Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de abril 2011

Felizes dos avós!

29 de abril de 2011 15

Pelo amor de Deus, não me entendam mal, que eu já ando pisando em ovos toda vez que digo verdades polêmicas ou não muito bem visíveis. Mas é forçoso dizer que um homem ou uma mulher só podem ser felizes quando tiverem netos. Não serão felizes se só têm filhos.

Pausa.

Agora a explicação: são tantas as atribulações que os filhos dão aos pais que verdadeiramente os amarem, que não há tempo de eles os curtirem com contentamento.

Melhor explicando: os pais passam a vida inteira trabalhando para sustentar seus filhos e encaminhá-los na vida. Gastam toda a sua vigília e têm atormentado seu sono pela preocupação com a formação e o futuro de seus filhos.

Acabam não tendo tempo na vida para colher os frutos dessa semeadura toda, percorrem toda a existência num turbilhão de tarefas e façanhas dirigidas todas ao benefício de seus filhos, esquecem-se de si próprios e não raro se tornam infelizes por este fardo colossal e inarredável.

Repito: não me entendem mal, que eu amo meus filhos e sei bem o quanto é bom ter filhos.

É que o ângulo sob o qual estou abordando essa questão é outro. E agora o lado inverso: os avós, estes sim têm tudo para obter felicidade junto a seus netos. Diz o ditado que os netos são filhos com açúcar. E todo o ditado contém uma verdade.

Para começar, os avós só vão se encontrar com os netos, quase sempre, em sábados, domingos, feriados, dias de aniversário. Isto é, já os pegam arrumadinhos, perfumados, felizes, felicidade esta que é imediata e automaticamente transmitida ao avô e à avó.

Em segundo lugar, quando os avós começam a brincar com os netos, não lhes assalta nesse momento feliz o que toma conta dos pais no mesmo instante: a preocupação com o dia seguinte, quando as crianças têm de ir para a escola, as crianças estão mal em matemática ou português, têm, segunda-feira, de se submeter a um exame médico e outras mumunhas.

Nada desse universo preocupante pertence aos avós. É tudo atribuição incômoda dos pais.

Acho que nesta altura os meus melhores leitores, aqueles que mantêm comigo esta relação divina de entrarem em colóquio com o que escrevo aqui todos os dias, me entenderam e não caíram em confusão, deixando de me aprovar.

A felicidade é, portanto, muito mais propícia aos avós que aos pais. Na relação custo-benefício, o custo é dos pais, o benefício é dos avós.

Por isso é que são mais tendentes a serem felizes os avós do que os pais. E eu sou pai e avô, tenho autoridade para afirmar isso.

Mas a minha maior autoridade não deriva disso. Deriva, isto sim, do fato inesquecível de que já fui ao mesmo tempo filho e neto, ao tempo em que coexistiam meu pai e minha avó. E dei muito mais alegria, àquela época, à minha avó do que ao meu pai.

Claro que me entenderam hoje os meus leitores neste tema delicado! Não posso acreditar que houve alguém que não me entendeu e vá protestar!

(Crônica publicada em 20/05/2000)

A crônica que não pode ser adiada...

28 de abril de 2011 7

O leitor Valacir Marques Gonçalves escreveu uma crônica em minha homenagem. Segundo Valacir, ela não pode ser adiada. Não será. Leia:

Acompanho o Paulo Sant’Ana desde quando ele era mais singular ainda – o “Pablo” não existia… Lendo sua coluna, descobri que a última página de um jornal pode ser a mais nobre, a primeira que deve ser lida. Não trato os livros da mesma forma, mas confesso que a tentação é grande… Já, no cinema, é impossível iniciar pelo fim, mas a última cena precisa ser inesquecível. Quem não lembra “Quanto mais quente melhor”, quando o cara pediu a mão da amada e ela revelou um monte de defeitos, tentando fazê-lo desistir. Ele continuou insistindo. Sem alternativas, “ela” confessou: – Sou homem! A resposta encerrou o filme, e virou lenda: – Ninguém é perfeito!… Valeu o ingresso.

Voltando ao Sant’Ana: ninguém pode ter a pretensão de entendê-lo, assim, de repente. O personagem (que rivaliza com o homem) divide opiniões. Megalomaníaco confesso; se for comprado pelo que imagina que vale e vendido pelo o que acha que vale, enriquece o comerciante… Mesmo assim, não existe dúvida, ele tem um valor imenso. Com seus devaneios e “viagens”, ele faz parte de um mundo carente de personagens carismáticos, que ficam distantes do politicamente correto que engessa a vida e torna tudo previsível. Por isso, os males que o estão afligindo chamam atenção. Cada manifestação é um discurso, a emoção aumenta a cada dia. Com a saúde abalada, está preocupado. Um dos motivos: ninguém escreve a crônica que ele não pode escrever.  Está na hora, ela precisa ser escrita.  

Ela poderia ser iniciada lembrando o dia em que ele pediu a um motorista de táxi que o levasse até o morro mais alto de Porto Alegre. Lá, solicitou que ele voltasse no final da tarde para buscá-lo. O taxista ficou impressionado, não aguentou a curiosidade e perguntou por que ele queria ficar sozinho num lugar tão ermo. Ele respondeu, com toda a solenidade do mundo: – É pra ver como Porto Alegre consegue viver sem mim… Sant’Ana, depois de saber como Porto Alegre consegue viver sem ti por um dia, tu precisas saber o que acontecerá no dia em que isso acontecer para sempre…

Nesse dia, o futebol será o assunto de muitos. Lembrarão tuas sacadas, como a de que jogador ruim não pode ficar no banco, acaba entrando… Ou aquela de que no mundo capitalista só tem um tipo de jogador inegociável, o ruim – ninguém quer… Não vão esquecer o “Papai Noel” azul que levou uma surra no velho Eucaliptos. E também das bolas fora, quando tu disseste que goleiro que usa bigode não pode dar certo, ou quando saudaste, com entusiasmo, o “salvador” que veio de “Belém”, um centroavante de quase dois metros de altura que não jogava nada. Lembrarão que todos queriam saber o que tu dirias depois de um Gre-Nal, mesmo sabendo que  exaltarias o tricolor na vitória, e farias as “denúncias” de sempre na derrota, quando o árbitro não era esquecido, nunca.

Vão dizer também que vai ser difícil colocar teu túmulo no centro do Parque Farroupilha para atender o pedido revelado numa entrevista, quando falaste que querias que construíssem um mausoléu para abrigar o teu corpo. Lembrarão que querias que ele fosse colocado entre o Mario Quintana e o Lupicínio; na tua opinião, as três maiores sensibilidades gaúchas… Alguns maldosos vão dizer que eles não concordarão. O Quintana não deve ter esquecido os cigarros que “roubastes” dele na madrugada em que estava sendo velado; o Lupi, com certeza, não vai perdoar tuas inesquecíveis “interpretações”…

Tuas lágrimas não serão esquecidas. Elas emocionaram muita gente quando, doente, teus colegas não entenderam que tu querias apenas um afago, um cafuné – a confirmação de que tu fazias falta. Lembrarão tua inconformidade quando disseste que não houve uma visita, um telefonema… Não guardaste rancor, embora tivesses dito, na hora, que descobriste que tinhas muitos colegas e poucos amigos… Ainda bem, tu entendeste; eles estavam contaminados por uma doença diferente da tua, que não poupa quase ninguém – a insensibilidade. Seguiste o conselho dos sábios que dizem que um homem não precisa de muitos amigos, que a quantidade deles deve ser a do número de alças do caixão que o levará para a última morada…

Sant’Ana, no dia em que Porto Alegre ficar sem ti, vão dizer que eras megalomaníaco até no amor – te amavas e eras correspondido… Por isso, teu ego precisa saber enquanto é tempo: farás falta para Porto Alegre. Tu és o cara que diz as coisas que ninguém espera, e também as que todos esperam. Sentirão tua falta. Quando não estiveres mais aqui, nos grandes jogos do tricolor, a cara de outro imortal vai estar presente, nem que seja enfeitando uma bandeira…

Inversão de papéis

28 de abril de 2011 4

Entre nervosas bicadas no seu copo de vodca, o meu amigo me contava a sua interessante história. Esteve casado durante 15 anos com sua atraente mulher. Até que conheceu a filial. Foi uma paixão fulminante, temperada deliciosamente nos esconderijos da clandestinidade. Vida dupla, felicidade tripla.


Meu amigo foi afundando no romance extraconjugal. Até que soçobrou às atrapalhações da prestidigitação, não era mais possível administrar os mecanismos da dualidade conflitante. E decidiu-se por sair de casa, entregando-se ao novo amor. Como sempre, separação dolorosa, as cicatrizes inevitáveis a qualquer ruptura.

Foi viver na casa da filial.

Vida nova, aquela coisa de comprar outros móveis, acostumar-se a outra cama, a outro bairro, novos valores. Durante um ano, o meu amigo desenvolveu a sua segunda lua-de-mel. Até que descobriu, na inevitável comparação, que gostava muito mais da matriz do que da mulher com quem agora estava vivendo. E decidiu-se por retornar à ex-esposa, depois que ficou convicto de que a filial continuaria aceitando o triângulo amoroso.

Meu amigo se emociona quando me conta a cena da volta. Ele desembarcando do carro com todos os seus badulaques, uma fila imensa de malas, na porta a matriz a esperá-lo com um largo sorriso de alegria. Beijaram-se afetuosamente, mas quando ele intentou botar para dentro da sua casa a primeira série de malas e outros objetos, a matriz não permitiu. E falou cordialmente:

— Desta vez, volta só você. Sem qualquer coisa a acompanhá-lo. Pegue todas as suas coisas, estas malas todas, e leve de volta para a casa dela. Daqui por diante, eu terei só você. Ela vai ficar lidando com as tuas coisas, vai lavar as tuas cuecas e cuidar de ti. Eu vou ficar com a parte mais interessante do teu espólio, tu próprio, a tua pessoa. Em suma, agora eu vou ser a filial.

Era de ver-se a cara com que meu amigo me narrou o novo translado de toda a sua bagagem e caraminguás para a casa da outra. E o seu semblante de desapontamento quando me disse que a nova e invertida modalidade “vai funcionando”.


(Crônica publicada em 26/04/1992)


Os homens errados

27 de abril de 2011 3

Éa mais importante frase, o mais fundamental pensamento que li sobre a revolução que está dominando as relações amorosas e conjugais, no que se refere às profundas modificações no comportamento da mulher na passagem de século.

A frase, que não é unicamente uma frase, mas uma ecoante lição, é de impressionante realidade. Foi vista no peito de uma mulher, na praia, escrita em sua camiseta: “Enquanto não encontro o homem certo, vou me divertindo com o errado”.

Sei de amigas minhas que delirarão com essa frase. Sei que essa frase vai agitar o raciocínio e os sentimentos de uma grande multidão de mulheres que porão os olhos nesta coluna e cultivarão esta frase como se fosse um ensinamento bíblico.

A frase, assim como está escrita, serve para muitas mulheres monógamas, as que se dedicam sexualmente a um homem só. Para as mulheres que costumam ter aventuras amorosas com mais de um homem, para fazer melhor sentido e ficar melhor assentada a elas esta frase, teria que ser mudada: “Enquanto não encontro o homem certo, vou me divertindo com os errados”. A frase, assim, ganha um outro impacto, embora ambas as frases sejam dilacerantes para a consciência do macho moderno.

Esta frase é a síntese do ponto principal da revolução do comportamento feminino que estamos presenciando: a grande mudança é que as mulheres começaram a descobrir aquilo que os homens sempre souberam exercitar: fazer sexo sem amor.

Esse era um privilégio dos homens, que submetem há séculos as mulheres à condição de objeto sexual. E, nesse sentido, nesse ritual que significava a liberdade sexual do homem, as mulheres iniciaram um processo de igualdade com os homens, significando essa metamorfose em suas vidas a conquista de muitas liberdades.

Em realidade, as mulheres em geral sempre se entregaram ao sexo pagando o tributo do amor ou da paixão, como me ensinou a psicanalista Maria Rita Kehl. E agora descobriram que não é mais preciso pagar esse preço para se realizar sexualmente ou ter uma vida sexual razoável: é bem possível obter esse prazer ou esse divertimento sem estar amando. Aí é que reside a superioridade feminina na revolução sexual a que estamos assistindo, que veio afinal dar mais segurança às mulheres e acabou por deixar perplexos os homens.

Enquanto não acham os homens certos, as mulheres vão se divertindo com os errados, esse é um comportamento feminino atual que passava despercebido até mesmo a algumas mulheres que o exercitavam. Elas o faziam inconscientemente, depois que lerem estas linhas vibrarão com a conscientização de seus atos.

Quando falei isso tudo o que escrevi acima a um amigo que está se separando de sua mulher, por vontade unilateral dela, ele me disse com tristeza as seguintes palavras: “Agora que estou deixando a mulher certa, passarei a me divertir com as erradas”.

(Crônica publicada em 29/10/1996)

O cego Justimiano

26 de abril de 2011 4

Ocego Justimiano, marido da dona Malvina, avô do Japir, foi um personagem importante da minha infância.

Criança, eu não entendia nada sobre as diferenças sociais ou pessoais.

Melhor dizendo, até hoje não entendo por que umas pessoas são cegas e outras enxergam, umas são ricas, outras miseráveis.

O que mudou foi que quando eu era criança não me apiedava dos cegos e dos pobres.

Era assim e eu aceitava que fosse assim. Hoje me rebelo contra o destino e meu coração agoniza quando me debruço sobre a sorte dos desfavorecidos.

O cego Justimiano era um até as cinco horas da tarde, outro depois das cinco.

É que às cinco horas da tarde dona Malvina liberava a cachaça para o cego Justimiano e ele se deitava a uma falação imparável.

Antes das cinco, o cego Justimiano era um ser inerme, inerte, mudo, ninguém ligava para ele e para sua solidão.

Só agora fico imaginando a aflição daquele homem que era obrigado a ficar calado durante toda a manhã e metade da tarde, à espera da redentora aguardente que serviria como um bálsamo para sua cegueira, um anestésico para sua tristeza, um alívio para sua vida sem atrativos, desesperada vida de um homem diferente de todos os outros, aprisionado nos grilhões implacáveis da escuridão perpétua.

Nenhuma vida é feita só de alegrias. Mas muitas vidas são feitas só de infortúnio e de sofrimentos.

A vida do cego Justimiano era infortunada como a vida dos reclusos, dos inválidos, dos miseráveis necessitados.

Esse é um dos mistérios mais intrigantes da condição humana: por que uns são mais infelizes do que os outros, por que algumas pessoas vivem pregadas nas cruzes do seu martírio durante todo o decorrer de suas existências?

Esses suplícios têm o seu significado sonegado à compreensão humana. É inútil perquirir sobre eles, ao homem não é permitido perscrutar sobre a razão do sofrimento, uma parede sólida se interpõe entre a inteligência e a curiosidade filosófica. É impossível decifrar a desigualdade que diferencia brutalmente as pessoas, umas superiores às outras, umas mais belas, mais lúcidas, mais fortes, mais ricas que as outras.

O cego Justimiano foi um marco dessa minha estupefação com o discriminatório desígnio da vida, que divide os homens, desde o seu nascimento, entre álacres e tristes, conforme os papéis existenciais que lhes foram destinados.

E me surpreendeu que eu tivesse sido indiferente à sorte sinistra do cego Justimiano quando eu era criança.

E que essa compaixão terna que sinto por ele tenha irrompido somente ontem à tarde, quando me lembrei de repente do cego Justimiano embebedando-se debaixo da bergamoteira depois das cinco da tarde, único horário que lhe permitiam para esquecer da sua desgraça.

(Crônica publicada em 13/09/2008)

O ponto G

25 de abril de 2011 9

Não existe nada mais farsesco que a suposta habilidade que um homem possa ter para localizar o ponto G em uma mulher.

Quando uma mulher desafia um homem a encontrar nela o seu ponto G, é porque ela própria ainda não o descobriu e está procurando ajuda para achá-lo.

Na verdade, o ponto G de uma mulher não está localizado no corpo dela, mas no corpo ou na alma do homem por quem ela se apaixona.

O amor ou a paixão se instalam exatamente quando uma mulher ou um homem notam que uma outra pessoa está despertando nela ou nele uma atração irresistível.

O tal de ponto G de alguém, portanto, está na outra pessoa.

Quando uma pessoa se apaixona, na presença do seu enamorado, todas as partes do seu corpo passam a ser ponto G.

Se alguma mulher fosse realmente portadora de um ponto G, seria a primeira a revelá-lo para seu parceiro, poupando a ele e a ela a busca cansativa e exasperante do segredo.

O que há em realidade são zonas erógenas preferenciais. Há mulheres que não sentem qualquer excitação nos seios, nem por isso se pode considerá-las frígidas, pode muito bem acontecer com elas que se abrasem em voluptuosidade mal se toque em suas mãos ou em volta do pescoço.

Era famosa na esquina da Rua Barão do Triunfo com a Rua 20 de Setembro, na Azenha, algumas décadas atrás, por parte de um querido personagem naquela zona, o Rubinho, a sua propensão a entrar em verdadeiro surto erótico quando qualquer mulher o tocasse nas sobrancelhas. Ele se rendia e se entregava languidamente à concupiscência.

Contava o Rubinho que as mulheres que desejavam satisfazêlo já conheciam o truque: bastava que cofiassem suas sobrancelhas e dissessem “sobrancelhinha grossa da Barão” e ele, mesmo ainda vestido, já atingia o orgasmo.

Está comprovado cientificamente que, enquanto o homem tem maior facilidade de excitar-se visualmente, a mulher no entanto só se abrasa e tem vencidas as suas resistências com os contatos táteis.

Por isso o sucesso entre clientes masculinos das revistas pornográficas e do strip-tease, enquanto as mulheres só são atraídas a esse expediente pela mera curiosidade, jamais pelo interesse objetivo.

Essa é a regra geral, existem as exceções. Mas a implantação de espelhos e jogos de luzes nas alcovas é uma inspiração nitidamente masculina, quando as mulheres concordam com ela é para agradar ou atrair seus parceiros.

Tanto o homem se move no sexo pela visualização que a moda feminina criou excelentes estratagemas para atrair o homem com as roupas íntimas da mulheres.

E a maquiagem feminina é essencialmente estimulada pela voragem da visualidade dos homens.

Isso não quer dizer que a mulher prescinda da visualização para suas escolhas. Mas quase que invariavelmente o homem não dispensa a luz durante o ato sexual, enquanto que a iluminação do ambiente onde se dá a conjunção carnal é quase que indiferente para a mulher, se for desligado o spot ou o abajur, isso não terá mais significativa importância para ela.

Essas são apenas algumas minoritárias diferenças entre a natureza sexual de homens e mulheres.

Distingui-las nunca é demais para a elaboração de performances menos imperfeitas.

(Crônica publicada em 06/06/2004)

O embate dos chatos

24 de abril de 2011 2

Ocampo ideal para os chatos é uma pequena roda. Aí então eles atacam demolidoramente. Chato não perturba comício ou show artístico, justamente porque ele não consegue desviar da ribalta a atenção para ele.

Outra coisa: os chatos são chatos porque têm bastante tempo disponível. Você, leitor, nunca vai ver um chato apressado. Chato gasta tempo como um perdulário.

Outra coisa: uma prova de que os chatos são chatos por não terem nada que fazer é que uma característica básica do chato é a insistência.

Ou seja, o chato é rechaçado em tudo que tenta ou faz. E após o primeiro rechaço, quando a gente pensa que o descartou, o chato volta olimpicamente. E, para surpresa nossa, ele volta sempre com o mesmo assunto.

Insiste o chato porque tem tempo. Quem não tem tempo não insiste. Muda de assunto ou vai embora.

E chato só vai embora se houver um apagão no recinto.

Por que os chatos andam pelas ruas ou pelos recintos à cata de pequenas aglomerações? Exatamente porque todo o chato é um exilado do seu lar.

O lar do chato sempre decreta que a sua casa lhe servirá somente de prisãoalbergue: a mulher do chato ou seus filhos determinaram, depois de não agüentarem mais o chato, que ele só pode estar em casa à noite, assim mesmo depois que todo mundo estiver dormindo ou prestes a tal.

Como é indesejável em casa, o chato se atira à prospecção das ruas durante o dia inteiro. E salvem-se as suas vítimas que puderem.

Num coquetel, por exemplo, o chato chega e logo elege umas quatro rodas como preferenciais para seu ataque predatório.

Ele começa a sua rapinagem pela primeira roda. Começa a chatear seus integrantes, um a um ou coletivamente. Às vezes ele é obrigado a chatear a roda inteira, se for aplicar tratamento individual, perde tempo e vê dissolvidas, antes de seu contágio viral, as outras três rodas.

Podem ver que na primeira roda que o chato ataca, que tinha originalmente cinco pessoas, com a chegada do chato fica com seis.

Aos poucos, examinem bem, a roda vai encolhendo. Pronto, o chato está impossível hoje: a roda que tinha seis só resta agora em três integrantes. Dali a pouco restará só o chato e um último desgraçado da roda em companhia do chato.

O chato já esgotou e desintegrou a primeira roda. O coquetel continua se desenvolvendo só no bate-papo e nas bebidas, o que o chato adora. Chato detesta discurso em coquetel. Ele quer todo mundo conversando, este é o ambiente ideal para sua tara persuasiva e insinuante.

Ele aborda a segunda roda e vê com felicidade que dois dos integrantes já tinham fugido dele na primeira roda.

Interessante é que por mais talentos que haja numa roda, quando um chato se introduz nela, em segundos ele toma conta da palavra. Sim, porque nunca passou pela cabeça de um chato integrar uma roda sem ser o centro de atração.

Nessa altura do campeonato, o nosso chato já demoliu três rodas. E parte para a última roda que escolheu para infernizar.

Estou escrevendo isso porque fui testemunha realmente deste fato no último coquetel a que compareci.

O chato foi chateando a última roda, um por um dos integrantes, que foram saindo de fininho.

Até que, de longe eu espiava, o chato ficou sozinho na roda. Só que então aconteceu o incrível. O que remanesceu na roda com o chato era um outro chato.

E de longe eu pude ver a irritação e a raiva que foram tomando conta dos dois chatos, à medida em que discutiam.

Todos os outros convidados já tinham se retirado ou subido um andar do prédio, por onde se estendia o coquetel. Saíram ou se afastaram, apavorados com os dois chatos.

E no centro do salão ainda se travava o embate do século entre os dois chatos, a finalíssima do campeonato mundial de náusea verborrágica.

Ganhou o chato que defendia a tese de que está correto que as fábricas de papel higiênico tenham diminuído o tamanho do rolo.

Ainda o escutei pronunciando a frase com que pôs a nocaute o seu adversário: “Para que vai querer mais papel higiênico um povo que se queixa de que, em razão do custo de vida e do desemprego, cada vez come menos?”

(Crônica publicada em 26/08/2001)

Teus olhos

23 de abril de 2011 1

Olhos de mormaço e de plenilúnio. Olhos azuis ou esverdeados de interrogação e consentimento.

Olhos de promessas, fianças de ventura. Olhos de ternura permanente e definitiva, garantidores de serena e duradoura paz.

Basta-me a curta distância desses olhos para arremessar-me com coragem às tempestades e a certeza de que, sempre que retornar, eles me recompensarão com a felicidade.

Olhos de mistério e de clareza. Embriagadores olhos que avistei um dia por acaso, arrebatadores olhos que me seduziram à fortuna de me terem cativado.

Olhos que se somam e se sobrepõem a teu sorriso de brancura desejante. Olhos de princesa e de serva, de rainha e de súdita, dominadores olhos que irradiam também submissão.

Olhos faiscantes de candura e desafio. Pedras preciosas e raras, olhos de gemas fulvas, olhos que penetraram meus olhos até o desconcerto e a estupefação.

Nada há que se compare na natureza ou no sonho à utopia dos teus olhos. Olhos de garça tímida e de pantera temível, olhos inquietos de malícia e mansos de esperança.

Olhos de romance e de poema, olhos de aventura e de recato. Olhos mediúnicos de transcendência, metafísicos olhos de reflexão.

Olhos impudicos de lascívia e de vestal pureza, olhos de ambição e de humildade. Como pude emaranhar-me nestes olhos a ponto de me tornar para sempre peregrino de sua luz?

Olhos de que nunca irei fartar-me, que me arrancaram para sempre do tédio e tornaram minha existência vibrátil como um pássaro que se joga ao espaço oferecido.

Olhos como a criação jamais ousou plasmar assim tão belos, de estro insuperável, olhos de melodia suprema, de horizonte infinito à disposição do vôo e da superação.

Olhos de dons e de lavores jamais imaginados, irreais e concretos olhos que socorreram e curaram minha incerteza e meu desespero.

Olhos salvadores que me surgiram quando todas as minhas forças já quase desfaleciam, revigorantes olhos da minha regeneração, novo e empolgante sentido da minha vida que já cambaleava.

Olhos do meu refúgio, olhos do meu cais, olhos da minha vinda e da minha volta, olhos desanimadores da minha despedida, impulsionadores do meu arremessamento, fiadores da minha realização.

Não posso crer que me apareceram quando a vida se me tornava cada vez mais menos apetecida!

Olhos que me cegam de paixão e me descobriram para o verdadeiro amor que supunha e cria jamais experimentar. Olhos só teus que agora creio também só meus.

Olhos capazes de me fazer esquecer e renunciar a todos os meus outros valores, insuperáveis olhos que só agora me fazem sentir pela primeira vez ser um homem, completo ser que se desvencilhou do vazio de antes do avistar e do compreender desses olhos de divino fulgor.

Eis-me aqui, para sempre e irremediavelmente só tendo olhos para estes teus olhos, querida, amada, idolatrada mulher da minha vida!

(Crônica publicada em 28/10/2001)

Isto é a vida!

22 de abril de 2011 3

Interessante notar que toda fila que passo a integrar, seja no trânsito, seja em bancos, seja em cinemas ou nas caixas dos supermercados, esta fila que escolhi é sempre a que menos anda. As filas do lado da minha se esgotam e fluem como por um milagre e eu estaco feito um dois de paus na minha fila morosa e irritante.

E também já escrevi aqui que chega a ser impressionante que, no trânsito, todo o automóvel que trafega imediatamente à minha frente é sempre o mais lento, o mais desatento, um cágado.

Enquanto que o automóvel que trafega imediatamente à minha traseira é sempre o mais rápido, o mais apressado, o mais impaciente, o mais buzinante.

Eu sempre cobiço nessas ocasiões que, lá adiante, eu saia daquela fila e aquele que vem atrás de mim passe a ficar imediatamente atrás daquele que está na minha frente, aí é que ele vai ver o que é bom para a tosse.

Da mesma forma, por um azar genético, telúrico, indescolável do meu destino, todas as pessoas que estão imediatamente postadas na minha frente, nas filas das agências de bancos, são as mais demoradas para ser atendidas.

Todos que estão na minha frente têm montanhas de DOCs para pagar. E invariavelmente se instala à minha frente, no embate entre os que me antecedem e o caixa do banco, uma encrenca, um desentendimento, um impasse sobre determinada quantia a ser paga, qualquer inconciliável conflito sobre o cálculo dos juros ou das multas a pagar.

Eu já levo um livro de sonetos para as filas dos bancos, tento amenizar com a poesia aquele mal-estar e incomodidade que exalam pelo ambiente ao meu redor, tal a demora nauseante que precede o meu atendimento.

E depois dos 45 minutos que fiquei esperando e lendo, esperando e lendo, decorando os sonetos, sou finalmente atendido.

E não posso crer que tenham demorado tanto à minha frente se em um minuto e meio o caixa já se livrou de mim.

E aí fico olhando de longe o atendimento dos que estavam atrás de mim, incrivelmente levam o mesmo rápido tempo que levei, a fila corre célere como enterro de pobre.

Será que é só comigo que acontece isso? Tudo bem que aconteça, mas sempre, todos os dias, é coisa que não dá mais para suportar.

(Crônica publicada em 13/11/2001)

Romance urbano

21 de abril de 2011 1

Conheceram-se num daqueles lugares que o povo escolhe para divertir-se, sem propaganda nas rádios e nos jornais, aquela milagrosa índole das multidões para encontraremse, independentemente da crise, da inflação ou dos dramas particulares que se desenrolam em todas as vidas.

Ele viu o vulto dela, fixou-se nela, ela inicialmente fingiu que ele lhe passara despercebido, fazia parte da estratégia da atração. Ele insinuou-se até ela em meio ao burburinho de gente. Ela ainda manteve-se fria, embora atenciosa, na tentativa de dificultar um pouco a ligação.

E conversaram. Ela gradualmente foi cedendo às forças da reação que intentara, à medida que ele falava e lhe dizia do encantamento de que se tomara ao vê-la e mais ainda agora, que se dirigia a ela e por vezes até a tocava inocentemente. Ela e ele estavam se apaixonando, ali no entrevero das músicas e das danças, entre tanta gente desnorteada, à procura daquela sintonia que, no entanto, obtiveram como que por uma mágica.

Ela tinha consciência da sua beleza, embora duvidasse de que fosse o tipo dele. E desafiou-o: “Por que, entre tantas que estão aqui, mais altas do que eu, mais jovens do que eu, tu me escolheste?” Ele notou logo que ela oferecia ao seu próprio vulto feminino uma restrição, esses complexos ou sentimentos de inferioridade tão comuns em tantos, depois de se autoconhecerem por largo tempo e cotejarem as suas virtudes e defeitos com os dos outros: achava-se baixa, talvez quisesse ser mais alta.

Foi a hora de ele esconder o seu segredo: era fixado em mulheres de meia-altura, gostava de ter a sensação de domínio e superioridade física. E não disse a ela que seu tipo físico e altura eram o que sempre idealizara, esperando que a sonegação dessa sua preferência fosse lhe trazer os lucros de quem não se entrega nas primeiras escaramuças. Achou que era vantagem mantê-la, por enquanto, insegura.

Mas respondeu a ela com o poema de Neruda, vindo estupendamente a calhar, dito ao seu ouvido: “Tu és a rainha/existem outras mais altas/ existem outras mais belas/ existem outras mais puras/ mas tu és a rainha!”

Quando do segundo encontro, já estavam a sós. E doidamente enamorados. Conversaram durante horas, ele conquistando ela, ela conquistando ele. Era uma paixão súbita, arrebatadora. Permitiram-se as carícias e os beijos mais duradouros e deliciosos, sem no entanto chegarem ao congresso carnal, ela com medo de que isso determinasse o fastio e o adeus dele, ele pensando o mesmo e querendo prorrogar até o fim da sua vida aquele amor inédito em seu coração há tanto tempo estéril.

Quando terminaram aquela sessão histórica da pedra de lançamento de mais um retumbante romance urbano, entre tantas dádivas, aprofundamentos espirituais e doces e instigantes primícias do sexo, ele despediu-se dela na porta, balbuciando:

– Saio daqui repleto de ternura e sedento de desejo.

– Calma, este teu desejo eu mato logo, logo.

– Mas cuida de não matar nunca esta ternura.

(Crônica publicada em 17/12/2001)

O destino

20 de abril de 2011 5

É quase impossível deixar de acreditar no destino. Ou seja, naquilo que acontecerá fatalmente em sua vida, o que está traçado para ocorrer a uma pessoa durante o tempo que vai do seu nascimento até a morte.

Quem não acredita no destino, é cego para a brutal verdade de que o homem não escolhe a sua origem nem o seu caminho, este fado é ditado por circunstâncias que independem totalmente de sua vontade.

Ninguém escolheu ser negro ou branco, alto ou baixo, feio ou bonito, talentoso ou estúpido.

Em suma, a gente é o que alguém, a natureza, Deus ou qualquer outro critério de casualidade escolheu para a gente ser.

Uma pessoa nascida na Etiópia ou no Sudão, por exemplo, terá muito mais dificuldade para realizar-se do quem nasce na Suécia ou no Canadá.

Teoricamente, o destino de quem nasce na Europa será muito mais sorridente e próspero do que quem nasce na África.

No entanto, por mais que o homem se bata e lute contra suas circunstâncias, elas estão ali a emperrar a sua vida, independentemente do esforço ou da astúcia que ele use para afastá-las.

Quem é feio, nunca deixará de ser feio e é possível que esse detalhe o torne infeliz por toda a vida.

Ser feio ou ser belo é uma marca indiscutível do destino. Ainda que uma pessoa feia possa superar essa desvantagem e reúna durante a vida vários atributos que compensem esse desconto de origem, ao final das contas se calculará que fosse essa pessoa bela e ainda mais sucesso e felicidade teria tido em sua existência.

A uma pessoa que nasça feia, baixa, burra e pobre, certamente os fados lhe atirarão ao mundo com esta sentença: “ Te vira!”.

Ao passo que a uma pessoa que nasça alta, bonita, inteligente e rica, o destino a encaminhará para a vida com este salvo-conduto: “Vai e desfruta da felicidade!”.

Durante o percurso, poderá se ver que não é bem assim. Tanto um homem que nasça afortunado pode cair em desgraça quanto um que nasça despossuído de atributos é capaz de dar a volta por cima em suas condições desfavoráveis e tornar-se um exitoso.

Cada uma vida é diferente das outras todas. Mas os traços hereditários e o meio social acabarão por moldar o destino das pessoas, eu creio que muito mais independentemente de sua vontade do que pelo que decidirem durante a vida.

A essa fatalidade a que está entregue o homem desde o seu nascimento ou por influência do meio em que se embarafustou é o que eu chamo de destino.

Eu acredito que o homem pode dar uma moldura para o seu destino, pode colori-lo ou obscurecê-lo com os matizes ou as sombras que venham a ser designados pelo seu desempenho, mas nunca poderá fugir ao nexo fulcral da sua existência, que foi deliberado por outrem (a força que o colocou no mundo com determinados equipamentos), sendo impossível à criatura humana fugir de seus limites, mesmo que expansivos, já traçados no seu protótipo físico ou mental, aliado à ambiência a que foi atirado. A

melhor tradução filosófica a que posso alcançar para o significado do destino é que a cada homem corresponde uma missão aqui na Terra, seja ela a de construir ou influir ou até mesmo transformar a sua própria vida ou a vida dos outros, a missão dos santos, líderes e estadistas – ou até mesmo a missão de ser inútil ou de se deixar subjugar, a missão de não ser ninguém ou nada, mas a cada um compete um papel na vida, a que tem o homem que finalmente se conformar.

Isto é o destino. E discutam os que quiserem discutir, mas em linhas gerais ele é antecipadamente traçado.

A procura de Deus pelo homem é muito a busca pela decifração desse enigma.

Desvantagem

19 de abril de 2011 13

No Sala de Redação desta terça-feira, lancei uma discussão: um clube que não tem estádio, quando compete com um que tem, não pode escolher um terceiro estádio para disputar a partida. Você concorda?



A delícia do medo

19 de abril de 2011 3

Se há uma sensação que consome o homem, aniquila-o, vai devorando-o aos poucos, é o medo. O medo acompanha o homem desde o seu nascimento e só desaparece com a morte.

Quando experimenta o medo real, o homem passa a enfrentar outra tragédia: o medo imaginário, o medo sem razão de ser, sem aparente causa concreta, que se transforma em devoradora doença mental, marcada pelas atrozes e assustadoras fobias.

Alguém que já tenha alguma vez na vida experimentado a sensação da fome, nunca mais se livrará dela: pelo medo de que por alguma forma aquele fato se repita.

A pessoa que tem medo exacerbado sofre mil vezes antes que a circunstância temida se verifique. É possível que nunca aquela ameaça se concretize, no entanto quem tem medo de que ela venha a ocorrer vê-se consumido pelo terror, embora realmente muitas vezes não tenha sequer corrido o menor risco material de vir a ser atingido pelo mal imaginário.

Estranha pois que esse inimigo maior da mente e do equilíbrio humano seja tão almejado pelas pessoas que vão ao cinema ou se fixam na televisão para assistir a filmes de terror. Isso só pode ser explicado pela lei filosófica que estabelece ser o medo o módulo principal do instinto de sobrevivência dos homens e dos animais. Segundo essa lei, sem o medo o homem não sobreviveria, ele se tornaria facilmente vulnerável a todas as adversidades.

Agora mesmo estão sendo lançados  filmes de terror que prometem levar multidões ao cinema.

Afinal, que motivo arrasta as pessoas ao cinema para experimentarem essa sensação tão sofrida e indesejável que é o medo?

Há quem não perca filme de terror. Esses espectadores sentem-se tomados pelo mesmo medo apavorante que domina os personagens ameaçados no filme. Sofrem gratuitamente com o horror sentido pelas vítimas escolhidas pelo autor da história, pagam ingresso para sofrer.

Só pode haver delícia nesse sentimento masoquista.

Tenho que atribuir a um fator psíquico essa obstinação das pessoas em procurar o medo: de alguma forma a pessoa se deixa mergulhar em tal terror, que, passada a cena horrorizante ou o filme inteiro, o espectador se dá conta de que nada aconteceu com ele, que os perigos configurados por sua mente não redundaram em qualquer dano a si, o que lhe causa um grande alívio.

E essa sensação de ter-se preservado íntegro depois de correr tantos perigos é profundamente deliciosa, um verdadeiro orgasmo cataclísmico. Ou seja, as pessoas que são viciadas em filmes de terror acabam atraídas para o cinema ou televisão pelo prazer sadomasoquista de que, mesmo sentindo um medo gélido e arrepiante, que se abate logicamente também sobre os personagens da ficção, safam-se ao fim das cenas, ou do filme, de todos os riscos e perigos por que passaram ao investirem-se no papel das vítimas da história a que estão assistindo, festejando íntima e efusivamente, ao irem embora para casa, que nada lhes aconteceu, ao contrário dos que tombaram durante o decorrer da película.

O fato gritante é que o homem detesta o medo, mas paradoxalmente o procura, parecendo não poder viver sem ele.

É o caso dos esportes radicais: que impulso ou sentimento leva as pessoas, por exemplo, a deixarem-se amarrar num pé a uma corda elástica de 70 metros de altura e lançarem-se num abismo? É verdade que sentemse seguras de que não vão se despedaçar no solo, no entanto o medo devastador que sentem no percurso não é presumivelmente suficiente para recompensar-lhes o golpe terrificante que sofrem até que a corda se estique.

O mesmo com os pára-quedistas, com os domadores de feras, com os pilotos de corridas, eles sentem um prazer carnal, uma euforia hedônica ao arriscarem suas vidas.

Não resta dúvida de que estranha e exoticamente o homem busca o medo como forma inseparável de continuar existindo, ou seja, como simplesmente viver já se constitui num risco, não correr risco é morrer.

Não fosse assim e desde o início da humanidade quatrilhões de pessoas não teriam se atirado obstinada, obsessiva, fatal e inevitavelmente ao trágico ou arriscado desatino do casamento.


(Crônica publicada em 27/02/2005)

Volta à tristeza

18 de abril de 2011 2

Voltando ao âmbito da psicanálise, que é o meu campo de ação preferido. Ou melhor, aquele em que atuo com maior desenvoltura.

Como paciente, é lógico.

É que um psicoterapeuta me falou que estava tratando uma paciente jovem, que tinha profunda depressão.

Prescreveu-lhe dois antidepressivos e foi levando a jovem na manha, isto é, psicoterapia.

E ali ficaram o psiquiatra e a paciente, só na lábia, durante mais ou menos umas 20 sessões.

A melhora da paciente foi espantosa. Era uma outra menina, agitada, febril, sociável, saiu definitivamente de seu quarto e arremessou-se para a vida, foi desfrutar o mundo, embriagada de alegria.

Um belo dia, a garota entrou no consultório do nosso psiquiatra e desabafou: “Estou com saudade da minha tristeza”.

Este é um dos momentos culminantes não da relação terapeuta-paciente, mas da relação da pessoa humana com o mundo. Ou melhor, da relação entre a pessoa humana, a realidade e a leitura que esta pessoa faz da realidade.

“Ah, que saudade da minha depressão”, pois, pois.

Não é novidade esse apego que o paciente tem por seu transtorno, de tal forma radical que parece não poder mais viver sem ele.

Um dos maiores, senão o maior poeta brasileiro – talvez só eu saiba disso – Augusto dos Anjos, o mais ilustre paraibano de todas as épocas, se constituiu no símbolo deste verdadeiro devotamento que o paciente tem por sua doença emocional:


Bati nas pedras de um tormento rude

E a minha mágoa de hoje é tão intensa

Que eu penso que a alegria é uma doença

E a tristeza é a minha única saúde.


“Tristeza é minha única saúde”, pois, pois.

Há um momento ainda mais terrificante na opção trágica e sublime de Augusto dos Anjos em favor do seu infortúnio, o instante em que ele constata que inevitavelmente ele ama a sua depressão e não quer jamais afastar-se dela:


Melancolia, estende-me tua asa,

És a árvore em que devo reclinar-me.

E se algum dia o prazer vier procurar-me,

Dize a este monstro que eu fugi de casa.


Notem pelo poeta que há pessoas – ou pacientes – que de tal forma se acostumaram à sua depressão, de tal jeito a dor permanente se incorporou a seus seres e grudou na sua pele, como uma tatuagem inapagável, que eles passam a amar e a idolatrar seu sofrimento e então se empenham terminantemente em considerar o prazer um inimigo, enxotando-o de suas vidas.

Por isso que estes despedaçados portadores de depressão se isolam como anacoretas em seus quartos de apartamentos e recusam-se a sair dali, assombrando-se quando alguém tenta buscá-los para um divertimento qualquer.

Eles não vão a qualquer parte em que possam alegrar-se, a festas nem pensar.

Não vão a festas por isso e também porque acreditam que sua tristeza e mau humor serão capazes de estragar qualquer festa.

Não vão a festa os deprimidos porque não acham graça em qualquer festa. E também porque não querem, indo a festas, estragar as festas dos outros.

Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes, tanto que no auge da minha maior depressão, em 2002, um certo dia em que fui convidado para três festas, não fui a nenhuma – e encerrado sozinho em meu quarto abri uma champanha, enchi uma taça, ergui-a no ar e fiz um brinde reverencial à minha, só minha, querida desolação.

(Crônica publicada em 04/12/2005)

Santo de casa

15 de abril de 2011 6

Ninguém faz sucesso em sua própria cidade. O fator mais intenso que influi sobre o homem, acima da sua família e do seu trabalho, é o pago, a cidade natal. A gente pode romper com todos os valores, mas jamais se desligará de um entranhado sentimento de devoção, atração física e espiritual indestrutível, pelo lugar em que se nasceu ou passou a infância.

No entanto, estranhamente, depois de estudar minuciosamente a vida dos grandes gênios da humanidade, observei que todos eles só foram ter êxito e realização em sua grande obra criativa fora dos limites das cidades em que nasceram. É assombroso que o homem tenha que obrigatoriamente emigrar para tornar realidade todas as suas potencialidades. Leonardo da Vinci, por exemplo, se tivesse permanecido em Vinci, cidadezinha em que nasceu, não teria jamais alcançado a posição de um dos maiores gênios da civilização. Geômetra, engenheiro, geólogo, físico que se antecipou a Galileu em teorias sobre a estática e a dinâmica, anatomista, matemático, botânico e artista incomparável, pintor de algumas das maiores obras plásticas de toda a história, entre elas A Última Ceia, onde se distingue a inigualável solidão de Cristo e se definem com impressionante e extrema fidelidade as reações faciais de todos os apóstolos, e Mona Lisa, talvez o instante mais alto da pintura universal, se vivesse toda a sua vida no lugar em que nasceu seria tão desconhecido hoje pelo mundo quanto o motorista de Bill Clinton. Fez bem este verdadeiro campeão mundial em conhecimento científico e arte em fugir quase garotinho para Florença e mais tarde para Milão e Roma.

Um outro luminar da raça humana, William Shakespeare, que viveu sua existência inteira em Londres, não teria se tornado o maior literato e dramaturgo da humanidade se fincasse pé na sua cidadezinha, Stratford-on-Avon. Saiu de lá menininho e voltou para o torrão somente seis anos antes de morrer, tendo brotado de sua inteligência prodigiosa a sua grande obra na capital inglesa. As grandes tragédias de Shakespeare, Hamlet, Rei Lear, Macbeth, entre outras, não passariam de melodramas de folhetins se não houvesse se despegado depressa de sua terra natal.

O mesmo se deu com Michelângelo Buonarroti, uma das maiores estrelas artísticas de todos os tempos, escultor da Pietá e de Moisés, obras que espantam há seis séculos todos que tiveram a felicidade de admirá-las. Michelângelo, que também era pintor, poeta e arquiteto, não teria certamente passado de um obscuro pichador se tivesse se radicado na aldeiazinha de Caprese, na Toscana, onde nasceu. Fez bem em se mandar para Florença tão pronto adquiriu a dominância cerebral. Em Caprese, jamais seria requisitado pelo Papa para os anos de agonia e esplendor que gastou pintando os afrescos do teto da Capela Sistina, no Vaticano.

E, assim, todas as pessoas que se destacam em todas as suas atividades são obrigadas à dor da separação do lugar em que vieram ao mundo. As exceções para este flagrante que dei na História são Lupicínio Rodrigues, Dorival Caymmi e Luis Fernando Verissimo, que conseguiram projeção nacional para suas liras recusando-se a deixar suas cidades.

A regra é o contrário, começou antes de Cristo, mas se configurou extraordinariamente nele, pois nasceu em Belém mas criou fama em Nazaré, até que Jerusalém abriu-lhe uma de suas portas para a glória e a santificação. Provando que santo de casa não faz milagre.

Daí que eu tenho vacilado muito, mas acho que vou ter mesmo que me transferir para Florianópolis ou Maceió. Aqui eu me debato e retorço todo e nunca saio do mesmo lugar.

(Crônica publicada em 13/01/94)