, confesso, minhas noites de penas;


mas não me prometeste noites boas, apenas,


e em troca tive algumas santamente serenas…


Fui amado, afagou-me o Sol. Para que mais?


Vida, nada me deves. Vida, estamos em paz!

(Crônica publicada em 11/11/2001)

A maldade humana

11 de março de 2011 0

A maldade humana Uma das características humanas que mais me intrigam é a delícia em se comprazer da morte dos outros homens ou dos animais.

Um exemplo entre mil: as touradas.

Todas as pessoas que se dirigem a uma praça de touros vão movidas pelo prazer de ver sangue, de assistir a um sacrifício.

A maioria dos aficionados, certamente, vai ver o sacrifício do touro. Mas há uns, entre eles inúmeros turistas, que se apiedam do touro e, conseqüentemente, torcem pelo sacrifício do toureiro, não há outra saída.

O indubitável é que todos que vão lá são inspirados para celebrar o espetáculo de uma desgraça alheia.

É esse impulso ancestral do homem que me deixa atônito. Ele é muito eloqüente nas grandes lutas que se travavam na antigüidade, exemplo as liças do Coliseu, onde em uma só tarde morriam às centenas os humanos e os animais.

E quantos mais morressem, mais se satisfazia a turba. E quantos mais morressem, mais se tornavam populares os governantes da época, os imperadores, por terem proporcionado aos seus súditos aqueles jogos de indizível prazer ótico.

É de tal sorte esse sadismo humano, que se inventam lutas entre galos, entre canários, entre cães e entre outros animais como diversão em que são feitas gordas apostas ou se cobra ingresso pelos espetáculos.

E têm sucesso extraordinário em todo o mundo as lutas de todos os tipos que são travadas entre os próprios homens, entre elas o boxe, a luta-livre, o judô, o sumô, ao fim de tais embates muitas vezes saem feridos os litigantes, quando não acontecem as mortes.

Algumas dessas lutas alcançam tal sucesso em todo o mundo que quantias imensas são comercializadas pela televisão para transmiti-las para diversos continentes. Outras apaixonam seus torcedores em vários países, que lotam os estádios semanalmente, sendo também transmitidas preciosamente pela televisão.

Tudo isso com o assistente das platéias ou os telespectadores babando de gozo com o sofrimento dos lutadores. Quanto maior o sucesso de uma agressão, maior o prazer, que vai até a euforia, do espectador.

Isto desde que o mundo foi criado.

Até os dias de hoje, quando nos gabamos de ter ingressado num milênio civilizado.

Qual o impulso que nos leva a ver a luta pela sobrevivência no mundo animal, principalmente nas savanas e selvas africanas, que nos mostra diariamente o canal Discovery, da TV a cabo?

Sem dúvida alguma, o momento mais importante para o espectador, o que mais o atrai a permanecer com o televisor ligado, é o do embate entre o animal presa e o animal predador.

Se há um bando de impalas, veados, gazelas, búfalos, sob a mira de leões, tigres, leopardos, hienas, aproxima-se para o telespectador o instante máximo da transmissão: aquele em que as feras atacarão suas vítimas alimentares.

Quando um leopardo sai correndo atrás de uma gazela, o telespectador nutre até uma compaixão pela presa.

Pode até torcer que ela escape, mas só estará satisfeito como assistente daquela corrida em busca da sobrevivência, embora isso possa se dar no plano do inconsciente, se ela tiver um desfecho que é quase sempre invariável: a vitória da fera sobre o seu petisco.

Essa inclinação do homem em ter prazer com a dor alheia me atormenta.

Porque fico pensando que é traço essencial da nossa natureza humana a maldade, verificada até mesmo em pessoas consideradas boas e decentes.

Se se for verificar a história humana através dos tempos, vai se notar que ela se dá em cima de guerras, destruições e dominações de uns homens sobre os outros.

Mas será que isso nos autoriza a pensar que o homem intrinsecamente é mau? Eu sempre pensei que sim. Mas há teorias que me desautorizam essa conclusão.

Só que essas teorias trombam espetacularmente com os fatos.

(Crônica publicada em 31/01/2002)

A época da inocência

10 de março de 2011 3

Há uma melodia muito triste, entremeada de versos tão simples quanto belos, que se constitui num clássico do populário brasileiro: “Tu não te lembras da casinha/ pequeninha/ em que o nosso amor nasceu?/ Tinha um coqueiro do lado/ que coitado/ de saudade/ já morreu”.

Os coqueiros estão ligados estreitamente à minha infância. Para começar, eu de dois a cinco anos de idade morei na Rua dos Coqueiros, hoje Rua 17 de Junho, no Menino Deus. Era toda ela pontilhada de coqueiros.

Depois fui levado para Jaguari, onde estudei o primeiro ano numa escola de freiras e via lá de cima o rio que corta a cidade apinhado de pescadores, buscando em suas águas claras traíras cintilantes. Lá também na chácara em que morava havia altivos coqueiros.

Em seguida voltei para Porto Alegre e fui residir na Chácara das Bananeiras, ali na encosta do Morro da Polícia, junto aos quartéis da Brigada Militar.

À frente da minha casa, adornando um gramado cheio de urtigas, havia três esbeltos coqueiros. Eles sempre estavam à frente da paisagem vista da casa e lideravam o bucólico cartãopostal da nossa vivenda, aquele lugar inesquecível das tonteiras de guri.

Vez por outra ainda passo por ali, atrás do Regimento Bento Gonçalves, para deixar que se derramem dentro de mim as recordações de um tempo de doce alienação, das fantasias infantis contidas nas histórias em quadrinhos, na pelada de todas as tardes no campinho, nas incursões pelas selvas do morro, colhendo araçás, goiabas, maracujás, amoras, pitangas… e coquinhos.

Meus olhos ficam marejados quando volto ao cenário pretérito da minha felicidade. Dos três coqueiros da minha casa, resta, depois de 50 anos, apenas a metade do caule sem copa de um deles, resistindo corajosamente ao tempo, como a dizer-me que o encanto da vida não acaba nunca para os que resistem.

Como eram doces os fibrosos coquinhos da minha infância! Os butiás eram azedos, mas os coquinhos, mal amarelavam e tinham seus cachos empenados pelas nossas taquaras, os frutos melífluos caíam no chão e eram por nós devorados durante horas.

Não tenho dúvida de que essa obcecada propensão que tenho pelos doces me vem do tempo em que vivia com os lábios sujos dos frutos açucarados da natureza, colhidos farta e gratuitamente das árvores sem dono dos campos do Partenon. Os nossos rostos, nos fins de tarde, estavam sempre pintados com as tintas amarela e roxa das amoras, das pitangas e dos coquinhos. Alguma energia que me faz ainda manter-me ereto, diante do ataque férreo dos excessos de uma juventude airosa sobre meu corpo, certamente foi adquirida por aqueles sucessivos anos de vegetarianismo, quando eu saboreava profusamente as frutas silvestres da minha vagabundagem pelos campos.

Não existem mais os coqueiros da Rua dos Coqueiros, os coqueiros de Jaguari, os coqueiros do Partenon, mas cravam-se na minha mente e no meu coração, como marcas indeléveis de um tempo que corria célere, e só agora tenho consciência de que era feliz, pois não continha sequer a incerteza com o futuro, junto com a inexistência do passado: o largo e inconfundivelmente paradisíaco tempo da infância, sem planos, sem inveja, sem comparações, sem ambição e sem ressentimentos.

É tão pura, genuína e virginal a infância que só muito depois dela eu fui saber que havia pobres e ricos, que havia ódio e traição, todas essas sombras que, embora existentes ao redor de uma criança, são absolutamente imperceptíveis a ela.

E não me sai da cabeça a metade de caule daquele coqueiro que ainda lá nas Bananeiras resiste, a me empurrar para a recordação deliciosa daquela encantadora época da inocência.

(Crônica publicada em 07/07/1996)

Trânsito agressivo

09 de março de 2011 18

Está impossível dirigir neste trânsito maluco. Grande número dos motoristas mostra no tráfego a síndrome dos motoboys, querem passar na frente de todo mundo por qualquer espaço que encontrem. Tanto nas estradas quanto aqui na cidade há uma pressa, uma ânsia de chegar antes, uma obsessão em superar o motorista que está na frente ou ao lado que chega às raias da irresponsabilidade.

Eu tenho a impressão de que esse modo de dirigir atropelando os espaços dos outros não pertence à formação desses motoristas infratores, é do caráter deles mesmo. São pessoas que se acham donas do mundo quando lhes é proporcionado um volante. Sentemse plenipotenciárias, proprietárias de todas as vias, não lhes perturba a coação que exercem sobre os outros motoristas no trânsito, querem é superá-los, deixá-los para trás. Agem como se estivessem dirigindo sozinhos nas ruas, os outros motoristas são estorvos, ou saem da frente, ou serão “cortados” abruptamente, forçados a desviar do curso desses intrusos, sob pena de serem alvos de acidentes.


Há uma perigosa cultura de supremacia entre esses motoristas aos quais não importa chegar, têm que chegar na frente dos outros. Os outros, os que vão na frente, são considerados obstáculos detestáveis, só perdem essa condição se abrirem o caminho para os apressadinhos ou de forma violenta forem obrigados a se afastar do caminho deles.


É muito difícil remover essa mentalidade de tropelia no trânsito, só uma intensa e longeva campanha em massa de conscientização pode mudar essa tendência de alto perigo que cerca o nosso trânsito. Além do perigo, o desconforto: os motoristas de bom senso, os que esperam a sua vez, os que só ultrapassam com absoluta segurança e sem agredir o espaço alheio, os que têm paciência com os que vão à frente, esses estão vivendo um exercício de medo e de tensão, a todo instante sob ameaça dos trêfegos agressores.


A agressividade no trânsito parte sempre dos mesmos motoristas, aquele que o “fecha” subitamente, pode olhá-lo, mais adiante faz o mesmo contra outros, irrita-o aquele corso numeroso de carros na avenida e ele se obstina em ultrapassar a todos, indistintamente a todos. Parece que seu ego cresce se ele superar toda aquela procissão de carros. E essa “costura” que os motoboys fazem no trânsito, ultrapassando tanto pela direita quanto pela esquerda, por onde bem entendem, sem serem avistados sequer pelos retrovisores dos carros ultrapassados, o que causa apreensão e susto, está começando a ser imitada pelos carros de menor tamanho. Quanto menores, mais atrevidos, prevalecendo-se de que podem passar por espaços em que os outros não cabem. Então vão furando a fila e se embarafustando por qualquer brecha, independentemente da invasão do espaço alheio.


Nunca foi tão difícil dirigir em nosso trânsito como atualmente. Noto que os motoristas sensatos estão adotando um método defensivo, mais preocupados com o dano que possam lhes causar os motoristas arbitrários do que com a visão espacial do trajeto. É preciso que as autoridades de trânsito e a imprensa se dediquem imediatamente a uma grande campanha de informação aos motoristas, inculcando-lhes que não há forma mais acessível de exercer os princípios cristãos, civilizatórios e democráticos do que respeitar o próximo no trânsito.

(Crônica publicada em 11/02/2004)

Lembranças de Carnaval

08 de março de 2011 1

Enquanto aproveito o resto do Carnaval no Rio de Janeiro, gostaria de compartilhar aqui algumas fotos antigas dos meus momentos de folia.

Catálogo de chatos

04 de março de 2011 8

Vou publicar hoje vários tipos de chatos que cataloguei no cotidiano da cidade:

CHATO QUEBRA-AGENDA – É aquele chato que tão pronto topa com você vem logo pedindo: “O senhor me concederia 30 minutos do seu tempo?”

CHATO SEMÂNTICO – É o chato que está conversando todo o tempo com você sem prestar atenção no mérito do que você diz. Ele só presta atenção no português que você usa. E, quando você incorre num erro, ele interrompe sua fala para salientá-lo e corrigi-lo. Dá vontade de dar um murro nesse tipo de chato. Quero informar num acesso de humildade que por vezes incorro nesse tipo de chatice.

CHATO DO ADIANTO –
É aquele jornalista que escreve uma ótima matéria para seu jornal, antes de baixála para a edição fica mostrando o seu golaço a todos os colegas da Redação que encontra. Todos são obrigados a ler, isso que vão ter de ler novamente quando o texto for editado. Quero confessar que cometo esse tipo de chatice todos os dias.

CHATO ETÁRIO –
É aquele chato que, na conversa, fica espreitando tudo que você fala para achar a oportunidade de manifestar a sua ancestral chatice, basta que você lhe conceda a deixa na conversa e ele ataca: “Qual é a sua idade?” E logo compara a sua idade com a dele, as vantagens e desvantagens. Muitas vezes incido nesse execrável erro.

CHATO AUTORAL – É o ótimo cantor a quem você vai ouvir no teatro ou na casa noturna, pagando até ingresso muitas vezes para vê-lo, mas chega lá e é obrigado a ouvir várias músicas que ele compôs. Ora, a gente vai lá para ouvir um excelente cantor, não ouve, acaba ouvindo um péssimo compositor. Em Porto Alegre é freqüentíssimo na noite esse tipo de chato abominável. O oposto a esse chato é o grande compositor que é péssimo cantor, mas insiste em interpretar todas as suas músicas. Esse tipo de chato é relevado pela curiosidade que se tem sempre de ouvir a criação na própria voz.

CHATO COSMOPOLITA – É aquele para quem, numa roda de conversa ou numa qualquer reunião, basta que surja a oportunidade no assunto para que intervenha: “Em Paris, uma vez deu-se isso comigo…” Logo a seguir: “Toda vez que vou a Nova York nunca deixo de ir jantar no Alfredo”. E mais adiante: “Em Túnis, uma vez, aluguei uma Mercedes e me dirigi para Cartago, distante uma hora e meia de carro”. Esse tipo de chato se caracteriza por gastar uma fortuna em viagens só para depois infernizar os outros com seus relatos.

CHATO DO INSUPERÁVEL – É o sujeito que, numa Redação do jornal, numa roda de médicos ou engenheiros ou de advogados, submete o seguinte ao chefão: “Estou de posse de um trabalho magistral, você quer aproveitá-lo?” E o chefão pergunta: “De quem é o trabalho”? E o chato responde: “Meu”.

(Crônica publicada em 10/01/2006)

Ganhou. Não convenceu.

04 de março de 2011 9

Mais uma partida em que o Grêmio ganhou, mas não convenceu. Isso tem se tornado rotina ultimamente.

O time faz com que o torcedor seja nutrido de esperança. Ao mesmo tempo, deixa o sentimento de incerteza se conseguirá avançar na Libertadores.

A saída de Jonas desfigurou  o ataque, Carlos Alberto não conseguiu corresponder às expectativas criadas por seu prestígio e, sem Lúcio, o Tricolor perdeu um pouco de sua dinâmica.